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9.6.07

400º




O famosíssimo 'Le Voyage dans la lune', um dos filmes pioneiros da
ficção cientifica, foi o 400º filme realizado por George Méliès (que
depois ainda realizou mais uns 250).

8.6.07

O odor do sangue



Carlo (Michele Placido), escritor e jornalista, tem uma amante, Lu (Giovanna Giuliani), com quem vai frequentemente para a sua casa de campo, às claras, com o conhecimento da sua mulher, Silvia (Fanny Ardant), que é assim deixada sozinha na sua bela casa de Roma. Ela também terá amantes ocasionais, e ele aprova-o: só assim é possível manter o casamento, longe das convenções pequeno-burguesas. Mas um dia ela conta-lhe que um rapaz muito mais jovem, um rufia, a seduziu e a persegue, a atrai. Carlo aí não gosta (apesar de a sua amante ser também bastante mais nova) e manda às malvas as suas teorias sobre relações livres, que lhe parecem agora artificiais e de um idealismo absurdo.
Estando estes dados lançados, parece que estamos em território conhecido: a análise comportamental e amorosa da alta burguesia, não longe, por exemplo, de um Antonioni. Mas rapidamente percebemos que o filme vai (também) noutra direcção, quando começamos a suspeitar que nem tudo o que Silvia diz é verdade e quando começamos a ver que Carlo ouve aquilo que deseja, que a sua obsessão com o romance da mulher se confunde com masoquismo. Que o que está em jogo são desejos e pulsões mais fortes que um simples jogo de salão entre um casal sofisticado.
Sendo, digo-o já, um filme muito interessante, Mario Martone (encenador e realizador, por esta ordem), não consegue porém desenvolver todas as potencialidades cinematográficas deste argumento. Não é só o facto de por vezes haver um excesso de decorativismo, de busca do plano perfeito; também a narrativa pedia mão mais firme. Tanto se perde um pouco entre as 3 personagens (Lu parece que vai sendo abandonada pelo realizador, tanto como por Carlo), como é excessivamente explicativa, demonstrativa. Martone tem, no entanto, o engenho de nos oferecer um final enigmático e aberto.
Tudo somado, 'O odor do Sangue', com o seu erotismo, a sua vontade de arriscar, a sua diferença, é um filme que vale bem a pena descobrir. Pena que seja o primeiro do realizador italiano a estrear por cá, mas isso é outra conversa...
L`Odore del Sangue, França/Itália, 2004. Realização: Mario Martone. Com: Michele Placido, Fanny Ardant, Giovanna Giuliani, Sergio Tramonti, Italo Spinelli, Norman Mozzato.

6.6.07

Silent Era


Uma vez que este blogue ultimamente mais parece um florilégio (bela palavra) de tops e listas variadas, vou abusar da paciência de quem ainda está para me aturar e postar aqui mais um top: o dos 10 melhores filmes mudos, segundo os leitores do site Silent Era. Eles são:


1.
The General, Buster Keaton e Clyde Bruckman, USA, 1926
2.
Metropolis, Fritz Lang, Alemanha, 1927
3.
Sunrise, F.W. Murnau, USA, 1927
4.
City Lights, Charles Chaplin, USA, 1931
5.
Nosferatu, F.W. Murnau, Alemanha, 1922
6.
The Gold Rush, Charles Chaplin, USA, 1925
7.
La Passion et la Mort de Jeanne d’Arc, Carl Th. Dreyer, França, 1928
8.
Das Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, Alemanha, 1920
9.
Bronenosets ‘Potyomkin’, Sergei M. Eisenstein, URSS, 1920
10.
Greed, Erich von Stroheim, USA, 1924


Destes 10 só nunca vi 'Greed' /'Aves de rapina', de Von Stroheim, e penso que algo do género se passará com a maioria dos leitores (do top 100 terei visto cerca de um quarto). Pelo menos já toda a gente terá ouvido falar da maioria deles, o que de certa maneira não deixa de ser surpreendente e mostra a perenidade do género. Aliás uma prova de que o interesse se mantém, é o número cada vez maior de filmes mudos que vão sendo editados em dvd (há que ter presente, no entanto, que só temos acesso a um pequeno número deles, pois não era invulgar, na altura dos filmes de 2 bobinas, um realizador dirigir dezenas de filmes num ano - no IMDB são creditados uns 60 filmes a Griffith só em 1912...).

E, já agora, na nossa 'secção' 10 filmes da vida de... foram até à data citados 5 filmes mudos: 'Metropolis', de Lang (2 vezes), 'Aurora' e 'Fausto', de Murnau , 'As luzes da cidade' de Chaplin e 'Limite', de Mário Peixoto (um clássico Brasileiro que eu nunca tive oportunidade de ver, escolhido pelo Sérgio).

5.6.07

10 filmes da vida de...

...Rui Gonçalves, autor do sazonal blog esponja e colaborador (em prolongada sabática) cá da casa.



Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971), porque tem a mesma idade que eu.

Um Coração Selvagem (David Lynch, 1990), porque usar um casaco feito de pele de cobra sem parecer ridículo não é para todos.

Nova Iorque Fora de Horas (Martin Scorsese, 1985), porque me dá a oportunidade única na vida de escrever Papier-mâché.

Drugstore Cowboy (Gus Van Sant, 1989), porque nunca mais vi uma junkie tão cool como a Kelly Lynch.

Nem Guerra Nem Paz (Woody Allen, 1975), por causa do meu tio Boris e porque gosto de Borscht.

O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela (Peter Greenaway, 1989), conheço pelo menos uma pessoa que foi ver o filme porque “pelo título pensava que era uma comédia para desanuviar”.

Que fiz eu para merecer isto? (Pedro Almodóver, 1984), porque tenho saudades das Madalenas da minha avó e de cortar o rabo às sardaniscas.

A Corda (Alfred Hitchcock, 1948), porque deve ter saído barato.

Metropolis (Fritz Lang, 1927), porque vi este filme numa discoteca decadente em Espanha enquanto o dj passava Reggaeton.

Heidi (?)/ Os Robinsons (Stephen J. Anderson, 2007), porque foram o primeiro/último filme que vi numa sala de cinema.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a H.

2.6.07

Filmes do mês

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês passado. Classificação de 0 a 10.



A greve, Sergei Eisenstein, 1925 (10)
Meet me in St.Louis, Vincente Minnelli, 1944 (10)
The Killing, Stanley Kubrick, 1956 (8,5)
The Hustler, Robert Rossen, 1961 (10)
Harari!, Howard Hawks, 1962 (8,5)
Carinival of souls, Herk Harvey, 1962 (8)
Harold and Maude, Hal Ashby, 1971 (8,5)
THX 1138, George Lucas, 1971 (6)
Juste avant la nuit, Claude Chabrol, 1971 (8,5)
Suspiria, Dario Argento, 1977 (7)
Identificação de uma mulher, Michelangelo Antonioni, 1982 (9,5)
Imperdoável, Clint Eastwood, 1992 (10)
Assassina nua, Clarence Fok Yiu-Leung, 1993 (6)
O emprego do tempo, Laurent Cantet, 2001 (8,5)
Antes que o tempo mude, Luis Fonseca, 2003 (7,5)
Kill Bill: Vol.1, Quentin Tarantino, 2003 (9)
Brick, Rian Johnson, 2005 (8)
Venus, Roger Michell, 2006
Shortbus, John Cameron Mitchell, 2006
Climas, Nuri Bilge Ceylan, 2006
O último rei da Escócia, Kevin Macdonald, 2006
Quebra de confiança, Billy Ray, 2007
Zodiac, David Fincher, 2007
Piratas das Caríbas: nos confins do mundo, Gore Verbinski, 2007

Destaque: Depois de ter estado na 'lista negra' nos anos 50, Robert Rossen realizou duas obras-primas na década de 60: 'Lilith' e 'The Hustler'. Tal como Lilith, a Sarah Packard (Piper Laurie) de 'the Hustler' é uma das mais intrigantes figuras femininas da história do cinema.

Surpresa: 'Brick' tem sido, muito apropriadamente, descrito como um film noir passado num liceu americano. Um grande filme que me passou ao lado o ano passado.

Cromo: 'Assassina nua'! O nome diz quase tudo... Mais um descendente da longa tradição da 'exploitation' oriental, com bandos de raparigas assassinas. Só para fãs do género, claro.

31.5.07

O emprego do tempo



O affair Romand é um daqueles casos fascinantes em que a realidade ultrapassa a ficção.
No dia 9 de Janeiro de 1993, Jean-Claude Romand, um respeitável pai de família, médico na OMS, matou a tiro a mulher, os 2 filhos e os pais, tendo em seguida tentado suicidar-se. Quando as autoridades começaram a investigar o caso, descobriram que toda a vida deste homem era uma gigantesca e inacreditável farsa: não era médico (nunca chegou a acabar o curso) e não trabalhava na OMS nem em qualquer outro lado: pura e simplesmente passava os dias em parques de estacionamento ou a deambular de um lado para o outro... Sobre o pretexto de investir o dinheiro em Genebra, recebia dinheiro do sogro e depois da amante, e era assim que sustentava a família, que não suspeitava de nada (nem sequer a mulher). Quando a situação se tornou insustentável e estava prestes a ser desmascarado (depois de quase 2 décadas de logro!), levou então a cabo toda esta mortandade.

Baseando-se nas investigações sobre este caso e na correspondência trocada com Romand, entretanto a cumprir pena de prisão perpétua após a gorada tentativa de suicídio, o escritor, argumentista e realizador Emmanuel Carrère escreveu um livro fascinante, uma espécie de 'romance de não ficção' a la Capote, intitulado ‘O adversário’. Em 2002 surgiu o filme homónimo de Nicole Garcia, muito fiel ao livro, e que proporcionou uma espantosa interpretação a Daniel Auteuil, no papel do melancólico e ausente Jean-Claude.

Mas o primeiro filme a basear-se neste caso foi ‘O emprego do tempo’, de 2001, que é na realidade uma variação do tema. É muito menos fiel aos factos reais (a personagem não é um médico e o final da história é completamente diferente, deixando algo perplexo quem a conhece), mas paradoxalmente, se não o soubéssemos, considerá-lo-íamos mais verosímil. Enquanto em 'O adversário' Romand vive toda a sua vida adulta na mentira, sem saber muito bem porquê (contou que uma vez, na faculdade, faltou a um exame e disse depois que tinha passado; a partir daí nunca mais voltou à 'realidade'), neste filme a questão é pegada de outra forma. Vincent é despedido e não quer ou não tem coragem de o contar à mulher. Diz então que se despediu e arranjou outro emprego. Nos meses que se seguem percorre a trajectória que conhecemos: os dias vazios, o alheamento, a mentira, os pequenos embaraços e humilhações a que vai sendo sujeito.

Cantet transpõe perfeitamente esta história para o seu universo (é também o autor de 'Recursos humanos', que faz par com 'O emprego do tempo' na edição da Atalanta) e, não obstante já ter lido o livro de Carrère e visto o filme de Garcia, senti-me outra vez invadido pela estranha melancolia que esta personagem uma vez mais inspira. Nunca ficamos indiferentes perante pessoas que passaram para o outro lado, que um dia deixam de se sentir integradas na máquina.
L'Emploi du temps, França, 2001. Realizador: Laurent Cantet. Com: Aurélien Recoing, Karin Viard, Serge Livrozet, Monique Mangeot.

30.5.07

Piratas das Caraíbas: nos confins do mundo


(tentei, mas não consegui, arranjar uma foto da única cena interessante do filme: um monólogo de Johnny Depp, acompanhado apenas do seu galeão, numa paisagem toda branca, literalmente no meio do nada; um insólito momento de beleza teatral no meio deste desenho animado)

E mais uma vez se confirma a velha máxima das sequelas: é sempre a descer.
Pirates of the Caribbean: At World´s End, E.UA., 2007. Realização: Gore Verbinski. Com: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Chow Yun-Fat, Bill Nighy, Jonathan Pryce, Keith Richard.

29.5.07

10 filmes da vida de...

...atomo!, Designer de Multimédia e Ilustrador, 32 anos, com uma curiosidade cinéfila levada à obsessão, editor do Bitlogger.

Uma selecção destas é sempre injusta e quase nunca reflecte o que vou vendo actualmente e não inclui inúmeras obras que aprecio de forma apaixonada. Mais do que fazer uma selecção coerente e que reflecte quaisquer géneros que prefira, escolhi estes 10 favoritos (sem qualquer ordem de preferência) de uma lista de mais de 50 ‘essenciais pessoais’ que me causa amargura de também não caberem aqui.

Como nota de rodapé, gostaria também de dizer que nestes dez filmes também a banda sonora teve uma importância grande na escolha e, já agora, que a linguagem algo pontuada por conceitos ‘psicanaliticos’ não foi intencional (embora seja estranha).



Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)
Seria fácil incluir na lista qualquer dos ‘filmes americanos’ de Hitch, mas optei por este devido às constantes revisitações obsecadas. Para além de qualquer interesse na narrativa imediata de Vertigo, retenho mais aqui os constantes jogos sádicos a que Hitch submete o espectador (e claro as suas personagens) e sobretudo as pulsões interiores que são taboos e que poucas vezes foram mostradas desta forma no Cinema, subtis mas inquietantemente presentes.

Carnival of Souls (Herk Harvey, 1962)
Harvey, com uma carreira pouco extensa e muito dedicada ao chamado cinema efémero, recicla aqui toda a extensa e gigantesca herança que o Expressionismo imprimiu no Cinema Americano (e que ainda se continua a sentir, em bons e maus exemplos) e do chamado American Gothic para criar um filme inovador e que ainda hoje causa arrepios.
Todos os pormenores da 'alma perdida' que protagoniza o filme, dos gestos mais quotidianos à pura alienação mortal, fazem deste filme um dos mais hipnóticos exemplos do cinema (dito) fantástico, que me atrai sobretudo devido à mestria técnica de Harvey, que nunca precisa de recorrer a efeitos especiais elaborados para fazer o espectador cair em transe.

À Bout de Souffle (Jean-Luc Godard, 1960)
De certa forma uma reflecção sobre o Film Noir (poucos são ainda os estudiosos que injustamente atribuem a vital importância ao filme criminal francês do pré-II Guerra Mundial no género), o Acossado é também aquilo que mais gosto no Godard dos 60s: um permanente voyerismo pela geração da nouveaux Paris (mais nova do a do mestre) e a desculpa de filmar uma história para referenciar (e ‘reverenciar’) as inúmeras referências culturais e pop de uma geração de teóricos.

Sayat Nova (aka Colour of Pomegranate, Sergei Parajanov, 1968)
Contando a história do trovador e poeta arménio do século XVIII, Parajanov construiu um dos filmes mais estilizados e artisticamente precisos que há memória em toda a história do Cinema (desculpem o pedantismo).
Cada frame deste filme é uma obra de arte que oferece ao espectador não a narrativa 'realista' da vida de Sayat Nova (que estava na intenção do Regime Soviético quando contractou Parajanov para tal), mas o simbolismo poético que compõem uma biografia. Pura poesia visual.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (Russ Meyer, 1965)
Este deve ser o mais singular filme de Meyer, aquele onde as suas avantajadas vixens, sempre representadas através do desejo masculino, se tornam aqui no próprio gerador desse mesmo ‘objecto’ desejado, num ‘jogo de espelhos’ que revela as pulsões masculinas mais primais.

Tentando desculpar-me desta descrição algo barroca, em Faster Pussycat!, para lá do aço dos automóveis (sempre um símbolo fálico e simultaneamente americano) e da carne abundante das personagens femininas, fica um excitante retrato de uma violência caricatural quase indomável, presente na personagem de Varla (a actriz de culto Tura Satana), que tem o seu apogeu nos 70s e que agora serve de ‘muleta’ a todos estes recentes revivalismos dos clássicos dos filmes de grind house.

Scorpio Rising (Kenneth Anger, 1964)
Um dos filmes mais ambíguos do cinema independente americano (e também um dos que mais amores e ódios gerou), Scorpio Rising é a minha obra favorita de Anger, sobretudo pela forma como consegue criar uma imagem icónica, recriando todo o sentido do termo cultura pop americana e sobretudo o que era de facto rebeldia visual, e que agora é apenas um cliché camp.

Usando técnicas (e um formato) cinematográficas apenas repetidas muito mais tarde com a ascensão do videoclip musical (já nos 80s), Scorpio Rising, na sua curta meia hora de duração, é uma espantosa reflecção sobre a cultura popular americana, sempre presente nos chamados biker films. Usando as mesmas pulsões que The Wild One (László Benedek, 1953), Anger entrega aqui uma despudorada visão sobre um dos mitos heróicos americanos, criando um espantoso catálogo de fetichismos cinematográficos (e outros).

Lost Highway (David Lynch, 1997)
Com a invocação de Meshes in the Afternoon (Maya Deren, 1943... outro que ficou de fora), Lynch começa aqui a sua final consolidação de uma linguagem visual em ‘camadas’ e elipses narrativas (a chegar a um excelente e ‘barroco’ amadurecimento), pegando no Cinema Clássico para criar o que será (e já é) a nova forma de narrativa visual, consolidada com Mulholland Drive e Inland Empire.

One, Two, Three (Billy Wilder, 1961)
Não existe um único filme de Wilder que não devesse estar nesta lista. Para evitar citar The Seven Year Itch, Sunset Blvd., Double Indemnity ou The Apartment, todos escolhas 'fáceis' de justificar (são favoritos desde o final da infância), escolhi este fabuloso e corajoso exercício de sarcasmo com um sentido visionário sobre o que estava a passar na Berlim dividida após a II Grande Guerra. Como em quase todos os filmes de Wilder, nunca as palavras foram tão cortantes, nesta estranha fábula multinacional, onde o slapstick verbal asume contornos quase perigosos. Tal como na altura da estreia este é ainda o mais ‘incómodo’ filme de Wilder, como aqueles que estava presentes numa célebre exibição da versão uncut deste filme na Cinemateca Portuguesa aqui a uns anos se lembram, com uma estranha batalha verbal entre várias facções (não só cinéfilas) na plateia.

Yojimbo (Akira Kurosawa, 1961)
Mais ‘modesto’ que a obra-prima Sete Samurais (será?) Yojimbo é uma das obras mais completas que me lembro. Temos um realismo que não tem vergonha de mostrar comédia e a tragédia humana, o anti heroismo marcadamente ‘Kurosawiano’, um icon do ‘novo’ western (Mifune) e a continuação do quebrar com o passado imperialista japonês, com a sua humanização dos heróis e uma desacralização dos simbolos. Tecnicamente, como qualquer filme de Kurosawa nos 50s e 60s este filme é também um catálogo soberbo de inovações filmicas, que dá um gozo especial ver (e ouvir).

Laura (Otto Preminger, 1944)
Tal como Vertigo, aqui Preminger (outro autor fetichista), conta um estranho conto de necrofilia, onde todas as palavras, gestos e objectos parecem ter duplos sentidos. Conduzidos pela magnífica e ácida personagem Waldo Lydecker (uma das minhas personagens favoritas de sempre), somos levados por uma estranha viagem voyerista de pulsões freudianas onde a personagem do título, com o estranho nome de Laura Hunt (a espantosa Gene Tierney) faz revelar os cantos mais escondidos e estranhos do desejo humano e onde as máscaras psicológicas possuem vida própria.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é esponja, aka Allen Douglas.

27.5.07

O último rei da Escócia



O grande Forest Whitaker é motivo suficiente para me levar ao cinema, de modo que aproveitei a vinda tardia deste filme a uma sala próxima para finalmente o ver. Whitaker tem de facto mais uma grande presença, mas "O último rei da Escócia" tem mais motivos de interesse. Gostei especialmente do modo como anda à volta do lado sombrio de Idi Amin, começando por mostrar o seu lado sedutor e magnetizante, e só pouco a pouco nos ir revelando o seu verdadeiro eu, primeiro as suas excentricidades, as suas inconstâncias, a sua infantilidade, e só depois, finalmente, a sua loucura e malignidade. É muito inteligente esta forma como o argumento está construído, dando ao espectador o ponto de vista do ingénuo e algo leviano Dr.Garrigan (um dos argumentistas é Peter Morgan, o mesmo de 'A Rainha').
O documentarista Kevin Macdonald (neto de Emeric Pressburger), estreia-se assim da melhor maneira na ficção, não obstante algum excesso de poluição sonora, um mal comum nos filmes passados em África, em que os realizadores teimam em carregar na banda sonora.
E o título, um verdadeiro achado, é desde já candidato a melhor do ano,
The Last King of Scotland, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Kevin Macdonald. Com: James McAvoy, Forest Whitaker, Kerry Washington, Gillian Anderson, Simon McBurney.

26.5.07

John Wayne



Se me perguntarem pelos actores da minha vida, John Wayne, que nasceu faz hoje 100 anos, não será um dos primeiros nomes que me ocorrerá.
Mas a verdade é que num certo tipo de papeis foi o maior, e teve a sorte ou o engenho de ser dirigido por alguns dos melhores (Ford e Hawks, claro, mas também DeMille e Nick Ray entre muitos outros).

Não é por acaso que está em 2 dos 10 filmes da minha vida.