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12.3.08

Café Bagdad



Amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, Marta Catarino, Patrícia Jerónimo e eu próprio, conversamos informalmente sobre cinema no Rádio Clube - Emissão Minho (92.9).
O Pedro Costa do RCP modera, e nós divagamos a propósito de 'O bom, o mau e o vilão', de Leone, e de 'Este país não é para velhos', dos manos Coen. Fica a sugestão para eventuais leitores/ouvintes da região de Braga - vale a pena ouvir a Marta e a Patrícia.

11.3.08

Duas irmãs, um rei



O argumentista Peter Morgan, que já nos tinha dado a sua visão de Tony Blair e da sua entourage em ‘A Rainha’, vira-se agora para Henrique VIII, adaptando o livro de Philippa Gregory.
Algo mudou duma época para a outra: no século XVI as inúmeras intrigas palacianas eram feitas mais à descarada (hoje oferecer a filha casada para amante do soberano não fará parte do menu) e, claro, o Rei fazia pura e simplesmente o que lhe dava na real veneta, rompendo com a Igreja Católica e enviando esposas para conventos ou até para o cadafalso, com o nobre propósito de satisfazer os seus apetites sexuais e de caminho dar um varão à corte. Pensar no pobre Tony Blair sempre rodeado de assessores de imagem para auscultar os ‘sentimentos do povo'...
Morgan é bastante menos simpático com o Rei do que o foi com o primeiro-ministro e o argumento sai-lhe bastante menos interessante. Tenta meter tanta coisa no caldeirão (inventando livremente quando lhe apetece) que inevitavelmente não há tempo para digerirmos a coisa. Tantas peripécias, traições, reviravoltas e intrigas se vão sucedendo, que as personagens nem tempo têm para respirar, quanto mais para serem credíveis. Henrique VIII, um homem poderosíssimo, é tratado como um mero joguete nunca se percebendo as suas motivações, fazendo Eric Bana pouco mais que figura de corpo presente.
Tudo isto precisava de outro tempo, de outra respiração, que esta espécie de condensado não permite, dividindo-se a culpa entre argumentista e realizador. Se o primeiro não fornece grande matéria-prima, o segundo também não vai além da ilustração competente e insossa.
Deixamos então para o fim o único motivo pelo qual este filme terá alguma notoriedade (se a tiver): reunir no ecrã duas das mais cativantes actrizes da actualidade. Na minha modesta opinião nenhuma delas é especialmente favorecida pelas roupinhas da época, mas não há como não ficar pelo beicinho com La Scarlett - que faz cara de boazinha e não muito mais. Natalie faz de má, e bem. E... c’est tout!
The Other Boleyn Girl, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Justin Chadwick. Com: Scarlett Johansson, Natalie Portman, Eric Bana, Jim Sturgess, Kristin Scott Thomas, David Morrissey.

9.3.08

Fantasporto 2008

GRANDE PRÉMIO MELHOR FILME FANTASPORTO 2008: REC – Jaume Balagueró, Paco Plaza (Esp)

PRÉMIO MELHOR FILME SEMANA DOS REALIZADORES: OPIUM, DIARY OF MADWOMAN – Janos Szasz (Hun)

PRÉMIO MELHOR FILME ORIENT EXPRESS: TRIANGLE - Ringo Lam, Johnnie To, Tsui Hark (HK)

Palmarés completo.

7.3.08

Três tempos



‘Três tempos’ é constituído por 3 segmentos independentes, 3 médias metragens vagamente unidas pelo tema (relações, de amor, ou nem tanto) e pelos actores. A primeira passa-se em 1966, e segue um soldado que procura uma mulher com quem costumava jogar bilhar; a segunda passa-se num bordel no início do século e é ‘muda’, com entretítulos e tudo, apenas com acompanhamento musical; finalmente a última e mais pessimista decorre em 2005 e fala-nos de um triângulo amoroso, de um mulher com outra mulher e um homem, numa época de sms e mails.
Tirando o seu segmento de 'Chacun son cinéma', este é o primeiro filme que vejo de Hsiao-Hsien, realizador taiwanês multi-premiado, nomeadamente em Cannes e Berlim. É um filme melancólico, lacónico, com um tempo próprio, sem gestos bruscos. Gostei do seu minimalismo formal e das suas histórias apenas esboçadas, sugeridas, mas estive longe de ficar deslumbrado.
Não me marcou ou surpreendeu como me aconteceu quando descobri Tsai Ming-liang (e em boa verdade continua a acontecer), seu conterrâneo com quem por vezes é comparado (ou vice-versa – Liang, dez anos mais novo, é que será influenciado por ele). Parece-me menos excêntrico, em ambos os sentidos da palavra. Mas, claro, é impossível julgá-lo por um filme só. Eu provavelmente não comecei pelo mais indicado.
Zui hao de shi guang/Three Times, Formosa/França, 2005. Realização: Hsiao-hsien Hou. Com: Shu Qi, Chang Chen, Di Mei, Shi-Zheng Chen, Pei-Hsuan Lee.

6.3.08

Amadorismo no Fantas



Ao fim de quase 30 anos de existência, o Fantasporto ainda continua a dar alguns exemplos de um amadorismo gritante.

Exemplo 1) Está o escriba no passado dia 1 na fila para comprar bilhete para ‘One missed call Final’ (3ª sequela de um filme de Miike), quando repara num aviso em que se diz que o ‘filme chegou sem legendas’ pelo que foi substituído pela ‘antestreia Europeia do filme ‘The Eye 10’ dos irmãos Pang’. Assim, sem mais nada. Quem quiser que arrisque! (se bem que às vezes ter uma sinopse ou não ter vai dar ao mesmo, tal a (falta de) qualidade das mesmas...)

Exemplo 2) Uma conhecida marca de cerveja e patrocinadora do Fantasporto, promove uma campanha em que por cada cerveja bebida nos espaços do Fantas o bebedor-cinéfilo tem direito a um carimbo num ‘passaporte’. Sendo que três carimbos dão direito a dois bilhetes para o Fantas.
Domingo, dia 2, o escriba dirige-se com o dito passaporte devidamente carimbado à ‘Cidade do cinema’, um barracão em frente ao Rivoli, para proceder à respectiva troca. É informado que só abre às 15h. Ok, o escriba vai dar uma volta e regressa às 15h (com mais um carimbo, entretanto!). A dita ‘Cidade' continua fechada. O escriba hesita em ir ver a sessão das 15h e voltar, mas acaba por se decidir esperar. Passado um bom quarto de hora, lá abrem as portas (ou melhor, a lona). Um simpático rapaz da Super-Bock (ok, adivinharam a marca) explica-nos que não tem bilhetes para trocar, que não estão lá… Depois de um telefonema descobre que a colega ‘que deve estar a chegar’ é que os tem. Entretanto já se tinha juntado um pequeno grupo e o rapaz, fica nervoso… é que só têm 16 bilhetes por dia para oferecer! Sendo que cada pessoa ali tem direito pelo menos a 2, já estão à justa. Pede-nos para fazermos uma fila, para se saber quem chegou primeiro, e diz-nos algo timidamente que só pode trocar 2 bilhetes por pessoa, e quem estiver para trás do oitavo lugar da fila é melhor voltar no dia seguinte, conselho que vai repetindo a quem vai chegando.
Entretanto uma pessoa ali na fila, sem saber bem porquê, lá vai perguntando pela ‘colega que deve estar a chegar’. ‘Nós entramos às 15h, por isso deve estar mesmo a vir…’. Entretanto vão-se contando histórias semelhantes do dia anterior, em que passados 5 minutos da abertura do barraco já não havia bilhetes.
Passa das 15h30 e chega a ‘colega’ com toda a calma. Nem se digna olhar para a fila, nem bom dia nem boa tarde, limita-se a entregar com ar superior os bilhetes/convites ao colega que esteve a aturar as pessoas (muito pacificas, como é apanágio dos portugueses). E pronto, nós lá saímos todos contentes com 2 bilhetezinhos que a Super Bock numa espectacular colaboração com o Fantasporto teve a extrema amabilidade de oferecer a 8 dos seus clientes…

Exemplo 3) Segunda-feira às 23h15 acumula-se uma pequena multidão à porta do grande auditório para assistir a ‘I’m a Cyborg but that’s ok’, de Chan-wook Park, provavelmente o filme mais aguardado deste Fantas. Passada a hora marcada, sem as portas se abrirem, percebe-se que se passa algo de errado. Alguém na fila comunica ao escriba que houve problemas técnicos com o filme da sessão anterior, pelo que este ainda decorre. A malta, animada por aquele ‘espírito Fantas’, lá vai aguardando ordeiramente. Lá para 23h45, já com meia hora de atraso e sem ninguém da organização dar qualquer explicação, o escriba resolve indagar junto a um dos porteiros. ‘Está atrasado uns 45 minutos, no mínimo…’ informa simpaticamente. Ainda bem que avisam, pensa o escriba dirigindo-se para a bilheteira, que no dia seguinte é dia de trabalho e ainda há 1 hora de caminho pela frente: ‘informaram-nos que tal e tal’, ao que é respondido que um membro da organização estava a tentar saber qual o atraso real e ainda não havia nada ‘oficial’. Mas pode devolver-nos o dinheiro dos bilhetes? Posso. Obrigado.
E pronto, dos 4 filmes que pretendia ver em 2 dias, consegui ver 2.

Já falei no ‘espirito Fantas’, que se estenderá a outros festivais, que implica uma certa tolerância que não se teria num cinema ‘comercial’, enfim, somos todos cinéfilos, estamos gratos à organização por nos proporcionar o festival, compreendemos que é difícil levar tudo a bom porto, etc., etc.
Mas quando na sessão de abertura, temos um membro da organização a perorar longamente sobre o prestígio do Fantas, o facto de ser um ‘festival internacional’, que ao contrário de outros não é um ‘festival que passa dvds’, que tem que ter subsídios compatíveis com a sua competência, etc., etc., aí já temos mais dificuldade em compreender estes amadorismos e, mais grave, falta de respeito para com os espectadores.
Para o ano há mais.

5.3.08

Anos 90

Cá vão:



1) Casino, de Martin Scorsese

2) Imperdoável, de Clint Eastwood

3) Chungking Express, de Wong Kar-Wai

4) Eduardo mãos de tesoura, de Tim Burton

5) Contos das 4 estações, de Eric Rohmer

6) Pulp Fiction, de Quentin Tarantino

7) Short Cuts, de Robert Altman

8) Felicidade, de Tod Sollondz

9) A festa, de Thomas Vinterberg

10) Trainspotting, de Danny Boyle

4.3.08



E o Alfred para melhor filme de 2007 foi para 'Jogo de cena', de Eduardo Coutinho. Em segundo lugar, com menos 1 voto, ficou o magnífico 'Coeurs', de Resnais, que brevemente estreará por cá; 'Inland Empire' de Lynch e 'Mary' de Ferrara empataram no terceiro lugar e 'Zodiac', de David Fincher, fechou a lista.
No ano em que 'Tropa de elite' vence em Berlim, o Alfred é também entregue a um filme brasileiro! Eu, precisamente por não ter visto 'Jogo de cena', abstive-me nessa votação.

Todos os resultados aqui.

2.3.08

Filmes de Fevereiro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



A incrivel Susana, Billy Wilder, 1942 (7,5)
Cinco covas no Egipto, Billy Wilder, 1943 (9,5)
Os invasores, Bud Boeticher, 1953 (8,5)
Sweet Smell of Success, Alexander Mackendrick, 1957 (8)
Faster Pussycat, Kill, Kill! - Russ Meyers, 1965 (7)
Um dia de cão, Sidney Lumet, 1975 (10)
As mãos do estripador, Peter Sasdy, 1979 (5)
Stalker, Andrei Tarkowsky, 1979 (8)
História de Gangsters, Irmãos Coen, 1990 (8)
A dupla vida de Veronique, Krzysztof Kieslowski, 1991 (7,5)
O pianista, Roman Polansky, 2002 (8)
Coeurs, Alain Resnais, 2006 (8,5)
O banquete do amor, Robert Benton, 2007
Sweeney Todd, Tim Burton, 2007
Sedução, conspiração, Ang Lee, 2007
O lado selvagem, Sean Penn, 2007
O comboio das 3 e 10, James Mangold, 2007
Haverá sangue, P.T.Anderson, 2007
Vista pela última vez, Ben Affleck, 2007
Michael Clayton, Tony Gilroy, 2007
Este país não é para velhos, Irmãos Coen, 2007
Juno, Jason Reitman, 2007

P.S.: Ando demasiadamente atordoado com o que tenho visto no Fantas (que inclui um western japonês falado em inglês, de Takeshi Miike, com Tarantino himself num pequeno papel), para começar a pensar no desafio que o Tiago me lançou. Mas não está esquecido!

28.2.08

Juno



Confesso que fui ver ‘Juno’ um bocado de pé atrás, desconfiado com todo o hype à volta do filme. Mas logo no excelente genérico o meu preconceito se desvaneceu. Achei-o um filme inteligente, despretensioso, bonito (quase todos os planos são bonitos mas justos; não bonitinhos), que nos vai dando a volta astutamente (quem é sensato e quem é imaturo, aqui?). Achei-o também divertido, alegremente cor-de-rosa e por vezes comovente (mas nem um bocadinho lamechas). E com uma personagem inesquecível e uma actriz cheia de força.
‘Juno’ por vezes tem sido comparado a ‘Little Miss Sunshine’ (e recebido algumas das mesmas alfinetadas que aquele recebeu), mas eu pensei mais num filme como ‘Ghost World’ (de que gosto muito) quando o vi.
Primeira surpresa do ano.
Juno, E.U.A., 2007. Realização: Jason Reitman. Com: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney.

26.2.08

Este país não é para velhos



A primeira coisa que me surpreendeu neste filme foi ser muito um filme ‘à irmãos Coen’. A sua violência estilizada e um pouco absurda, o seu sentido de humor, todo o seu universo remetem para filmes como ‘Fargo’ ou ‘História de Gangsters’. Eu confesso que estava à espera de algo mais ‘à Cormac McCarthy’.

Ou seja, eu diverti-me imenso a ver este filme, achei magnifica esta perseguição do tresloucado Chigurh (Óscar de caras para Bardem) ao condenado Moss (e o excelente Brolin também merecia estar nos Óscares), mas diverti-me da mesma maneira que me diverti a ver a perseguição das meninas a Kurt Russell em ‘Death Proof’. Nada contra ‘Death Proof’, bem entendido, mas penso que aqui os irmãos Coen deram tanta importância a estas personagens que se esqueceram do resto. Nem falo da personagem de Woody Harrelson que aparece e desaparece num ápice (fruto da sua arrogância), mas sim da personagem de Tommy Lee Jones, algo abandonada pelos realizadores, sendo que aqui me parece que se perde muito. É do desalento desta estranha personagem que vem o título do filme, não nos esqueçamos, mas não nos é dado a compreender exactamente porquê. Senti sempre que havia algo por trás deste (excelente) divertimento que não me estava a chegar, algo mais transcendental, ou religioso, ou simbólico (sobre a ‘natureza humana’, sobre ‘o mal’), que se intui que estará no livro mas que passa algo ao lado do filme. A intenção de Tarantino é mostrar-nos assassinatos estilosos e perseguições de carros. A dos Coen seria apenas mostrar-nos uma perseguição sanguinolenta? A de quem escreveu a história (McCarthy) não era certamente. E isso faz a diferença entre sentir que falta algo aqui (no ‘No Country...’) que não falta lá (em Tarantino - e peço desculpa pela insistência, mas lembrei-me mesmo de Tarantino ao ver este filme). Basta ver a sequência final, que parece deslocada, como se o filme já tivesse acabado antes.

Passei tanto tempo a tentar explicar porque não considero o filme uma obra-prima, que nem disse que o que lá está é mais do que suficiente para ele ser muito bom. Mas é-o. Já referi os actores, já referi que todo o subplot Barden/Brolim é estupendamente filmado, gostaria também de acrescentar as belas elipses que não nos deixam ver as duas mortes mais esperadas.
No Country For Old Men, E.U.A., 2007. Realização: Ethan Coen e Joel Coen. Com: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald.