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12.5.08

My Blueberry Nights — O Sabor do amor



Wong Kar Wai faz uma vez mais aquilo que tão bem faz: pega em bocados de vidas, agarra numa canção (a magnifica ‘The Greatest’ de Cat Power) e filma tudo com aquelas cores e aquela câmara vagarosa que são sua imagem de marca. Desta vez o território geográfico são os Estados Unidos, um nada inocente trajecto Nova Iorque – Memphis – Las Vegas – Nova Iorque, mas o verdadeiro território onde o filme se passa é no universo de Wong Kar Wai, um universo de um romanismo exacerbado, de solidão e alguma alienação.

Desta vez não temos Maggie Cheung nem Tony Leung, mas temos um extraordinário elenco. Veja-se como os actores (os magnificos David Strathairn e Rachel Weisz) suportam o excessivo e carregado episódio de Memphis, em que um polícia alcoólico se recusa a aceitar que a mulher o deixou; e como na unica altura em que o filme parece perder um pouco o gás, no episódio de Las Vegas, da jogadora solitária, Natalie Portman o puxa de volta para cima. E como Norah Jones se dá tão bem com a camara.
E que dizer daquele final?

Pode-se argumentar que Kar-Wai anda a fazer mais do mesmo pelo menos desde 'Chungking Express', mas quando o ‘mais’ e o ‘mesmo’ são desta qualidade, quem se poderá queixar? A generalidade da crítica parece que já se cansou dele. Eu, pelo contrário, achei este filme a coisa mais próxima de uma obra-prima que vi estrear no grande écran nos últimos dois anos.
My Blueberry Nights, China/França/Hong-Kong, 2008. Realização: Wong Kar Wai. Com: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chan Marshall.

10.5.08

Jean Seberg - 1/3

Pela primeira vez em largos meses liguei a TV sem ser para servir de apêndice do leitor de dvd ou do PC. Objectivo: ver um documentário no canal 2 sobre Jean Seberg, actriz que há muito me fascina. O documentário era vulgar, mas a vida de Jean Seberg não o foi certamente.

Nasceu a 13 de Novembro de 1938 em Marshalltown, uma terriola no Iowa, na América profunda e WASP, berço de John Wayne e Ronald Reagan. Nunca foi uma All American Girl: aos 14 anos, em pleno feudo conservador, inscreveu-se numa associação que defendia as minorias e, pior, segundo confidenciou um antigo colega de escola, lia livros. Não admira que só lhe passasse pela cabeça fugir dali. O meio mais fácil? Ser actriz.

Era com o que sonhava na adolescência e o sonho tornou-se realidade duma forma incrível, parecendo a verdadeira encarnação do sonho americano: com apenas 18 anos, sendo uma completa desconhecida da província, foi escolhida por Otto Preminger entre 18.000 candidatas para ser Joana D’Arc em ‘Saint Joan’, filme baseado na peça de George Bernard Shaw. Esta escolha espantosa focou logo todos os holofotes sobre ela, mas para seu grande desgosto o filme foi um fracasso, e ao que consta ficou aterrorizada com o autoritarismo do realizador. Por obrigações contratuais, no entanto, rodou novo filme com Preminger, ‘Bonjour tristesse’, baseado na novela de Françoise Sagan: o filme foi outro fracasso e Seberg foi arrasada pela crítica.

2/3; 3/3

Jean Seberg - 2/3

Casou-se então pela primeira vez e foi viver para França. E acontece que nem todos os críticos da altura eram cegos, e houve um que a defendeu sempre: chamava-se François Truffaut e por essa altura, 1959, estava a escrever com o seu amigo Jean-Luc Godard o argumento do primeiro filme deste: ‘O acossado’. Seberg foi convocada para contracenar com Jean-Paul Belmondo e o resultado foi mais que uma ressurreição: foi a entrada directa para o panteão cinematográfico. A sua figura belíssima e arrapazada tornou-se icónica e Seberg um símbolo da Nouvelle Vague.

Infelizmente, a seguir não soube ou não conseguiu fugir do estereótipo, e os franceses só lhe deram papéis em filmes menores que exploravam a marca que Godard criara. Até que em 1964, Robert Rossen (que morreria pouco depois), a chamou a Hollywood para contracenar com Warren Beatty num dos filmes maiores da história do cinema: ‘Lilith e o seu destino’, onde tem uma interpretação espantosa no papel da esquizofrénica Lilith, e que Seberg confessaria ser o seu filme preferido de todos os que fez, porventura por tanto se identificar com a sua personagem. Nunca mais teria um papel nem um realizador à sua altura.

3/3

Jean Seberg - 3/3

Entretanto em 1962 casara-se com o escritor e vencedor do Prémio Goncour, Romand Gary. Divorciar-se-iam em 1970, depois de uma relação tempestuosa, mas ficariam amigos para a vida. Se a irregularidade profissional e uma vida de apátrida entre a França e os Estados Unidos nunca a fizeram totalmente feliz, a sua vida pessoal começou a ficar cada vez mais complicada devido às suas actividades políticas que nunca abandonara. O seu envolvimento com o movimento negro radical Black Panther pô-la definitivamente na lista negra (passe a ironia) do FBI e tornou-se um alvo pessoal do sinistro Edgar G.Hoover. Tanto ou mais do que o apoio, inclusivamente financeiro, que ela dava ao movimento, o que mais chocava o hiper-conservador e sectário director do FBI era o facto de uma branca, actriz e estrela internacional ainda por cima, ‘andar metida’ com pretos. Quando Seberg ficou grávida em 1970, o FBI inventou o boato, rapidamente propagado pela imprensa, de que o pai da criança seria Raymond Hewt, um líder dos Black Panther. Por esta altura já Seberg andava paranóica – e com razão, pois era controlada ao segundo pelo FBI – e o facto de tomar overdoses de comprimidos para dormir durante a gravidez terá contribuído para que dois dias após o nascimento, a sua filha (branca, como ela mostrou numa conferência de imprensa...) tenha falecido.

Em 1972 casou-se com o realizador Dennis Berry (que após a sua morte se casaria com... Anna Karina!) e, para desgosto de muitos dos seus próximos, juntar-se-ia depois com o playboy argelino Ahmed Hasni, que rapidamente trataria de vender o apartamento de 11 milhões de francos de Seberg para abrir um restaurante em Espanha. O projecto gorou-se quando Seberg fugiu de volta para Paris, dizendo temer o amante.

Voltar-se-iam a juntar, no entanto, e foi ele quem deu participação do desaparecimento de Jean Seberg à polícia francesa no dia 28 de Agosto de 1979, sendo o seu corpo encontrado apenas 11 dias depois no interior do seu carro, num subúrbio parisiense, com um frasco de barbitúricos na mão e quase 8 gramas de taxa de álcool no sangue. O veredicto foi suicídio, mas até hoje nunca foi cabalmente esclarecida a sua morte. Numa conferência de imprensa Romain Gary denunciou a obsessiva perseguição que o FBI lhe fizera e houve quem fosse mais longe a associar o Bureau ao seu suposto suicídio, mas nunca nada foi provado. De igual modo Romain Gary e Dennis Berry chegaram a apresentar queixa contra Ahmed Hasni, e acabou mesmo por se constatar que este lhe tinha roubado dinheiro e valores, mas nunca se provou o seu envolvimento na morte da actriz.

Jean Seberg tinha 40 anos e os seus últimos filmes mostram uma mulher prematuramente envelhecida. Foi sepultada no Cemitério de Montparnasse, numa cerimónia que contou com a presença de Gary (que se suicidaria um ano mais tarde), Berry e personalidades como Sartre e Beauvoir, mas sem um único membro da sua família do Iwoa que nunca soubera lidar com a filha rebelde.

'Ela queria mudar o mundo sozinha', diz um velho parente no final do documentário. E uma conterrânea de Marshalltown acrescenta: 'Seberg fugiu de uma vida onde não poderia ser feliz, para uma vida onde dificilmente o poderia ser'.

8.5.08

Café Bagdad

Devido à ausência no estrangeiro de um elemento do habitual trio de divagadores, hoje não há Café Bagdad. Estamos de volta daqui a 2 semanas, como sempre às 15h.

PS: Devido a problemas técnicos não foi possível colocar a última emissão no blogue da Rádio Clube do Minho. A ver se na próxima emissão tudo volta à normalidade.

7.5.08

Bem-vindo ao turno da noite



‘Cashback’ é uma espécie de filme de nerds em que o protagonista não é um nerd.
Ben deixa de conseguir dormir quando acaba com a namorada. Fica a remoer naquilo - principalmente porque sente falta de sexo, talvez – e não consegue passar à frente. Para matar as noites de insónia resolve ir trabalhar para o turno da noite de uma loja de conveniência.

Os seus colegas são um duo de idiotas especialistas em sexo imaginado, um pseudo-especialista em kung-fu, e um chefe pateta egocêntrico, pelo que Ben desenvolve uma estranha faculdade para se abstrair da realidade: ‘congela’ o tempo, e aproveita esses momentos de ‘paralisia’ para concretizar os seus sonhos. Quer seja para pintar a colega por quem se apaixonou (ele estuda arte e sonha ser pintor), quer seja para despir as clientes da loja (e na minha opinião esses nus - é inescapável falar deles - acabaram por trazer uma ‘fama’ injusta ao filme).

Se esses colegas broncos (a que se junta o melhor amigo de Ben) e algumas piadas fáceis aproximam ‘Cashback’ do justamente mal-afamado filme de nerds, também é verdade que o tom geral é mais do filme indie do rapaz à procura de si mesmo depois de um desgosto amoroso, assim na linha de um ‘Garden State’, se me faço entender.

Quase que aposto que é um filme que suscitará uma certa animosidade em muito boa gente (até fui espreitar ao Yahoo Movies e sem surpresa constatei que o Critics Reviews Average Grade é um muito fraco ‘C+’), mas a mim - e dou de barato que é todo construído à base de lugares comuns - pareceu-me despretensioso, bem filmado, bem interpretado e engraçado. É assim o cinema, por vezes: de um argumento que não promete muito, sai um filme que vale a pena ver.
(estreia quinta-feira)
Cashback, Reino Unido, 2006. Realização: Sean Ellis. Com: Com: Sean Biggerstaff, Emilia Fox, Shaun Evans, Michelle Ryan, Stuart Goodwin, Michael Dixon, Michael Lambourne, Marc Pickering.

4.5.08

Homem de ferro


Robert Downey Jr. e Jeff Bridges: grande casting!

Confesso desde já que nunca li 'Homem de ferro'. Sou fraco conhecedor de BD e não costumo ligar peva às adaptações dos quadradinhos para o grande ecrã.
Neste caso, no entanto, a minha atenção foi despertada por vários motivos, sendo que o principal se chama Robert Downey Jr.. Faço parte daquela imensa minoria que o acha o maior desperdício de talento que há em Hollywood, e sempre que ele não está a desintoxicar e se dá ao trabalho de fazer filmes eu tento não os perder.
E, uma vez mais, o homem não me deixou ficar mal. 'Homem de ferro' começa por nos seduzir exactamente por causa de Robert. Só ele podia pegar nesta personagem bidimensional, do playboy fabricante de armas, genial e inconsciente, e transformá-la no super-herói com problemas de consciência, muito de carne e osso, com ar de miúdo traquina angustiado, que tem pena mas não pode fazer outra coisa, sempre um passo à frente de toda a gente por trás do seu ar aparentemente frágil e desamparado.
Acontece que as boas notícias não se ficam por aqui: os senhores do casting estavam verdadeiramente inspirados, e lembraram-se de ir buscar para vilão outro actor genial, que aparece menos do que merecia: Jeff Bridges. E, não sei se foi por contágio, também Gwyneth Paltrow está impecável no seu papel de 'Pepper' Potts, a fiel secretária de Tony Stark/Homem de ferro, e dá-nos o seu melhor papel desde os 'Tenenbaums'.
Um realizador que sabe dirigir tão bem estes actores não pode ser mau, e de facto Jon Favreau (que também é actor), merece aqui uma palavra de apreço extra: exceptuando os 15 minutos finais, mantém uma sobriedade inatacável, e o melhor elogio que lhe podemos fazer é que até nos esquecemos que estamos a ver um blockbuster para teens. Depois há o tal quarto de hora final, em que tem que justificar o orçamento e dar um doce aos adolescentes e pré-adolescentes que pagam a fita, com uma luta meio palerma e espalhafatosa entre o bom e o vilão, mas até isso lhe desculpamos.
É que para filme-pipoca, este 'Homem de ferro' não está nada mau. Mesmo nada.
Iron Man, E.U.A., 2008. Realização: Jon Favreau . Com: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jeff Bridges.

2.5.08

Filmes de Abril

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Pamplinas maquinista, Buster Keaton, 1927 (10)
Sabotagem, Alfred Hitchcock, 1942 (10)
A sua melhor missão, Billy Wilder, 1948 (10)
The Night and the City, Jules Dassin, 1950 (8)
Rififi, Jules Dassin, 1955 (10)
Sleuth, Joseph L.Mankiewicz, 1972 (10)
Carrie, Brian de Palma, 1976 (10)
Encontros imediatos de 3º grau, Steven Spielberg, 1977 (8)
Sonhos de ouro, Nanni Moretti, 1981 (9)
Aberto até de madrugada, Roberto Rodriguez, 1996 (7)
Ringu, Hideo Nakata, 1998 (7)
TwentyNine Palmes, Bruno Dumont, 2003
Em campanha, John Sayles, 2004 (8)
La Naissance des pieuvres, Céline Sciamma, 2007 (7)
Black Sheep, Jonathan King, 2007 (4)
O escafandro e a borboleta, Julian Schnabel, 2007
I'm Not There, Todd Haynes, 2007
REC, Paco Plaza e Jaume Balagueró, 2007
Uma segunda juventude, Francis Ford Coppola, 2007
88 Minutos, Jon Avnet, 2007
Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007
O golpe de Baker Street, Roger Donaldson, 2008

1.5.08

TwentyNine Palms



Godard disse que a partir de 'Viagem a Itália' os cineastas pereceberam que bastava um casal e um carro para haver matéria para um filme. Bruno Dumont pega nesta máxima, junta-lhe a tradição americana do road movie, e põe um casal a percorrer os desertos da Califórnia.
Durante 1h30 não se passa 'nada'. Nada a não ser os membros do casal a discutirem, a declararem-se apaixonados, a fazerem sexo (filmado de um modo mais ou menos explicito), a perderem-se na vasta paisagem americana, personagem de tantos filmes.
Dumont gere este tempo e este espaço com mestria e durante muito tempo parece-nos que é apenas isto que ele pretende: filmar as oscilações de uma relação, mostrar-nos as irritações que vão aparecendo, deixar o tempo passar e mostrar o desgaste que ele provoca.
Mas às tantas começam a aparecer sinais de as coisas não vão acabar bem - e quem não gostar de spoilers pode ficar-se por aqui e ir ver o filme.
Entranha-se uma espécie de pressentimento no espectador de que o ar está inquinado, que as despreocupações acabaram - mérito uma vez mais para o realizador, que instala esta tensão a partir de quase nada. E de facto, o filme dá uma volta tremenda e proporciona-nos uns 20 minutos finais brutais, dementes e desconcertantes. Como se tudo o que estivesse antes não fosse mais do que um prólogo para este clímax sinistro.
Não sendo uma obra-prima, 'TwentyNine Palms' é um filme que se distingue claramente da mediania e vale a pena descobrir através dele Bruno Dumont, realizador francês várias vezes premiado em Cannes, mas que não me lembro de ver nas salas portuguesas.
TwentyNine Palms, França/Alemanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Bruno Dumont. Com: Katerina Golubeva, David Wissak. Edição DVD 2008 - Atalanta - Fnac.