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29.10.07

Persepolis



'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.

O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.

Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial.

Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.

28.10.07

Rescue Dawn— Espírito Indomável


Depois do documentário de 1997 "Little Dieter Needs to Fly", Werner Hezog volta a Dieter Dengler, piloto americano de origem alemã que foi um dos rarissimos prisioneiros a conseguir fugir das garras vietcongues.
Após o seu avião ter sido abatido sobre as densas e intimidantes florestas do Laos, Dieter foi capturado e levado para um campo de prisoneiros algo sui generis - é composto por quatro ou cinco detidos que se encontram entre a apatia resignada e a loucura e um grupo de freaks locais que os guarda, que têm alcunhas como Little Hitler, Crazy Horse ou Jumbo. No fundo, captores e cativos, são todos prisioneiros naquele buraco no meio da selva - the jungle is the prison, como explica um dos prioneiros a Dieter.
Apesar de estarmos aqui perante alguns dos temas caros a Herzog, nomeadamente o homem numa situação limite cercado por uma natureza selvagem e impiedosa, não há aqui aquele tom épico que geralmente envolve as iluminadas personagens de Herzog, de Aguirre a Fitzcarraldo. O que Dieter possui é uma espécie de tranquila força interior, uma fé Bressoniana, que torna o seu quase infantil optimismo numa força poderosa, que lhe permite nunca perder o ânimo e executar um meticuloso plano de fuga apesar da indiferença, medo, hesitações e mesmo resistência dos seus companheiros. Não por acaso este é um filme de sussurros, todas as personagens sussurram umas com as outras, raramente alguém levanta a voz - como se estivessem todos contaminados pela calma voz interior que comanda as acções de Dieter.
Herzog filma com a elevada competência que atingiu há muitos anos, contando com uma magnífica e estranha fotografia de Peter Zeitlinge (também seu colaborador em 'Grizzly Man', por ex.), e nem o dispensável final Hollywoodesco chega para diminuir este excelente filme.
Rescue Dawn, E.U.A., 2006. Realização: Werner Herzog. Com: Christian Bale, Jeremy Davies, Steve Zahn, Zach Grenier, Craig Gellis, Marshall Bell, François Chau, Pat Healy.
P.S: Herzog pertence ao restrito grupo dos cineastas em actividade com lugar cativo na história do cinema. Não obstante, para os criticos do Público, este filme não existe.

26.10.07

LesChansons d'amour

24.10.07

A estranha em mim



Ao ver este filme senti o tempo andar para trás uns bons 30 anos, para a época pré-blockbusters, em que havia um sólido grupo de bons profissionais em Hollywood a fazer filmes para adultos.
Jodie Foster, depois de ter apanhado uma sova brutal de um bando de rufias que acabam por matar o seu namorado, torna-se uma justiceira por conta própria, uma ‘vigilante’ dizem os jornais. Munida de uma pistola anda pela cidade a matar os ‘maus’. Uma vigilante a calcorrear as ruas de N.Y., ainda por cima interpretada por Jodie Foster…o que é que isto nos faz lembrar? 'Taxi Driver', claro. Os tempos são outros, o pano de fundo é o mesmo: insegurança, medo, simpatia do ‘povo’ pelo ‘justiceiro’. À crueza e violência quase demente de 'Taxi Driver', corresponde o desencanto e o cinismo frio de 'The Brave One', que aqui já contaminou mesmo o lado dos ‘bons’ (leia-se a policia).
Thriller solidamente filmado, montado e interpretado (Neil Jordan é um dos bons realizadores da actualidade; Jodie Foster uma das maiores actrizes), tem a capacidade de assumir a faceta política, uma raridade hoje em dia, e de deixar algumas questões polémicas. Poder-se-á ver aqui, por exemplo, uma apologia da justiça por conta própria? Do dente por dente, olho por olho? O ambíguo 'happy end’, envolvendo a ambíguissima personagem do 'bom policia' até o pode sugerir. E a identificação do espectador com Jodie Foster é inequívoca (mais do que com Travis/Robert de Niro).
Sem dúvida um filme inteligente que vale a pena ver com atenção.
The Brave One, Austrália/Estados Unidos, 2007. Realização: Neil Jordan. Com: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews, Mary Steenburgen.

22.10.07

As canções de amor



É o próprio realizador quem o diz: este filme é uma espécie de primo do anterior, 'Em Paris'. Temos novamente Louis Garrel, numa personagem que podia ser a do filme precedente, aquele estouvado irmão mais novo de Romain Duris, que o tentava animar com a sua alegria de viver contagiante. Aqui ele encontra-se metido numa ménage a trois, continua algo destrambelhado, alegre, a encher o écran, até que o trio é tragicamente desfeito e ele tem que lidar com esse luto.
As cores de Paris, que desta vez não está no título mas continua muito presente, são agora cinzentas, ventosas, estamos no outono. Ismael/Garrel segue em frente, mas vai-se um bocadinho da sua espontânea e despreocupada maneira de ser.
E, já toda a gente sabe, neste filme canta-se. É mesmo um musical, à maneira de Demy, e mais uma vez o próprio Honoré cauciona esta referência, bem como as outras, óbvias, os realizadores da Nouvelle Vague, muito especialmente Truffaut que é recorrentemente citado. E diga-se que todos os momentos musicais, com assinatura de Alex Beaupain (que tem direito ao nome no genérico a seguir ao produtor e ao realizador) são magníficos. Por mim, só é pena não serem mais. No resto, parece-me que o filme fraqueja um bocadinho em relação a 'Em Paris' (que começava muito mal, mas acabava por nos conquistar totalmente), é mais descosido, tem alguns momentos mortos, fica uma sensação que se poderia ter elevado ainda mais.
Mas gostei muito, mesmo assim, e é impossível não ficarmos agarrados à personagem de Louis Garrel. E não era uma boa ideia que Honoré lhe desse continuidade, que criasse o seu próprio Antoine Doinel?
Les Chansons d`Amour, França, 2007. Realização: Christophe Honoré. Com: Chiara Mastroianni, Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Brigitte Roüan.

18.10.07

Western (II)



Gabriele Lucci, no seu livro 'Western' (Diccionarios del Cine, Editorial Electra), destaca as seguintes '10 obras-primas' do género:

High Noon, Fred Zinnemann, 1952
Shane, George Stevens, 1953
Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954
The man from Laramie, Anthony Mann, 1955
The Searchers, John Ford, 1956
Rio Bravo, Howard Hawks, 1959
C'era una volta il West, Sergio Leone, 1968
The Wild Bunch, Sam Peckinpah, 1969
Heaven's Gate, Michael Cimino, 1980
Unforgiven, Clint Eastwood, 1992

Tanto como 10 filmes, foram escolhidos 10 realizadores. Seis da era clássica (incluindo, claro, um OVNI chamado Johnny Guitar), era que Rio Bravo sintetiza e fecha com chave de ouro. Um do autor que reinventou o género e outro do que lhe deu a machadada final. E, para terminar, as mais brilhantes tentativas modernas de regresso, uma com final trágico, outra com final feliz. Parece-me uma boa síntese.

Western (I)



É sabido que o Oscar de melhor filme rivaliza com o Nobel da literatura em pontaria: por cada uma que acerta, atira dez ao lado. Na longa lista de injustiçados pela academia, há um de que se fala pouco: o western, um dos mais antigos e fecundos géneros de Hollywood.

Nos 70 e tal anos em que a estatueta dourada foi distribuída, só por 3 vezes esta foi parar a westerns, sendo que a segunda e a terceira ocorreram... na década de 90, quando o género já estava morto e enterrado há uns bons 20 anos. É verdade. Antes de 'Danças com lobos' (1990) e 'Imperdoável' (1992), a que os puristas talvez chamem pós-westerns ou meta-westerns, é preciso recuar 60 anos, até 1931, para encontrar o terceiro feliz contemplado: o esquecido 'Cimarron', de Wesley Ruggles.

17.10.07



É oficial. Depois de Seinfeld, Sopranos e Sete palmos de terra, volto a ligar a TV sem ser como apêndice do leitor de dvd. Às quartas-feiras, às 22h (no FX).

15.10.07

O sabor da melancia



Há falta de água em Taiwan. As pessoas vão contornando este facto como podem: tomam banho em reservatórios no topo de prédios; roubam àgua em casas de banho públicas; usam garrafas de água para simular um chuveiro numa cena de sexo num filme pornográfico; bebem sumo de melancia. Há mesmo uma rapariga que desenvolve um fetichismo por este fruto, incluindo-o inclusive nas relações sexuais. E pelo meio há uns inusitados e insólitos números musicais vindos do nada.
É assim o universo de Tsai Ming-Liang, um dos mais idiossincráticos do cinema contemporâneo. O tema anda sempre à volta do mesmo: a solidão, o erotismo vazio, o alheamento das pessoas no mundo actual.
É um cinema de esparsos diálogos, de ritmo lento, de longos mas poderosos planos - cada um vale por si mesmo, como no cinema mudo. Não será certamente um cinema para todos os paladares. Mas quem estiver farto da dieta de filmes 'narrativos' que se assemelham todos uns aos outros, tem aqui o prato ideal para desenjoar.
Tian bian yi duo yun/The Wayward Cloud, França/Taiwan, 2005. Realização: Tsai Ming-Liang. Com: Lee Kang-Sheng, Chen Shiang-Chyi, Lu Yi-ching, Yang Kuei-mei, Sumomo Yozakura, Hsiao Huan-wen, Lin Hui-xun, Jao Kuo-xua.

14.10.07

A vida interior de Martin Frost



Um escritor (David Thewlis) que procura o isolamento na casa de uns amigos ausentes para escrever, acorda um dia com uma estranha (Irène Jacob) na sua cama. Ela inventa algo para justificar a sua presença e diz-lhe que prepara uma tese sobre o Bispo Berkeley, e falam das suas teorias, de que o mundo é apenas constituído por ideias, e nenhuma ideia pode existir a não ser numa mente. Ou seja, somos logo induzidos a pensar que Jacob só existe na cabeça de Thewlis.
Este lançamento do filme, esta meia hora inicial é bastante interessante, levando-nos a ver o filme como uma espécie de exercício intelectual de Paul Auster, um divertimento sobre o processo criativo de um escritor. Acontece que a seguir o filme vai perdendo ritmo e às tantas dá uma verdadeira cambalhota com a entrada em cena de Michael Imperioli (terceira das quatro únicas personagens). E embora nunca percamos propriamente o interesse pelo que se vai passando, a verdade é que o filme parece que avança aos solavancos, mudando várias vezes de tom e de direcção, por vezes de forma algo desconcertante. Tem-se atribuído isto à falta de talento de Auster enquanto realizador, mas eu penso que mesmo não sendo brilhante, ele nem se safa mal nesta faceta. A 'culpa' é mesmo do argumento, algo desconchavado, errático, passando do fantástico para um quase nonsense sem aviso (muita gente ficará sem duvida desapontada com a segunda parte).
Mas diga-se que Paul Auster sabe do seu oficio, e mesmo não sendo de forma alguma um dos meus escritores de cabeceira, o filme agradou-me, segui-o com interesse, apreciei o jogo que o escritor Paul Auster foi desenvolvendo, e que o realizador Paul Auster apesar de tudo conduz com segurança (não obstante haver um tom geral de algum amadorismo, mas talvez se deva apenas ao baixo orçamento). E, mesmo não me tendo agradado o final, nem de longe achei o conjunto tão mau com tem sido pintado.
The Inner Life of Martin Frost, Estados Unidos/Portugal/Espanha/França, 2007. Realização: Paul Auster. Com: David Thewlis, Irène Jacob, Michael Imperioli, Sophie Auster.