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4.11.07

Sicko



Actualmente está na moda dizer mal de Michael Moore. A crítica não gosta dele (não é um documentarista sério nem faz Grande Cinema); a direita não gosta dele por todos os motivos e mais um (um americano a criticar os States!); nem sequer a maioria da esquerda, pelo menos da que eu conheço, vai muito à bola com ele (no mínimo é pouco sofisticado – e é americano, claro).

Moore inventou uma espécie de cinema político novo, um misto de documentário de denúncia e entertainment. Quando andava atrás de Roger Smith (presidente da GM), ou de Charlton Heston (presidente da NRA) era criticado pelos seus métodos agressivos e desrespeitosos; agora que está mais calmo (é muito menos uma ‘personagem’ em Sicko) criticam-no porque ‘se começou a levar a sério’. O homem está condenado a ser preso por ter cão e por não ter.

Neste filme, em que Moore se atira, com a ferocidade habitual, ao sistema de saúde americano, baseado em seguros, estão mais uma vez expostos à evidência quer as suas virtudes quer os seus defeitos. Comecemos por estes: o mundo de Moore é a preto e branco. Bons de um lado, maus do outro. Não há cinzento. Moore é a favor dos sistemas de saúde gratuitos do Canadá, França ou Grã-Bretanha? Então mostra-nos que nestes países tudo é perfeito, em cinco minutos sou maravilhosamente atendido em qualquer urgência, somos todos muito solidários. A França então, é apresentada como o paraíso na terra. Qualquer pessoa tem 2 carros, vive num casarão e ganha 8.000€ por mês. À diabolização do país feita por parte dos EUA (e por muita direita europeia - veja-se cá), Moore contrapõe com uma outra França de fantasia. Mais grave, no seu desejo de provocar, leva mesmo um grupo de doentes americanos para serem tratados no ‘modelar’ sistema de saúde Cubano. Claro que é batota fazer isto: não só porque é perigoso fazer comparações com ditaduras (é a mesma lógica das ‘boas contas públicas’ de Pinochet ou Salazar), como é claro que Moore e os seus doentes foram tratados não como cidadãos comuns, mas como propaganda anti-americana.

Mas também há virtudes: Moore pode ser terrivelmente eficaz e até demolidor a atacar os seus alvos. Penso que ninguém sai deste filme sem estar no mínimo um pouco desconfiado da eficácia de um sistema de saúde baseado em empresas, as grandes seguradoras de saúde, que têm como objectivo o lucro, sendo que os cuidados médicos são cada vez mais dispendiosos. Não obstante puxar por vezes um bocado ao choradinho, os testemunhos que Moore trás para a frente da câmara são eloquentes e impressionam.
Outra boa noticia, é que ao contrário do que já li, Moore não perdeu o sentido de humor, que é absolutamente necessário para os seus filmes funcionarem. O modo como vai gozando o estigma que a palavra ‘social’ ganhou nos E.U.A. é paradigmático; ou quando, num daqueles achados que só ele tem, descobre que afinal há um território americano com cuidados de saúde universais gratuitos: Guantanamo!

Como já disse, este é um cinema politico, tendo assim como prioridade a eficácia da mensagem a passar. Não há assim lugar a grandes subtilezas, mas ainda assim Moore é um cineasta mais inteligente do que por vezes é dito, usando, por exemplo, muito bem a montagem nos seus filmes. Tudo somado, e sendo que cada um tem a sua cabecinha para no final extrair as suas próprias conclusões, penso que continua a valer a pena ir ver os seus filmes.
Sicko, E.U.A., 2007. Realização: Michael Moore. Documentário.

2.11.07

Corrupção

Eis então ‘Corrupção’, o filme que já era famoso antes de o ser, baseado no mais badalado best-seller pátrio dos últimos tempos, o singelo ‘Eu Carolina’, e tornado ainda mais visível pela saída barulhenta do meu conterrâneo João Botelho de cena, tornando-se o primeiro filme português não assinado pelo realizador (alguma vez tínhamos que lá chegar).

Com este panorama é quase fácil demais, agora depois de o filme estar visto, fazer os inevitáveis comentários de ‘tanto barulho para isto?’, ou ‘muita parra e pouca uva’, ou outro qualquer à escolha.

Vamos então à fita: de início fui alinhando com a restante audiência, que satisfazendo as suas expectativas voyeuristicas, se ia manifestando mais ou menos ruidosamente perante sinais de reconhecimento (‘olha o Reinaldo Teles!’) ou cenas mais condimentadas envolvendo ‘O Presidente’ (na minha sala, a abarrotar, teve bastante sucesso uma cena em que ‘O Presidente’ mistura dois ovos estrelados com o arroz que está a comer…). Mas, à medida que as cenas se iam desenrolando (ou melhor, se iam sucedendo umas às outras), foi-me invadindo uma crescente sensação de tédio e, imagine-se, acabou mesmo por me passar despercebido um suposto 'momento alto', aquele em que ‘O Presidente’ pede a Sofia para acender um cigarro (diga-se que a fina ironia da situação só está ao alcance de quem tiver lido excertos do livro)…

É que no argumento é tudo assim para o vago, a maioria das cenas são desligadas e mortiças, as personagens secundárias são todas caricaturais (o juiz corrupto; o policia bom; etc.), muitas situações são boçalmente esboçadas (o árbitro que mais tarde será pago com meninas a rir-se enquanto os comentadores gritam escandalizados ‘nunca se viu isto num campo de futebol!’), a banda sonora – cuja alteração foi um dos motivos para o realizador bater com a porta – é de facto horrorosa e pior, totalmente deslocada na maioria das situações.
Em sentido contrário diga-se que Margarida Vila-Nova, uma bela actriz, defende muito bem a sua Sofia e que Nicolau Breyner compõe um Presidente (quase que me esquecia da maiúscula) que não deslustra, embora a personagem merecesse ser muito mais desenvolvida. Acrescente-se ainda a excelente fotografia de Orlando Alegria.

Nunca saberemos o que seria a ‘Corrupção’ de João Botelho (não me parece que apareça um dia um director’s cut!). Por vezes, como na viagem para Santiago, onde é dado algum tempo ao filme para respirar, entrevemos que poderia ser outra coisa; por outro lado, há problemas (como o esquematismo de personagens e situações) que parecem irresolúveis. Como está, não é carne nem peixe. Nem é um bom filme, nem sequer me parece ter chama para ser um daqueles objectos tipo ‘O crime do Padre Amaro’, com competência industrial e potencial de vendas a transpirar por todos os poros (ao contrário do que sugere o trailer, nem há em ‘Corrupção’ grande exploração de nudez ou cenas de sexo). É assim um filmezito, quase um telefilme, desenxabido e esquecível. Mas enfim, no tal país de 6 milhões de benfiquistas, não é ímpossível que seja um campeão de bilheteira.
Corrupção, Portugal, 2007. Realização: (João Botelho, não atribuída). Com: Nicolau Breyner, Margarida Vila-Nova, António Pedro Cerdeira, Alexandra Lencastre, João Cabral, João Catarré, João Lagarto.

1.11.07

Filmes de Outubro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Tabu, Murnau, 1931 (9)
The Man from Laramie, Anthony Mann, 1955 (8)
Forty Guns, Samuel Fuller, 1957 (8,5)
Os Profissionais, Richard Brooks, 1966 (8)
Vixen, Russ Meyer, 1968 (5,5)
O pistoleiro do diabo, Clint Eastwood, 1972 (9)
Super Vixens, Russ Meyer, 1975 (5)
O sargento da força um, Samuel Fuller, 1980 (9)
Dawn by law, Jim Jarmush, 1986 (7)
A maldição dos mortos vivos, Wes Craven, 1988 (6)
Desafio total, Paul Verhoeven, 1990 (8)
Trust, Hal Hartley, 1990 (9)
Veneno, Todd Haynes, 1991 (8)
Carlito's way/Perseguido pelo passado, Brian de Palma, 1993 (9,5)
Dois destinos, Brett Ratner, 2000 (6,5)
O sabor da melancia, Tsai Ming-Liang, 2005
Rescue Dawn - Espirito indomável, Werner Herzog, 2006
28 semanas depois, Juan Carlos Fresnadillo, 2007 (7)
O Reino, Peter Berg, 2007
A vida interior de Martin Frost, Paul Auster, 2007
Planeta Terror, R.Rodriguez, 2007
Estranha em mim, Neil Jordan, 2007
As canções de amor, Christophe Honoré, 2007
Persepolis, Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, 2007

Destaque: 'Carlito's Way', a obra-prima de Brian de Palma. Ou como o destino não está nas nossas mãos.

Surpresa: 'Veneno'. Embirrei solenemente quer com 'Velvet Goldmine', quer com 'Far from Heaven'. Mas gostei muito desta primeira longa metragem de Todd Haynes - na realidade são 3 curtas em montagem paralela, baseadas em Jean Genet. Estranho, original e marcante.

Cromo: 'Vixen' e 'Super Vixens'. Que mais dizer destes bizarros softcores de Russ Meyer? Apenas acrescentarei que me parece que o Stuntman Mike de 'Death Proof' deve um bom bocado ao Harry Sledge (Charles Napier) de 'Super Vixens'...

31.10.07

Post não cinematográfico

A NancyB do Geração Rasca desafiou-me para a tal 'corrente' que consiste em transcrever a 5ª frase completa da página 161 do livro que esteja mais próximo. Este calhou ser 'Mr.Pip', de Lloyd Jones. Cá vai:

"A princípio, fiquei zangada com as omissões de Mr.Watts."

E pronto, não deu muito trabalho. Agora vou fazer batota e só passo a 3 pessoas: ao puto, ao tipo e ao totó. Sempre tive vontade de saber se estes gajos da musica lêem livros.

29.10.07

Persepolis



'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.

O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.

Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial.

Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.

28.10.07

Rescue Dawn— Espírito Indomável


Depois do documentário de 1997 "Little Dieter Needs to Fly", Werner Hezog volta a Dieter Dengler, piloto americano de origem alemã que foi um dos rarissimos prisioneiros a conseguir fugir das garras vietcongues.
Após o seu avião ter sido abatido sobre as densas e intimidantes florestas do Laos, Dieter foi capturado e levado para um campo de prisoneiros algo sui generis - é composto por quatro ou cinco detidos que se encontram entre a apatia resignada e a loucura e um grupo de freaks locais que os guarda, que têm alcunhas como Little Hitler, Crazy Horse ou Jumbo. No fundo, captores e cativos, são todos prisioneiros naquele buraco no meio da selva - the jungle is the prison, como explica um dos prioneiros a Dieter.
Apesar de estarmos aqui perante alguns dos temas caros a Herzog, nomeadamente o homem numa situação limite cercado por uma natureza selvagem e impiedosa, não há aqui aquele tom épico que geralmente envolve as iluminadas personagens de Herzog, de Aguirre a Fitzcarraldo. O que Dieter possui é uma espécie de tranquila força interior, uma fé Bressoniana, que torna o seu quase infantil optimismo numa força poderosa, que lhe permite nunca perder o ânimo e executar um meticuloso plano de fuga apesar da indiferença, medo, hesitações e mesmo resistência dos seus companheiros. Não por acaso este é um filme de sussurros, todas as personagens sussurram umas com as outras, raramente alguém levanta a voz - como se estivessem todos contaminados pela calma voz interior que comanda as acções de Dieter.
Herzog filma com a elevada competência que atingiu há muitos anos, contando com uma magnífica e estranha fotografia de Peter Zeitlinge (também seu colaborador em 'Grizzly Man', por ex.), e nem o dispensável final Hollywoodesco chega para diminuir este excelente filme.
Rescue Dawn, E.U.A., 2006. Realização: Werner Herzog. Com: Christian Bale, Jeremy Davies, Steve Zahn, Zach Grenier, Craig Gellis, Marshall Bell, François Chau, Pat Healy.
P.S: Herzog pertence ao restrito grupo dos cineastas em actividade com lugar cativo na história do cinema. Não obstante, para os criticos do Público, este filme não existe.

26.10.07

LesChansons d'amour

24.10.07

A estranha em mim



Ao ver este filme senti o tempo andar para trás uns bons 30 anos, para a época pré-blockbusters, em que havia um sólido grupo de bons profissionais em Hollywood a fazer filmes para adultos.
Jodie Foster, depois de ter apanhado uma sova brutal de um bando de rufias que acabam por matar o seu namorado, torna-se uma justiceira por conta própria, uma ‘vigilante’ dizem os jornais. Munida de uma pistola anda pela cidade a matar os ‘maus’. Uma vigilante a calcorrear as ruas de N.Y., ainda por cima interpretada por Jodie Foster…o que é que isto nos faz lembrar? 'Taxi Driver', claro. Os tempos são outros, o pano de fundo é o mesmo: insegurança, medo, simpatia do ‘povo’ pelo ‘justiceiro’. À crueza e violência quase demente de 'Taxi Driver', corresponde o desencanto e o cinismo frio de 'The Brave One', que aqui já contaminou mesmo o lado dos ‘bons’ (leia-se a policia).
Thriller solidamente filmado, montado e interpretado (Neil Jordan é um dos bons realizadores da actualidade; Jodie Foster uma das maiores actrizes), tem a capacidade de assumir a faceta política, uma raridade hoje em dia, e de deixar algumas questões polémicas. Poder-se-á ver aqui, por exemplo, uma apologia da justiça por conta própria? Do dente por dente, olho por olho? O ambíguo 'happy end’, envolvendo a ambíguissima personagem do 'bom policia' até o pode sugerir. E a identificação do espectador com Jodie Foster é inequívoca (mais do que com Travis/Robert de Niro).
Sem dúvida um filme inteligente que vale a pena ver com atenção.
The Brave One, Austrália/Estados Unidos, 2007. Realização: Neil Jordan. Com: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt, Naveen Andrews, Mary Steenburgen.

22.10.07

As canções de amor



É o próprio realizador quem o diz: este filme é uma espécie de primo do anterior, 'Em Paris'. Temos novamente Louis Garrel, numa personagem que podia ser a do filme precedente, aquele estouvado irmão mais novo de Romain Duris, que o tentava animar com a sua alegria de viver contagiante. Aqui ele encontra-se metido numa ménage a trois, continua algo destrambelhado, alegre, a encher o écran, até que o trio é tragicamente desfeito e ele tem que lidar com esse luto.
As cores de Paris, que desta vez não está no título mas continua muito presente, são agora cinzentas, ventosas, estamos no outono. Ismael/Garrel segue em frente, mas vai-se um bocadinho da sua espontânea e despreocupada maneira de ser.
E, já toda a gente sabe, neste filme canta-se. É mesmo um musical, à maneira de Demy, e mais uma vez o próprio Honoré cauciona esta referência, bem como as outras, óbvias, os realizadores da Nouvelle Vague, muito especialmente Truffaut que é recorrentemente citado. E diga-se que todos os momentos musicais, com assinatura de Alex Beaupain (que tem direito ao nome no genérico a seguir ao produtor e ao realizador) são magníficos. Por mim, só é pena não serem mais. No resto, parece-me que o filme fraqueja um bocadinho em relação a 'Em Paris' (que começava muito mal, mas acabava por nos conquistar totalmente), é mais descosido, tem alguns momentos mortos, fica uma sensação que se poderia ter elevado ainda mais.
Mas gostei muito, mesmo assim, e é impossível não ficarmos agarrados à personagem de Louis Garrel. E não era uma boa ideia que Honoré lhe desse continuidade, que criasse o seu próprio Antoine Doinel?
Les Chansons d`Amour, França, 2007. Realização: Christophe Honoré. Com: Chiara Mastroianni, Louis Garrel, Ludivine Sagnier, Clotilde Hesme, Brigitte Roüan.

18.10.07

Western (II)



Gabriele Lucci, no seu livro 'Western' (Diccionarios del Cine, Editorial Electra), destaca as seguintes '10 obras-primas' do género:

High Noon, Fred Zinnemann, 1952
Shane, George Stevens, 1953
Johnny Guitar, Nicholas Ray, 1954
The man from Laramie, Anthony Mann, 1955
The Searchers, John Ford, 1956
Rio Bravo, Howard Hawks, 1959
C'era una volta il West, Sergio Leone, 1968
The Wild Bunch, Sam Peckinpah, 1969
Heaven's Gate, Michael Cimino, 1980
Unforgiven, Clint Eastwood, 1992

Tanto como 10 filmes, foram escolhidos 10 realizadores. Seis da era clássica (incluindo, claro, um OVNI chamado Johnny Guitar), era que Rio Bravo sintetiza e fecha com chave de ouro. Um do autor que reinventou o género e outro do que lhe deu a machadada final. E, para terminar, as mais brilhantes tentativas modernas de regresso, uma com final trágico, outra com final feliz. Parece-me uma boa síntese.