Recent Posts

25.5.08

Cannes 2008



'Entre les Murs', de Laurent Cantet, autor do excelente O emprego do tempo, foi o filme galardoado com a Palma de Ouro na 61ª edição do Festival de Cannes. Há 17 anos que a palma não ficava em casa.

Destaque ainda para o prémio de realização, entregue a Nuri Bilge Ceylan por 'Three Monkeys'.

Palmarés completo aqui.

23.5.08

Triângulo



'Triângulo', que ganhou o prémio de melhor filme da secção 'Orient Express' no último Fantasporto, junta três dos mais conceituados e populares realizadores de Hong Kong (e só lá os dois adjectivos costumam andar juntos): Tsui Hark, Ringo Lam e Johnnie To. Mas não se trata de um vulgar filme de sketchs; pelo contrário, o método de rodagem foi invulgar: Tsui Hark realizou meia hora do filme, depois veio Ringo Lam com o seu argumentista, viu o que já estava feito e realizou mais meia hora e finalmente Johnnie To e respectivo argumentista fecharam a tasca.
Um espectador incauto até poderá nem notar as passagens de testemunho (não há qualquer sinal delas no filme), mas um olho mais treinado não as deixa passar: Tsui Hark distingue-se pela montagem difusa e imaginativa mas algo confusa; o filme normaliza-se um pouco quando chega Ringo Lam, que se centra mais num só episódio e organiza as coisas; e depois Johnnie To dá o seu toque mais estilizado e etéreo, e baralha tudo outra vez.
No final o resultado é algo indistinto e indiferente, pois nem o argumento nos prende, nem o filme tem um estilo próprio que nos seduza, deixando mesmo alguma sensação de confusão no espectador. Eu pessoalmente, estive sempre um pouco à espera de algo que nunca aconteceu (To é um favorito da critica, mas o seu fecho do filme não me convenceu: aparvalha um pouco a história e depois brinda-nos com uma coreografia final muito ao (seu) estilo western spaghetti que não acrescenta nada).
Resumindo: por vezes o total é inferior à soma das partes.
Tie saam gok/Triangle, Hong-Kong/China, 2007. Realização: Hark Tsui, Ringo Lam e Johnnie To. Com: Louis Koo, Simon Yam, Honglei Sun, Ka Tung Lam, Kelly Lin.

22.5.08

Goodnight Irene



'Goodnight Irene' é um objecto estranho, desde logo devido a ser um filme 'bilingue': todas as personagens vão alternando o português e o inglês (sendo que as falas nesta língua são legendadas).
Alex, um solitário velho actor inglês, doente e mal-humorado, agora confinado a dar voz a audioguias turisticos, é abalado pela chegada de uma nova vizinha que o traz de volta para a vida, o leva a sair, a confraternizar. Até que um dia ela desaparece.
Esta é a primeira parte do filme, marcada pela forte presença dos seus actores, Robert Pugh, cuja voz poderosa pontua o filme, e Rita Loureiro, luminosa e algo misteriosa.
Além de se passar quase sempre em interiores, em casas velhas muito bem filmadas, a fotografia sépia de Miguel Sales Lopes dá-lhe um tom irreal e afasta-o completamente de qualquer cliché sobre a luminosidade de Lisboa, onde a acção decorre.
Depois vem a segunda parte. Após o desaparecimento de Irene, aparece uma nova pessoa na vida de Alex: Bruno, jovem serralheiro que também a busca, e que entra nas casas das pessoas para lhes furtar memórias, recordações. Aqui o filme fraqueja: talvez devido ao excessivo simbolismo desta personagem (que procura nas casas dos outros e em Alex as recordações de infância e o pai que não teve), talvez devido à presença de Nuno Lopes ser menos impressiva, talvez por se arrastar demasiadamente.
Há ainda uma espécie de epílogo, uma viagem a Espanha algo insólita e com episódios até bizarros. E às tantas ouvimos mesmo as vozes das personagens mas elas já não mexem os lábios: é como se o tal ambiente onírico, irreal, subconsciente, que esteve sempre entranhado ao longo do filme, viesse de vez à tona e tudo se passasse ao nível da imaginação de cada um.
O filme encerra com uma 'voz do além' explicativa que era desnecessária, e no final fica alguma sensação de desconcerto e até de frustração. Mas não há que negar a originalidade da proposta e o olhar de cineasta que Paolo Marinou-Blanco (um português que já andou por todo o mundo) indubitavelmente demonstra nesta sua primeira longa-metragem, em que também assina o argumento.
Goodnight Irene, Portugal, 2008. Realização: Paolo Marinou-Blanco. Com: Robert Pugh, Nuno Lopes, Rita Loureiro.

21.5.08

Café Bagdad


Depois da ausência forçada de há duas semanas, amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, o Café Bagdad está de volta.

Pedro P.Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio vamos divagando. Esta semana eu defendo 'My Blueberry Nights', que não foi consensual, e todos elogiamos 'Paris, Texas', Wenders vintage de 1984.

Como sempre, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

19.5.08

Tudo o que perdemos



'Tudo o que perdemos’ é um filme adulto e sólido, que trata com sobriedade dois temas difíceis: a perda de um ente querido (marido/pai/amigo) e a recuperação da toxicodependência.
Como quem não quer a coisa, seguindo aptamemente um argumento tranquilo e praticamente sem ‘peripécias’, Susanne Bier vai levando a água ao seu moinho, apoiando-se nos seus excelentes actores, com destaque para Benicio Del Toro, que se safa bastante bem num papel propenso ao overacting.
Não sendo uma obra particularmente inovadora nem imprescindível, merece ainda assim uma olhadela, neste tempo de filmes infantilizados.
Things We Lost in the Fire, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Susanne Bier. Com: Halle Berry, Benicio del Toro, David Duchovny, Alison Lohman, Omar Benson Miller, John Carroll Lynch.

17.5.08

Angel



Este é um daqueles filmes em que eu nunca passaria num Pepsi Challenge. Numa prova cega, nem em cinquenta tentativas eu daria o palpite que este 'Angel' é obra do mesmo realizador de 'Sob a areia', 'Swimming Pool' ou '5x2'.
Nem consigo imaginar o que atraiu Ozon neste drama de época, acerca da ascensão e queda de uma irritante e megalómana rapariga das classes baixas que se torna uma escritora cor-de-rosa de sucesso.
Ozon, grande cineasta que nos seus anteriores trabalhos se distinguiu por combinar na perfeição um lado cerebral e analítico com um toque emocional subtil, não passa aqui de um decorativismo formal oco e que não leva a parte nenhuma, jamais nos conseguindo interessar quer pela sua patética personagem principal (interpretada pela desconhecida Romola Garai), quer pelos que a rodeiam. Dá-nos uma mão cheia de planos vistosos, uns tantos enquadramentos perfeitos e emula com gosto trajes e costumes da época, mas o resultado é francamente insípido e indiferente.
Grande desilusão.
Angel, Bélgica/Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: François Ozon. Com: Romola Garai, Lucy Russell, Michael Fassbender, Sam Neill, Charlotte Rampling.

13.5.08

No vale de Elah



Só agora vi este filme de Paul Haggis e concordo com a opinião generalizada: é bastante bom e bastava a portentosa interpretação de Tommy Lee Jones, toda em underacting, para valer a pena.
Filme seco e directo, como a sua personagem principal, mostra-nos o que a guerra faz aos miúdos que são para lá enviados como ‘soldados de elite’: potencia o pior que há neles, abala as balizas morais e éticas que eles tinham, torna-os piores pessoas. Isto sem retórica e sem os demonizar nem os desculpabilizar, equilíbrio difícil que é alcançado. Parecem-nos rapazes normais e até simpáticos, mas que nas situações extremas a que são expostos e para as quais não têm estofo nem preparação, como que escapam através da violência, do sadismo, do desprezo pelo ser humano que está do outro lado. Neste aspecto aproxima-se de ‘Censurado’, o retrato que De Palma nos deu o ano passado dos soldados no Iraque. Mas enquanto De Palma ‘ia’ para o Iraque, Haggis mostra-nos as marcas que ficam no após: filma os soldados na America, depois de terem regressado do Inferno. Claro que já não são as mesmas pessoas que eram antes, como Tommy Lee Jones dolorosamente descobre no retrato irreconhecivel do seu filho desaparecido, que vai construindo ao longo do filme.
Pelo meio, claro, fica um retrato negro da nação Americana em guerra, uma guerra que parece fazer cada vez menos sentido para cada vez mais gente.
Na tradição Hollywoodiana dos grandes filmes sobre o Vietname, começam a surgir agora os bons filmes sobre o Iraque.
In the Valley of Elah, E.U.A., 2007. Realização: Paul Haggis. Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin.

12.5.08

My Blueberry Nights — O Sabor do amor



Wong Kar Wai faz uma vez mais aquilo que tão bem faz: pega em bocados de vidas, agarra numa canção (a magnifica ‘The Greatest’ de Cat Power) e filma tudo com aquelas cores e aquela câmara vagarosa que são sua imagem de marca. Desta vez o território geográfico são os Estados Unidos, um nada inocente trajecto Nova Iorque – Memphis – Las Vegas – Nova Iorque, mas o verdadeiro território onde o filme se passa é no universo de Wong Kar Wai, um universo de um romanismo exacerbado, de solidão e alguma alienação.

Desta vez não temos Maggie Cheung nem Tony Leung, mas temos um extraordinário elenco. Veja-se como os actores (os magnificos David Strathairn e Rachel Weisz) suportam o excessivo e carregado episódio de Memphis, em que um polícia alcoólico se recusa a aceitar que a mulher o deixou; e como na unica altura em que o filme parece perder um pouco o gás, no episódio de Las Vegas, da jogadora solitária, Natalie Portman o puxa de volta para cima. E como Norah Jones se dá tão bem com a camara.
E que dizer daquele final?

Pode-se argumentar que Kar-Wai anda a fazer mais do mesmo pelo menos desde 'Chungking Express', mas quando o ‘mais’ e o ‘mesmo’ são desta qualidade, quem se poderá queixar? A generalidade da crítica parece que já se cansou dele. Eu, pelo contrário, achei este filme a coisa mais próxima de uma obra-prima que vi estrear no grande écran nos últimos dois anos.
My Blueberry Nights, China/França/Hong-Kong, 2008. Realização: Wong Kar Wai. Com: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chan Marshall.

10.5.08

Jean Seberg - 1/3

Pela primeira vez em largos meses liguei a TV sem ser para servir de apêndice do leitor de dvd ou do PC. Objectivo: ver um documentário no canal 2 sobre Jean Seberg, actriz que há muito me fascina. O documentário era vulgar, mas a vida de Jean Seberg não o foi certamente.

Nasceu a 13 de Novembro de 1938 em Marshalltown, uma terriola no Iowa, na América profunda e WASP, berço de John Wayne e Ronald Reagan. Nunca foi uma All American Girl: aos 14 anos, em pleno feudo conservador, inscreveu-se numa associação que defendia as minorias e, pior, segundo confidenciou um antigo colega de escola, lia livros. Não admira que só lhe passasse pela cabeça fugir dali. O meio mais fácil? Ser actriz.

Era com o que sonhava na adolescência e o sonho tornou-se realidade duma forma incrível, parecendo a verdadeira encarnação do sonho americano: com apenas 18 anos, sendo uma completa desconhecida da província, foi escolhida por Otto Preminger entre 18.000 candidatas para ser Joana D’Arc em ‘Saint Joan’, filme baseado na peça de George Bernard Shaw. Esta escolha espantosa focou logo todos os holofotes sobre ela, mas para seu grande desgosto o filme foi um fracasso, e ao que consta ficou aterrorizada com o autoritarismo do realizador. Por obrigações contratuais, no entanto, rodou novo filme com Preminger, ‘Bonjour tristesse’, baseado na novela de Françoise Sagan: o filme foi outro fracasso e Seberg foi arrasada pela crítica.

2/3; 3/3