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1.4.08

I`m Not There — Não estou aí



É conhecida a premissa deste filme: esboçar um biopic de Bob Dylan através de 6 personagens com diferentes nomes (e 6 actores), cada um ecoando uma faceta do cantor.

Quem conhece Todd Haynes não esperaria uma abordagem convencional à coisa e esta não o é certamente. Mas posto isto, também não me parece que o retrato seja tão impercebível ou impossível de agarrar como tem sido dito. É errático e fragmentário, sim. E sem dúvida que há personas mais reconhecíveis que outras (a de Cate Blanchett é a mais familiar, nomeadamente para quem tenha visto ‘No Direction Home’ de Scorsese; a de Richard Gere/Billy the Kid será mais difícil de acompanhar). Mas quem quiser saber as minudências biográficas de Dylan, pode ver os documentários que lhe foram dedicados, ou ler uma biografia.

Haynes pretendeu antes apanhar as várias faces de Bob Dylan, soltando pistas, apontando pormenores. Fazer um retrato poético e musical do artista, passe a vulgaridade gasta da expressão, deixar-se ir pelas músicas de Dylan, pela sua personalidade, pelas suas idiossincrasias. Tanto estamos num registo de falso documentário, como a câmara se deixa agarrar por uma canção e vai divagando quase ao estilo videoclip.

Comparando com outro biopic recente, o muito elogiado filme de Corbijn sobre Ian Curtis, eu diria que ‘Control’ era um retrato feito por um fotografo, que procurou o enquadramento perfeito e a luz exacta, enquanto ‘I´m Not There’ é um retrato feito por um cineasta, que se serve da montagem, do som, e dos múltiplos pontos de vista que a câmara permite para ir andando à volta do retratado, para o ir tentando captar em movimento. Tanto o apanha, como o deixa fugir, mas só essa busca vale toda a pena.
I`m Not There, E.U.A./Alemanha, 2007. Realização: Todd Haynes. Com: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, David Cross, Bruce Greenwood, Julianne Moore, Michelle Williams.

28.3.08

!!

Estava a pensar passar pelo Porto este fim-de-semana para ver dois filmes portugueses que estrearam há duas semanas: The Loverbirds e Lobos. Acontece que descobri que o primeiro ainda não estreou no Porto (se é que o 'ainda' faz sentido, se calhar nem estreia) e o segundo... já saiu de cartaz.

É a velha questão da pescadinha de rabo na boca: como para os distribuidores há certos filmes que a priori não têm público, toca a estreá-los então num ou dois cinemas e tiram-se logo a seguir de exibição. Como os ditos cujos só estrearam num ou dois cinemas e foram logo a seguir retirados de exibição, muitos dos interessados nem sequer tiveram hipótese de os verem e assim confirma-se que estes filmes têm poucos espectadores...

And Now for Something Completely...




Longe de mim querer envolver-me em polémicas, ainda por cima sobre um assunto com barbas como a teoria dos ‘Auteurs’. Mas por ser com o Tiago, vou-me explanar mais um bocadinho. Basicamente o que o inventor da malfadada 'política dos autores', Truffaut nem mais nem menos, disse - penso eu - foi que um filme é do realizador, mais do que do argumentista, do produtor ou das stars. Pelo menos é assim com os filmes e com os realizadores que valem a pena. Para mim é isto a teoria dos autores.

Rivette foi ainda mais longe e disse que o verdadeiro autor nem uma linha do argumento escreve (vide Hawks e Hitchcock) e Godard também terá dito que não precisava de argumentos para nada.
Naturalmente nunca faltaram detractores a teoria tão extravagante. Pauline Kael, por exemplo, parece que não gostava lá muito disto e tentou mesmo provar que o génio de ‘Citizen Kane’ se devia a Herman Mankiewicz, o argumentista, e não a Orson Welles.

Já eu concordo com Truffaut em quase tudo, e por isso para mim há autores, ou seja, realizadores cuja personalidade, cujo estilo (que inclui a mise en scène mas não só), são só seus e que criam um universo muito próprio, único e rico. E que um filme menor de um destes autores, vale mais a pena do que a obra-prima de um tarefeiro. A coerência é um corolário do atrás exposto, não mais. Stalone tem um universo coerente (é só filmes de porrada) e Edward D. Wood Jr. então nem se fala.

Quanto ao cinema mainstream não sei o que seja. Se alguma dualidade eu expressei, foi entre autores e não autores. O maior de todos os autores, na minha modesta opinião, foi Hitchcock que era (e é) popularíssimo, e nunca teve outro objectivo que não fazer filmes para o maior número de espectadores possível.

E pronto. Estas ‘polémicas’ parecem-me coisas de meninos a brincar aos críticos de cinema 'sérios', por isso peço desculpa pela insistência. Não gosto de ser mal interpretado, embora não me desagrade totalmente que as minhas ‘bestialidades tão inigualáveis’ provoquem o desejo de um blogger pacato como o Tiago se tornar uma personagem de Takeshi Miike (que apesar de fazer maioritariamente filmes para o sub-mercado dos clubes de vídeo é um autor, já agora).

27.3.08

Richard Widmark (26/12/1914 - 24/03/2008)



Com alguns dias de atraso, fica aqui referência à morte de Richard Widmark. A última vez que o vi, há um par de meses, acompanhava James Stewart em território Índio. Foi em 'Terra bruta' ('Two Rode Together'), obra-prima de John Ford.
Widmark tinha 93 anos e estava afastado dos ecrãs há mais de 15. A partir de agora, resta-nos revê-lo nos filmes de Ford, Fuller, Henry Hathaway e tantos outros.

26.3.08

Café Bagdad



Amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, como sempre acontece de duas em duas semanas, vai para o ar mais uma emissão do Café Bagdad, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

O Pedro P.Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio, divagamos a propósito de 'Citizen Kane', de Orson Welles, e divergimos acerca de 'Haverá sangue', de P.T.Anderson.

24.3.08

A política dos autores



'Sim, mas a política dos autores tornou-se muito depressa uma fuga para a frente, porque era o mesmo que dizer: efectivamente são todos muito diferentes, mas têm algo em comum que é o facto de serem "autores". Mas bom, a partir desse momento, num instante, toda a gente se tornou um autor!'

Jacques Rivette, em diálogo com Hélène Frappat, in La Lettre du Cinéma (1999), transcrito no catálogo da Cinemateca dedicado ao cineasta.

Estas palavras de Rivette fazem eco com um pensamento que eu próprio já tive por diversas vezes: uma das 'manias' de alguma critica actual é descobrir um novo "Hitchcock", ou seja descobrir um autor num realizador que faça 'filmes de acção', que se afaste do conceito mais 'consensual' de autor.

Não falo assim de um Kiarostami ou mesmo de um Eastwood, que toda a gente concorda em classificar como tal. Eastwood até poderia ser o tal candidato, mas a estranha unanimidade que caiu sobre ele já o consagrou, e afastou a hipótese de ele ser o autor que o crítico descobriu e cujos filmes (todos eles) defenderá intransigentemente - hoje em dia crítico que se pretende crítico classifica de obra-prima o que quer que Mr.Eastwood faça e ponto final. Eastwood, como os clássicos, já não é discutível. Enquanto a crítica batia - e bem - em Scorsese enquanto ele andava a fazer Gangues de Nova Iorque e Aviadores, Eastwood é aplaudido de pé mesmo quando faz um filme tão desapontante como 'As bandeiras dos nossos pais' (não concordando com tudo, nomeadamente com o que é dito de 'Mystic River', parece-me que o que aqui é dito é bastante pertinente).

Mas adiante, que o meu post não se destina a Eastwood, grande realizador com alguns pontos baixos, tal como Scorsese de quem muito gosto. O meu ponto prende-se com aqueles que pretendem descobrir autores no horrível Stalone (só se for no mesmo sentido em que Ed Wood era um autor...) ou em John McTiernan, James Cameron, Michael Mann e sei lá em quem mais. Basta um fulano ser americano e fazer um bom filme 'de acção' dentro de Hollywood (um 'Assalto ao arranha céus' ou um 'Miami Vice', digamos) para se vir logo por aí abaixo a reavaliar a obra anterior do senhor e, lá está, agrafar-lhe o bendito título de 'autor'. Por este processo, um filme tão vulgar como 'Colateral', passa logo ao estatuto de obra-prima transcendente. E por vezes nem é preciso tanto: basta haver alguma auto-referencialidade e logo um 'Rocky 10' ou um 'Rambo 23', com Stalone a grunhir banalidades, passa a ser um filme 'crepuscular' e sei lá que mais. Irra!

21.3.08

Caramel


Nadine Labaki

Caramel é uma crónica de costumes sobre a Beirute de hoje, visto pelo prisma de um grupo de mulheres jovens e desempoeiradas, que trabalham num cabeleireiro.
Com um tom assumidamente menor, oscila entre o cómico e o nostálgico (no sentido do que poderiam ser as coisas), e dá-nos um olhar feminino, simpático mas assertivo, de uma sociedade ainda profundamente machista. Este olhar é o maior trunfo do filme, que passa completamente ao largo da guerra – e talvez só uma mulher fosse capaz de fazer um filme no Líbano ignorando a política.
Por vezes pensamos que poderia ir mais longe, que é demasiadamente ‘caramelizado’ no tratamento de temas difíceis, mas não nos podemos esquecer que foi feito num país em que teve que atravessar as malhas da censura...
Uma palavra ainda para o conjunto de belas actrizes (que têm sido classificadas de Almodovarianas – mas a mim pareceram-me acima de tudo Espanholas!), onde se inclui a realizadora e argumentista, Nadine Labaki.
Caramel, Líbano, 2007. Realização: Nadine Labaki. Com: Nadine Labaki, Yasmine Al Masri, Joanna Moukarzel, Gisèle Aouad, Adel Karam, Siham Haddad, Aziza Semaan, Fatme Safa, Dimitri Staneofski, Fadia Stella, Ismaïl Antar.

16.3.08

Jumper



Jumpers são pessoas que se teletransportam, ou seja, que se conseguem deslocar para qualquer local instantaneamente apenas pensando nele. Tipo agora tomo o pequeno-almoço em NY, depois dou um saltito até ao cimo da pirâmide de Gisé para contemplar o deserto e à noite já estou numa discoteca da moda em Londres a sacar miúdas. Mas infelizmente há uns fulanos, os Paladinos, que não gostam, por razões morais, dos Jumpers: acham que só Deus deve ter aquele poder, por isso toca a exterminar os que apanham.

Diga-se que tudo isto nos é explicado muito vaga e displicentemente, que Doug Liman não está para grandes teologias. Mesmo o modo como funciona o ‘teletransporte’ é no mínimo omisso. Como li algures, o espectador também precisava de ser um jumper para saltar entre tantos buracos no argumento. Mas essa até é a parte com que eu posso melhor: aliás se o filme tem algum mérito é o de não se levar muito a sério.

Doug Liman hesita entre o romance (chocho), a ficção cientifica (praticamente nula, se exceptuarmos a premissa inicial) e o filme de acção (insuficiente) e não vai a lado rigorosamente nenhum. Por vezes há uns vislumbres que provam que não era impossível fazer algo interessante com o tema (uma corrida de carro em que este também é teletransportado; uma luta em que as personagens se vão teletransportanto, tão depressa estando no deserto como no centro de Tóquio), assim uma espécie de ‘Bourne Ultimatum’ futurista e com humor (há duas ou três piadas boas, mas fica-se por aí).

Mas não, tudo se fica por uma mediania apática e sem sal, resultando numa fita um bocado palerma para adolescentes, tanto mais desapontante quanto Liman até possui uma certa elegância ao filmar, que se entrevê por entre o lema geral de não arriscar nem um bocadinho e manter a velocidade de entretenimento mínimo e anódino.

Passando por cima do final previsível e –uma vez mais – chocho, uma palavra final para os actores: eu não sei porquê fui ver o filme convencido que era com Matt Damon, mas na realidade é com Hayden Christensen, que consegue a proeza de ser um milhão de vezes ainda mais inexpressivo que aquele; já a mocinha (Rachel Bilson) nem é feia de alguns ângulos, mas infelizmente representar também não é o seu forte, mesmo tendo em conta que recebeu um papel de verdadeira sonsinha; e, como um mal nunca vem só, até o grande Samuel L.Jackson apenas se distingue pelo seu penteado à Abel Xavier.
Como me costuma dizer pessoa amiga, só eu é que vou ver filmes destes....
Jumper, E.U.A., 2008. Realização: Doug Liman. Com: Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Diane Lane, Jamie Bell, Rachel Bilson, Tom Hulce, Michael Rooker.

12.3.08

Café Bagdad



Amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, Marta Catarino, Patrícia Jerónimo e eu próprio, conversamos informalmente sobre cinema no Rádio Clube - Emissão Minho (92.9).
O Pedro Costa do RCP modera, e nós divagamos a propósito de 'O bom, o mau e o vilão', de Leone, e de 'Este país não é para velhos', dos manos Coen. Fica a sugestão para eventuais leitores/ouvintes da região de Braga - vale a pena ouvir a Marta e a Patrícia.

11.3.08

Duas irmãs, um rei



O argumentista Peter Morgan, que já nos tinha dado a sua visão de Tony Blair e da sua entourage em ‘A Rainha’, vira-se agora para Henrique VIII, adaptando o livro de Philippa Gregory.
Algo mudou duma época para a outra: no século XVI as inúmeras intrigas palacianas eram feitas mais à descarada (hoje oferecer a filha casada para amante do soberano não fará parte do menu) e, claro, o Rei fazia pura e simplesmente o que lhe dava na real veneta, rompendo com a Igreja Católica e enviando esposas para conventos ou até para o cadafalso, com o nobre propósito de satisfazer os seus apetites sexuais e de caminho dar um varão à corte. Pensar no pobre Tony Blair sempre rodeado de assessores de imagem para auscultar os ‘sentimentos do povo'...
Morgan é bastante menos simpático com o Rei do que o foi com o primeiro-ministro e o argumento sai-lhe bastante menos interessante. Tenta meter tanta coisa no caldeirão (inventando livremente quando lhe apetece) que inevitavelmente não há tempo para digerirmos a coisa. Tantas peripécias, traições, reviravoltas e intrigas se vão sucedendo, que as personagens nem tempo têm para respirar, quanto mais para serem credíveis. Henrique VIII, um homem poderosíssimo, é tratado como um mero joguete nunca se percebendo as suas motivações, fazendo Eric Bana pouco mais que figura de corpo presente.
Tudo isto precisava de outro tempo, de outra respiração, que esta espécie de condensado não permite, dividindo-se a culpa entre argumentista e realizador. Se o primeiro não fornece grande matéria-prima, o segundo também não vai além da ilustração competente e insossa.
Deixamos então para o fim o único motivo pelo qual este filme terá alguma notoriedade (se a tiver): reunir no ecrã duas das mais cativantes actrizes da actualidade. Na minha modesta opinião nenhuma delas é especialmente favorecida pelas roupinhas da época, mas não há como não ficar pelo beicinho com La Scarlett - que faz cara de boazinha e não muito mais. Natalie faz de má, e bem. E... c’est tout!
The Other Boleyn Girl, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Justin Chadwick. Com: Scarlett Johansson, Natalie Portman, Eric Bana, Jim Sturgess, Kristin Scott Thomas, David Morrissey.