Recent Posts

18.9.07

Top anos 50



No novo blogue da Liga, já está o ranking dos anos 50. 'Sunset Boulevard' ganhou por um pontinho a 'Vertigo' e 'Singin' in the Rain' fechou o pódio. Lista completa aqui, com os devidos comentários a acompanhar.

16.9.07

2 dias em Paris



Uma divertida e certeira comédia em que se vai desconstruindo a relação de um casal em férias, enquanto se brinca com uma data de clichés sobre franceses (a nacionalidade dela) e americanos (a dele). E não obstante praticamente todas as personagens do filme serem bastante irritantes, exibindo patologias que vão da hipocondria ao quase histerismo, não deixamos de simpatizar com elas, da mesma maneira que simpatizamos com os neuróticos maníacos mas muito humanos de Woody Allen (e Allen é uma das muitas citações cinéfilas do filme, a começar, claro, pela auto-citação de Delpy à sua personagem em 'Before Sunset' e 'Before Sunrise').
Filme de actores, com argumento inteligente, que se aventura com à vontade nos difíceis terrenos da comédia de costumes, é uma bela estreia na realização de Julie Delpy.

PS: Já foi aqui referida a pérola de 'tradução' do ano: diz o protagonista “I watched M until four in the morning” – M, filme de Fritz Lang de que é inclusive mostrado um excerto. Tradução: “Estive a ver a MTV até às 4 da manhã”. Comentários para quê?

2 Days in Paris, França/Alemanha, 2007. Realização: Julie Delpy. Com: Julie Delpy, Adam Goldberg, Albert Delpy, Marie Pillet, Daniel Brühl, Aleksia Landeau.

14.9.07

Mala Noche



'Mala Noche' data de 1985 e é a primeira longa-metragem de Gus Van Sant. É o relato simultâneamente realista e poético de uma paixão e também de um ambiente, físico e emocional. A paixão é de Walt por Johnny, um adolescente mexicano, imigrante ilegal com ocupação vaga. Mas Johnny não lhe retribui a paixão, apenas vai flirtando com ele a espaços e Walt acaba por se envolver superficialmente com Pepper, outro rapaz mexicano, amigo de Johnny, também ele relutante em assumir a sua homossexualidade, contráriamente a Walt. O ambiente é o da Portland natal de Van Sant, por entre hotéis rascas, lojas de conveniência, ruas dos subúrbios, filmados num muito belo preto e branco.
Walt apaixona-se pela juventude daquele rapaz que mal sabe falar inglês, pela sua beleza, pela sua liberdade, pelo seu modo errante de vida, se calhar até pela sua recusa em se deixar cativar por ele. Há algo de carnal, visceral e ao mesmo tempo platónico, sonhador.
A câmara vai acompanhando o dia-a-dia dos três jovens, vagueando entre a loja onde Walt trabalha, o seu pequeno apartamento, um ocasional passeio de carro ao campo. Por vezes faz lembrar algum Cassavetes, mas um inusitado plano do céu, duma paisagem, duma face, anunciam o gosto de Van Sant por introduzir vagos elementos etéreos nas suas esparsas narrativas.
Este não é daqueles primeiros filmes em que se diz que já se entrevê um grande cineasta, ou que é um prelúdio daquilo que ele refinará mais tarde. Não. 'Mala Noche' é já, per si, um grande filme e suficiente para Van Sant marcar o seu lugar no cinema americano. Eu prefiro-o mesmo, com os seus parcos recursos, com a sua veia artesanal, ao elogiadíssimo 'Elephant' ou ao hipnótico 'Last Days'. E assim, um filme de há 22 anos, é uma das principais estreias nas salas portuguesas em 2007.
Mala Noche, E.U.A., 1985. Realização: Gus Van Sant. Com: Tim Streeter, Doug Cooeyate, Ray Monge, Nyla McCarthy.

10.9.07

O Motel



'O motel' é a enésima 'variação' do filme de terror que parte da premissa-Psycho, sobejamente conhecida: alguém (geralmente um casal) tem uma avaria no carro, ou perde-se, ou as duas, e vai parar a um motel no meio de nenhures. Naturalmente acaba por descobrir que o sítio é gerido por um psicopata que sozinho ou com uns comparsas vai caprichar para que o par não saia de lá vivo. Escusado será dizer que, com maior ou menor enredo, geralmente sai: matar a personagem principal ao fim de meia hora e partir daí para outra conversa, é um luxo a que só o mestre se pôde dar. Posto isto diga-se que se o grau de originalidade de 'Vacancy' (e do titulo português, já agora) é zero virgula zero, ainda assim Nimród Antal mantém um nível de competência mínimo, não abusando demasiadamente dos truques fáceis e mantendo quase sempre um ambiente claustrofóbico; e que Kate Beckinsale e Luke Wilson (o típico casal em crise, blá, blá, blá, blá) formam uma interessante dupla de protagonistas - por vezes despreza-se o facto de que ter bons actores puxa sempre um filme para cima; e que a coisa vai andando, conseguindo-nos ir tendo com o coração nas mãos e as mãos inquietas. O que não deixa de ser mais uma prova do poder do cinema: uma pessoa está a ver aquilo tudo pela milésima vez e ainda assim mantém a suspensão da descrença, assusta-se, torce pelo casalinho. Entra no jogo, uma vez mais. E isso vale sempre a pena.
Vacancy, E.U.A., 2007. Realização: Nimród Antal. Com: Kate Beckinsale, Luke Wilson, Frank Whaley, Ethan Embry.

6.9.07

A face oculta de Mr. Brooks



Mr.Brooks é um filme com o seu interesse, incluindo duas belas interpretações de Kevin Costner e William Hurt (este é uma espécie de grilo falante mau do primeiro - e o contrário é inimaginável, o que só abona a favor de Hurt). Mas tem um problema indisfarçável: excesso de argumento e deficit de realização. O argumento (uma variação do tema do duplo, do Dr.Jekyll e Mr.Hide) é elaboradíssimo, desdobrando-se em várias direcções cuidadosamente entrelaçadas; a realização, por seu lado, é indistinta, com o seu momento-Hitchcock, o seu momento-Scream, o seu momento-Silêncio dos inocentes, com um toque MTV, com uma banda sonora que parece que foi escolhida entre as musicas que o realizador gosta, independentemente da sua adequabilidade - Bruce A. Evans é seguramente melhor argumentista que realizador (ele e o co-argumentista Raynold Gideon têm também no seu curriculum o argumento - adaptado de Stephen King - do excelente 'Stand by Me'). Aliás, parece-me que hoje em dia em Hollywood, a imaginação dos argumentistas é inversamente proporcional à dos realizadores.
Enfim, ainda assim, como já disse, a fita tem os seus atractivos e quando chega ao fim, um fim tão aberto que só falta aparecer lá escrito 'to be continued', apetece-nos mesmo ver a sua continuação. Mas de preferência com outro realizador.
Mr. Brooks, E.U.A., 2006. Realização: Bruce A. Evans. Com: Kevin Costner, Demi Moore, Dane Cook, William Hurt, Marg Helgenberger, Ruben Santiago-Hudson, Danielle Panabaker, Aisha Hinds

4.9.07

Anos 50

A Liga dos Blogues Cinematográficos vai eleger os melhores filmes dos anos 50. Cada integrante vota em 20. Eis a minha lista, elaborada em duas fases: primeiro parti a cabeça a seleccionar apenas 20 filmes; depois andei uma semana inteira a trocar diariamente a sua ordem do terceiro para trás. No final ficou como se segue, certamente cheia de injustiças e omissões escandalosas.



1. Vertigo, Alfred Hitchcock, 1958
2. Rio Bravo, Howard Hawks, 1959
3. Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses), Billy Wilder, 1950
4. Ugetsu Monogatari (Os contos da lua vaga), Kenji Mizogushi, 1953
5. The night of the Hunter (A sombra do caçador), Charles Laughton, 1955

6. Les quatre cents coups (Os 400 golpes), François Truffaut, 1959
7. On the Waterfront (Há lodo no cais), Elia Kazan, 1954
8. Ordet (A palavra), Carl Th. Dreyer, 1955
9. Rear Window (A janela indiscreta), Alfred Hitchcock, 1954
10. Tokyo Monogatari (Viagem a Tóquio), Yasujiro Ozu, 1953

11. North by Northwest (Intriga Internacional), Alfred Hitchcock, 1959
12. Singin' in the Rain (Serenata à chuva), Gene Kelly e Stanley Donen, 1952
13. Viaggio in Italia (Viagem a Itália), Roberto Rossellini, 1953
14. Smultrongstallet (Morangos silvestres), Ingmar Bergman, 1957
15. Stars in my Crown, Jacques Tourneur, 1950

16. Un condamné à mort s’est échappé (Fugiu um condenado à morte), Robert Bresson, 1956
17. Der Tiger von Eschnapur (O Tigre de Eschnapur), Fritz Lang, 1959
18. In a Lonely Place (Matar ou não matar), Nicholas Ray, 1950
19. The Bad and the Beautiful (Os cativos do mal), Vincente Minnelli, 1952
20. Kiss me Deadly (O beijo fatal), Robert Aldrich, 1955

2.9.07

Bianca/A missa acabou



Faço parte uma geração de cinéfilos que descobriram Nanni Moretti com 'Querido diário' (1993), o filme em que a sua persona deambula pelas ruas de Roma primeiro (incluindo uma visita ao lugar onde Pasolini foi assassinado), por umas ilhas paradisíacas depois, terminando a perorar sobre médicos e doenças. Esta obra (já a sua oitava longa metragem) é, aliás, uma boa maneira de sermos introduzidos à sua filmografia, pois estão aqui reunidas muitas das marcas mais idiossincráticas do realizador italiano, mormente a personagem principal, sempre interpretada pelo próprio e que em todos os filmes anteriores já era um seu alter ego, aqui é... Nanni Moretti himself. Um Nanni Moretti obsessivo, hipocondríaco, hiperactivo, empenhado, indignado, inteligente, magnifico observador. Com excepção de Woody Allen, não haverá mais nenhum realizador que tenha criado uma persona tão vincada junto dos espectadores, que identificam completamente a personagem com o seu criador, simultâneamente intérprete e realizador (Woody Allen já chegou inclusive a um ponto em que identificamos imediatamente a personagem-Woody Allen mesmo quando ela já não é interpretada por ele).
'Abril', o filme que se seguiu, é uma espécie de episódio suplementar de 'querido Diário', continuando e refinando o falso registo autobiográfico da personagem Nanni Moretti. Basicamente quem gosta de um, gosta do outro.

Não por acaso, o primeiro filme de Moretti de que não gostei, foi aquele em que não associei a personagem de Moretti a Moretti - falo de 'O quarto do filho', pesada e aborrecida análise da dor de um homem que perde o filho. Moretti sai do seu elemento, torna-se 'sério' e falha redondamente, na minha opinião.

Mas voltemos atrás: saíram agora em dvd, pela Midas (que está a construir um excelente catálogo) Bianca (de 1984) e 'A missa acabou' (de 1985), as suas quinta e sexta longas metragens. Em 'Bianca', pela quarta vez em cinco filmes, Moretti interpreta o seu alter ego Michele Apicella, neste caso um professor com um comportamento obsessivo, que não consegue desistir de observar e interferir na vida dos seus amigos, não conseguindo aceitar as suas traições, infidelidades, as suas imperfeições muito humanas. Michelle/Moretti é irritante, obsessivo, metediço, paranóico (apaixona-se por Bianca, mas acaba por não se querer envolver com ela, porque um dia dali a 10 anos ela poderia conhecer outro e deixá-lo), mas identificamo-nos totalmente com ele. Essa identificação é tal que João Bénard da Costa diz que nos recusamos a aceitar que ele é um assassino (devo referir que quando o filme terminou a minha firme convicção era que Michele de facto não era o assassino). Em 'A missa acabou' a personagem principal é Don Giulio, um jovem padre que volta à terra natal, abandonando o realizador Michele Apicelli, mas não o facto de dar corpo a um seu alter ego. Mais uma vez as principais características da sua personagem são a indignação, o comportamento obsessivo, a irritação com o estado do mundo em geral e com os seus amigos e família, em particular. Um amigo tornou-se terrorista e foi preso; outro desistiu da vida e fica em casa sem fazer nada; o pai arranjou uma amante mais jovem e deixa a mãe; a irmã quer fazer um aborto; etc, etc. Giulio não chega ao ponto de os assassinar (afinal é padre!), mas exaspera-se por as coisas serem como são e não como ele gostaria que fossem.

Ambos são filmes magníficos, idiossincráticos, revelando um jovem realizador de trinta e poucos anos já no auge das suas capacidades, criador de um universo próprio e inimitável. Gosto muito de 'Querido Diário' e 'Abril', mas estas obras da juventude são-lhes superiores, mais poderosas e inquietantes. A não perder, muito especialmente por quem só conhece o último Moretti.

PS.: Outra boa notícia é que a Midas vai lançar brevemente Ecce Bombo (1978), Sogni D’oro (1981) e Palombella Rossa (1989). E, diga-se, com preços que não sendo propriamente baratos, para o mercado português até são sensatos.

31.8.07

Filmes de Agosto

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi este mês. Classificação de 0 a 10.



Abraham Lincoln, D.W.Griffith, 1930 (9)
Uma noite na ópera, Sam Wood, 1935 (8,5)
As irmãs de Gion, K.Mizoguchi, 1936 (9)
Stars in my Crown, Jacques Tourneur, 1950 (10)
Singin' in the rain, Gene Kelly e Stanley Donen, 1951 (10)
Viagem a Tóquio, Yasujiro Ozu, 1953 (10)
Fahreneit 451, F.Truffaut, 1966 (9)
Os homens do presidente, Alan J.Pakula, 1976 (9,5)
Escape from New York, John Carpenter, 1981 (7,5)
Bianca, Nanni Moretti, 1984 (9)
A missa acabou, Nanni Moretti, 1985 (9)
L'ami de mon amie, Eric Rohmer, 1987 (9,5)
Nossa Senhora dos Matadores, Barbet Schroeder, 2000 (8)
Mysterious Skin, Gregg Araki, 2004
Do you like Hitchcock?, Dario Argento, 2005 (8)
Broken Flowers, Jim Jarmush, 2005 (9)
O véu pintado, John Curran, 2006
Hollywoodland, Allen Coulter, 2006
Jindabyne, Ray Lawrence, 2006
Golpe quse perfeito, Lasse Hallstrom, 2006
Dead Proof, Quentin Tarantino, 2007
Paranóia, D.J.Caruso, 2007
Bug, William Friedkin, 2007
Ratatui, Brad Bird, 2007

30.8.07

Golpe quase perfeito



Vale a pena recapitular os factos reais que deram origem a este filme: em 1971, Clifford Irving, um escritor de segundo plano, apresentou-se na editora McGraw-Hill dizendo que tinha sido contactado por Howard Hughes (o excêntrico magnata da aviação e do cinema retratado em 'O aviador' - lembrete para leitores distraídos), recluso há anos, para colaborar com ele na escrita da sua autobiografia. Não estava longe de ser o acontecimento editorial do século.
Acontece que Irving não passava de um oportunista-mitómano-megalómano que inventou tudo do início ao fim, seguindo um método de uma coerência inatácavel: senhor de uma lata infinita, usou sempre a velha táctica da fuga para a frente. Quando era confrontado com uma mentira, inventava algo ainda mais mirabolante que desviava a atenção da mentira anterior e por aí adiante. Às tantas já estava ele próprio embrulhado numa terra ninguém, em que era impossível distinguir verdade e mentira. Acabou por ser desmascarado, mas só depois de ter recebido um milhão de dólares e a 'autobiografia' ter sido impressa!
Como nota de rodapé acrescente-se que Irvin aparece em 'F for Fake' de Welles, onde discorre sobre o pintor-falsário Elmyr de Hory. Welles comenta que ambos têm muita coisa em comum, sendo uma o talento...
O material é de primeira água, mas lembremo-nos que Scorsese que é Scorsese falhou com o material primário, digamos assim - a vida de Hughes. Como se sairia Lasse Hallstrom com Irving? Medianamente, diria eu. Filma com a habitual competência anódina e insossa que é sua marca, tendo aqui no entanto um inesperadíssimo trunfo: Richard Gere, um dos maiores canastrões do cinema actual, que saca aqui um papelão digno de registo. Só ele vale uma estrelita, indo outra para o argumento. Quem for um interessado nestas coisas de curiosidades à volta de celebridades excêntricas, e mormente de Hughes, que neste campo está no topo, pode-lhe acrescentar mais meia. Está assim justificado o preço do bilhete.
The Hoax, E.U.A., 2006. Realização: Lasse Hallstrom. Com: Richard Gere, Alfred Molina, Marcia Gay Harden, Stanley Tucci, Hope Davis, Julie Delpy, Eli Wallach.

28.8.07

Mysterious Skin — Pele Misteriosa


A influência na vida de dois adolescentes dos actos pedófilos que sofreram quando miúdos, por parte do seu treinador de basebol. Neil, que descobriu aí a sua (homo)sexualidade e guarda boas memórias do coach, torna-se um prostituto, tendo uma espécie de atitude hedonista (escapista?) perante a vida. Brian anda perdido atrás de um buraco negro no seu passado. Araki trata estes temas, que não são pêra doce, com frontalidade e crueza, mas permitindo que o realismo adulto e sólido que atravessa o filme seja envolto por uma certa irrealidade etérea, como vinda de uma outra dimensão para onde estes rapazes foram transportados um dia (muito mérito também para a banda sonora de Harold Budd e Robin Guthrie).
Mais um sinal de vida do cinema americano, para lá dos blockbusters acriançados.
Mysterious Skin, E.U.A., 2004. Realização: Gregg Araki. Com: Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet, Elisabeth Shue, Michelle Trachtenberg, Bill Sage, Mary Lynn Rajskub.