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16.11.07

Gangster Americano



O 'Gangster Americano' é Frank Lucas (Denzel Washington), o primeiro negro a chegar ao topo da hierarquia de venda de droga na Nova Iorque dos anos 70. E 'Gangster Americano' é um filme que se insere na nobre tradição americana de filmes de gangsters, ou seja, em que se conta pedaços de história do país através das 'classes criminosas'. Porque, mais uma vez, esta é uma história sobre o American dream: Lucas começou como motorista do rei da droga do Harlem e, graças às suas 'qualidades' (que incluíam o olho para o negócio e a violência em iguais doses) não só lhe sucedeu como o ultrapassou, chegando ao topo do topo, passando para trás a Máfia, constituída por brancos que o olhavam de cima.

Ridley Scott, de quem nunca sabemos bem o que esperar, não inventa nada neste filme, antes cumprindo com competência, rigor e pulso todos os códigos do género, entrelaçando com desembaraço o particular (o polícia incorruptível - olhado de lado pelos colegas por ter devolvido um milhão de dólares que apreendera! - mas incapaz de estabilidade na vida pessoal; o gangter assassino mas que põe a família em primeiro lugar - todos os Domingos acompanhava a mãe à igreja), com o retrato de grupo (a policia corrupta; o racismo da América da altura; o Vietname em pano de fundo).

Não obstante a estrutura clássica, que vai traçando linhas de início paralelas, mas que se vão estreitando cada vez mais, entre o polícia e o gangster, caçador e caça, o título não engana e é no Gangster Americano que Scott se centra mais. O facto de ser negro é-lhe vantajoso no início, pois ninguém na polícia acredita que um negro possa ser o patrão; mas, como o polícia Richie Roberts (Russell Crowe) o adverte, no final ninguém lhe vai perdoar isso. Todas as suas características que lhe permitiram subir a pulso, acabam depois por o deitar abaixo: a cor da pele; o seu código de honra (que o impede de negociar com polícias corruptos por os desprezar); a família como unidade nuclear (mas não inviolável, como descobrirá). E, ironia do destino, até a unica falha que tem na sua regra de conduta de máxima descrição será paga com um valor altíssimo. Mas se calhar não havia nada a fazer: era impossível um negro chegar lá acima e passar despercebido. O sonho americano tem um limite.

Falta a Ridley Scott maior subtileza para chegar à obra-prima, ao clássico que ambicionaria, mas consegue ainda assim um excelente filme que não desmerece a tradição de onde imana. E que é seguramente um dos melhores deste desconsolado ano cinematográfico.
American Gangster, E.U.A., 2007. Realização: Ridley Scott. Com: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Cuba Gooding Jr., Lymari Nadal, RZA.

15.11.07

Compras em saldos

Rourke é um polícia justiceiro e racista, sedutor e perdido, um filho do Vietnam, que empreende uma cruzada contra o ‘mal’ em Chinatown. ‘O ano do dragão’ é um filme fascinante, com pormenores insólitos (como o loft modernista de Tracy Tzu), que nos mostra o grande actor que era Mickey Rourke e nos lembra que um dos maiores crimes do cinema actual é Cimino estar há mais de 10 anos sem filmar. Nota 9,5.
('O Ano do Dragão', 4 euros e tal no Feira Nova)


Primeira aparição de Jimmy Stewart no universo de Ford, no mesmo ano do seminal ‘O homem que matou Liberty Valance’. É um filme com um background bastante pessimista sobre a natureza humana, mas com aquele toque de humanismo e humor de que só John Ford tinha o segredo. Parece que Ford detestava este filme. Eu achei-o uma obra-prima. Nota 10.
('Terra Bruta', 8 euros e tal no El Corte Inglés)


Não é uma obra-prima como ‘Perseguido pelo passado’ e DePalma diz mesmo nos extras que se lançou na sua realização porque precisava desesperadamente de um êxito comercial; mas é, como soe dizer-se, um filme sólido e de travo clássico. E prova que houve um tempo em que Kevin Costner entrava em bons filmes. Nota 8.
('Os Intocáveis', 8 euros e tal na Fnac)

13.11.07

(devido a aselhice minha, apaguei uma data de coisas por aqui, incluindo os links; pouco a pouco, assim haja tempo e paciência, irão sendo repostos)

12.11.07

Melhor série?



De caras.

11.11.07

Zidane, Um Retrato do Século XXI



E se durante um jogo de futebol a câmara seguisse, não a bola, mas apenas um dos jogadores? Foi esta a ideia da dupla de artistas Gordon Douglas/Philippe Parreno, que puseram 17 câmaras a apontar para Zidane num Real Madrid-Villarreal de há dois anos. Temos então 90 minutos de Zinedine Zidane, em plano americano ou em grande plano, com um plano de pormenor dos pés de vez em quando, um grande plano às vezes. A banda sonora alterna entre o som 'ao vivo' do estádio, e musica dos Mogwai com legendas a acompanhar. Nestas vamos lendo afirmações do jogador, como se alheia quase totalmente de tudo o que o envolve durante os jogos ou como a sua memória destes é fragmentada (e daí fazer sentido a musica - reforça este alheamento, esta quase introspecção do jogador).

O resultado é estranhamente fascinante, de início. Ficamos como que hipnotizados por Zidane, pela sua face concentrada, impassível (não há um sorriso), alheada. E sem dúvida que experimentamos uma outra maneira de ver o jogo - como algo solitário, em que cada jogador intervém pouquíssimo ao longo dos 90 minutos, algo em que não estamos habituados a pensar.

Mas também é verdade que ao fim de meia hora está tudo visto. Já assimilámos a ideia, já 'experimentámos' a obra, a partir daí torna-se algo cansativo. Fosse o filme/instalação/performance/o-que-se-queira-chamar exibido numa sala de um museu de arte contemporânea, e uma pessoa quando chegasse a um certo ponto ia dar uma volta e poderia voltar se lhe apetecesse. Eu como o vi em casa, fiz mais ou menos isso: 'vi' aí metade em 'segundo plano', enquanto ia fazendo outras coisas. Se tivesse assistido numa sala de cinema, desconfio que a incomodidade acabaria por vencer e me teria estragado o prazer genuíno que a primeira meia hora me deu...
Zidane, un portrait du 21e siècle, França, 2006. Realização: Douglas Gordon, Philippe Parreno.

10.11.07

A Invasão



Costuma-se dizer que um grande filme pode ser lido a vários níveis. Sobre os anteriores filmes baseados no clássico The Body Snatchers de Jack Finney, o veterano crítico Roger Ebert lembra que todos eles foram vistos como parábolas para o seu tempo. Invasion of the Body Snatchers de Don Siegel (1956) foi lido como um ataque ao McCarthyismo, o filme homónimo de Philipe Kaufman (1978) estaria com um olho em Watergate e finalmente Body Snatchers (1993) de Abel Ferrara (que Ebert considera o melhor) falaria sobre a propagação da SIDA.

Sobre 'A Invasão', Ebert acrescenta que não obstante se falar por lá do Iraque e mesmo do Darfur, não faz ideia de qual será a posição do filme sobre estes assuntos. É impossível não concordar com ele. Um filme em que uns 'esporos' vindos do espaço tomam o lugar de seres humanos, sendo que às tantas é difícil (ao contrário do caso dos Zombies!) distinguir quem já está infectado de quem não está (aqui a táctica é não mostrar emoções), tem a palavra 'parábola' escrita em letras garrafais. As pessoas mantêm a aparência mas já não são elas, são seres malignos, estão a ver? E quando as personagens desatam a falar do Iraque, há uma luzinha vermelha que começa a piscar instantaneamente no nosso cérebro: 'mensagem'; 'mensagem'. Mas... qual mensagem? 'Connosco não haveria Iraque ou Darfur', diz um dos esporos. Mas isso é bom ou mau? Será que afinal a mensagem é 'é melhor sermos humanos como somos e isso, claro, implica haver Iraques e Darfurs'? Ou será o contrário: 'a humanidade governa-se tão mal que merece ser invadida por uns quaisquer esporos'? Ou será outra qualquer? Não dá para perceber.

É sabido que a Warner Bros. não aceitou a versão final de Oliver Hirschbiegel (realizador de 'A Queda') e contratou os irmãos Wachowski e James McTeigue ('V de Vendetta') para a reformularem. O filme ressente-se naturalmente de todas estas mãos, e acaba por ficar numa estranha zona de ninguém.

Voltando ao início. Pode o leitor dizer: não quero saber de nada disso! E como filme sci-fi, como entretenimento, como meio de passar 1h30 a comer pipocas? Bom, eu direi que não se safa mal de todo. Mantém o suspense, dentro da tal zona de indecisão em que vive tem ainda assim uma certa concisão e, claro, tem uma excelente actriz que o leva ao colo. Os amantes do género não darão o dinheiro por mal empregue.
The Invasion, E.U.A., 2007. Realização: Oliver Hirschbiegel. Com: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jackson Bond, Jeffrey Wright, Veronica Cartwright.

7.11.07

Pintar ou fazer amor



Este filme estava na minha lista dos 'a ver' há já algum tempo, mas por um motivo ou outro foi ficando em stand-by, acabando por cair numa espécie de limbo, até que este muito divertido post mo trouxe de novo à memória.
Ultimamente tenho tido oportunidade de ver alguns filmes franceses da 'produção corrente', digamos assim - ou seja, que não são assinados nem por realizadores consagrados em actividade, como Chabrol, Rohmer ou Garrel, nem por realizadores mais jovens mas com 'nome feito' como Ozon ou Honoré. A qualidade média é, na minha opinião, semelhante à dos made in Hollywood. Ou seja, fracota. A diferença, parece-me, é que estamos tão fartos da trigésima quarta sequela, da vigésima sétima adaptação de um comic, da quinquagésima ressurreição de um herói musculoso de há 20 anos, que tudo o que foge deste parque infantil em que Hollywood se tornou é por nós recebido pelo menos com boa vontade e esperança.

E nisto, nos temas 'adultos' (diferente de 'profundos', ou 'relevantes', ou até bem tratados, entenda-se) os franceses, passe o cliché, não desiludem. 'Pintar ou fazer amor', por exemplo, apresenta-nos um casal (os grandes Daniel Auteuil/Sabine Azema) que se rende aos prazeres do... swinging (vulgo trocas de casais, esclareço os mais inocentes). De resto o argumento não vai para lá de uma leveza agradável, a realização é competente mas anódina, e no geral não se distingue grandemente daqueles filmes que passam na TV ao Domingo à tarde (bom, se excluirmos dois ou três nus - mas não quero que me acusem de carregar nos clichés sobre o cinema francês).

É desnecessário dizer que Renoir, Truffaut ou Rohmer estão entre os realizadores que mais gosto. Ou que 'Chansons d´amour' é um dos filmes que me irá ficar deste medianíssimo ano cinematográfico. Apenas as coisas são como são. Por cada filme marcante que vemos, há dez que esquecemos logo a seguir. E esta constatação não exceptua nacionalidades.
Peindre ou faire l`amour, França, 2005. Realização: Arnaud e Jean-Marie Larrieu. Com: Sabine Azema, Daniel Auteuil, Amira Casar, Sergi Lopez, Philippe Katerine, Hélène de Saint-Père.

6.11.07

Elizabeth - A idade de ouro


Um filme que é tão ostentoso quanto vazio.

Há dois adjectivos que me ocorrem sobre este filme: desnecessário e enfastiante. É um enorme desperdício: de meios (que não devem ter sido poucos, dado o vistoso aparato da coisa), de actores (Cate Blanchett e Clive Owen desde logo, para não falar de Samantha Morton que aparece umas 3 vezes antes de ser decapitada) e, principalmente, do tempo dos espectadores (são quase 2 horas que parecem o dobro). E nem falo sobre a veracidade histórica, que parece que deixa muito a desejar, pois nem tenho competência para me pronunciar, nem seria isso que me impediria de apreciar o filme, caso este tivesse algo mais de relevante para dar ao espectador. Mas infelizmente não tem. As personagens são de papelão (e nem falo dos Espanhóis, que parece que declamam em vez de falar), a banda sonora é pomposa e estridente, a realização académica, o argumento indigente. O embrulho é de luxo, mas o conteúdo é um bocejo.
Mais uma vez se verifica a regra que dita que nestas coisas de sequelas é sempre a descer. E ainda vem aí uma terceira parte...
Elizabeth: The Golden Age, Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: Shekhar Kapur. Com: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Abbie Cornish, Rhys Ifans, Samantha Morton, Jordi Mollà, Tom Hollander.

5.11.07

Cinco filmes

A Susana desafiou-me, no Auto-Retrato, a citar 5 filmes da minha vida. Eu já uma vez respondi a um desafio semelhante em que listei 10 (não posso fazer o link porque o Nuno entretanto acabou com o blogue onde os postou), e eu próprio já desafiei vários bloggers a fazerem o mesmo (pelo que me vou dispensar de passar esta corrente!).
Mas é com muito gosto que desfio mais 5 filmes - agora diferentes, mas repetindo no entanto um realizador, o Lang (o que tem que ser, tem que ser). Quem me conhece, sabe como gosto de tops, listagens & afins. Era capaz de fazer uma lista destas por semana, sem me fartar.
Cá vão, por ordem cronológica (bom, incluo um serial, espero que a desafiadora não leve a mal):



Os Vampiros, Louis Feuillade (1915)
O testamento do Dr.Mabuse, Fritz Lang (1933)
Esta terra é minha, Jean Renoir(1943)
A vida é um jogo, Robert Rossen (1961)
Casino, Martin Scorsese (1995)

4.11.07

Sicko



Actualmente está na moda dizer mal de Michael Moore. A crítica não gosta dele (não é um documentarista sério nem faz Grande Cinema); a direita não gosta dele por todos os motivos e mais um (um americano a criticar os States!); nem sequer a maioria da esquerda, pelo menos da que eu conheço, vai muito à bola com ele (no mínimo é pouco sofisticado – e é americano, claro).

Moore inventou uma espécie de cinema político novo, um misto de documentário de denúncia e entertainment. Quando andava atrás de Roger Smith (presidente da GM), ou de Charlton Heston (presidente da NRA) era criticado pelos seus métodos agressivos e desrespeitosos; agora que está mais calmo (é muito menos uma ‘personagem’ em Sicko) criticam-no porque ‘se começou a levar a sério’. O homem está condenado a ser preso por ter cão e por não ter.

Neste filme, em que Moore se atira, com a ferocidade habitual, ao sistema de saúde americano, baseado em seguros, estão mais uma vez expostos à evidência quer as suas virtudes quer os seus defeitos. Comecemos por estes: o mundo de Moore é a preto e branco. Bons de um lado, maus do outro. Não há cinzento. Moore é a favor dos sistemas de saúde gratuitos do Canadá, França ou Grã-Bretanha? Então mostra-nos que nestes países tudo é perfeito, em cinco minutos sou maravilhosamente atendido em qualquer urgência, somos todos muito solidários. A França então, é apresentada como o paraíso na terra. Qualquer pessoa tem 2 carros, vive num casarão e ganha 8.000€ por mês. À diabolização do país feita por parte dos EUA (e por muita direita europeia - veja-se cá), Moore contrapõe com uma outra França de fantasia. Mais grave, no seu desejo de provocar, leva mesmo um grupo de doentes americanos para serem tratados no ‘modelar’ sistema de saúde Cubano. Claro que é batota fazer isto: não só porque é perigoso fazer comparações com ditaduras (é a mesma lógica das ‘boas contas públicas’ de Pinochet ou Salazar), como é claro que Moore e os seus doentes foram tratados não como cidadãos comuns, mas como propaganda anti-americana.

Mas também há virtudes: Moore pode ser terrivelmente eficaz e até demolidor a atacar os seus alvos. Penso que ninguém sai deste filme sem estar no mínimo um pouco desconfiado da eficácia de um sistema de saúde baseado em empresas, as grandes seguradoras de saúde, que têm como objectivo o lucro, sendo que os cuidados médicos são cada vez mais dispendiosos. Não obstante puxar por vezes um bocado ao choradinho, os testemunhos que Moore trás para a frente da câmara são eloquentes e impressionam.
Outra boa noticia, é que ao contrário do que já li, Moore não perdeu o sentido de humor, que é absolutamente necessário para os seus filmes funcionarem. O modo como vai gozando o estigma que a palavra ‘social’ ganhou nos E.U.A. é paradigmático; ou quando, num daqueles achados que só ele tem, descobre que afinal há um território americano com cuidados de saúde universais gratuitos: Guantanamo!

Como já disse, este é um cinema politico, tendo assim como prioridade a eficácia da mensagem a passar. Não há assim lugar a grandes subtilezas, mas ainda assim Moore é um cineasta mais inteligente do que por vezes é dito, usando, por exemplo, muito bem a montagem nos seus filmes. Tudo somado, e sendo que cada um tem a sua cabecinha para no final extrair as suas próprias conclusões, penso que continua a valer a pena ir ver os seus filmes.
Sicko, E.U.A., 2007. Realização: Michael Moore. Documentário.