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2.5.08

Filmes de Abril

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Pamplinas maquinista, Buster Keaton, 1927 (10)
Sabotagem, Alfred Hitchcock, 1942 (10)
A sua melhor missão, Billy Wilder, 1948 (10)
The Night and the City, Jules Dassin, 1950 (8)
Rififi, Jules Dassin, 1955 (10)
Sleuth, Joseph L.Mankiewicz, 1972 (10)
Carrie, Brian de Palma, 1976 (10)
Encontros imediatos de 3º grau, Steven Spielberg, 1977 (8)
Sonhos de ouro, Nanni Moretti, 1981 (9)
Aberto até de madrugada, Roberto Rodriguez, 1996 (7)
Ringu, Hideo Nakata, 1998 (7)
TwentyNine Palmes, Bruno Dumont, 2003
Em campanha, John Sayles, 2004 (8)
La Naissance des pieuvres, Céline Sciamma, 2007 (7)
Black Sheep, Jonathan King, 2007 (4)
O escafandro e a borboleta, Julian Schnabel, 2007
I'm Not There, Todd Haynes, 2007
REC, Paco Plaza e Jaume Balagueró, 2007
Uma segunda juventude, Francis Ford Coppola, 2007
88 Minutos, Jon Avnet, 2007
Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007
O golpe de Baker Street, Roger Donaldson, 2008

1.5.08

TwentyNine Palms



Godard disse que a partir de 'Viagem a Itália' os cineastas pereceberam que bastava um casal e um carro para haver matéria para um filme. Bruno Dumont pega nesta máxima, junta-lhe a tradição americana do road movie, e põe um casal a percorrer os desertos da Califórnia.
Durante 1h30 não se passa 'nada'. Nada a não ser os membros do casal a discutirem, a declararem-se apaixonados, a fazerem sexo (filmado de um modo mais ou menos explicito), a perderem-se na vasta paisagem americana, personagem de tantos filmes.
Dumont gere este tempo e este espaço com mestria e durante muito tempo parece-nos que é apenas isto que ele pretende: filmar as oscilações de uma relação, mostrar-nos as irritações que vão aparecendo, deixar o tempo passar e mostrar o desgaste que ele provoca.
Mas às tantas começam a aparecer sinais de as coisas não vão acabar bem - e quem não gostar de spoilers pode ficar-se por aqui e ir ver o filme.
Entranha-se uma espécie de pressentimento no espectador de que o ar está inquinado, que as despreocupações acabaram - mérito uma vez mais para o realizador, que instala esta tensão a partir de quase nada. E de facto, o filme dá uma volta tremenda e proporciona-nos uns 20 minutos finais brutais, dementes e desconcertantes. Como se tudo o que estivesse antes não fosse mais do que um prólogo para este clímax sinistro.
Não sendo uma obra-prima, 'TwentyNine Palms' é um filme que se distingue claramente da mediania e vale a pena descobrir através dele Bruno Dumont, realizador francês várias vezes premiado em Cannes, mas que não me lembro de ver nas salas portuguesas.
TwentyNine Palms, França/Alemanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Bruno Dumont. Com: Katerina Golubeva, David Wissak. Edição DVD 2008 - Atalanta - Fnac.

30.4.08

Boarding Gate — Porta de embarque




‘Boarding Gate’ rima com um Assayas de 2002, 'Demonlover/Agente infiltrada': são ambos thrillers de inspiração noir, passados parcialmente no Oriente, tão elegantemente filmados quanto algo confusos e indistintos. Situam-se assim numa espécie de zona de ninguém, jamais se confundindo com filmes made in Hollywood, mas também distintos do que se espera de um filme francês de autor, passe a expressão démodé, quer seja pelo argumento, quer pelos actores (castings internacionais) e até pela língua.

A cinefilia de Assayas (recorde-se que foi importante critico dos Cahiers) está sempre presente na sua obra, mas por vezes de um modo difuso. Aqui refelecte-se o seu fascinio pela Ásia-Continente (foi dos primeiros críticos a dar atenção aos novos realizadores Asiáticos e foi até casado com Maggie Cheung, com quem filmou os interessantes 'Irma Vep' e 'Clean'), levando as personagens para Hong Kong (em 'Demonlover' era para Tóquio) e mais ainda por Asia Argento, em função de quem o filme parece ter sido feito (em 'Demonlover' tinhamos como musas Connie Nielsen e também Chloe Sévigny).

E de facto, se alguma luz própria este filme irradia, deve-se a Asia, uma das actrizes mais ‘fora’ do cinema contemporâneo, com um rosto entre o angelical e o ganzado e uma pose entre o inocente e o provocante.

Assayas filma-a longamente, de langerie preta, movendo-se meio perdida pelo submundo do crime, indiferente e desamparada, brilhando no meio do lusco-fusco. Só por ela vale a pena ver este filme.
Boarding Gate, França, 2007. Realização: Olivier Assayas. Com: Asia Argento, Michael Madsen, Carl Ng, Kelly Lin

29.4.08

88 Minutos



Eis mais um thriller de suspense, que mantém o nível médio que o género nos tem dado ultimamente: fraquito. O argumento encaixa-se naquele tipo que de tão batido, já devia ser um subgénero com nome próprio: a personagem tem 88 minutos/24 horas/whatever para deslindar um qualquer mistério, caso contrário morrerá (nunca morre). Quanto à realização é chapa cinco e nem vale a pena perder tempo a falar deste Jon Avnet.
Enfim, uma pessoa também só vai ver o filme por ter o Al Pacino no cartaz, embora ele há já muito tenha deixado de ser exigente com os filmes que escolhe. Aqui, mais envelhecido e mais cansado, faz menos de Al Pacino do que a última vez que o tinha visto, no péssimo 'O recruta', o que é uma boa noticia.
E a fita lá se vai deixando ver, mais peripécia, menos peripécia, mais uma para juntar ao molho das que se mastigam com indiferença e logo se deitam fora (da memória) com grande rapidez.
88 Minutes, Estados Unidos/Alemanha, 2007. Realização: Jon Avnet. Com: Al Pacino, Amy Brenneman, Alicia Witt, Leelee Sobieski, William Forsythe, Neal McDonough.

23.4.08

Café Bagdad


Amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, vai para o ar mais uma emissão do Café Bagdad, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

Como sempre, Pedro P.Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio vamos divagando. Esta semana, estão em cima da mesa dois filmes de terror: Carrie, de Brian de Palma e [REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza.

21.4.08

Uma segunda juventude



Mircea Eliade transformou num romance as suas meditações sobre a velhice, sobre o tempo necessário para se completar uma obra - quando uma vida não chega para abarcarmos tudo o que queremos pôr no papel. Coppola pega no tema e torna-o seu, dando-nos um filme meditativo, melancólico, onírico, povoado por momentos místicos e – claro, vindo de quem vem – estupendamente filmado.

'Youth Without Youth' (belo título que se vai na 'tradução') é de uma estranheza por vezes desconcertante. Tim Roth (soberbo) paira sobre ele como um fantasma, a fotografia do romeno Mihai Malaimare Jr., em tons sépia, claros, dá-lhe um tom irreal e etéreo, e a história vai-se desenvolvendo em episódios estranhos, bizarros mesmo, por vezes (como os da rapariga ‘possuída’).

Não é certamente um prato para todos os paladares, e percebo quem o acuse de ser descosido e sem grande sentido. Mas penso também que quem se deixar envolver no seu mundo, um mundo antigo, que já não existe, com reminiscências que vão desde ‘O terceiro homem’ até Thomas Mann (não sei bem explicar porquê, a ‘Montanha Mágica’ veio-me à ideia várias vezes), será recompensado com um filme muito diferente de tudo o que por aí anda, obra anterior de Coppola incluída.

Confesso que ao escrever sobre este filme sinto-me um pouco como me senti a defender 'The Fountain': não me é fácil defender filmes esotéricos, por assim dizer. Compreendo todos os argumentos dos seus críticos, muitos dos quais admiro, e no entanto...
Resumamos assim: achei-o um grande filme e o melhor Coppola desde 'O Padrinho III'.
Youth Without Youth, E.U.A./Alemanha/França/Itália/Roménia, 2007. Realização: Francis Ford Coppola. Com: Tim Roth, Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz, André Hennicke, Marcel Iures.

18.4.08

O Golpe de Baker Street


Saffron Burrows: o que este filme tem de melhor.

Este caso real, passado na Inglaterra dos anos 70, prova uma vez mais que a realidade está sempre a ultrapassar a ficção. Michael X, um émulo fajuto de Macolm X, é um criminoso e traficante de droga que se faz passar por activista do movimento negro. As forças da lei sabem das suas actividades ilegais, mas estão de mãos atadas: Michael possui uma série de fotografias, obtidas em bordéis do seu sócio e rei da pornografia Lew Vogel, e em sítios similares, de inúmeros membros da elite britânica, incluindo um membro da família real e usa-as para fazer chantagem.

Um dia os serviços secretos decidem agir: desconfiam que as fotos estão guardadas no depósito de um banco e resolvem então encenar um assalto ao mesmo para as recuperarem, sem parecer estarem envolvidos no assunto. Mas acontece que este plano mete água por toda a parte: os pequenos criminosos contactados para o executar são de um amadorismo assustador e, apesar de miraculosamente conseguirem escapar com o espólio roubado, deixam aberta uma verdadeira caixa de Pandora. Às tantas anda meio mundo atrás deles: os serviços secretos (entretanto a criatura escapou ao criador), Vogel que também vê roubada no assalto a sua agenda com a lista de pagamentos a polícias corruptos, estes últimos por motivos óbvios e, finalmente, a própria polícia ‘oficial’. Os assaltantes deixaram fios soltos por toda a parte e não tarda são localizados por todos os perseguidores - numa estratégia desesperada de fuga em frente vão tentando negociar com todos, aproveitando a bomba que têm nas suas mãos (além do dinheiro!), e a história acaba por ter um final ironicamente subversivo.

Contado um resumo do argumento, está dito o mais interessante sobre o filme. De resto a realização é eficaz e fluida, embora pudesse ser um niquinho mais sóbria, os actores cumprem sem brilhar (eu confesso que embico com Jason Statham) e há uma solidez geral na coisa que não esconde no entanto o seu ar de telefilme despachado, típico da maior parte da produção Britânica.

Eu que sou fã de trillers, heist movies, policiais & afins, não dei totalmente o meu tempo por mal empregue. Mas também não vou ao ponto de o recomendar a civis.
The Bank Job, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Roger Donaldson. Com: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, Alki David, Michael Jibson, David Suchet

17.4.08

Nós controlamos a noite



Bobby (Joaquim Phoenix) usa o apelido da mãe – Green – e é o gerente de um bar pertencente a uma família russa que o trata como um dos seus. A sua vida é esta, a noite, longe da tradição familiar (da família de sangue): o irmão (Mark Wahlberg) é um ambicioso polícia em ascensão, o pai (Robert Duval) é mesmo o chefe máximo do departamento, o Edgar G.Hoover do sítio, como diz alguém às tantas. São os Grusinsky, e ninguém na vida de Bobby (excepto a namorada, Eva Mendes) sabe desta relação familiar. Até que um dia o irmão lhe entra pelo bar adentro para deter um sobrinho do dono, acusado de traficar droga. A partir daqui não há mais neutralidade possível e Bobby vai ter que optar por um dos lados, acabando como infiltrado da polícia no bando dos traficantes russos.

Se pelo argumento se poderá pensar em ‘Departed’ ou até em ‘Promessas Perigosas’, pelo ambiente do filme, pelo ar noctívago e fumarento que se respira, até pela sexualidade exalada, lembrei-me mais de… 'Miami Vice'. E, claro, de toda a tradição dos film noir, além de tudo o mais pelo tema de fundo: um homem não pode fugir ao seu destino.

James Gray escreveu o argumento e dirigiu, e isso nota-se no modo como tudo está interligado, como as vozes baixas e roucas condizem com as suas falas, como as expressões sempre um pouco sofridas mas em low profile das personagens se integram no novelo de relações em que estão envolvidas. Não há nada aqui que não bata certo, neste drama com tons de tragédia, mas que tem, paradoxalmente, um fim meio feliz. Ou talvez não o seja. Ou talvez simplesmente não faça sentido falar de felicidade ou infelicidade: apenas o destino cumpriu o seu curso.

'We own the night' é um dos grandes filmes de 2007, que infelizmente faz parte do extenso lote dos que não estrearam nas salas portuguesas.
PS.: Este post foi originalmente publicado no dia 16 de Janeiro. Felizmente o filme estreia hoje, pelo que fica naturalmente como um dos grandes filmes de 2008 nas salas portuguesas.
We Own the Night, E.U.A., 2007. Realização: James Gray. Com: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes, Tony Musante, Antoni Corone, Alex Veadov, Robert C. Kirk

15.4.08

[REC]



Eis que chega às salas - louve-se o facto! - o vencedor do último Fantas.

Uma equipa de reportagem, composta por um operador, de câmara ao ombro, e uma repórter hiperactiva, acompanha um grupo de bombeiros quando este é chamado a um prédio. Uma vez lá dentro, o edifício é selado pelas autoridades, e os nossos heróis não tardam a descobrir que o prédio está ocupado por uma espécie de zombies possessos. Claro que o operador de câmara não a desliga nunca, e é esse o ponto de vista que nos é dado: câmara a ziguezaguear de um lado para o outro, aos trambolhões, com falhas pelo meio, etc.

Se o sucesso de um filme de terror se pode aquilatar pelo 'medo' que provoca no espectador, [REC] (estão a ver de onde vem o titulo...) não se safa mal. Filme compacto, com 1h20 bem gerida, vai impondo crescentemente um nível de tensão que se torna mesmo um pouco angustiante lá para a frente. Mas também é verdade que isto é conseguido muito à custa de gritaria, de movimentos bruscos, duma certa histeria mesmo. O que não será um defeito em si mesmo, mas eu pessoalmente prefiro um horror mais sugerido, mais insinuante.

Resumindo, sendo um filme que satisfará plenamente os fãs do género, como o atestam os prémios recebidos em vários festivais de cinema fantástico (Fantaporto, Sitges, Gérardmer), não me parece também que justifique tanto hype, que já levou mesmo ao inevitável remake made in Hollywood...
Rec, Espanha, 2007. Realização: Jaume Balagueró e Paco Plaza. Com: Javier Botet, Manuel Bronchud, Martha Carbonell, Claudia Font.

10.4.08

Café Bagdad - Emissão III

Pode-se ouvir aqui a última emisão do Café Bagdad.