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23.4.07

10 filmes da vida de...

...Cláudia aka Wasted Blues, 27 anos, jornalista, menina da rádio, cinéfila. É autora do blogue Wasted Blues. Uma lista afectiva e desordenada:



The Wizard of Oz, de Victor Fleming (1939)
O meu primeiro filme no cinema. Aquele a que eu volto de tempos a tempos porque tudo nele é feel good e deliciosamente kitsch. Porque às vezes tenho saudades de Oz.

Les Amants du Pont Neuf, de Leos Carax (1991)
Do realizador maldito Leos Carax. É um filme indefinível, com uma magia visual tanto inquietante como comovente. É a história de um amor surreal, um poema sobre o intangível de dois seres diferentes. E é tão inesperado e importante, quando somos surpreendidos por um final feliz.

Vivre Sa Vie, de Jean Luc Godard (1962)
Mudou a minha forma de ver e sentir o Cinema. Aquele rosto filmado como Dreyer filmou a sua Joana. A paixão, a filosofia que se faz sem saber, o silêncio que diz tudo, a certeza da palavra certa, o final abrupto... e aquele plano, quando Nana vê a condenação à morte de Joana, que é de uma beleza esmagadora. Tudo aqui é tragicamente perfeito.

Vertigo, de Alfred Hitchcock (1958)
Tinha de escolher um Hitchcock. Mas é muito complicado escolher apenas um. Onde está Vertigo, podia estar Rear Window ou Notorious. Mas escolho essa obra sobre um homem fascinado por uma mulher perdida entre o presente e o passado. Um filme de vertigens, obsessão e onírico.

Splendor in the Grass, de Elia Kazan (1961)
É um filme belo, intenso, inebriante, frontal, sem receios. O poema de William Wordsworth, que lhe serve de inspiração, diz tudo. Há um antes e um depois. Neste caso, o amor entre Deanie e Bud. Neste caso também, a vida... porque nada será como antes.

City Lights, de Charlie Chaplin (1931)
Foi o bater de pé de Chaplin ao cinema sonoro. Quando todos se rendiam ao som, o vagabundo selou os lábios e deu-nos um dos seus mais belos filmes.

Persona, de Ingmar Bergman (1966)
Outro filme que mudou a minha forma de ver o Cinema. Arrepiei-me quando vi dois rostos tornarem-se num só. Filme sobre as nossas máscaras, sobre o que somos e o que representamos.

Rio Bravo, de Howard Hawks (1959)
A obra que me apresentou os Westerns. E pensar que esta obra-prima surgiu por despeito. Hawks e Wayne odiaram High Noon, de Fred Zinnemann, e 8 anos depois deram-nos Rio Bravo. Se High Noon é a luta de um homem só, Rio Bravo é o elogio ao companheirismo e cumplicidade.

Manhattan, de Woody Allen (1979)
Seriam suficientes os primeiros minutos para incluir Manhattan em qualquer lista. A suprema declaração de amor de Woody à sua cidade, num magistroso preto e branco, ao som dos acordes de Rhapsody in Blue, de George Gershwin. Inesquecível.

Sunset Boulevard, de Billy Wilder (1950)
Filme de fantasmas, vivos e mortos. Filme sobre o Cinema e uma época em que as suas estrelas eram consideradas deuses. Sunset Boulevard, Mulholland Drive, INLAND EMPIRE… estranhos mundos oníricos e negros na Cidade dos Sonhos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Nuno Pires

22.4.07



"Cinema is the ultimate pervert art. It doesn’t give what you desire; he tells you how to desire".

"We have a perfect name for fantasy realized: it's called nightmare" .












Se procuramos na realidade algo mais real que a realidade ela própria, então temos que olhar para a ficção cinematográfica. Esta é a lição que a superstar intelectual da actualidade nos transmite neste documentário. Para isso serve-se de muito Hitchcock, muito Lynch, mas também de Walt Disney, de Matrix ou de Aliens, entre muitos outros.
Zizek é carismático, telegénico, acessível (mais ainda que nos seus livros) e apaixonado pelos filmes de que fala, tornando estas duas horas e meia verdadeiramente fascinantes, mesmo para quem não tem qualquer noção das teorias Freudianas (embora ajude ter algum conhecimento da matéria). A não perder.

20.4.07

Missão solar



'Missão solar' é um filme que aponta em várias direcções e, na minha opinião, falha-as todas.
Desde logo falha no mais básico: o conjunto de actores é péssimo e tem cenas supostamente tocantes que são dum amadorismo confrangedor. Dois exemplos: quando uma das tripulantes de Icarus II (até o nome da nave soa pretensioso) declara que é contra a morte de um dos outros tripulantes, fazendo um discurso empolgado (enquanto olha para a câmara) do tipo "sei que esperam o meu voto, mas o meu voto só pode ser não!', temos um digno exemplo da expressividade de uma aluna de 10 anos a fazer o seu primeiro papel no sarau da escola; ou quando outra tripulante morre com uma pequena flor na mão, símbolo da vida, numa metáfora subtilíssima...
Depois, 'Missão solar' desperdiça uma ideia simples e intrinsecamente verdadeira, que por si só tem sustentado tantos filmes de terror: que a principal causa de desgraça de um grupo exposto a uma situação de extrema dificuldade e pressão, é interna, ou seja é a desunião do grupo, a irracionalidade das pessoas que se viram umas contra as outras em vez de cooperarem para combater o inimigo externo comum. Aqui tudo é tratado vagamente, superficialmente, não conseguimos entrar dentro de uma única personagem, desde o início que parecem todas profundamente egoístas e ilógicas, tanto mais de estranhar quando se trata de um grupo de cientistas supostamente muito bem preparados para uma missão de alto risco e dificuldade. E quando há a peregrina ideia de enfiar na nave um elemento externo, aí o filme descamba totalmente, sendo-nos servida uma mistura intragável de metafísica primária com (mau) filme de terror série Z .
Resumindo: como filme de FC versão terror é totalmente inócuo; como filme de FC versão metafísica não vai além do 'somos todos feitos de pó e não devemos brincar aos Deuses', ainda por cima apresentado de uma forma atabalhoada e grosseira; como devaneio visual é um sub-sub-2001, apostando quase tudo numa má banda sonora intrusiva e numa montagem agressiva mas pouco imaginativa. Nem por um segundo nos consegue envolver naquele imaginário algo místico que o espaço nos inspira pelo menos desde 2001, algo que um filme de certo modo falhado como 'The fountain' consegue, para o bem e para o mal.
Tão fácil é enumerar os defeitos de 'Missão solar', que o leitor até poderá ficar com a ideia que é um filme péssimo ou até um grande falhanço. Mas nem sequer isso é: é apenas um filme aborrecido e pouco original.
Sunshine, Grã-Bretanha, 2007. Realização: Danny Boyle. Com: Cillian Murphy, Chris Evans, Rose Byrne, Michelle Yeoh, Cliff Curtis, Benedict Wong, Troy Garity, Hiroyuki Sanada.

19.4.07

Semiologia da imagem clónica



E só mais uma, para terminar (prometo!) esta maré de citações das extraordinárias memórias de Buñuel:

"Detesto o pedantismo e o jargão. Já me aconteceu rir até às lágrimas ao ler alguns artigos dos Cahiers du Cinéma. Na cidade do México, tendo sido nomeado presidente honorário do Centro de Capitación Cinematográfica pela Escola Superior de Cinema, um dia fui convidado a visitar as suas instalações. Apresentam-me quatro ou cinco professores. Um deles é um jovem bem vestido, corando de timidez. Pergunto-lhe que disciplina ensina. Ele responde: 'a semiologia da imagem clónica'.
Apeteceu-me assassiná-lo".

Filmes da vida de...

...Luis Buñuel!


(clique na imagem para a aumentar. Pode-se divertir a tentar identificar os retratados!)

"Gosto de Paths of Glory de Kubrick, Roma de Fellini, O couraçado Potemkine de Eisenstein, A grande farra de Marco Ferreri, monumento hedonístico, grande tragédia da carne, Goupi mains rouges de Jacques Becker e Jeux Interdits de René Clément. Gostei muito dos primeiros filmes de Fritz Lang, Buster Keaton, os Irmãos Marx, O manuscrito encontrado em Saragoça, romance de Potocki e filme de Has que vi três vezes e que é excepcional, e que mandei Alastrite comprar para o México, em troca de Simão do deserto.

Gosto muito dos filmes de Renoir até à guerra e de Persona de Bergman. De Fellini gosto também de A estrada, de As noites de Cabiria, La Dolce Vita. Nunca vi Os inúteis e tenho pena. Em contrapartida, em Casanova saí da sala muito antes do fim.

De Vittorio de Sica gostei muito de Sciuscà, Umberto D e Ladrões de bicicletas, onde ele conseguiu transformar uma ferramenta de trabalho numa vedeta. Foi um homem que conhecei e de quem me sentia muito próximo.

Gostei muito dos filmes de Erich von Stroheim e de Stenberg. Na altura achei Vidas Tenebrosas soberbo.

Detestei Até à eternidade, um melodrama militarista e nacionalista que infelizmente teve muito sucesso.

Gosto muito de Wadja e dos filmes dele. Nunca o conheci mas há muito tempo, no festival de Cannes, ele declarou publicamente que os meus primeiros filmes lhe deram vontade de fazer cinema. Lembra-me a admiração que eu próprio sentia pelos primeiros filmes de Fritz Lang e que determinou o rumo que dei à minha vida. Acho admirável esta continuidade secreta que há entre os filmes, entre os países. Um dia, Wadja enviou-me um postal assinado ironicamente 'O seu discípulo'. Este caso é particularmente comovente porque considero admiráveis os filmes dele que vi.

Gostei de Manon de Clouzot e de Atalante de Jean Vigo. Fiz uma visita a Vigo durante a rodagem. Lembro-me de um homem fisicamente fragilizado, muito novo e muito amável.

Entre os meus filmes preferidos figuram o filme inglês Dead of the night, delicioso conjunto de várias histórias de terror e White shadows in the south seas, que me pareceu muito superior a Tabu de Murnau. Adorei Portrait of Jennie, com Jennifer Jones, uma obra desconhecida, misteriosa e poética. Declarei nalgum sítio o meu amor por esse filme e Selznick escreveu-me a agradecer.

Detestei Roma, cidade aberta de Rosselini. Achei que o contraste fácil entre o padre torturado e, na sala contígua, o oficial alemão bebendo champanhe com uma mulher no colo era um procedimento repugnante."

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

17.4.07

Os méritos do álcool



"Se tivesse de enumerar todos os méritos do álcool, nunca chegaria ao fim. Em 1978, em Madrid, após um desentendimento sério com uma actriz, desesperava para chegar ao fim da rodagem de 'Este obscuro objecto do desejo'. Serge Silberman, o produtor, decidiu parar o filme, o que representava perdas consideráveis. Assim, estavamos os dois num bar, bastante abatidos e, de repente, mas só depois do segundo dry-martini, tive a ideia de pôr duas actrizes a representar o mesmo papel, algo que ninguém fizera até então. O Serge agarrou logo na ideia que eu lhe atirara como uma piada e o filme salvou-se, graças a um bar. "

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

O explicador



"Em Saragoça, além do tradicional pianista, cada sala tinha o seu explicador, um homem que, de pé, ao lado do ecrã, ia comentando em voz alta o que se passava. Dizia por exemplo:
- Então o Conde Hugo vê a sua mulher passar de braço dado com outro homem, que não é ele. E agora, senhoras e senhores, vão ver como ele abre a gaveta da escrivaninha para pegar no revólver e assassinar a esposa infiel!

O cinema trazia uma forma narrativa tão nova e tão pouco habitual que a grande maioria do público tinha muita dificuldade em compreender o que se passava no ecrã, como os acontecimentos se encadeavam de um cenário para o outro. Habituámo-nos inconscientemente à linguagem cinematográfica, à montagem, às acções simultâneas ou sucessivas, e mesmo aos flashbacks. Naquela altura o povo decifrava a custo uma linguagem nova.
Daí a presença do explicador."

'O meu último suspiro', Luis Buñuel

16.4.07

10 filmes da vida de...

...Tiago Ribeiro (aka Peeping Tom), 28 anos, autor do blogue Mil e tal Filmes para ver antes que apanhe a Peste. Lista com uma ordem indefinida:



Raging Bull, de Martin Scorsese
Scorsese encarou "Raging Bull" como o "tudo ou nada" na sua carreira, possível obra derradeira depois do esmagador insucesso de "New York, NewYork", e o que daí resultou foi uma vertigem de auto-destruição como raramente se viu no cinema. Formalmente espantoso, De Niro no papel da sua vida, "Raging Bull" é uma sinfonia de som e imagem à beira da implosão.

Close-Up, de Abbas Kiarostami
Pensava que depois de ter visto "Taste of Cherry", nada mais na obra deKiarostami me poderia espantar tanto. "Close-Up" é uma incisiva reflexão sobre o poder transcendental do cinema, um melodrama existencial, uma hipnotizante lição sobre a dignidade humana. Jogando sobre as variantes de"falso" e "verdadeiro", Abbas, em vez de nos confundir, apenas nos imerge ainda mais na estória. Os últimos minutos são antológicos, mais comoventes que 200 "tearjekers".

M, de Fritz Lang
Filme actualíssimo, por mais anos que passem. É só comparar a trama de "M"com as imagens das multidões histéricas à saída dos tribunais, presentes nos telejornais, para vermos que o filme seminal de Lang não ganhou uma única ruga. Peter Lorre, com os seus olhos de boneco animado, parece ainda estarno cinema mudo, mas com apenas três anos de sonoro, Fritz já estava noutro patamar de excelência técnica do que os seus colegas americanos. Todo o julgamento na cave é memorável, indicador preciso da nojenta hipocrisia dasmassas humanas. Genial.

Psycho, de Alfred Hitchcock
"The..the...bathroom". A hesitação de Norman Bates é a antevisão do horror que aí vem. Alusões sexuais, a solidão, o oportunismo, a culpa: é Hitch "allthe way", combinado com uma mestria técnica inultrapassável, ou como uma sucessão de planos aparentemente anódinos de um sabonete e de água a sair de um chuveiro podem instaurar imediatamente o campo da ameaça. Alfred realizouum dos mais profundos estudos da natureza humana, e o mais perverso de tudo, é que o fez sob a capa de filme "de género", atraindo um enorme sucesso de bilheteira.

Hana-Bi, de Takeshi Kitano
Num momento, vemos Beat Takeshi, calmo e contemplativo, a beber um copo; no segundo seguinte, está ele a espetar um pauzinho no olho de um bandido. Estas bruscas mudanças de tom são uma das marcas mais identificativas de Kitano, a par de um humor absurdo. Em "Hana-Bi", o nipónico acrescentaria um notável lirismo à sua gama de recursos, sobretudo utilizado nas melancólicas cenas com a sua mulher (a magnífica banda sonora de Joe Hisaishi também tem muito a ver com isto). A reter: uma sequência em slow motion, e uma sucessãode planos de figuras pictóricas, excertos brilhantes de uma obra maior.

Night Of The Hunter, de Charles Laughton
Filme mítico, de culto, singular até ao tutano. Obra única do grande actor Charles Laughton, negra fábula sobre a infância acossada pela ganância dos adultos, "Night of The Hunter" é um prodígio experimental, sem nunca abandonar a âncora narrativa. Lembro-me, sobretudo, de uma sessão religiosa trabalhada sobre moldes expressionistas, mais parecendo estarmos a ver um comício no Inferno. Robert Mitchum, maquiavélico e delicioso na sua falsa candura, e Lilian Gish como a "avózinha" resistente: não há por onde dizer mal deste filme.

Great Dictator, de Charles Chaplin
Se Nanni Moretti afirmou que não era sua intenção ridicularizar Berlusconi,Chaplin não faz outra coisa senão isso em relação a Adolph Hitler. Aquele discurso inicial, paródia cacofónica do imperialismo dos discursos do Fuhrer, é ainda mais político do que o exuberante final, momento em que ofilme se desprende de si próprio, e só vemos o cidadão Chaplin como mensageiro humanista. Momento antológico sobre momento antológico, "Great Dictator" introduz o sonoro na filmografia de Charles, e significa também aprimeira pedra no longo caminho que daria ao seu exílio de terras americanas. Nunca mais se viu igual.

Triumph Des Willens, de Leni Riefenstahl
Antes da ridicularização, a apologia. Ou não? Se a cineasta alemã sempre desmentiu a convergência com as ideias nazis, "Triumph Des Willens" parece,à primeira vista, não lhe dar razão. "Apenas uma questão estética", disse ela, e é assim que eu olho para este magnífico filme, endeusamento de pessoas não tanto por aquilo que dizem, mas mais como o dizem. E se nunca se colocou em questão, pelo menos de forma tão veemente, a propaganda comunista nos filmes de Eisenstein, porquê desprezar por completo a suposta propaganda Nazi de "...Willens", mesmo tão fabulosamente trabalhada? Já lá vão mais desetenta anos, altura mais do que suficiente para uma maior distanciação.

Playtime, de Jacques Tati
O mundo é uma comédia, diz-nos" Playtime". Visão crítica mas felizmente não demagógica sobre o caos urbano e a impessoalidade que daí advém, aobra-prima de Tati é um filme conceptual como raramente houve e haverá. Antes do final carnavalesco, a irrisão terá o seu cume numa inacreditável longa sequência num restaurante, louco "tour de force" a propósito doprovincianismo de uma certa burguesia. Foi feito há quarenta anos, mas tem o look de amanhã. A ver, pelo menos, 10 vezes por ano.

Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro
Começa num magistral travelling pela zona ribeirinha de Lisboa, e termina com um Nosferatu renascido nos esgotos da capital. Monteiro começava a "dar-nos trabalho" com a sua primeira encarnação de João de Deus, dandy iconoclasta, amante de pintelhos e de boa comida, cujo sonho é "marchar sobre São Bento!". Acessível como não seriam os outros dois tomos da trilogia, "Recordações da Casa Amarela" presenteia-nos com uma Lisboa picaresca, alterna brejeirice do povo com a celestialidade de Holderlin, espeta-nos com o bacalhau de Quim Barreiros e as sinfonias de Mozart. Quanto a mim, o melhor filme português de todos os tempos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a Cláudia (Wasted Blues).

14.4.07

A atiradora


Kate Mara , em 'O atirador'

13.4.07

O atirador



Já aqui confessei que sou fã de um certo tipo de thrillers que nem sei muito bem definir, algo difuso que abarca desde filmes policiais a filmes de suspense. Neste campo não sou muito exigente: não vou à espera de ver nenhuma 'Intriga Internacional'. Desde que tenha um actor competente (ponto importante! um canastrão tipo Van Damme deita tudo a perder), a companhia feminina não deslustre e as cenas de acção sejam despachadas, eficazes e não tenham explosões em câmara lenta com musica de Vangelis, já me dou por satisfeito. Nem exijo muito ao argumento, apenas que não atrapalhe.
'O atirador' cumpre os três primeiros requisitos: Mark Wahlberg dá muito boa conta do recado, temos duas belas actrizes, Kate Mara no género cheerleader e Rhona Mitra num género mais sofisticado (por sinal duas actrizes que conhecia de 'Nip/Tuck'), e as cenas de acção não desiludem nem em quantidade nem em qualidade, pesem embora alguns exageros a la Rambo. Onde a porca torce o rabo é no argumento e mais uma vez temos um problema típico: o realizador leva o McGuffin a sério. Há uma série de lugares-comuns que ainda passam, como uma trapalhada sobre uns interesses americanos na Etiópia (África está na moda em Hollywood!) ou mesmo uma alusão a Abu Ghraib metida à pressão. Agora para os pavorosos 20 minutos finais, que defendem a originalíssima teoria que a democracia (pelo menos a Americana) está ferida de morte, que tudo são interesses e corrupção, que os poderosos se safam sempre, e que a única maneira que o cidadão comum, íntegro e patriota, tem de se defender é fazendo justiça pelas próprias mãos, bom, para isso já não há pachorra.
Volta Dirty Harry que estás perdoado!
Shooter, E.U.A., 2007. Realização: Antoine Fuqua. Com: Mark Wahlberg, Michael Pena, Danny Glover, Kate Mara, Elias Koteas, Rhona Mitra.