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30.11.07

Cronenberg

"Os fundamentalistas andam a bradar aos céus que foram traídos por David Cronenberg. Como é possível?, perguntam eles. Como é possível que um dos mais sistematicamente estimulantes cineastas contemporâneos digne aceitar filmar guiões indignos do seu talento e andar a fazer tangentes ao "mainstream" que pouco adiantam a uma das obras mais consistentes do cinema recente? Já se sentia esse desconforto nas reacções a "Uma História de Violência" (2005) e o novo "Promessas Perigosas" parece exacerbá-las"

Jorge Mourinha

Só me ocorre que Jorge Mourinha está a falar dos seus colegas do lado. Depois do ano passado o excelente 'Uma história de violência' não ter tido lugar no top ten do Público, agora que estreia o novo filme do realizador canadiano, além de Jorge Mourinha só Vasco Câmara se dignou a ir vê-lo.
(em sentido contrário está Gus Van Sant, actualmente com vela acesa em Meca, que teve direito a casa cheia e unanimidade nas estrelinhas).

Estrela solitária



'Don`t Come Knocking' oferece-nos algo como serviços mínimos de Sam Shepard e Wim Wenders. Há as suas marcas, os seus sinais, a atmosfera do seu universo, mas falta tudo o resto.
Estes ecos dum passado mais brilhante eram suficientes para dar vida a uma curta-metragem de dez minutos (o muito bom segmento de Wenders de 'Ten Minutes Older '), mas não chegam para uma longa de duas horas. Quando a história tem que se materializar, quando é preciso ir além do ambiente, o filme fraqueja claramente e desequilibra-se.
A sólida presença de Sam Shepard como actor (e a fazer de actor) e a breve aparição de Eva Marie Saint (a belíssima actriz de 'Há lodo no cais' e 'Intriga internacional', agora com mais de oitenta anos) são suficientes para o cinéfilo não dar o seu tempo por perdido, mas uma pessoa perde cada vez mais as esperanças de ver um novo grande filme assinado por Wim Wenders.

Don`t Come Knocking, França/Alemanha/Estados Unidos, 2005. Realização: Wim Wenders. Com: Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie Saint.

26.11.07

Shoot`em Up - Atirar a matar



'Shoot`em Up' é uma espécie de homenagem em tons de paródia aos filmes de acção em que um justiceiro solitário dá cabo de um exército inteiro de inimigos, sem nunca perder a coolness ou sofrer um arranhão. Clive Owen (excelente) é um atirador implacável (com um passado traumático, como é de regra), que se vê envolvido numa mirabolante e intrincada conspiração, tendo como adversário um batalhão de inimigos comandado por um lunático Paul Giamatti e contando apenas com a ajuda de uma prostituta que está apaixonada por ele (Monica Bellucci).

'Shoot`em Up' consiste basicamente numa enorme carnificina perpetrada pelo nosso herói, recorrendo por vezes a meios pouco convencionais (há uma antológica cena com uma cenoura - a sua imagem de marca - logo a abrir), nunca baixando os níveis de humor, inverosimilhança e espectacularidade, entrando mesmo numa lógica de desenho animado. Isto filmado a uma velocidade estonteante e com uma barulhenta banda sonora omnipresente (que vai dos Nirvana aos Motörhead!).

'Shoot`em Up' nem sempre escapa à palermice, mas a maior parte do tempo é muito divertido. É, digamos, um divertimento no mesmo comprimento de onda de um 'Planet Terror': está para os filmes de Lonely Rangers/007, como aquele está para os de zombies.
Na sessão onde o vi, o sucesso foi garantido: há muito tempo - festivais à parte - que não via uma sala a irromper em aplausos após uma cena mais inverosimilmente espectacular...
Shoot`em Up, E.U.A., 2007. Realização: Michael Davis. Com: Clive Owen, Monica Bellucci, Paul Giamatti, Stephen McHattie, Greg Byrk.

24.11.07

Luzes no Crepúsculo


No último capítulo da sua trilogia sobre a working class finlandesa, Aki Kaurismäki continua igual a si próprio e diferente de todos os outros. 'Luzes no crepúsculo' é um conto breve, triste e melancólico, mas com momentos de humor desesperado (Kaurismaki parece ter retido aquele segredo do cinema mudo de nos fazer rir com um simples plano) e até de esperança (apesar de tudo, há uma luz que nunca se apaga).
Kaurismäki filma muitíssimo bem, não há um plano a mais, nem um plano com um segundo a mais; a fotografia é deslumbrante e a banda sonora fantástica (e tristíssima). Mas nunca nos ocorreria classificá-lo de virtuoso: simplicidade e agudeza são as suas características. O que lhe permite ter um olhar simultaneamente analítico e caloroso para com as suas personagens marginais.

No início do filme, Kaurismäki, numa magnífica cena 'lateral', põe três transeuntes a falarem de escritores russos: Gorky, Tchéckhov, Tolstoi, Pushkin, Gogol (mas não de Dostoievski, apesar da principal personagem do filme não mexer uma palha para se salvar). Após vermos 'Luzes no crepúsculo', não podemos deixar de achar esta citação a alguns dos maiores contistas da literatura russa muito apropriada: talvez este cineasta do país vizinho, seja um dos seus mais dignos sucessores.

Laitakaupungin valot/Lights in the Dusk, Finlândia/Rússia, 2006. Realização: Aki Kaurismäki. Com: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen, Ilkka Koivula, Sergei Doudko.

22.11.07

Um azar do caraças


Katherine Heigl e Seth Rogen: a bela e o bronco

Sinceramente, só me passou pela cabeça ir ver este filme depois dos meus caros confrades da Liga dos Blogues Cinematográficos o terem eleito como 'filme do mês' de Setembro. O que me ocorre dizer, menos de uma hora depois de ter saído da sala, é que deve ser o pior filme já eleito pelo pessoal da Liga...

Nem digo que seja uma porcaria completa - é até um filme simpático - mas achar que isto é bom, só se o termo de comparação for o 'Porky´s'. 'Um Azar do Caraças' é a enésima variação do enigmaticamente célebre 'Clerks', filme que teve o duvidoso mérito de trazer para a ribalta aqueles cromos de vinte e tal anos mas que se comportam como putos de quinze (daqueles mal educados), para os quais o expoente máximo da comicidade é alguém dar um traque.
Eu sei que há quem veja aqui o elogio da camaradagem masculina, a dificuldade de passar à idade adulta, um retrato geracional até, mas francamente, acho que é preciso muita boa vontade e óculos de aumentar. Eu nem precisava de ver nada disso, bastava que o filme me fizesse rir (é uma comédia, afinal de contas). Mas nem isso: o argumento é inverosímil e forçado (estamos no século XXI, caramba!, uma rapariga não tem que casar com o bronco que a engravidou), as piadas são básicas, todas as cenas com o 'grupo' de Seth Rogen são ou patetóides ou embaraçosas e mesmo ele, só para nos ficarmos pelo "Brat Pack", está a milhas dum Vince Vaugh. Digamos que um filme como 'Os fura-casamentos', suportado apenas em dois muito bons actores e numa mão cheia de boas piadas, faz figura de obra-prima ao pé deste.
Se isto é o 'futuro da comédia americana', vou ali e já venho.
Knocked Up, E.U.A., 2007. Realização: Judd Apatow. Com: Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd, Leslie Mann, Jay Baruchel, Jonah Hill, Jason Segel, Martin Starr.

20.11.07

Beowulf



Quando me desafiaram a ir ver este filme pensei: ver a Angelina Jolie em 3D? Why not? As surpresas começaram na bilheteira: estava eu a dar os 4,20€ à menina, quando me são exigidos 6 euros... "é o preço para filmes 3D". Bom, toca então a desembolsar mais 1,80€ à custa dos óculos, que já não são de cartão, mas uma coisa a sério, não propriamente uns Ray-Ban, mas pelo menos semelhantes aqueles das lojas chinesas.

A tecnologia 3D já é bastante antiguinha, o próprio Hitch chegou a usá-la num filme (o excelente 'Dial M for Murder', que acabaria no entanto por passar em versão 'normal' em quase toda a parte), mas a verdade é que nunca pegou e já não me lembrava de ter visto um filme de óculos postos. Não há duvida que de início somos agradavelmente surpreendidos por termos a imagem bem em cima de nós, o que permite ao realizador brincar um bocado com coisas como pôr um objecto a vir mesmo na nossa direcção ou a sair mesmo defronte do nosso nariz (diga-se em abono de Zemeckis que ele não abusa muito destes truques). Acontece que este filme usa aquela técnica cada vez mais em voga de criar desenhos animados a partir de filmagens com actores (motion capture), ficando assim as personagens mais bonecos que seres de carne e osso, o que neste caso concreto nos remete para uma espécie de ambiente de videojogo. Nunca ninguém há de me conseguir explicar a vantagem, utilidade ou propósito desta técnica, mas adiante. Passado algum tempo já nos habituámos a toda esta tecnicagem, e a 'história', por assim dizer, fica entregue a si própria.

'Beowulf', como é sabido, é uma saga anglo-saxã que vem do século IX e que serviu de inspiração e modelo a muito do que veio depois, incluindo o mundo de Tolkien. Falamos de literatura claro, porque no caso do cinema passa-se o contrário e 'Beowulf', como tantos outros filmes 'fantásticos', é que é filho de 'Senhor dos Anéis'. Com 3D ou sem 3D, com mais ou menos animações computorizadas, não podemos deixar de o ver como mais um pálido sucessor das obras de Peter Jackson, que neste género atingiram um nível quase inultrapassável. Não que alguma ressonância do épico original não passe para a tela, nomeadamente um inusitado humor com forte carga sexual , mas é pouco quando temos um conjunto de personagens que nem em 3D têm qualquer tipo de profundidade, ou quando a carga mítica é fortemente diluida no aparato técnico.

No fundo é um filme para adolescentes: tem acção, fantástico, pouca profundidade, exige o mínimo do espectador e tem 'tecnologia' como eles gostam. E, enfim, um adulto pode não dar o seu tempo por mal empregue se encarar a coisa como um divertimento leve e uma oportunidade para voltar ao 3D - que embora não acrescente nada esteticamente ao filme, acaba por ser um ingrediente diferente numa refeição algo requentada.
Beowulf, E.U.A., 2007. Realização: Robert Zemeckis. Com: Ray Winstone, Anthony Hopkins, John Malkovich, Robin Wright Penn, Brendan Gleeson, Crispin Glover, Alison Lohman, Angelina Jolie.

18.11.07

Control


Duas revelações: Sam Riley e Alexandra Maria Lara

No início de 'Control' temos um rapaz metido consigo mesmo, complicado, mas com carisma e um brilho nos olhos. Para o final temos um homem que não sabe o que fazer da vida, se deixa a mulher se não deixa, se quer mesmo o sucesso que já parece inevitável, que desespera com os ataques epilépticos que vem sofrendo. 'Control', mais que o retrato do artista quando jovem, é o retrato da pessoa que perdeu o controlo da sua vida. Que quer fazer as coisas certas mas não consegue. É um retrato austero, rigoroso e e sem cair em nenhum tipo de cliché sobre artistas malditos - Ian conciliava a vida de popstar emergente com um emprego convencional, mulher e mais tarde uma filha. E é impecavelmente filmado por Anton Corbijn, com uma elegância e sobriedade inatacáveis, suportado por uma imaculada fotografia a preto e branco, e uma encarnação espantosa de Sam Riley em Ian Curtis.

A bem dizer é-me quase impossível encontrar um aspecto negativo neste filme, mas a verdade é que não aderi tanto a ele como gostaria. Talvez porque seja demasiadamente asséptico na sua elegância formal, talvez porque arrisque pouco - é tão bem feito que nem nos apercebemos da sua estrutura bastante convencional (por exemplo: inserir as canções reflectindo a vida pessoal do artista naquele momento é algo bastante óbvio, embora por vezes resulte bem). Talvez lhe falte alguma rugosidade, alguma sujidade.

Ainda assim, insisto, achei-o bom. Mas vai ter que que marinar mais algum tempo no meu espírito, até conseguir perceber bem porque é que não me agarrou emocionalmente - e logo a mim, que cresci a ouvir os Joy Division.
Control, Grã-Bretanha, Estados Unidos, 2007. Realização: Anton Corbijn. Com: Sam Riley, Samantha Morton, Joe Anderson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Alexandra Maria Lara, Craig Parkinson.

16.11.07

Gangster Americano



O 'Gangster Americano' é Frank Lucas (Denzel Washington), o primeiro negro a chegar ao topo da hierarquia de venda de droga na Nova Iorque dos anos 70. E 'Gangster Americano' é um filme que se insere na nobre tradição americana de filmes de gangsters, ou seja, em que se conta pedaços de história do país através das 'classes criminosas'. Porque, mais uma vez, esta é uma história sobre o American dream: Lucas começou como motorista do rei da droga do Harlem e, graças às suas 'qualidades' (que incluíam o olho para o negócio e a violência em iguais doses) não só lhe sucedeu como o ultrapassou, chegando ao topo do topo, passando para trás a Máfia, constituída por brancos que o olhavam de cima.

Ridley Scott, de quem nunca sabemos bem o que esperar, não inventa nada neste filme, antes cumprindo com competência, rigor e pulso todos os códigos do género, entrelaçando com desembaraço o particular (o polícia incorruptível - olhado de lado pelos colegas por ter devolvido um milhão de dólares que apreendera! - mas incapaz de estabilidade na vida pessoal; o gangter assassino mas que põe a família em primeiro lugar - todos os Domingos acompanhava a mãe à igreja), com o retrato de grupo (a policia corrupta; o racismo da América da altura; o Vietname em pano de fundo).

Não obstante a estrutura clássica, que vai traçando linhas de início paralelas, mas que se vão estreitando cada vez mais, entre o polícia e o gangster, caçador e caça, o título não engana e é no Gangster Americano que Scott se centra mais. O facto de ser negro é-lhe vantajoso no início, pois ninguém na polícia acredita que um negro possa ser o patrão; mas, como o polícia Richie Roberts (Russell Crowe) o adverte, no final ninguém lhe vai perdoar isso. Todas as suas características que lhe permitiram subir a pulso, acabam depois por o deitar abaixo: a cor da pele; o seu código de honra (que o impede de negociar com polícias corruptos por os desprezar); a família como unidade nuclear (mas não inviolável, como descobrirá). E, ironia do destino, até a unica falha que tem na sua regra de conduta de máxima descrição será paga com um valor altíssimo. Mas se calhar não havia nada a fazer: era impossível um negro chegar lá acima e passar despercebido. O sonho americano tem um limite.

Falta a Ridley Scott maior subtileza para chegar à obra-prima, ao clássico que ambicionaria, mas consegue ainda assim um excelente filme que não desmerece a tradição de onde imana. E que é seguramente um dos melhores deste desconsolado ano cinematográfico.
American Gangster, E.U.A., 2007. Realização: Ridley Scott. Com: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Cuba Gooding Jr., Lymari Nadal, RZA.

15.11.07

Compras em saldos

Rourke é um polícia justiceiro e racista, sedutor e perdido, um filho do Vietnam, que empreende uma cruzada contra o ‘mal’ em Chinatown. ‘O ano do dragão’ é um filme fascinante, com pormenores insólitos (como o loft modernista de Tracy Tzu), que nos mostra o grande actor que era Mickey Rourke e nos lembra que um dos maiores crimes do cinema actual é Cimino estar há mais de 10 anos sem filmar. Nota 9,5.
('O Ano do Dragão', 4 euros e tal no Feira Nova)


Primeira aparição de Jimmy Stewart no universo de Ford, no mesmo ano do seminal ‘O homem que matou Liberty Valance’. É um filme com um background bastante pessimista sobre a natureza humana, mas com aquele toque de humanismo e humor de que só John Ford tinha o segredo. Parece que Ford detestava este filme. Eu achei-o uma obra-prima. Nota 10.
('Terra Bruta', 8 euros e tal no El Corte Inglés)


Não é uma obra-prima como ‘Perseguido pelo passado’ e DePalma diz mesmo nos extras que se lançou na sua realização porque precisava desesperadamente de um êxito comercial; mas é, como soe dizer-se, um filme sólido e de travo clássico. E prova que houve um tempo em que Kevin Costner entrava em bons filmes. Nota 8.
('Os Intocáveis', 8 euros e tal na Fnac)

13.11.07

(devido a aselhice minha, apaguei uma data de coisas por aqui, incluindo os links; pouco a pouco, assim haja tempo e paciência, irão sendo repostos)