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7.3.07

Diário de um escândalo



Acredito que o livro homónimo de Zoë Heller em que 'Diários de um escândalo' se baseia seja bom. A história sobre a relação entre uma velha e altiva professora a quem a solidão e uma sexualidade reprimida tornaram mesquinha, possessiva e alienada e uma colega mais jovem que tem um caso superficial com um aluno adolescente, é um pau de dois bicos: tem óbvio potencial dramático, mas requer pinças no modo como é tratada.
Nas mãos do realizador Richard Eyre não funciona certamente. Tudo se passa demasiadamente depressa (e não falo da misericordiosa duração do filme - 1h30), tudo é simplificado, tudo fica pela rama. O argumento parece que foi cozido a partir de recortes de um jornal sensacionalista - é histérico, banal, superficial. E a realização, dentro do melhor estilo telefilme desenxabido, apenas confirma a falta de ideias geral.
O filme nem chega a ser patético, um risco que o enredo sugeria. É apenas mauzinho.
Notes on a Scandal, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Richard Eyre. Com: Judi Dench, Cate Blanchett, Bill Nighy, Andrew Simpson, Philip Davis.

5.3.07

Fantasporto - Vencedores

Sem surpresa, 'O labirinto do fauno' foi o vencedor do GRANDE PRÉMIO da edição deste ano do Fantasporto. É um bom filme (falaremos dele em post próprio), mas se um filme que está em exibição nas salas e até teve direito a 3 Óscares deveria estar na secção competitiva, isso é outra questão... Seja como for, a sua presença já deveria estar programada há muito e Guillermo del Toro até é um realizador da casa (já aqui venceu com 'Cronos').




A 17ª Semana dos Realizadores foi conquistada pelo filme galego 'Un Franco, 14 Pesetas', de Carlos Iglésias, o Prémio Especial do Júri foi para 'Histórias del Desencanto' de Alejandro Valle (filmes que não tive oportunidade de ver), tendo 'The Host' arrecadado o Prémio de Melhor Realização da Secção Oficial Cinema Fantástico.

Reflectindo a importância do cinema asiático no Fantasporto, há já uns anos que este tem direito a uma secção competitiva própria, denominada Orient Express.
O vencedor do Prémio Melhor Filme Orient Express , 'Isabella', tem o atractivo para nós de se passar em Macau, no último ano dos 400 de administração portuguesa do território. As autoridades estão empenhadas em fazer uma limpeza geral antes da passagem de testemunho para a China, e são instaurados vários processos a redes criminosas envolvendo polícias. O filme acompanha o dia-a-dia de um destes polícias, envolvido em crimes menores, que ocupa o seu tempo a beber Heinekens, a jogar, e a levar jovens prostitutas para o seu miserável apartamento. Um dia uma destas miúdas diz-lhe que é sua filha, e a sua vida leva uma volta, há uma espécie de redenção deste homem frio e amoral. Não se distinguindo especialmente pela sua originalidade, este quinto filme do chinês de Hong-Kong Ho-Cheung Pang conquista-nos no entanto facilmente pelo ambiente criado, com as suas cores quentes, a banda sonora envolvente, o ambiente geral de decadência e exotismo dum local tão distante mas onde temos a estranheza de ocasionalmente ouvirmos a nossa língua. Um bom filme, a que assenta bem um prémio destes.

O Prémio Especial da Secção foi para ‘The promise’, de Chen Caige. Membro proeminente da 5ª geração do cinema chinês (realizador de ‘Adeus minha concubina’), virou-se agora, tal como seu contemporâneo Zhang Ymou, para coisa mais superficiais, para os filmes de aventuras com artes marciais, exuberantemente coreografados e fotografados, género que se tem revelado um filão inesgotável desde que Ang Lee destapou a caixa com ‘O tigre e o dragão’. Mais do mesmo, em suma. O prémio terá sido mais devido ao nome do realizador do que ao filme em si.

Apesar de tudo, e mesmo com a ressalva já referida de não ter visto alguns dos premiados, parece-me um conjunto bastante equilibrado, porventura dos melhores dos últimos anos.

2.3.07

O bom pastor



Definitivamente, os actores quando passam para trás da câmara não gostam de fazer filmes vulgares. Fiquemo-nos por exemplos próximos e sem ir buscar Clint Eastwood: Todd Field, George Clooney, John Turturro. Todos eles realizaram filmes personalizados e alguns mesmo bastante idiossincráticos. Robert de Niro não é a excepção. 'O bom pastor', mais do que um fresco sobre a criação da CIA, uma saga sobre os jogos de espionagem dos primeiros tempos da guerra fria, um ensaio sobre a América branca e elitista - e é tudo isto - é um filme sobre um homem que percorreu a vida toda sem olhar para trás. Que tinha à frente dos seus olhos um objectivo - a que poderemos chamar servir a pátria - e que não permitiu que nada, mas mesmo nada o desviasse desse fito. Nem a família, nem os escrúpulos, nem a sua consciência.
Edward Wilson, assim se chama este homem (Matt Damon), atravessa a história como um fantasma que perturba o seu curso, mas a quem nada nem ninguém pode atingir - não admira assim que não envelheça e se mantenha inalterado durante 20 anos (escusado será dizer quão bem a habitual inexpressividade de Matt Damon se encaixa nesta personagem).
O plano final do filme, resume-o genialmente. Matt Damon vai-se afastando, vemo-lo de costas, um pouco curvado, com a habitual gabardina e chapéu cinzentos: a imagem perfeita do funcionário meticuloso, solitário e empenhado, caminhando para a próxima tarefa.

P.S.: Uma pena, a pouca atenção crítica que este excelente filme recebeu por cá: a acreditar nas tabelinhas das estrelas, só dois críticos do Público e um do DN se deram ao trabalho de o ir ver.
The Good Shepherd, E.U.A., 2006. Realização: Robert de Niro. Com: Matt Damon, Robert De Niro, Angelina Jolie, John Turturro, Alec Baldwin, William Hurt, Billy Crudup, Timothy Hutton, Joe Pesci.

1.3.07

Filmes de Fevereiro

Filmes que vi (ou revi) o mês passado. Notas de 0 a 5 para os que não critiquei.

Uma noite aconteceu, Frank Capra, 1934 (5)
Furia, Fritz Lang, 1936 (4)
The bad and the beautiful/Os cativos do mal, Vincente Minnelli, 1952 (5)
The big heat/Corrupção, Fritz Lang, 1953 (5)
À bout de souffle/Acossado, J.L.Godard, 1960 (4+)
Hush... hush, sweet Charlotte, R.Aldrich, 1964 (3)
Que la bête meure, C.Chabrol, 1969 (4)
Dias selvagens, Kar Wai Wong, 1991 (4)
Pulp Fiction, Q.Tarantino, 1994 (5-)
De olhos bem fechados, S.Kubrick, 1999 (4)
Gouttes d'eau sur pierres brûlantes, F.Ozon, 2000 (3,5)
As paixões de Julia - I. Szabó, 2004 (3,5)
Rocky Balboa, S.Stalone, 2006
As cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood, 2006
As vidas dos outros, Florian H. von Donnersmarck, 2006
Pecados Intímos, Tod Field, 2006
Half Nelson, Ryan Fleck, 2006
The host, Joon-ho Bong, 2006
Livro Negro, Paul Verhoeven, 2006

Babel again

Parece que sou a única pessoa que não achou Babel nem uma obra-prima, nem uma nulidade. Se aqui houvesse estrelinhas para os filmes comentados, teria direito a 3. Nem 5, nem bola preta.

28.2.07

Livro negro



Paul Verhoeven, após 20 anos em Hollywood, voltou à Europa para fazer um filme passado na sua Holanda natal durante a ocupação Nazi. Segundo as suas palavras, voltou porque em Hollywood não poderia fazer este filme. Compreendemo-lo: para além da língua holandesa, o filme tem cenas de nudez pouco comuns por aquelas bandas e contornos morais mais cinzentos do que os grandes estúdios gostam. Na resistência não há só heróis, mas também traidores, pessoas que põem os seus interesses pessoais acima de tudo, anti-semitas, inclusive; e do lado dos nazis também há delicados coleccionadores de selos que se preocupam com as baixas do outro lado. Saliente-se que não há aqui qualquer tipo de revisionismo: Verhoeven apenas nos diz, uma vez mais, que as pessoas são o que são. O comportamento da multidão após a capitulação Nazi, procurando, sedenta, vingar-se dos antigos colaboracionistas, mostra o que pensa Verhoeven da natureza humana.
De Hollywood o realizador trouxe o know-how, apresentando uma reconstituição história sólida e credível, sem ter aquele aspecto de telefilme rico tão comum em filmes de época. O resultado é um filme acima da média, com um agradável sabor démodé.
Zwartboek / Black Book, Holanda/Bélgica/Grã-Bretanha/Alemanha, 2006. Realização: Paul Verhoeven. Com: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel, Dolf de Vries.

26.2.07

Half Nelson — Encurralados



Confesso que aos dez minutos de filme estava um bocado desconfiado. A história do professor talentoso e bem-parecido, mas que quer ser escritor, se afunda nas drogas e anda perdido no mundo, soou-me muito a cliché. E o modo de filmar - a fotografia baça, o ritmo lento - também não contribuiu muito para melhorar a minha opinião - estava-me a parecer tudo muito declaradamente indy, com as marcas todas lá. Mas pouco a pouco, esta má impressão foi-se desvanecendo. O realizador Ryan Fleck mantém sempre o ritmo certo, tudo se desenrola num low profile algo hipnotizante e à medida que vamos conhecendo a personagem, o estereotipo vai desaparecendo. Ao contrário do excêntrico-decadente-chique, temos antes um homem que convive mal com as injustiças do mundo, que se aliena para não ter que andar sempre aos murros. Um homem zangado. Mas que apesar de tudo, não desiste completamente. Que se interessa pelos seus alunos, que tenta ensinar. Que se preocupa.
E, claro - não há como fugir a isto - somos absorvidos pela interpretação portentosa de Ryan Gosling. Desde 'Roger Dodger' que não via tanto isto de um filme ser o seu actor. É assombroso.

P.S.: Gosling perdeu o Oscar para o grande Forest Whitaker, mas só o facto de ter sido nomeado por um filme destes, mostra que a Academia não anda tanto a dormir como às vezes parece.
Half Nelson , E.U.A., 2006. Realização: Ryan Fleck. Com: Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie, Tina Holmes, Deborah Rush, Jay O. Sanders.

Previsões



As previsões para os Oscares...de 2008! Aqui.

Finalmente

25.2.07

The host



Nem sei por onde começar para falar deste 'The Host', a minha única incursão até agora no Fantasporto deste ano. Talvez o melhor seja tentar resumir o seu argumento: anos após terem sido despejados num rio uma série de produtos químicos de uma base Americana na Coreia, aparece nesse mesmo rio um ser mutante, uma espécie de peixe gigante mas anfíbio, que caça seres humanos e os leva para um esgoto. Os familiares de uma míuda apanhada pelo bicho resolvem tentar resgatá-la, após descobrirem que ela está viva (consegue fazer uma chamada de telemóvel do esgoto).
Diga-se desde já que é uma família sui generis: o pai é meio atrasado, o tio é um 'licenciado desempregado' e a tia é uma atiradora de arco e flecha, que perdeu a medalha de ouro nos jogos olímpicos (ficou-se pela de bronze) porque demorou muito tempo no último lançamento e foi desclassificada (sim, eu sei que parece uma personagem de Wes Anderson); o chefe de família é o avô, que tem uma roulotte que vende lulas (assim uma espécie de equivalente aos nossos cachorros).

Acrescente-se que além de ser um filme fantástico (com excelentes efeitos especiais, diga-se - a criatura é um prodígio de animação), 'The host' é também uma comédia, com cenas entre o idiota-idiota e o idiota com piada. Tem mesmo uma antológica, em que o avô faz uma defesa comovida do filho retardado ('não comeu proteínas suficientes em miúdo'), e diz emocionado que consegue saber os seus estados de espírito através das suas flatulências. Um momento ao nível da célebre história de 'Pulp Fiction', do relógio escondido anos naquele sítio...

Last but not the least, o filme é ainda - ou pretende ser - uma sátira a uma série de coisas, começando na televisão e acabando - adivinhem! - nos Estados Unidos. Foram os Americanos que contaminaram o rio e são eles que estão a tomar conta (mal) dos acontecimentos, acabando por lançar uma arma biológica contra o monstro, numa cena com reminiscências do cogumelo atómico de Hiroshima.
Mas diga-se em abono da verdade, que não obstante estas metáforas algo pesadas, a maior parte do tempo o filme não é mais do que aquilo que parece ser: uma espécie de Godzilla apatetado.

Que esta bizarrice tenha sido um colossal sucesso de bilheteira na Coreia (país onde os filmes nacionais têm grande peso), não me surpreende grandemente. Já que tenha entrado no top ten dos melhores filmes de 2006 dos Cahiers du Cinéma, isso aí já dá bastante que cismar...
Gwoemul /The Host, Coreia do Sul, 2006. Realização: Joon-ho Bong. Com: Kang-ho Song, Hie-bong Byeon, Hae-il Park, Du-na Bae, Ah-sung Ko.