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6.4.07

300



É verdade que '300' possui uma certa, não direi gravidade, mas uma certa maturidade que não é muito comum neste tipo de blockbusters. E se isso o eleva acima dos habituais teen movies decalcados de jogos de PC, também é certo que não tem muito para oferecer para além da sua imponente faceta visual, apoiada em sólida artilharia técnica (com destaque para a excelente fotografia), apresentando ambientes e personagens faustosamente barrocos, que culminam num Xerxes (o actor Brasileiro Rodrigo Santoro) versão Drag Queen...
De resto parece que tem levantado bastante celeuma, por fazer a apologia da guerra, por ser fascista, por ser pro-Bush, por ser anti-islâmico, ou não sei que mais. Mas eu acho que não tem espessura para ser nada disto - é entretenimento minimamente competente e ponto final.
300, E.U.A., 2006. Realização: Zack Snyder. Com: Gerard Butler, Lena Headey, Rodrigo Santoro, Dominic West, David Wenham, Vincent Regan.

4.4.07

INLAND EMPIRE



Uma actriz (Laura Dern) é seleccionada para participar num filme. Aí contracena com um actor (Justin Theroux) com fama de mulherengo. Este é avisado para não se envolver com ela, ou o seu marido far-lhe-á coisas terríveis. A primeira das três horas de 'Inland Empire' é basicamente ocupada com este filme dentro do filme, com os dois actores, com o realizador (Jeremy Irons), com outra pessoa envolvida mas filmagens (Harry Dean Stanton). Apesar de algumas cenas - uma mulher num quarto, umas pessoas com cabeça de coelho que participam numa estranha sitcom, uma pessoa que é entrevista nos estúdios, uma vizinha com dons proféticos - e alguns detalhes - aqueles quartos mobilados como só o são nos filmes de David Lynch - parece que estamos a assistir a um 'Lynch' narrativo. Mas, a partir de uma dada altura, 'realidade' e ficção, passado e presente, presente e futuro, começam a confundir-se e estas personagens desaparecem sem deixar rasto.
Ou nem tanto. Laura Dern é omnipresente durante todo o filme, mas quando é Nikki (a actriz), quando é Susan (a personagem do filme no filme), bom, isso nem sempre é claro. E para complicar interpreta ainda (pelo menos) mais uma personagem, alternando entre a Polónia e Hollywood (mais uma vez Hollywood, numa altura em que Lynch tem que vir filmar para a Europa e distribui ele próprio o filme nos E.U.A.). Ou será uma só personagem?
'Inland Empire' é descendente directo de 'Eraserhead', e tal como em 'Lost Highway', mais que em 'Mulholland Drive', as pontas soltas, os nós por desatar, as lacunas deixadas para a imaginação do espectador preencher são mais que muitas. Os túneis no espaço-tempo são o pão-nosso-de-cada-dia de Lynch. É um lugar-comum dizer que mais que assistir a um filme, com Lynch vamos experimentar (no sentido de, mas mais do que, sentir) algo. Mas é verdade, continua a ser verdade. Várias vezes dei comigo a divagar, quase alheado da tela, e sempre voltei a ser para ela atraído por uma imagem estranhamente iluminada, por um som inesperado, por uma cena desfocada, por um close-up assombroso. Até ao último segundo do genérico final (e não convém perde-lo de forma alguma) somos surpreendidos, somos abanados.
Mesmo que eu continue a preferir um filme como 'Mulholland Drive' em que os espaços em branco podem ainda assim ser preenchidos de modo a fechar o círculo, não há como negar o fascínio de um objecto como 'Inland Empire'. Como disse um dia um crítico, uma pessoa experimenta muitas sensações durante um filme de Lynch, mas nunca a de aborrecimento. E 'Inland Empire' é, como li algures na net, Lynch at his Lynchest.
INLAND EMPIRE, E.U.A., 2006. Realização: David Lynch. Com: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Karolina Gruszka, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie.

2.4.07

10 filmes da vida de...

...Hugo Alves, 25 anos, jurista por formação, advogado de profissão, a fazer um Mestrado em Direito. Leitor compulsivo e cinéfilo inveterado, é o autor do muito cinéfilo - e combativo - blogue Amarcord.



Otto e Mezzo, de Federico Fellini
É o filme máximo, homenagem ao Cinema, viagem ao Universo de Fellini (restando saber se é um retrato honesto ou artificial), mas, principalmente, é o abraçar sôfrego da vida tal como ela é: desde o mais abjecto ao mais belo, onde tudo está envolto num tom onírico e onde a banda sonora de Nino Rota é o complemento perfeito das imagens do outro mágico: Fellini.

Le Samouraï, de Jean-Pierre Melville
Mais do que um filme de gangsters, Melville usa de toda a sua arte para nos dar um retrato abstracto e depurado da imensidão do espaço urbano e da solidão na selva de betão. Jeff Costello, o Samouraï, é, de certo modo, uma espécie de retrato do isolamento de todos nós na selva urbana.

La maman et la putain, de Jean Eustache
O filme em que Eustache traça o retrato das gerações pós-Maio de 1968 e, simultaneamente, exploras as fronteiras e limites das relações amorosas. isto enquanto perscruta a miríade de variações que uma simples palavra pode ter. Desde o palavrão ao mais requintado e erudito adjectivo.

Rocco e i suoi fratelli, de Luchino Visconti
Visconti regressa, formalmente, ao terreno de formação, mas fá-lo num tom de tragédia operática onde os 4 irmãos de Rocco se vão passeando por Milão, algures entre a crença no futuro próspero da vida na grande urbe e o sentimento telúrico, o chamamento da terra e o desenraizamento que domina alguns deles. Para além do mais, dificilmente se esquece o abraço à morte de Nadia ou o passeio desencantado de Luca, ao som de Bello paese mio¸ enquanto acaricia os cartazes onde está estampado o rosto do seu irmão Rocco.

Pierrot le fou, de Jean Luc Godard
Aqui temos a síntese de todo o Godard, desde o ll faut vivre dangereusement de À bout de souffle, passando pela declaração de amor a Karinna de Le mépris. Mas há, também, o constante jogo de citações, a homenagem ao cinema e, também, uma das mais trágicas histórias de amor, pautada pela inesquecível banda sonora de Antoine Duhamel. Em Pierrot le fou, o simples acto de existir dói. E isso é de uma beleza trágica, mas sublime.

Bitter Victory, de Nicholas Ray
É o filme onde a emoção, desde o primeiro ao último frame, impera, colocando, através do “duelo” entre Leith e Brand, a cobardia em exame. Mais do que um filme de guerra, Bitter Victory, é um pequeno tratado sobre alguns dos traço negativos da humanidade. Ademais, tem um dos momentos mais sublimes de Cinema que conheço: aquele em que Leith é engolido por uma tempestade no deserto bradando I always contradict myself.

Sansho Dayu, de Kenji Mizoguchi
Aqui Mizoguchi oferece-nos uma fábula sobre a redenção e um tratado sobre a compaixão. Pelo próximo, pelos semelhantes. Por todos. É um filme permeado de elipses, sendo a mais bela e pertubora aquela em que nos apercebemos do suicídio da irmã de Zushio que, chorando, desloca-se lentamente para um lago. Coloca umas pedras nos bolsos e, quando a câmara regressa, só vemos o leve balançar das águas. Este é o filme onde todos os homens são espectros que só ganham corpo quando Zushio, já redimido, os liberta. Pura poesia e humanismo, em estado puros.

Baisers Volés, de François Truffaut
Resulta difícil escolher um filme do ciclo Doinel (este é o primeiro que vi…). Em Baisers volés, tal como na música de Trenet, somos dominados pelo tom agridoce e levemente surreal em que os amores de Antoine e Christine se deixam enlear, contagiando-nos, fazendo-nos sonhar e, claro, perguntar Que reste-t-il de nos amours?

Lawrence of Arabia, de David Lean
Ver o contraste entre a imensidão do deserto, o extenso areal que tudo rodeia e engole, e o rosto transido de El Aurens, fitando o horizonte distante nos deixam boquiabertos e sem palavras, tal como a sua obstinação e o constante quebrar de regras. É um filme sobre um sonho e sobre a sua realização (tal como, em certa, medida Fitzcarraldo, de Werner Herzog, um dos meus outros filmes preferidos).

Zorba the Greek, de Michael Cacoyannis
Um belo retrato da amizade e do amor, que me fez redescobrir a aplicação pura do super-homem de Nietzsche, mas, também, me deu a conhecer o universo de um escritor extraordinário: Nikos Kazantzakis. Acresce ainda que a dança final é absolutamente inesquecível, tal como o é a interpretação de Anthony Quinn e as várias peripécias que Zorba desencadeia por Creta.

Concluo lembrando que esta é uma lista afectiva. Idolatro autores como Ozu, Bergman, Antonioni ou Bresson. Mas esta é a lista, passe a expressão, do coração e não da razão.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Paulo Ferrero.

1.4.07

O bom Alemão



Ao longo da sua irregularíssima filmografia, Steven Soderbergh tem-se movido entre os filmes puramente experimentais (como o péssimo 'Full Frontal') e aqueles bem ancorados no mainstream (como o anódino 'Erin Brockovich' ou o francamente mau 'Ocean's Twelve'). Os mais interessantes, no entanto, são aqueles que estão num meio-termo, ou se quisermos, aqueles em que o realizador melhor sintetiza estas suas facetas. Falo de filmes como 'Traffic' ou o óptimo remake de 'Solaris'.
'O bom Alemão' estará mais perto de um filme como 'Ocean´s Eleven': tal como este é um divertimento inteligente e sofisticado, mas é-lhe superior por ser mais denso. Sendo um exercício de estilo, filmado a preto e branco, ao estilo dos filmes de guerra da década de 40, com piscadelas de olho que vão desde 'O terceiro homem' a 'Casablanca', nunca o virtuosismo (inegável) do realizador abafa o ambiente a la film noir que se respira por todos os poros. George Clooney é o anti-herói que passa o filme feito saco de pancadas, Cate Blanchett é a mais improvável (e não totalmente convincente) das femme fatal e Tobey Maguire mostra que ainda existe um actor para lá do homem-aranha. E por trás do McGuffin, menos confuso que o habitual, fala-se da culpa do cidadão anónimo nos crimes da sua pátria. Está Soderbergh a falar apenas da Alemanha do pós-guerra? Cada um que interprete como entender.
The Good German, E.U.A., 2006. Realização: Steven Soderbergh. Com: George Clooney, Cate Blanchett, Tobey Maguire, Jack Thompson, John Roeder, Dave Power.

31.3.07

Filmes de Março

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi este mês. A bem dos leitores que têm paciência para estas listas, troquei a escanifobética classificação anterior por uma mais singela de 0 a 10.

Nanook of the North, Robert J. Flaherty, 1922 (10)
The Hunchback of Notre Dame, Wallace Worsley, 1923 (8)
A regra do jogo, Jean Renoir, 1939 (10)
Esta terra é minha, Jean Renoir, 1943 (10)
In a lonely place/Matar ou não matar, Nicholas Ray, 1950 (9,5)
Clash by night, Fritz Lang, 1952 (9)
Underworld U.S.A., Samuel Fuller, 1961 (8)
La peau douce/Angústia, François Truffaut, 1964 (9)
The Naked kiss, Samuel Fuller, 1964 (7,5)
Blowup, Michelangelo Antonioni, 1966 (8,5)
Enter the dragon, Robert Clouse, 1973 (5)
Kansas City, Robert Altman, 1996 (8)
Demonlove/Agente infiltrado, Olivier Assayas, 2002 (6,5)
Lost in translation, Sofia Coppola, 2003 (9,5)
Wu ji/The promise, Chen Kige, 2005
Isabella, Ho-Cheung Pang, 2006
Diário de um escândalo, Richard Eyre, 2006
O bom pastor, Robert de Niro, 2006
O labirinto do Fauno, Fuillermo del Toro, 2006
O último capitulo, Darren Aronofsky, 2006
O caimão, Nanni Moretti, 2006


26.3.07

O caimão



Nanni Moretti fez o seu filme anti-Berlusconi de uma forma algo diferente do que se estaria à espera. Em vez de algo do género 'documentário-ficcionado', optou por uma comédia sobre um produtor de filmes série Z com uma costela reaccionária que, meio por acaso, acaba a produzir um filme... anti-Berlusconi.
Moretti tem repetido que é preciso levar Berlusconi muito a sério, e talvez por isso se tenha lembrado das palavras de Kundera, de que o trágico nos oferece a bela ilusão da grandeza humana, e tenha assim optado pelo cómico. O filme desenvolve-se num registo excessivo, por vezes quase pícaro, fazendo-nos a personagem principal, o tal produtor de filmes rasca, lembrar não só o Moretti pré-'O quarto do filho', como certas personagens das antigas comédias à italiana.
Inteligentemente, em vez de pegar o touro pelos cornos, Moretti anda à volta de Berlusconi, desdobrando-se 'O caimão' em episódios paralelos, que mais do que do ex-primeiro-ministro, nos dão o retrato da Itália contemporânea, nunca deixando o realizador que o grande tema abafe os outros subplots: os problemas familiares do produtor (tal como Moretti os teve com a sua separação), os seus problemas para levar o filme avante, os jogos de futebol do filho, a vida familiar da realizadora, etc. Aliás, num achado genial, o retrato de Berlusconi, um homem que fabricou a sua imagem na televisão, é-nos dado em múltipos retratos em que realidade e ficção se estão sempre a misturar: além do Belusconi himself das imagens de arquivo, há o Berlusconi de um sonho, e há os Berlusconis do filme dentro do filme, primeiro o de Michele Placido (fabulosa personagem) e, finalmente, o de... Nani Moretti.
Apesar de por vezes parecer um pouco descosido, 'O caimão' é um regresso em grande forma do melhor realizador italiano da actualidade, não por acaso de volta aos terrenos onde se move melhor: o filme eminentemente politico, mas sempre com uma forte dimensão pessoal e uma ironia cortante.
Il caimano, Itália/França, 2006. Realização: Nanni Moretti. Com: Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca, Michele Placido, Elio De Capitani, Giuliano Montaldo, Nanni Moretti.

23.3.07

Underworld USA


É sabido que Samuel Fuller foi tudo menos um realizador consensual. O tema central da sua obra - o patriotismo, para resumirmos numa só palavra - aliado ao facto de realizar principalmente filmes de géneros associados à violência - westerns, filmes de gangsters e de guerra - levaram a que fosse apelidado de fascista para cima. Como aconteceu em tantos outros casos, foram os homens da Nouvelle Vague que procuraram reabilitar o seu nome.
Godard convidou-o para aparecer em 'Pierrot le fou' (como havia convidado Lang para aparecer em 'Le mépris') e Truffaut escreveu que revia os seus filmes para ter lições de realização.
'Underworld USA' (que tanto quanto sei, por cá se chamou 'Marcados para a morte'), de 1961, é uma excelente introdução à sua obra. É um filme de gangsters, mais especificamente do subgénero sobre os sindicatos, em que um pequeno ladrão destrói os mais poderosos criminosos da altura, movido apenas pelo desejo de vingar o seu pai (que como intuímos, nem era flor que se cheirasse). Como sintetizou Colin McArthur, 'neste filme Fuller maneja a iconografia do género com grande facilidade; no entanto, não é menos pessoal que outros dos seus trabalhos'. Uma prova apenas: como tantas vezes acontece na sua obra, o 'herói' é um marginal, que faz o trabalho sujo para defender a América limpa. Fuller pertenceu a uma estirpe de realizadores, entretanto desaparecida, que poderíamos classificar como funcionários - autores: homens que trabalhando com pequenos orçamentos, em géneros considerados menores, nunca prescindiram da sua marca autoral, imprimindo sempre a sua visão do mundo e construindo uma obra de uma coerência inatacável. Um feito notável.

19.3.07

O último capitulo



O corpo principal de 'The fountain', chamemos-lhe assim, aquilo que se passa no 'presente', não se distingue muito de um filme daqueles que passam no Fantasporto: num laboratório algo obscuro, usando chimpanzés como cobaias, um investigador (Hugh Jackman) tenta descobrir em contra-relógio uma cura para o cancro, para salvar a sua mulher (Rachel Weisz) que tem um tumor maligno. Acontece que intercalados com esta história, estão dois outros segmentos: um épico, passado no século XVI, em que um conquistador espanhol (Hugh Jackman) busca na selva latino-americana a árvore da vida (referenciada na Biblia) para conquistar o amor da sua rainha (Rachel Weisz), ameaçada pela inquisição (e para este segmento ainda há uma explicação lógica); e um outro, místico, meditativo, que não se sabe muito bem a que se deve, e que tanto tem encanitado os detractores do filme (aí uns 99% dos críticos de cinema). Este segmento é assim uma espécie de divagação visual passada no espaço, assumidamente inspirada em '2001', mas onde a beleza geométrica de Kubrick dá lugar um visual alucinatório, a um devaneio plástico incrustado no miolo do filme, sem lógica ou propósito aparente, com uma música new age a acompanhar, para piorar o caso se necessário fosse. É uma espécie de corolário do mote do filme, da morte como renascimento, um equivalente visual do misticismo (com referência a lendas Maias e tudo) que percorre o filme.
Assim contado não parece grande coisa, mas o cinema também é uma arte visual e também é mais que teatro filmado. E o certo é que 'The fountain' possui uma beleza insólita, uma qualquer força que agarra, algo que transcende as dezenas de filmes formatados que vemos semana após semana. Tem-se falado em megalomania, mas o filme, na sua estranheza, é surpreendentemente sóbrio, parece quase artesanal por vezes, tem uma sinceridade desarmante, um romantismo deslocado que toca.
A mim, que o fui ver cheio de preconceitos (não sou dado a misticismos new age e detestei 'A vida não é um sonho') conquistou-me. É um objecto cinematográfico completo que, não obstante as suas imperfeições, desperta todos os nossos sentidos.
The Fountain, E.U.A., 2006. Realização: Darren Aronofsky. Com: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee.

17.3.07

Os Anjos Exterminadores



'Coisas secretas' é um filme erótico (eu sei que o termo está colado a Emanuelles e afins, mas pronto) sobre duas mulheres, amantes, que usam o sexo para 'subir na vida'. É um filme curioso, mas não mais do que isso. Não obstante, quando saiu em 2002 (por cá foi directamente para dvd o ano passado) excitou muito bom crítico, recebendo o seu realizador Jean-Claude Brisseau o epiteto de grande subversivo e provocador. Os Cahiers du Cinéma deram-lhe mesmo o primeiro lugar (compartilhado com 'Dez' de Kiarostami) no seu top desse ano! Mas a bomba surgiria um par de anos mais tarde: Brisseau foi acusado de assédio e agressão sexual por quatro actrizes que tinham feito testes de casting para o filme, mas que não tinham obtido um papel. Seria julgado o ano passado e condenado a uma pena suspensa de um ano e a pagar 15.000€ de indemnização (apesar de tudo livrou-se de ficar inscrito num ficheiro de delinquentes sexuais, que pelos vistos existe em França). No mesmo ano, o realizador (de 61 anos e uma carreira de 3 décadas, mas com apenas meia dúzia de filmes) anunciou que estava a terminar uma nova obra com um argumento inspirado neste desagradável episódio da sua vida - 'Les anges exterminateurs', precisamente, que passou por cá na recente Festa do Cinema Francês. (*)
Este filme pode ser então visto como uma defesa por parte de Jean-Claude Brisseau e, porque não, como uma expiação ou exorcismo. Diga-se desde já que é uma defesa sui generis: durante hora e meia um realizador (obviamente alter ego de Brisseau) que pretende realizar um filme sobre o prazer das mulheres, sobre os seus limites, faz testes a potenciais actrizes ('porque isto não lhes é ensinado na escola de teatro') que consistem em estas se acariciarem, sozinhas ou em grupo. Não só em frente à câmara, em quartos de hotel, mas também à mesa de um restaurante, por exemplo. Esta hora e meia provoca-nos duas perplexidades: em primeiro lugar parece que o realizador está a dar parte da razão a quem o acusou - a própria mulher do seu alter ego lhe está sempre a dizer que aquilo vai acabar mal, e não há espectador que não tenha aquele sentimento tão popular do 'estava mesmo a pedi-las'!; em segundo lugar, e não obstante alguma retórica justificativa, parece que estamos assistir a um filme, não direi pornográfico, mas que não andará lá longe. O realizador reserva apenas o último quarto de hora para descrever a acusação de que é alvo (o seu personagem) e a sua 'defesa'. Não há duvida que esta opção é bastante desconcertante e redimensiona toda a nossa percepção do filme, elevando-o a um patamar que não parecia alcançável. A sua defesa é subtil: nunca tocou nas raparigas; não lhes prometeu nada; elas são actrizes e fazer uma cena de sexo num casting é apenas trabalho; e finalmente, sugere que foi o facto de algumas se apaixonarem por ele que motivou a vingança (uma deles explica-lhe muito freudianamente que se apaixonam por ele por ser tão paternal). E nós poderiamos acrescentar que eram todas maiores de idade e ninguém foi obrigado a nada. É claro que o filme levanta uma série de questões muito interessantes, ou não fosse Brisseau um realizador profundamente cerebral (não há aqui qualquer contradição): e para este 'Les anges exterminateurs' , que envolve cenas sexualmente muito mais explícitas que 'Choses secrètes' Brisseau não fez testes às actrizes? Desistiu do seu método? Ou desta vez obrigou-as a assinar algum tipo de compromisso?
Um filme que acaba por nos conquistar pela sua inteligência e, já agora, ousadia.
(PS: Brisseau filma muito, muito bem - quando falamos em pornográfico nada tem a ver com a estética destes filmes, bem entendido.)
(*) Post originalmente publicado em 03/11/2006, aquando da Festa do Cinema Francês.
Les anges exterminateurs, França, 2006. Realização: Jean-Claude Brisseau. Com: Frederic Van Den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Raphaële Godin, Margaret Zenou

11.3.07

O labirinto do fauno



Apesar de o 'fantástico' se confundir com a origem do cinema ('A viagem à lua' de Méliès é de 1902), tem sido um parente pobre na grande família da sétima arte. Poucos realizadores que se movam habitualmente nestes terrenos ganham prestigio crítico. Mesmo Shyamalan, quando passou do sobrenatural para o fantástico puro (no sentido de fábula, digamos assim) em 'A senhora da água', dividiu a crítica como nunca. Uma excepção que me ocorre é Tim Burton.
Assim sendo, Gillhermo del Toro teve desde logo o mérito de agitar as águas do género, conseguindo um hype com este 'O Labrinto do fauno', tendo inclusive chegado aos Oscares. O que se pode dizer é que este reconhecimento é merecido: 'O Labirinto do fauno' é de facto um belo filme sobre uma menina a quem o encontro com um fauno permite que se liberte das garras opressoras do seu padrastro, um sinistro capitão franquista. Del Toro consegue o mais difícil que é vencer o nosso cinismo perante 'contos de fadas', criando um ambiente simultaneamente tenebroso e fantasioso, estando as impecáveis virtudes técnicas e cenográficas sempre ao serviço da história, nunca servindo para exibicionismos fúteis.
Não digo que seja uma obra-prima, mas é certamente uma lufada de ar fresco, um regresso sincero mas não ingénuo a um certo modo sonhador de contar histórias.
El Laberinto del Fauno, México/Espanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Guillermo del Toro. Com: Ariadna Gil, Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdu, Doug Jones, Alex Angulo.