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19.6.07

Ruptura



'Ruptura' é um thriller feito como deve ser, com nervo, suspense e um argumento absorvente até ao fim.
Se isto já não é pouco, o que o eleva definitivamente a uma muito boa surpresa é o duelo, mais do que entre as respectivas personagens, entre os actores: Anthony Hopkins versus Ryan Gosling. O primeiro ainda não anda em piloto automático, como já foi dito, mas é verdade que faz um pouco de Hannibal outra vez (diga-se em abono da verdade, que a culpa também é da personagem que tem). Gosling ganha assim naturalmente a contenda e confirma, depois de Half Nelson, que é o actor do momento.
Fracture, E.U.A., 2007. Realização: Gregory Hoblit. Com: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke.

18.6.07

Lady Chatterley



Pascale Ferran evita duas armadilhas óbvias nesta sua adaptação do romance de D.H.Lawrence. A primeira, a de cair naquele estilo a que se convencionou chamar 'academismo', e que as adaptações de 'grandes romances' costumam atrair como o mel as moscas. Fá-lo, desde logo, usando uma arma poderosa: a fotografia, granulosa, rugosa, mas cheia de vida, que afasta definitivamente qualquer tom de telefilme. Depois o jogo com o tempo, a atenção ao que está para lá das peripécias: os longos passeios de Lady Chatterley pelos bosques, o seu embrenhar pela natureza, vão-nos dando de modo indirecto uma medida da sua personalidade, com um vagar pouco usual. A segunda armadilha era a de cair num erotismo fácil, ou de tentar transpor o efeito de escândalo do livro. Ferram vai por outro lado, e embora não fuja ao erotismo, este é-nos transmitido de uma forma cândida, até ingénua, aproximando-se quase da história de dois adolescentes que vão descobrindo pouco a pouco o seu corpo e o do amante, que se vão iniciando nos jogos do amor.
Como tantas vezes acontece, no entanto, as fraquezas do filme derivam das suas virtudes. Os longos 168 minutos do filme são excessivos, e este por vezes torna-se fastidioso e divagante, enveredando por cenas desnecessárias (como por exemplo o longo episódio 'simbólico' da cadeira empenada de Clifford) e repetitivas (toda aquela ideia recorrente da comunhão entre as personagens e a natureza). E, não obstante a bravura de Marina Hands (excelente papel!), quer a sua personagem, quer mesmo todo o ambiente do filme, se aproximam perigosamente de uma candura quase simplista e naif.
Fica, assim, um filme estimável e até simpático, mas não mais do que isso.
Lady Chatterley, França, 2006. Realização: Pascale Ferran. Com: Marina Hands, Jean Louis Coullo´ch, Hippolyte Girardot, Hélène Alexandridis, Hélène Fillières.

16.6.07

Compras em saldos



3,90€ no Feira Nova.

(a edição não é esta, mas a de uma colecção 'Marylin Monroe-80º aniversário', de que em tempos comprei também 'Os homens preferem as loiras' a 7 ou 8 euros)

14.6.07

Ocean´s 13



A questão que se punha quanto a 'Ocean´s 13' era: iria Soderbergh repetir o pastiche pretensioso e bocejante do Twelve, ou voltaria ao divertimento inteligente e sofisticado do Eleven? Felizmente optou pela segunda hipótese, e o filme vê-se muítissimo bem.
Claro que se pode sempre perguntar qual a necessidade de voltar ao tema, mas é o mesmo que perguntar qual é a necessidade de se irem fazendo novos 007. Enquanto o requinte se mantiver e o nível estiver uns furos acima do universo dos filmes-pipoca, não serei eu a queixar-me...
Ocean`s Thirteen, E.U.A., 2007. Realização: Steven Soderbergh. Com: George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia, Don Cheadle, Bernie Mac, Al Pacino, Ellen Barkin, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Elliott Gould, Shaobo Qin, Eddie Izzard, David Paymer, Vincent Cassel, Julian Sands

12.6.07

10 filmes da vida de...

...Helena, aka H., 21 anos, estudante de História com sonhos de letras e um amor incontrolável por Cinema. Autora do blogue As Imagens Primeiro.


Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray
A obra mais pura e imortal sobre a juventude, que tanto pode pertencer apenas aos EUA dos 50s como ao mundo de hoje. A inocência dos marginais de Nick Ray é das coisas mais bonitas que o cinema me mostrou, essa fome de viver sem saber como, esse desejo de sentir sem se conhecer as regras sociais que sempre constrangem, esse confronto permanente com a rejeição e a morte mas ao mesmo tempo essa efémera possibilidade de encontrar a perfeição no imperfeito mundo real (simbolizada no refúgio de Jim, Judy e Plato na casa vazia)... Pode soar cliché mas os filmes de Nick Ray deram-me uma estranha forma de compreensão. E depois, naturalmente, há James Dean, anjo, mito, homem – inigualável.

The Misfits (1961), de John Huston
Filme de uma beleza avassaladora, é também um filme de anunciação da morte. Não só a de Marilyn e de Gable, que não mais apareceriam no ecrã em novos filmes, mas também a de um mundo, o da liberdade selvagem que a personagem de Gable personifica. Todo o filme é um hino ao tempo condenado, aos instantes de real que vidas gastas aproveitam em peculiares empatias. Os diálogos de Arthur Miller são qualquer coisa de magnífico.

Une Femme Est Une Femme (1961) / Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard
Dos dois não consigo optar por um. Um mais feliz, outro mais sombrio, estes filmes são autênticas declarações de amor, que bem pode ser definido pela forma como a câmara de Godard capta o rosto de Anna Karina. Obras sobre uma mulher (“a” mulher), a maneira como se encontra e se perde. Impossível não sorrir e chorar com elas, com a explosão de entusiasmo que o Godard me costuma provocar em alguns momentos.

Hiroshima Mon Amour (1959), de Alain Resnais
A imagem excelsa de Resnais e a palavra radical de Duras num filme sobre o peso da memória e, sobretudo, o terror do inevitável esquecimento. Um filme sobre o amor maior, sobre a sociedade que o não aceita, mas também sobre a História, as suas cicatrizes e as marcas indeléveis do que nos formou enquanto seres conscientes de nós.

The Dreamers (2003), de Bernardo Bertolucci
É inevitável não falar neste filme quando me refiro aos “meus filmes”. É um filme de amor ao cinema, de amor ao amor e de amor à liberdade passado numa época que muito me fascina, o Maio de 68 em França. Obra de poesia bruta, sobre seres que se encontram e se complementam em experiências motivadas e exploradas pelo cinema, fazendo de si próprios personagens até já não mais saberem quem são na realidade. A minha ligação a este filme é muito forte e inexplicável, um misto de identificação e fantasia.

Citizen Kane (1941), de Orson Welles
Foi o filme “antigo” com que descobri o cinema “antigo”. Tinha uns 15 anos e senti que estava perante algo que me ultrapassava, mas que me fascinava de forma única. Revi-o depois várias vezes e a admiração por ele só cresceu. E pensar que Welles tinha só 26 anos quando fez esta obra-prima...

Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola
Um dos, senão mesmo o filme mais influente da minha geração. Duas almas gémeas que se encontram no limiar da descrença, quando já haviam desistido de uma ideia de completude. Provavelmente das histórias de amor mais comoventes do cinema sem nunca por nunca cair na lamechice. Sofia Coppola vai evidenciando mais pela imagem que pela palavra o retrato interior das suas personagens. Para sempre fica a visão de Bill Murray a acariciar os pés de Scarlett Johansson murmurando-lhe que ainda há esperança para ela.

City Girl (1930), de F. W. Murnau
Podia ter escolhido Aurora, a obra que me revelou esse mestre máximo que é Murnau, e que igualmente venero. City Girl é, tal como Aurora, um filme que mostra fé nas pessoas, mesmo quando elas se fazem sentir rudes e más. Gosto muito da rapariga da cidade do título, uma solitária citadina que vai para casa limpar o pó das flores de plástico e ouvir o pássaro de brinquedo – imagens que são tão pungentes para 1930 como o são agora – e que lutará pelo homem do campo que ama mas cujo pai a despreza. Há uma sequência nos campos entre os dois enamorados que deve ter feito “genealogia” até Match Point...

Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha
O filme que me ensinou como o cinema português pode ser perfeito. Retrato da Lisboa cidade dos 60s, de pessoas que a habitaram, da timidez do amor e da ferocidade do mistério humano. Aquela música de Carlos Paredes e aquela canção que é cantada enquanto Júlio dança com Ilda provocam-me arrepios. Como muitas das minhas obras de eleição, é também sobre a juventude que se vai esvanecendo. “Eram enganos e era um medo / A morte a rir / Dos nossos verdes anos...”.

The New World (2005), de Terrence Malick
Se exceptuar o abalo sensorial provocado pelo filme de Jesper Ganslandt na última edição do Indie Lisboa, The New World é sem dúvida o filme dos últimos anos que mais me arrebatou. Terrence Malick é um poeta da imagem, e lega-nos aqui um hino à natureza, ao significado de lar, à evidência da pertença – a uma terra e a um outro ser – ao milagre da união total. É um filme que tem tanto de absolutamente belo como de triste, pois Malick mostra-nos uma hipótese de convivência, uma ideia de paraíso que o homem conspurcou e destruiu. Acima de tudo, a figura magnética de Pocahontas, a minha heroína de fim de infância, que reencontrei e redescobri e me mostrou como existe tanta coisa quando nos abandonados ao sentir – sentir proporcionado de forma única em frente ao ecrã de uma sala de cinema.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a S.B.

9.6.07

400º




O famosíssimo 'Le Voyage dans la lune', um dos filmes pioneiros da
ficção cientifica, foi o 400º filme realizado por George Méliès (que
depois ainda realizou mais uns 250).

8.6.07

O odor do sangue



Carlo (Michele Placido), escritor e jornalista, tem uma amante, Lu (Giovanna Giuliani), com quem vai frequentemente para a sua casa de campo, às claras, com o conhecimento da sua mulher, Silvia (Fanny Ardant), que é assim deixada sozinha na sua bela casa de Roma. Ela também terá amantes ocasionais, e ele aprova-o: só assim é possível manter o casamento, longe das convenções pequeno-burguesas. Mas um dia ela conta-lhe que um rapaz muito mais jovem, um rufia, a seduziu e a persegue, a atrai. Carlo aí não gosta (apesar de a sua amante ser também bastante mais nova) e manda às malvas as suas teorias sobre relações livres, que lhe parecem agora artificiais e de um idealismo absurdo.
Estando estes dados lançados, parece que estamos em território conhecido: a análise comportamental e amorosa da alta burguesia, não longe, por exemplo, de um Antonioni. Mas rapidamente percebemos que o filme vai (também) noutra direcção, quando começamos a suspeitar que nem tudo o que Silvia diz é verdade e quando começamos a ver que Carlo ouve aquilo que deseja, que a sua obsessão com o romance da mulher se confunde com masoquismo. Que o que está em jogo são desejos e pulsões mais fortes que um simples jogo de salão entre um casal sofisticado.
Sendo, digo-o já, um filme muito interessante, Mario Martone (encenador e realizador, por esta ordem), não consegue porém desenvolver todas as potencialidades cinematográficas deste argumento. Não é só o facto de por vezes haver um excesso de decorativismo, de busca do plano perfeito; também a narrativa pedia mão mais firme. Tanto se perde um pouco entre as 3 personagens (Lu parece que vai sendo abandonada pelo realizador, tanto como por Carlo), como é excessivamente explicativa, demonstrativa. Martone tem, no entanto, o engenho de nos oferecer um final enigmático e aberto.
Tudo somado, 'O odor do Sangue', com o seu erotismo, a sua vontade de arriscar, a sua diferença, é um filme que vale bem a pena descobrir. Pena que seja o primeiro do realizador italiano a estrear por cá, mas isso é outra conversa...
L`Odore del Sangue, França/Itália, 2004. Realização: Mario Martone. Com: Michele Placido, Fanny Ardant, Giovanna Giuliani, Sergio Tramonti, Italo Spinelli, Norman Mozzato.

6.6.07

Silent Era


Uma vez que este blogue ultimamente mais parece um florilégio (bela palavra) de tops e listas variadas, vou abusar da paciência de quem ainda está para me aturar e postar aqui mais um top: o dos 10 melhores filmes mudos, segundo os leitores do site Silent Era. Eles são:


1.
The General, Buster Keaton e Clyde Bruckman, USA, 1926
2.
Metropolis, Fritz Lang, Alemanha, 1927
3.
Sunrise, F.W. Murnau, USA, 1927
4.
City Lights, Charles Chaplin, USA, 1931
5.
Nosferatu, F.W. Murnau, Alemanha, 1922
6.
The Gold Rush, Charles Chaplin, USA, 1925
7.
La Passion et la Mort de Jeanne d’Arc, Carl Th. Dreyer, França, 1928
8.
Das Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene, Alemanha, 1920
9.
Bronenosets ‘Potyomkin’, Sergei M. Eisenstein, URSS, 1920
10.
Greed, Erich von Stroheim, USA, 1924


Destes 10 só nunca vi 'Greed' /'Aves de rapina', de Von Stroheim, e penso que algo do género se passará com a maioria dos leitores (do top 100 terei visto cerca de um quarto). Pelo menos já toda a gente terá ouvido falar da maioria deles, o que de certa maneira não deixa de ser surpreendente e mostra a perenidade do género. Aliás uma prova de que o interesse se mantém, é o número cada vez maior de filmes mudos que vão sendo editados em dvd (há que ter presente, no entanto, que só temos acesso a um pequeno número deles, pois não era invulgar, na altura dos filmes de 2 bobinas, um realizador dirigir dezenas de filmes num ano - no IMDB são creditados uns 60 filmes a Griffith só em 1912...).

E, já agora, na nossa 'secção' 10 filmes da vida de... foram até à data citados 5 filmes mudos: 'Metropolis', de Lang (2 vezes), 'Aurora' e 'Fausto', de Murnau , 'As luzes da cidade' de Chaplin e 'Limite', de Mário Peixoto (um clássico Brasileiro que eu nunca tive oportunidade de ver, escolhido pelo Sérgio).

5.6.07

10 filmes da vida de...

...Rui Gonçalves, autor do sazonal blog esponja e colaborador (em prolongada sabática) cá da casa.



Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971), porque tem a mesma idade que eu.

Um Coração Selvagem (David Lynch, 1990), porque usar um casaco feito de pele de cobra sem parecer ridículo não é para todos.

Nova Iorque Fora de Horas (Martin Scorsese, 1985), porque me dá a oportunidade única na vida de escrever Papier-mâché.

Drugstore Cowboy (Gus Van Sant, 1989), porque nunca mais vi uma junkie tão cool como a Kelly Lynch.

Nem Guerra Nem Paz (Woody Allen, 1975), por causa do meu tio Boris e porque gosto de Borscht.

O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela (Peter Greenaway, 1989), conheço pelo menos uma pessoa que foi ver o filme porque “pelo título pensava que era uma comédia para desanuviar”.

Que fiz eu para merecer isto? (Pedro Almodóver, 1984), porque tenho saudades das Madalenas da minha avó e de cortar o rabo às sardaniscas.

A Corda (Alfred Hitchcock, 1948), porque deve ter saído barato.

Metropolis (Fritz Lang, 1927), porque vi este filme numa discoteca decadente em Espanha enquanto o dj passava Reggaeton.

Heidi (?)/ Os Robinsons (Stephen J. Anderson, 2007), porque foram o primeiro/último filme que vi numa sala de cinema.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a H.

2.6.07

Filmes do mês

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês passado. Classificação de 0 a 10.



A greve, Sergei Eisenstein, 1925 (10)
Meet me in St.Louis, Vincente Minnelli, 1944 (10)
The Killing, Stanley Kubrick, 1956 (8,5)
The Hustler, Robert Rossen, 1961 (10)
Harari!, Howard Hawks, 1962 (8,5)
Carinival of souls, Herk Harvey, 1962 (8)
Harold and Maude, Hal Ashby, 1971 (8,5)
THX 1138, George Lucas, 1971 (6)
Juste avant la nuit, Claude Chabrol, 1971 (8,5)
Suspiria, Dario Argento, 1977 (7)
Identificação de uma mulher, Michelangelo Antonioni, 1982 (9,5)
Imperdoável, Clint Eastwood, 1992 (10)
Assassina nua, Clarence Fok Yiu-Leung, 1993 (6)
O emprego do tempo, Laurent Cantet, 2001 (8,5)
Antes que o tempo mude, Luis Fonseca, 2003 (7,5)
Kill Bill: Vol.1, Quentin Tarantino, 2003 (9)
Brick, Rian Johnson, 2005 (8)
Venus, Roger Michell, 2006
Shortbus, John Cameron Mitchell, 2006
Climas, Nuri Bilge Ceylan, 2006
O último rei da Escócia, Kevin Macdonald, 2006
Quebra de confiança, Billy Ray, 2007
Zodiac, David Fincher, 2007
Piratas das Caríbas: nos confins do mundo, Gore Verbinski, 2007

Destaque: Depois de ter estado na 'lista negra' nos anos 50, Robert Rossen realizou duas obras-primas na década de 60: 'Lilith' e 'The Hustler'. Tal como Lilith, a Sarah Packard (Piper Laurie) de 'the Hustler' é uma das mais intrigantes figuras femininas da história do cinema.

Surpresa: 'Brick' tem sido, muito apropriadamente, descrito como um film noir passado num liceu americano. Um grande filme que me passou ao lado o ano passado.

Cromo: 'Assassina nua'! O nome diz quase tudo... Mais um descendente da longa tradição da 'exploitation' oriental, com bandos de raparigas assassinas. Só para fãs do género, claro.