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19.12.07

30 Dias de Escuridão



Imagine o leitor que é um vampiro: tem que passar os dias enfiado num caixão, ou algo no género, e só à noite se pode escapulir furtivamente para atacar uns pescoços. Agora imagine que existe um sítio em que é noite durante 30 dias consecutivos - uma terriola no Alasca. Bom! É uma tentação reunir um grupo de amigos e dar lá um saltinho para uma orgia de sangue, não? É nesta ideia fantástica (digo eu) que se baseia a graphic novel de Steve Niles e Ben Templesmith que '30 Days of Night ' adapta à tela.

Rapidamente, podemos dizer que '30 Dias de escuridão', realizado por David Slade (autor do curioso Hard Candy) tem uma competência geral bem acima da média do género (que como qualquer fã sabe, não é assim muito elevada). No entanto, e mesmo tendo gostado do filme, na minha opinião falha em dois aspectos chave: um - como filme de terror, que pretende ser. Não mete medo, não assusta, não sobressalta. Mesmo a chegada dos vampiros à pacata cidade, cena chave em qualquer fita do género, é mortiça e sem garra; dois - como filme passado no Alasca. Eu sempre tive um certo fascínio por este estado americano ali no meio do nada, mas infelizmente Hollywood não se tem virado muito para lá. Tirando o muito bom 'Insomnia', poucas vezes se tem explorado este território geográfico e humano. Aqui, Josh Hartnett (o policia-herói) ainda se sai com um 'nós somos diferentes das outras pessoas, por iso é que viemos viver para aqui', mas nunca o tema é bem explorado. E é pena.

Ainda assim, e voltando atrás, argumento, actores e realização estão a um nível bem razoável e este é um daqueles filmes que foram feitos para o crítico repetir uma vez mais o chavão: os fãs do género não sairão desiludidos.

30 Days of Night, E.U.A./Nova Zelândia, 2007. Realização: David Slade. Com: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston, Ben Foster, Mark Boone Junior.

18.12.07

O seu a seu dono



Tarantino fala aqui das suas 'influências asiáticas', sem mencionar uma única vez Norifumi Suzuki, o mestre dos pinky movies (designação 'técnica' dos violentos sexploitations japoneses). Acontece que eu vi recentemente, quase de enfiada, três filmes do realizador japonês e não parei de pensar em Tarantino. Temas xungas filmados com estilo? Planos psicadélicos? Banda sonora a condizer? Está lá tudo. E nem falo em cenas practicamente iguais. Digamos que se eu tivesse a habilidade da Cláudia fazia uma secção destas (puras coincidências... ou talvez não) só com o Kill Bill e o Sex and Fury.

(Nem é preciso dizer que sou um huge fan of Mr.Tarantino. Apenas não gostei da omissão da minha mais recente descoberta!)

16.12.07

Post não cinematográfico (não resisto)

Portugal no seu melhor.

12:08 A Este de Bucareste



A primeira metade deste filme não nos prepara para o que vem a seguir. Durante 40 minutos temos uma espécie de apresentação das personagens, habitantes de Timisoara: um professor alcoólico, um velhote reformado que faz de Pai Natal (no tempo do regime comunista era algo como 'Pai Gelado') e um ex-engenheiro que montou uma estação de TV local, onde apresenta um programa daqueles em que os espectadores podem telefonar e entrar no ar em directo. O tom é 'realista', se bem me faço entender, e vai-nos dando um retrato melancólico e não muito optimista da Roménia pos-Ceausescu. Um bom retrato, mas que parece não se elevar muito.
Mas eis então que temos as três personagens reunidas no estúdio de TV: o apresentador convidou os outros dois nossos conhecidos para falarem das suas memórias do dia da queda de Ceausescu. Houve ou não uma revolução em Timisoara? Ou seja: as pessoas saíram para a rua antes ou depois de saberem da queda do ditador? Num golpe de asa genial, o filme metamorfoseia-se então numa caustica e impiedosa sátira que não poupa nada nem ninguém. São 45 minutos implacáveis, entre o feroz e o delirante, onde não só o 'povo' Romeno, mas no fundo todos os seres humanos (qualquer português se lembrará logo do famoso 'onde é que você estava no 25 de Abril?'), saem pessimamente na fotografia.
É um tour de force impressionante, que torna este vencedor da Câmara de Ouro (melhor primeiro filme) de Cannes 2006 num magnífico exemplo da 'nova vaga' Romena.
A fost sau n-a fost?/12:08 East of Bucharest, Roménia, 2006. Realização: Corneliu Porumboiu. Com: Mircea Andreescu, Teo Corban, Ion Sapdaru, Daniel Badale.

13.12.07

Estava a pensar em pôr aqui o meu top do ano, quando reparei que ainda vai estrear 'Redacted', o último DePalma. Será que é melhor esperar até lá?

11.12.07

2007

E começam a aparecer os primeiros tops de filmes do ano:

Aqui está um pdf com os melhores do ano da Sight & Sound. Além do 'top da revista', dentro do espectável, vale bem a pena espreitar as listas individuais dos criticos que participaram, algumas bastante idiossincráticas. Desde um critico que pôs em primeiro o último episódios dos Sopranos, até Jonathan Rosenbaum, um dos mais conhecidos e influentes críticos da praça, que listou em primeiro 'Casa de Lava' (que até é de 1994) e o compara a... 'I Walked With a Zombie'!, há escolhas para todos os gostos. (link descoberto via Filipe Furtado)

Aqui, o top de Ricardo Gross, uma das pessoas que por cá melhor escreve sobre cinema (e não só).

10.12.07

Peões em jogo



Tal como as suas personagens neste filme, mormente a que interpreta, Robert Redford acha que é obrigação dos americanos decentes fazerem alguma coisa e não se limitarem a encolher os ombros e assobiarem para o lado, enquanto uma administração incompetente leva o país para a ruína. Sendo assim, arregaçou as mangas e deu-nos este 'Lions for Lambs'. Só por este facto, por ser um 'filme de mensagem', tem sido deitado abaixo em muito lado. Eu não vou tanto por aí. Filmes políticos liberais há-os muito bons e Redford entrou mesmo num dos mais emblemáticos ('Os homens do presidente').
O seu pecado, quanto a mim, é ser maçador e convencional. Sendo o chamado filme de argumento e actores, o argumento não ultrapassa nunca a mediania, o que fere desde logo o projecto. Há aqui uma espécie de resumo dos argumentos liberais contra a guerra e a favor do empenhamento civico das pessoas, que é transmitido em duas longas conversas que formam dois dos três segmentos do filme, apresentados em montagem paralela. Esta estrutura prejudica o filme de duas maneiras: não só estes diálogos 'professor empenhado/aluno desinteressado' e 'senador ambicioso/jornalista desconfiada' transmitem um tom didáctico excessivo, como o terceiro segmento - passado num cenário de guerra no Afeganistão- acaba por se tornar numa espécie de corpo estranho ao filme, problema que o realizador nunca consegue resolver (apesar de até partir de uma boa ideia irónica - nem uma tecnologia hiper-sofisticada, que permite monitorizar em tempo real um combate a dezenas de quilómetros, consegue salvar os soldados quando estes foram postos em situações vulneráveis devido a erros estratégicos de palmatória).
Sobram então os actores: Redford, excelente, praticamente aguenta sozinho o seu episódio; por outro lado, se Meryl Streep está bem como sempre, nem ela é capaz de nos convencer da súbita ingenuidade e rebate de consciência de uma veterana jornalista politica de 57 anos. Tom Cruise pica o ponto e os restantes actores não têm grande coisa para defender.
Resumindo: é uma pena Redford ser bem melhor à frente da câmara do que atrás dela.
Lions for Lambs, E.U.A., 2007. Realização: Robert Redford. Com: Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise, Michael Peña, Derek Luke, Andrew Garfield, Peter Berg.

6.12.07



Quando agora me movo, graciosamente, espero, em direcção da porta marcada Saída, ocorre-me que a única coisa que eu realmente gostava de fazer era ir ao cinema. É claro que o sexo e a arte sempre tiveram precedência sobre o cinema, mas nunca nenhum deles se mostrou tão digno de confiança como a filtragem da luz presente através daquela película de celulóide, que projecta imagens e vozes do passado num ecrã, mostrando assim a história por um processo aparentemente simples.

Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto - Memórias 1964-2006

(numa daquelas originalidades em que a edição portuguesa é pródiga, foi agora publicado por cá este segundo volume das memórias de Gore Vidal, sem nunca o ter sido o primeiro - o excelente 'Palimpsest'. Infelizmente a tradução/revisão deste volume é tão má, que torna várias passagens quase ilegíveis)

4.12.07

Filmes de Novembro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Almas em chamas, Henry King, 1949 (7)
Gilda, Charles Vidor, 1946 (7,5)
The Invasion of the Body Snatchers, Don Siegel, 1956 (7,5)
Terra bruta, John Ford, 1961 (10)
Simão do Deserto, Luis Buñuel, 1965 (10)
The Soylent Green, Richard Fleisher, 1973 (7,5)
Ultra Vixens, Russ Meyers, 1979 (5)
O ano do dragão, Michael Cimino, 1985 (9,5)
Os intocáveis, Brian de Palma, 1987 (8)
No Direction Home - Bob Dylan, Martin Scorsese, 2005 (8)
Pintar ou fazer amor, Arnaut e Jean-Marie Larien, 2005
Estrela Solitária, Wim Wenders, 2005
Zidane, Um retrato do século XXI, Douglas Gordon e Philippe Parreno, 2006
Luzes no crepúsculo, Aki Kaurismaki, 2006
Um azar do caraças, Jude Aptow, 2007
Elisabeth- A idade de ouro, S.Kapur, 2007
Corrupção, n/a, 2007
A invasão, Oliver Hirschbiegel, 2007
Sicko, Michael Moore, 2007
Gangster americano, Ridley Scott, 2007
Beowulf, Rober Zemeckis, 2007
Control, Anton Corbjin, 2007
Shoot`em Up - Atirar a matar, Michael Davis, 2007
Paranoid Park, Gus Van Sant, 2007
Promessas perigosas, David Cronemberg, 2007

3.12.07

Promessas perigosas



Um dos muitos motivos que fazem ‘Uma história de violência’ ser um dos filmes mais fascinantes dos últimos anos é o argumento, surpreendentemente adaptado de uma graphic novel: pegando num tema clássico, habitual nos westerns (o homem com um passado misterioso e violento, que tenta levar uma vida ‘normal’ - mas o destino não o permite), parte para uma inquietante reflexão sobre a contaminação pela violência. Em ‘Eastern Promises’ Cronenberg anda novamente à volta da violência, mas o argumento agora é mais ‘plano’, digamos assim. Talvez o realizador já tenha exposto as suas premissas teóricas no filme anterior e agora se ‘limite’ a ilustrar de uma outra forma o tema.
Assim ‘a quente’ (vi o filme ontem e ainda gostaria de o rever) não penso que estejamos na presença de uma obra-prima como o seu antecessor, mas não há duvida que possui uma vez mais um elemento de perturbação que só os maiores realizadores conseguem transmitir.
Se o argumento me parece mais fraco que o do seu antecessor (embora Vigo Mortensen componha novamente uma personagem fascinantemente ambígua, não há nenhuma personagem tão marcante como a de Maria Bello, por exemplo), ainda assim este filme não deixa de se inserir naturalmente no pessoalíssimo universo de Cronenberg - e esta capacidade de um realizador transformar uma história numa coisa sua é a mais segura marca autoral que conheço.
Não é difícil prever o que esta história daria nas mãos de um qualquer tarefeiro, mas podemos mesmo imaginar o que seria nas mãos de um Scorsese, para pegarmos noutro dos maiores. Seria muito diferente certamente, nomeadamente na maneira como nos são apresentadas as cenas de violência. Quem acha que não há aqui a 'marca de Cronemberg', que pense bem nisso.
Eastern Promises, E.U.A./Grã-Bretanha/Canadá, 2007. Realização: David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinead Cusack