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8.2.08

O lado selvagem



Em 1990, com 22 anos e recém-licenciado, Christopher McCandless abandona a próspera casa paterna sem dar cavaco a ninguém e mete-se à estrada. Deambula por uma boa parte da América (chegando mesmo ao México) à boleia, a pé, ou até de canoa, arranjando empregos temporários quando o dinheiro rareava (abandonara o seu carro e queimara o dinheiro que possuía para se sentir mais livre) mas nunca se fixando muito tempo no mesmo local. Desconfiado das relações humanas e influenciado pelas suas leituras, que incluíam Tolstoi e Thoreau, ansiava por chegar ao Alasca, onde poderia estar longe do homem e em comunhão com a natureza selvagem e pura.

Sean Penn vai intercalando a viagem de McCandless com breves flashbacks do seu passado, narrados em voz off pela irmã. Talvez esta seja a parte menos conseguida do filme, pois é demasiadamente explicativa e algo estereotipada (Chistopher quer fugir a uma família materialista, hipócrita e cheia de mentiras). Pelo contrário, a parte on the road, é plenamente conseguida. Penn tem olho de cineasta e a sua câmara vai captando melancolicamente, com vagar e gosto, a paisagem americana (sem cair na tentação do bilhete postal), ao som da excelente banda sonora de Eddie Vedder, embalando o espectador, que é quase hipnotizado pelas imagens e som. Penn tem ainda a mestria de não entrar muito pelo lado lado místico ou esotérico, mostrando-nos um McCandless extremamente simpático, uma pessoa que faz amigos com grande facilidade, com uma simpatia espontânea, onde apenas se entrevê uma certa tristeza interior, não obstante toda a força que possui. Claro que a isto não é estranha a tranquila mas marcante interpretação de Emile Hirsch.

Tal como aconteceu com o excêntrico Timothy Treadwell, retratado em 'Grizzly Man', também aqui McCandless não é bem tratado pela rude e impiedosa natureza que tanto amou, e onde procurou (ingenuamente?) uma solução para o seu vazio. O tocante final do filme, é o derradeiro motivo para admirarmos esta sétima obra de Sean Penn atrás da câmara.
Into The Wild, E.U.A., 200. Realização: Sean Penn. Com: Emile Hirsch, Vince Vaughn, Jena Malone, William Hurt, Marcia Gay Harden, Kristen Stewart, Catherine Keener.

7.2.08

Sedução, Conspiração



Depois de um ano de 2007 apenas mediano, cinematograficamente falando, 2008 está a começar muitíssimo bem: já vi dois filmes muito bons ('4 Meses, 3 semanas...' e 'O assassínio de Jess James...') e três que são algo mais do que isso - 'Darjeeling Limited', 'Sweeney Todd' e este 'Sedução, Conspiração'.
Se os dois primeiros deste trio se encaixam em universos muito próprios e idiossincráticos, este último inscreve-se numa tradição clássica, é um descendente directo de uma longa linhagem de filmes de época, que com todas as suas diversas cambiantes vem deste os primórdios. É, apetece dizer, um filme à moda antiga. Mas, como sempre acontece com Ang Lee, há também um elemento transgressor, uma maneira nova de contar a história.
As já famosas cenas de sexo, bastante explicitas mas filmadas com uma elegância inatacável, aprofundam e recentram 'Sedução, Conspiração', que seria sempre um bom filme de 'espionagem' e um bom retrato de época; ao focar a perturbante e complicada relação sexual dos seus protagonistas, Ang Lee permite-nos uma maior compreensão, quer deles, quer de tudo o que se passará depois. Pode-se mesmo dizer que há toda uma dimensão que se perderia se elas não estivessem lá como estão.
Uma história bem contada, com personagens muito reais, filmada com um talento superior, que nos deixa marcas depois de a vermos: que mais se pode pedir a um filme?
Se, Jie/Lust, Caution, E.U.A./Hong Kong/Formosa/China, 2007. Realização: Ang Lee. Com: Tony Leung, Tang Wei, Wang Leehom, Joan Chen, Chung-Hua Tou.

4.2.08

Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street



Se todos os filmes de Tim Burton se passam numa outra dimensão, a que se poderá chamar onírica, aqueles onde as suas enormes capacidades melhor se revelam são os mais negros, aqueles onde o seu extraordinário universo gótico e sombrio serve de pano de fundo. Estou a pensar em ‘Eduardo mãos de tesoura’ (um clássico instantâneo), em ‘A lenda do cavaleiro sem cabeça’, ou nas suas animações. E agora, também em ‘Sweeney Todd’. Pelo contrário, filmes mais ‘coloridos’ como ‘The Big Fish’ ou ‘Charlie e a fábrica de chocolate’ não me convenceram inteiramente. Burton é, definitivamente, o rapaz que queria ser Vincent Price.

‘Sweeney Todd’ tem a particularidade de ser o primeiro musical de Burton com personagens de carne e osso, adaptando a peça homónima da Broadway. Burton ao que parece segue-a à letra, mas como qualquer grande criador, não só não se deixa espartilhar por esta, como a transforma completamente numa coisa sua. A sanguinolenta história do barbeiro que mata por vingança é rapidamente burtonizada, parecendo que a personagem foi criada especialmente para Johnny Depp (que nasceu para fazer papeis destes) e que não poderia ter como cenário outro local que não esta Londres sombria que é tão dickensiana quanto burtoniana. E, se ao princípio me pareceu que as canções limitavam um bocado o filme (a mim estas canções de musicais parecem-me todas iguais), a verdade é que vai havendo um crescendo à medida que a narrativa se desenvolve, não só em termos dramáticos como também musicais, terminando o filme em grande estilo.

Se acrescentarmos, uma vez mais, que ninguém filma hoje em dia como Burton, que a nenhum outro realizador se aplica tão apropriadamente o lugar-comum demasiadamente gasto de ser um poeta com a câmara, torna-se claro que estamos presente um filme imperdível. Feliz o ano que nos proporciona logo a abrir duas grandes obras dos realizadores mais extravagantes da actualidade.
Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Tim Burton. Com: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen, Laura Michelle Kelly, Jamie Campbell.

3.2.08

O banquete do amor



'Feast of Love' é mais um filme-mosaico, que anda à volta das relações amorosas e sexuais de vários casais. O fio condutor é Morgan Freeman, que vai observando com um misto de admiração e desencanto o que se passa à sua volta.
Se formalmente este filme é um descendente de 'Short Cuts' ou 'Magnolia', a sua temática (genericamente as relações humanas nos subúrbios da classe média americana) também traz à lembrança o recente 'Pecados Íntimos'.
Na minha opinião não está ao nível dos seus modelos porque, sendo um filme de actores e argumento, o seu ponto fraco está precisamente no argumento. Mesmo que o veterano Robert Benton não seja Altman ou P.T.Anderson, é ainda assim um realizador confiável que já assinou boas adaptações de obras literárias; mas Charles Baxter, que escreveu o livro que o filme adapta, não é certamente Raymond Carver, nem sequer Tom Perrotta.
O argumento é certinho de mais, parece o trabalho de um (bom) aluno de um curso de escrita criativa. As personagens estão bem desenhadas, os acontecimentos vão-se entrelaçando com eficácia e desenvoltura, os diálogos são geralmente bons (às vezes um pouco óbvios, às vezes bastante bons), há um narrador que vai pontuando a narrativa, mas nunca se passa do tom levemente sentimental para algo que desperte o espectador, nem existe um ponto de vista verdadeiramente original sobre o amor, ou o sexo, ou o que quer que seja.
Benton ainda tenta dar alguma rugosidade ao filme, quer através dum inteligente uso da fotografia, quer indo um pouco mais além que o normal num filme médio americano ao filmar nus, mas nunca consegue tirar-nos a sensação de estarmos a ver um simpático filme de Domingo à tarde.
Feast of Love, E.U.A., 2007. Realização: Robert Benton. Com: Morgan Freeman, Greg Kinnear, Radha Mitchell, Billy Burke, Selma Blair, Alexa Davalos, Toby Hemingway, Jane Alexander.

31.1.08

Filmes de Janeiro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Nada é sagrado, William A.Wellman, 1937 (7,5)
O diabólico Dr.Mabuse, Fritz Lang, 1960 (9,5)
A noiva estava de luto, François Truffaut, 1967 (7,5)
Lady Frankenstein, Mel Wells, 1971 (5)
The Black Windmill, Don Siegel, 1974 (7)
They Call Her One Eye, Bo Arne Vibenius, 1974 (5)
Ecce Bombo, Nanni Moretti, 1978 (9)
Zombie 2, Lucio Fulci, 1979 (5)
Finalmente!, François Truffaut, 1983 (7,5)
Re-Animator, Stuart Gordon, 1985 (4)
Showgirls, Paul Verhoeven, 1995 (6,5)
E a tua mãe também, Alfonso Cuarón, 2001 (7,5)
Shaun of the Dead, Edgar Wright, 2004 (6)
Napoleon Dynamite, Jared Hess, 2004 (8)
Klimt, Raul Ruiz, 2006 (5,5)
Exiled, Johnny To, 2006 (7)
Raça assassina, Nicholas Mastrandea, 2006
We Own the Night, James Gray, 2007
Call Girl, António-Pedro Vasconcelos, 2007
Jogos de poder, Mike Nichols, 2007
Cassandra's Dream, Woody Allen, 2007
Expiação, Joe Wright, 2007
O assassínio de Jess James pelo cobarde Robert Ford, Andrew Dominik, 2007
4 Meses, 3 semanas, 2 dias, Cristian Mungiu, 2007
The Darjeeling Limited, Wes Anderson, 2007
Hotel Chevalier, Wes Anderson, 2007

Comecei o mês (e consequentemente o ano) a ver "Showgirls", e isso já diz muita coisa. De resto, ocupei as minhas tardes de Sábado a ver 'clássicos' de terror/zombies, seleccionados por uma especialista. Desde "Lady Frankenstein", um 'Italian Sexy Horror Movie', featuring... Joseph Cotten!, até "Zombie 2", famoso pela sua lendária luta entre um zombie e um tubarão (enquanto a mocinha, vestida com uma botija de ar e um fio dental, observa), muito haveria a salientar. Mas o destaque vai para 'Napoleon Dynamite': pela primeira vez na vida gostei de um filme de nerds. É obra!
(para os leitores sérios, também estão aí em cima duas obras-primas de Moretti e Lang, dois dos suspeitos do costume)

30.1.08

Raça assassina



A maior virtude de Nicholas Mastandrea (habitual assistente de Wes Craven, que produz o filme), nesta sua primeira obra, é não inventar. Ou seja, não acrescentando nada ao género (terror), cumpre todas as suas regras com eficácia e destreza: apresenta bem a situação (um grupo de amigos que vai passar um fim de semana a uma ilha 'deserta'), gere bem o suspense até revelar o 'inimigo' (há um grupo de cães hostis na ilha) - sem rodriguinhos desnecessários, explora bem os conflitos que surgem no grupo (incluindo, naturalmente, os que vêm de trás), não abusa na exposição da carnificina (há alguma, mas as cenas mais marcantes são aquelas em que nos são mostrados os cães imóveis, em vigilância), não toma os espectadores por idiotas (não é daqueles filmes em que estamos o tempo todo a pensar 'mas porque carga de água resolveram sair agora mesmo de casa para serem apanhados'), não exibe truques de 'câmara nervosa', liga pouco ao McGuffin (umas experiências militares com cães assassinos, ou lá o que é) e tem uma excelente gestão espacial (mantém as personagens quase sempre em casa, num espaço fechado - o que é sempre uma decisão sensata) e temporal (não dura nem mais um minuto do que devia). Assim sendo, mantém o espectador, que já viu este filme mil vezes, num estado de tensão permanente. Ou seja, exibe a competência de um bom filme de terror 'série B', para o que também contribui um elenco desconhecido (exceptuando a bela Michelle Rodriguez que alguns reconhecerão de 'Lost') e a falta geral de aparato (deve ter custado meia dúzia de patacos). Nada mau.
The Breed, Alemanha/África do Sul/E.U.A., 2006. Realização: Nicholas Mastandrea. Com: Michelle Rodriguez, Oliver Hudson, Hill Harper, Taryn Manning.

28.1.08

Darjeeling Limited



E a Andersonlândia está de volta. Desta vez começa por nos surpreender brindando-nos com uma curta-metragem, 'Hotel Chevalier', que é uma espécie de primeira parte de 'Darjeeling Limited', mas completamente independente. É uma obra-prima de 13 minutos, com um impassível Jason Schwartzman (que transita para a longa) e uma sensual Natalie Portman (que se fica por aqui).
Depois vem o 'Darjeeling ' propriamente dito. Como já dissemos Schwartzman é convocado mais uma vez, depois de 'Rushmore', colaborando também no argumento; Owen Wilson participa pela quarta vez, assim como Bill Murray (que aqui se limita a um cameo); e Anjelica Huston é novamente a mãe da família. O director de fotografia é, como sempre, Robert Yeoman, que também fotografou 'A lula e a baleia' de Noah Baumbach (co-argumentista de 'The Life Aquatic with Steve Zissou') e 'CQ' de Roman Coppola, que é co-argumentista, produtor e Second Unit Director deste filme (e, já agora, é primo de Schwartzman e amigo de Anderson). O novo rebento da família, é Adrien Brody (que se adapta que nem uma luva).
De resto Anderson continua às voltas com famílias (três irmãos em jornada espiritual pela Índia), com personagens melancólicas e elegantemente kitsch, com adereços fashion (depois dos fatos de treino e sapatilhas Adidas, agora temos malas Louis Vuitton - com uns desenhos de Eric Anderson, irmão de Wes). Continuamos a ter direito a magníficos grandes planos, a detalhes insólitos, a uma banda sonora incrível (que mistura diversas musicas de filmes de Satyajit Ray com os Rolling Stones ou os Kinks, terminando com o imortal Les Champs-Élysées de Joe Dassin) e cenas de que só ele se lembra (às tantas, num flashback, parece que vamos assistir ao funeral do pai da família, mas acabamos por ver uma tentativa de 'ressuscitar'...o seu Porsche!). O tom continua melancómico, como sempre, talvez menos desvairado que em 'Zissou', mais próximo dos 'Tenenbaum'.
É mais do mesmo? Sem dúvida. É muito bom? Pois claro que sim.
The Darjeeling Limited, E.U.A., 2007. Realização: Wes Anderson. Com: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Anjelica Huston, Camilla Rutherford, Amara Karan.

25.1.08

4 Meses, 3 semanas e 2 dias



Este filme, vencedor da Palma de Ouro da última edição de Cannes, poder-se-ia chamar Bucareste fora de horas, ou Um dia na vida de Otília.
Otília encontra-se com o namorado que lhe recorda que tem que passar em casa dele mais tarde: a mãe faz anos. E que leve flores. Otília tenta escapar mas acaba por ceder. Depois vai tentar marcar um quarto num hotel. Não o consegue à primeira nem à segunda, só depois de negociações e pequenas humilhações. Mas o pior está para vir: o quarto destina-se a ser o lugar em que a sua amiga Gabita vai abortar clandestinamente (estamos na Roménia comunista, onde o aborto é proibido). Gabita parece ser boa pessoa, mas irritantemente superficial e irresponsável. Mentiu em quase tudo ao homem que vai fazer o aborto, tratou das coisas de uma forma displicente e pôs as duas raparigas (que são estudantes no politécnico e têm pouco dinheiro) numa situação muito complicada. O homem aproveita para as chantagear e Otília terá que pagar com o próprio corpo. Em seguida tem que ir ao tal aniversário em casa do namorado. Aí é novamente humilhada pelos imbecis presentes na festa, que se acham duma classe superior e tem que enfrentar a cobardia e indecisões do namorado. Entretanto Gabita não atende o telefone e Otília em pânico volta para o hotel, onde o aborto já ocorreu, e acaba por ter que ser ela a desfazer-se do feto. Enquanto isso, a amiga que estava com fome, espera-a tranquilamente no restaurante do hotel.
Pelo meio, claro, o que parecia uma história socialmente empenhada, realista, seca e fria, já se tornou numa aventura kafkiana claustrofóbica e inquietante, numa crítica cerrada e impiedosa a toda uma sociedade e a um sistema politico, num conto triste, escuro e um pouco absurdo. É esta capacidade de transcender o que pareciam ser as suas coordenadas, seguras e lineares, que transforma "4 Meses, 3 semanas e 2 dias" num grande filme. Mais um, da nova vaga Romena.
4 luni, 3 saptamani si 2 zile, Roménia, 2007. Realização: Cristian Mungiu. Com: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alex Potocean, Ion Sapdaru, Teodor Corban, Eugenia Bosânceanu, Marioara Sterian.

24.1.08

O Nariz


(Parte 1)

(Parte 2)


Le Nez, a partir do fantástico conto de Gogol.

21.1.08

O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford



O que me surpreendeu mais neste pós-western foi o sentido de humor. É muitíssimo bem filmado (sem ser decorativo ou fútil - e lembremos a importância da paisagem no imaginário dos westerns), tem um excelente argumento à volta duma epigrafe do género ("quando a lenda supera a realidade...") e proporciona uma interpretação extraordinária a Casey Affleck . De tudo isto eu já estava à espera. Só não sabia se conseguiria ser poético sem ser pretensioso, ou pedante, ou deslumbrado consigo mesmo. Consegue-o, e penso que o seu segredo passa muito por nos fazer rir bastantes vezes, por dar a entender que não se leva assim tão a sério. E também pela violência de duas, três cenas, não mais. Perder-se-á aquele lado místico (à Malick), mas alcança-se uma serena beleza contemplativa. Resumindo: é um belíssimo filme.
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, E.U.A., 2007. Realização: Andrew Dominik. Com: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Shepard, Mary-Louise Parker, Paul Schneider, Jeremy Renner, Zooey Deschanel, Sam Rockwell.