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28.2.07

Livro negro



Paul Verhoeven, após 20 anos em Hollywood, voltou à Europa para fazer um filme passado na sua Holanda natal durante a ocupação Nazi. Segundo as suas palavras, voltou porque em Hollywood não poderia fazer este filme. Compreendemo-lo: para além da língua holandesa, o filme tem cenas de nudez pouco comuns por aquelas bandas e contornos morais mais cinzentos do que os grandes estúdios gostam. Na resistência não há só heróis, mas também traidores, pessoas que põem os seus interesses pessoais acima de tudo, anti-semitas, inclusive; e do lado dos nazis também há delicados coleccionadores de selos que se preocupam com as baixas do outro lado. Saliente-se que não há aqui qualquer tipo de revisionismo: Verhoeven apenas nos diz, uma vez mais, que as pessoas são o que são. O comportamento da multidão após a capitulação Nazi, procurando, sedenta, vingar-se dos antigos colaboracionistas, mostra o que pensa Verhoeven da natureza humana.
De Hollywood o realizador trouxe o know-how, apresentando uma reconstituição história sólida e credível, sem ter aquele aspecto de telefilme rico tão comum em filmes de época. O resultado é um filme acima da média, com um agradável sabor démodé.
Zwartboek / Black Book, Holanda/Bélgica/Grã-Bretanha/Alemanha, 2006. Realização: Paul Verhoeven. Com: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel, Dolf de Vries.

26.2.07

Half Nelson — Encurralados



Confesso que aos dez minutos de filme estava um bocado desconfiado. A história do professor talentoso e bem-parecido, mas que quer ser escritor, se afunda nas drogas e anda perdido no mundo, soou-me muito a cliché. E o modo de filmar - a fotografia baça, o ritmo lento - também não contribuiu muito para melhorar a minha opinião - estava-me a parecer tudo muito declaradamente indy, com as marcas todas lá. Mas pouco a pouco, esta má impressão foi-se desvanecendo. O realizador Ryan Fleck mantém sempre o ritmo certo, tudo se desenrola num low profile algo hipnotizante e à medida que vamos conhecendo a personagem, o estereotipo vai desaparecendo. Ao contrário do excêntrico-decadente-chique, temos antes um homem que convive mal com as injustiças do mundo, que se aliena para não ter que andar sempre aos murros. Um homem zangado. Mas que apesar de tudo, não desiste completamente. Que se interessa pelos seus alunos, que tenta ensinar. Que se preocupa.
E, claro - não há como fugir a isto - somos absorvidos pela interpretação portentosa de Ryan Gosling. Desde 'Roger Dodger' que não via tanto isto de um filme ser o seu actor. É assombroso.

P.S.: Gosling perdeu o Oscar para o grande Forest Whitaker, mas só o facto de ter sido nomeado por um filme destes, mostra que a Academia não anda tanto a dormir como às vezes parece.
Half Nelson , E.U.A., 2006. Realização: Ryan Fleck. Com: Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie, Tina Holmes, Deborah Rush, Jay O. Sanders.

Previsões



As previsões para os Oscares...de 2008! Aqui.

Finalmente

25.2.07

The host



Nem sei por onde começar para falar deste 'The Host', a minha única incursão até agora no Fantasporto deste ano. Talvez o melhor seja tentar resumir o seu argumento: anos após terem sido despejados num rio uma série de produtos químicos de uma base Americana na Coreia, aparece nesse mesmo rio um ser mutante, uma espécie de peixe gigante mas anfíbio, que caça seres humanos e os leva para um esgoto. Os familiares de uma míuda apanhada pelo bicho resolvem tentar resgatá-la, após descobrirem que ela está viva (consegue fazer uma chamada de telemóvel do esgoto).
Diga-se desde já que é uma família sui generis: o pai é meio atrasado, o tio é um 'licenciado desempregado' e a tia é uma atiradora de arco e flecha, que perdeu a medalha de ouro nos jogos olímpicos (ficou-se pela de bronze) porque demorou muito tempo no último lançamento e foi desclassificada (sim, eu sei que parece uma personagem de Wes Anderson); o chefe de família é o avô, que tem uma roulotte que vende lulas (assim uma espécie de equivalente aos nossos cachorros).

Acrescente-se que além de ser um filme fantástico (com excelentes efeitos especiais, diga-se - a criatura é um prodígio de animação), 'The host' é também uma comédia, com cenas entre o idiota-idiota e o idiota com piada. Tem mesmo uma antológica, em que o avô faz uma defesa comovida do filho retardado ('não comeu proteínas suficientes em miúdo'), e diz emocionado que consegue saber os seus estados de espírito através das suas flatulências. Um momento ao nível da célebre história de 'Pulp Fiction', do relógio escondido anos naquele sítio...

Last but not the least, o filme é ainda - ou pretende ser - uma sátira a uma série de coisas, começando na televisão e acabando - adivinhem! - nos Estados Unidos. Foram os Americanos que contaminaram o rio e são eles que estão a tomar conta (mal) dos acontecimentos, acabando por lançar uma arma biológica contra o monstro, numa cena com reminiscências do cogumelo atómico de Hiroshima.
Mas diga-se em abono da verdade, que não obstante estas metáforas algo pesadas, a maior parte do tempo o filme não é mais do que aquilo que parece ser: uma espécie de Godzilla apatetado.

Que esta bizarrice tenha sido um colossal sucesso de bilheteira na Coreia (país onde os filmes nacionais têm grande peso), não me surpreende grandemente. Já que tenha entrado no top ten dos melhores filmes de 2006 dos Cahiers du Cinéma, isso aí já dá bastante que cismar...
Gwoemul /The Host, Coreia do Sul, 2006. Realização: Joon-ho Bong. Com: Kang-ho Song, Hie-bong Byeon, Hae-il Park, Du-na Bae, Ah-sung Ko.

22.2.07



Amanhã à noite, sessão de abertura oficial com a antestreia de 'EL LABERINTO DEL FAUNO', de Guillermo del Toro. A partir de sábado arrancam as sessões competitivas.

Fantasporto 2007

19.2.07

As cartas de Iwo Jima



No início do filme, Saigo, um soldado raso japonês (um padeiro que foi para a guerra relutantemente, deixando para trás a mulher e um filho bebé), diz para um colega que mais valia entregarem a ilha aos americanos e pronto. Eles acabariam por a conquistar de qualquer maneira e assim escusavam de morrer todos. Um capitão ouve este desabafo e castiga-o duramente: estas palavras antipatrióticas são para ele inqualificáveis. O dever deles é defender aquele pedaço de terra até à morte e qualquer outra atitude é de uma desonra inominável. Quem salva Saigo deste castigo é o General Kuribayashi, que um dia disse galantemente a uma dama americana que as suas convicções e as da sua pátria são as mesmas. Mas não é por acaso que as suas simpatias tendem para o ex-padeiro, e não para o recto e fanático oficial que o castiga. Apesar de nunca deixar de lutar pelas convicções da sua pátria, sentimos que estas já não coincidem inteiramente com as suas. Nostálgico dos tempos que passou na América, ao contrário de muitos dos seus compatriotas ele não menospreza nem subestima o adversário. Talvez duma forma mais racional, chegue à mesma conclusão instintiva do padeiro Saigo: da inutilidade de tudo aquilo.

Neste sentido, 'As cartas de Iwo Jima' é uma poderosa meditação anti-guerra. Eastwood diz-nos que a guerra destruiu a vida de uma série de 'Saigos' e das suas famílias, conduzindo na mesma o Japão a uma derrota. Da mesma maneira que nos dizia em 'As bandeiras dos nossos pais', que a guerra destruiu uma série de 'Ira Hayes' , apesar de estarem do lado dos vencedores e serem mesmo proclamados heróis. Eastwood não acha que valha sempre a pena perder vidas (literal ou metaforicamente) pelas convicções de um país.

'As cartas de Iwo Jima' é um filme muito mais poderoso do que 'As bandeiras dos nossos pais', talvez por ter personagens mais fortes, talvez por dar mais a ver do que demonstrar, talvez pela sua própria estrutura narrativa. Não tendo a complexidade formal do filme anterior, este filme não é, ainda assim, tão simples como parece. As cenas de batalha preenchem quase totalmente as duas horas e tal do filme, mas nem são um fim em si (não são especialmente espectaculares nem inovadoras), nem obedecem a maior parte das vezes a qualquer imperativo narrativo: poderia Eastwood ter tirado meia hora ao filme na montagem e este não sofreria nem um beliscão em consistência. Embora por vezes não se perceba muito bem para onde o filme vai, talvez estas cenas lá estejam porque têm que estar, porque numa guerra não é possível fugir às coisas, como o soldado Saigo descobre. Sabemos que os actos narrados, a batalha de Iwo Jima, durou uns 40 dias, mas dificilmente um espectador conseguirá dizer qual o tempo da 'coisa contada': uma semana, um mês? Por vezes parece mesmo que estamos a assistir a uma narrativa em tempo real, e esta ausência de referências temporais provoca alguma estranheza no espectador. Neste aspecto, não me parece que o filme tenha uma estrutura tão 'clássica' como tem sido dito. Mas só vendo-o outra vez, para perceber melhor esta estrutura.

Quem hoje em dia, além de Eastwood, faria um filme de guerra, ainda por cima visto do 'outro lado', que fosse uma meditação sobre a própria guerra, sem simplismos, sem ideologias de pacotilha, sem medo de pensar por si? Não o pondo ao nível das (várias) obras-primas de Eastwood, 'As cartas de Iwo Jima' é sem dúvida mais um sólido argumento para o colocar no panteão dos maiores realizadores Americanos.
Letters from Iwo Jima, E.U.A., 2006. Realização: Clint Eastwood. Com: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Shido Nakamura, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Yuki Matsuzaki, Hiroshi Watanabe.

17.2.07

a propósito do Rocky Balboa...

O único filme decente que alguma vez vi com Stallone chama-se 'Cop Land'. Foi realizado há dez anos por James Mangold, o mesmo que o ano passado nos deu o menosprezado mas muito bom 'Walk the line'. Mangold também realizou o dispensável 'Identidade desconhecida' e três filmes que não vi: 'Heavy', 'Kate & Leopold e 'Girl, Interrupted' (este último conhecido por ter dado um Oscar a Angelina Jolie). Talvez valha a pena dar-lhes uma espreitadela.

15.2.07



E o filme do ano na votação do Alfred 2006 é... perdão!, são... O Novo Mundo e Brokeback Mountain.
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Era improvável, com 64 pessoas a votar, mas aconteceu mesmo um empate: 14 votos para cada um deles. A seguir, com 12 votos, ficaram 'Caché' e 'Entre inimigos' (que teve o meu voto). Os 'Amantes regulares' fechou a lista com 11 votos.
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Curiosamente Scorsese ganhou destacado o prémio de melhor realizador, com 22 votos.
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Uma votação cerrada para o melhor filme, com apenas 3 votos de diferença entre o mais votado e o menos. 'Brokeback Mountain' não foi, nem de longe, dos filmes que eu mais gostei. Em compensação gostei bastante de 'O novo Mundo'. Mas tenho pena que não tenha ganho 'Entre inimigos'. Até no Alfred o Scorsese permanece injustiçado!
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Foram 6 as categorias em que o vencedor teve o meu voto. As outras duas em que tive mais pena de não ter ganho o 'meu' candidato foram: filme de estreia (mas reconheço que o filme de Miranda July não é para todos o gostos e ganhou um bom filme) e actor (votei em David Strathairn).
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Todos os resultados aqui.

14.2.07

Rocky Balboa



Quase 20 anos depois, Rocky Balboa não resiste a voltar para um último (?) combate. Ou, por outras palavras, Stallone, 17 anos depois de um filme com alguma visibilidade (Rocky V, 1990), não resistiu a um regresso às luzes dos holofotes. Claro que não pode deixar de ser um regresso nostálgico, reflexivo, que Stallone já vai nos 60 anos.
A crítica, como é sabido, péla-se por estes filmes em que os heróis se reinventam, quer seja parodicamente (houve uma altura em que qualquer filme em que Schwarzenegger gozasse com a sua imagem era recebido como uma obra-prima), quer seja dramaticamente (como neste caso). Não é assim surpresa que este filme esteja a ser um sucesso de estima, estima essa que infelizmente não posso compartilhar.
Stallone nunca primou pela subtileza a representar, e o mínimo que se pode dizer é que não melhorou com o passar dos anos. Subtileza é também o que falta à sua realização, desde a péssima banda sonora que oscila entre o lamechas e o triunfal, até a algumas opções formais mais que duvidosas, de que bom exemplo são algumas sequências em câmara lenta e até um momento em que tudo pára para a fotografia, com o herói de punho no ar: mau gosto, no mínimo. O argumento também não ajuda, sucedendo-se os lugares comuns: o falso bronco com bom coração; o filho perturbado com a sombra do pai (mas que se transforma num instante após um raspanete de 30 segundos); a memória da mulher (uma Santa!), que lhe dá força nas adversidades; os amigos que estão lá para representar um qualquer estereotipo; o adversário arrogante e que o olha de alto mas que vai acabar por o respeitar (o respeito é sempre a palavra chave em filmes de broncos). Só mais um exemplo: a forma como se carrega até ao limite nos comentários depreciativos dos homens da TV nos instantes pré-combate, para por contraste sublinhar o feito de Rocky. De facto, a subtileza não é o forte de Stallone.
Não vou ser mauzinho e falar aqui de Eastwood, pois a comparação seria obscena. Comparemos antes Stallone com Rocky: a criatura tem sem duvida mais talento com as luvas de boxe que o seu criador com a câmara de filmar. Assim, enquanto o come back de Rocky ao ring se traduz num combate memorável, o regresso de Stallone aos estúdios traduz-se apenas num filmezito esquecível.
Rocky Balboa, E.U.A., 2006. Realização: Sylvester Stallone. Com: Sylvester Stallone, Burt Young, Antonio Tarver, Geraldine Hughes, Milo Ventimiglia, James Francis Kelly III.