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6.2.07

François Truffaut



06/02/1932 - 21/10/1984

5.2.07

Pecados íntimos



E mais uma vez o milagre repete-se: um realizador da área dos 'independentes' pega em meia dúzia de habitantes dum daqueles subúrbios com casas e jardins imaculados da classe média americana, e dá-nos um filme magnifico, alicerçado apenas num excelente argumento e num conjunto excepcional de actores.
Todd Field ao segundo filme como realizador já tem um domínio excepcional das regras dramáticas e cinematográficas, e partindo do dia a dia das suas personagens, das suas rotinas, do seu quotidiano, fala-nos daquilo de que estes filmes nos falam sempre: daquilo que está por trás da cobertura de chantili, daquilo que é mais profundo. Mostra-nos uma vez mais como as pessoas acabam por ser muitas vezes aquilo que não queriam ser, como a sociedade vai condicionando e orientando as nossas vidas mais do que aquilo que normalmente gostamos de admitir. Que a vida é toda feita de pequenas cedências, como nos diz uma personagem.
'Pecados íntimos' é um filme ora terno ora incómodo, ora sensual ora cómico, ora dramático ora sardónico; e deprimente, melancólico, inteligente; e sempre com uma atenção minuciosa às suas personagens, criando uma proximidade rara entre elas e nós, o público. É candidato a 3 Oscares - melhor argumento adaptado, melhor actor secundário (Jackie Earle Haley) e melhor actriz (Kate Winslet) - todos merecídissimos, mas provavelmente não vai ganhar nenhum. O mundo é injusto.
Little Children, E.U.A., 2006. Realização: Todd Field. Com: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Gregg Edelman, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Phyllis Somerville.

1.2.07

Diamantes de sangue



'Diamantes de sangue' é, antes de mais, um retrato devastador da barbárie que tem atingido quase todo o continente africano nas últimas décadas. Trata-se aqui da guerra civil que assolou a Serra Leoa no início dos anos 90, mas podia ser noutra altura qualquer noutro país qualquer - todos os dias ouvimos vagamente nas noticias algo no género. Milícias rebeldes constituídas principalmente por crianças (orfãs, raptadas ou simplesmente deixadas para trás) doutrinadas à pressão, atacam aldeias e disparam em tudo o que mexa, exibindo uma especial ferocidade perante populações indefesas. Embora já tenhamos visto inúmeras imagens destas crueldades, inclusivamente na televisão (quem não se lembra da imagem do soldado americano a ser arrastado morto na Somália?), não deixamos de ficar impressionados pela forma tensa, seca, com um ritmo implacável, com que Edward Zwick filma estas orgias de violência (sendo que a fotografia acre de Eduardo Serra muito contribui para respirarmos este ambiente africano).
O pretexto para o realizador nos dar este retrato, é uma caça ao diamante por parte de um ex-mercenário e actual traficante sul-africano (DiCaprio, que aprendeu mesmo a representar com Scorcese), que se cruza com um pescador local vitima da guerra (Djimon Hounsou) e com uma jornalista 'de causas' americana (Jennifer Connelly). Também esta parte 'Indiana Jones' se revela surpreendentemente eficaz e bem feita, sempre no limite da inverosimilhança aceitável, como mandam as regras.
A terceira boa noticia é que o lado ideológico também é aqui bem tratado. Nada é a preto e branco, como por exemplo em 'Babel'. Não deixando de sugerir fortemente que a guerra interessa e é até fomentada pelo grande capital ocidental (os vendedores de diamantes), o realizador balança bem os diversos olhares, entre o cínico traficante, a aguerrida jornalista e os desiludidos habitantes locais ('se descobrem aqui petróleo então é que estamos perdidos', desabafa um deles). E uma frase de DiCaprio, dá o mote do filme: 'As pessoas não são boas nem más, são apenas pessoas'.
Para o fim o realizador vacila um pouco, não resistindo totalmente à tentação das boas intenções, mas nada que impeça 'Diamantes de sangue' de ser uma muito boa surpresa.
Blood Diamond, E.U.A., 2006. Realização: Edward Zwick. Com: Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Arnold Vosloo, David Harewood.

31.1.07

Filmes de Janeiro

A partir de agora, no início de cada mês registarei aqui os filmes que vi no mês anterior. O facto de um blog ser uma espécie de diário (neste caso cinéfilo), aliado ao meu gosto por listas, tops e afins, levou-me a criar esta nova 'secção'. Só isso.
Aqueles filmes sobre os quais não escrevi (a maioria), terão uma classificação - de 0 (péssimo) a 5 (obra-prima).


A oeste nada de novo, Lewis Milestone, 1930 (4)
Platinum Blonde, Frank Capra, 1931 (4)
A mulher desejada, Jean Renoir, 1947 (5)
The clay pigeon, Richard Fleischer, 1949 (3,5)
A pantera cor de rosa, Blake Edwards, 1963 (4-)
La femme infidèle, Claude Chabrol, 1969 (4,5)
Os abutres têm fome, Don Siegel, 1970
O último homem na terra, Boris Sagal, 1971 (1)
Sukeban gerira, Norifumi Suzuki, 1972 (3)
The getaway, Sam Peckinpah, 1972 (4)
Profissão reporter, Michelangelo Antonioni, 1975 (5)
The day of the dead, George Romero, 1985 (2,5)
A barriga de um arquitecto, Peter Greenaway, 1987 (2,5)
Eros, M.Antonioni+S.Soderbergh+Kar Wai Wong, 2004 (2,5)
A minha mãe, Christophe Honoré, 2004 (0)
Sonhar com Xangai, Xiaoshuai Wang, 2005
Aos doze e tanto, Michael Cuesta, 2005
Apocalypto, Mel Gibson, 2006
Babel, Alejandro González Iñárritu, 2006
Body Rice, Hugo Vieira da Silva, 2006
As bandeiras dos nossos pais, Clint Eastwood, 2006
Caos, Toni Giglio, 2006
Assalto e intromissão, Anthony Minghella, 2006
Scoop, Woody Allen, 2006
O terceiro passo, Cristopher Nolan, 2006
Diamantes de sangue, Edward Zwick, 2006

30.1.07

O terceiro passo



Algures neste filme sobre a rivalidade mortal entre dois mágicos, um deles elogia um truque do outro pela sua simplicidade. Infelizmente Nolan não ouviu a sua personagem: ‘The prestige’ é todo baseado num argumento rebuscado que tenta estar sempre um ou dois passos à frente do espectador, que tenta impressioná-lo com piruetas cada vez mais elaboradas, com uma montagem vistosa que anda para trás e para a frente, com uma produção luxuosa, com um cast imponente (até David Bowie faz uma perninha). Infelizmente por trás de todo este aparato não há grande coisa para mostrar: é como um mágico que montasse um número com grandes meios e uma encenação sumptuosa, para no final sair a habitual pomba debaixo do lenço. Nolan já não se deve lembrar de ‘Memento’, que era um filme muito interessante por se basear, por trás da sua aparente complexidade, numa ideia muito simples: filmar a história ‘da frente para trás’. Mas definitivamente esses tempos já lá vão, e de filme para filme o realizador vai diluindo a sua personalidade na máquina industrial. É uma pena sempre que se perde um autor.
The Prestige, E.U.A., 2006. Realização: Cristopher Nolan. Com: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johansson, David Bowie, Andy Serkis, Rebecca Hall, Piper Perabo.

28.1.07

Scoop



É relativamente consensual: desde 'Crimes e escapadelas' toda a gente acha que Woody Allen anda a fazer filmes menores (uma corrente menos pessimista dirá desde 'As faces de Harry'). Menores no contexto da obra de Allen, bem entendido, que tem aí uma dúzia de obras-primas. Posto isto, cada um tem o seu 'Woody menor' de estimação. 'Match Point' teve mesmo tantos adeptos que foi considerado um 'Woody maior' e foi até visto como um renascimento do realizador. Mas talvez isto se tenha devido ao facto de ser um filme mais sério que as comédias ligeiras que vinha fazendo, pois mais uma vez era uma variação sobre um tema anterior (o crime sem castigo, tratado de forma superior em 'Crimes e escapadelas'). 'Scoop' é mais um destes filmes 'menores', em que Woody volta a terrenos familiares: há uma investigação de um crime (como em 'O misterioso assassínio em Manhattan'), há um mágico (como em 'A maldição do escorpião de Jade), há a upper class Londrina como background, Scarlett Johansson como actriz principal (como em 'Match Point'). E novamente 'Scoop' é um filme inteligente, bonito e com gags de primeira água. E com um excelente elenco, com natural destaque para La Scarlett e, claro, Woody Allen novamente a fazer de si próprio depois de um interregno de dois filmes. Voltando aos tais 'Woodys menores', eu diria que este é de primeira apanha - o que significa que aposto que não vai haver uma dúzia de filmes melhores que este no presente ano...
Scoop, Grã-Bretanha/E.U.A, 2006. Realização: Woody Allen. Com: Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Woody Allen, Ian McShane, Romola Garai, Charles Dance, Anthony Head.

24.1.07

Assalto e intromissão

Depois de ‘Caché’ (franceses e argelinos), depois de ‘Babel’ (americanos e mexicanos e mais uns quantos), eis mais um filme para burgueses ricos e gordos expiarem a sua má consciência ocidental em relação aos imigrantes do terceiro mundo.
Aqui é um jovem arquitecto londrino de sucesso, que planeia requalificar uma zona degradada de Londres (King´s Cross) e prefere não acusar o jovem bósnio que lhe assaltou o atelier e envolver-se antes com a sua mãe, muçulmana. E para desabafar as agruras da vida escolhe uma prostituta de leste, já que com a sua mulher (sueca), não consegue falar. Eu, sinceramente, já não dou para este peditório e achei mesmo ‘Assalto e Intromissão’ do mais bocejante que tenho visto ultimamente. A personagem de Jude Law (que tarda em ter o seu ‘Departed’ e provar que é actor), ora cidadão consciente exemplar, ora cobarde com problemas morais sub-‘Match-Pointianos’, raia mesmo o exasperante. Mas talvez seja eu que não tenho ‘sensibilidade para estas problemáticas’, como já me disseram. Seja.
Quanto ao resto, o que fica para lá do argumento, Minghela sabe do seu ofício e o embrulho é bonito as usual. É sempre um prazer ver Londres no grande ecrã, bem filmada ainda por cima, é bom rever a grande actriz que é Juliette Binoche, é óptimo ter notícias de Robin Wright Penn, actriz rara e bela. Quase que vale a pena ver o filme por elas as três.
Breaking and Entering, Grã-Bretanha/E.U.A., 2006. Realização: Anthony Minghella. Com: Jude Law, Juliette Binoche, Robin Wright Penn, Rafi Gavron, Martin Freeman, Ray Winstone, Vera Farmiga, Poppy Roger

22.1.07

Caos



Ainda não terminou o mês 1 e já temos direito ao primeiro heist movie do ano, género que ultimamente não se tem distinguido por dar ao mundo grandes obras-primas, mas que tem os seus fãs (entre os quais me incluo) e vai mantendo a sua quota de mercado. O que dizer então deste 'Caos', escrito e realizado pelo desconhecido Tony Giglio? Brevemente: tem uma realização competente e eficaz; tem um muito bom actor (Ryan Phillippe, que também podemos ver em 'As bandeiras dos nossos pais'), um que se limita a picar o ponto (Wesley Snipes) e um canastrão (Jason Statham); tem um argumento que não desilude (tendo alguns pontos de contacto com 'Infiltrado' de Spike Lee) e que, embora o espectador mais batido não tenha dificuldade em prever a cambalhota final da praxe, até acaba num último fôlego por surpreender. Ou seja: os tais fãs do género não darão o seu tempo por mal empregue; os restantes mortais podem-se abster.
Chaos, Canadá/Grã-Bretanha/EU.A., 2006. Realização: Tony Giglio. Com: Jason Statham, Ryan Phillippe, Wesley Snipes, Justine Waddell, Henry Czerny, Nicholas Lea.

21.1.07



Começou hoje a votação para o Alfred 2006, o prémio da Liga dos Blogues Cinematográficos para os melhores filmes do ano. Votam os membros activos da Liga .

O Alfred 2006 tem vinte categorias:
filme do ano, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, elenco, roteiro original, roteiro adaptado, cena do ano, filme de estréia, filme brasileiro, fotografia, montagem, direção de arte, trilha sonora, canção, som, efeitos visuais e pior filme.

O Alfred acontece em duas etapas:
Na primeira, de 21 de janeiro até 3 de fevereiro, os integrantes votarão em cinco nomes para cada uma das categorias.
Na segunda etapa, de 5 até 11 de fevereiro, os integrantes escolherão entre os cinco mais votados em cada categoria.

Concorrem ao Alfred todos os filmes lançados em circuito comercial no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2006 que tenham data de lançamento original de no máximo cinco anos antes do ano em questão. Para 2006, valem apenas os filmes lançados de 2001 a 2006. Filmes relançados em circuito, que participaram de mostras e festivais, exibidos apenas em sessões especiais e pré-estréias ou lançados diretamente em DVD não são elegíveis, mesmo quando inéditos em circuito. A lista completa de lançamentos está no blogue da liga.

Brevemente postarei aqui as minhas escolhas. Entretanto, os mais curiosos podem espreitar os vencedores de 2003, 2004 e 2005.

Conversa de Café