Recent Posts

6.6.08

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal



Nunca fui especial fã de Steven Spielberg e muito menos da trilogia Indiana Jones, de cujos filmes sinceramente já nem me lembro muito bem. Não serei assim a pessoa mais indicada para elaborar considerações metafísicas à volta do regresso do herói, quase 20 anos depois.

Registo com agrado, no entanto, que não há neste quarto episódio qualquer tentativa de nos impingir reflexões pseudo-profundas sobre 'o envelhecimento do mito', ou tretas no género a la Bronco Stallone. Há apenas, uma vez mais, a vontade de nos contar uma história de aventuras, de nos entreter honestamente com peripécias e lutas de bons contra maus.

Ainda assim, na minha opinião o resultado não é muito entusiasmante, não havendo aqui um grão de originalidade e sendo o filme vagamente entediante e mesmo algo pateta. Um filme desnecessário, diria. Mas também é verdade que há sempre algo em Spielberg que nos remete para para uma certa inocência primordial de fazer cinema, há sempre uma certa magia, para usar um termo foleiro caro aos seus admiradores. E isso uma vez mais está presente, o que aliado ao facto de Harrison Ford estar em excelente forma, justifica que o tempo despendido com este último Indy não seja totalmente perdido.
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, E.U.A., 2008. Realização: Steven Spielberg. Com: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent, Igor Jijikine.

5.6.08

Come Back

Eis que o homem está de volta em dose dupla.

Mais um...

Um dos filmes mais elogiados do ano passado, 'Before the Devil Knows You're Dead', do veterano Sidney Lumet, que já esteve previsto chegar às nossas salas este mês, entretanto desapareceu do mapa das estreias...
Mais um que irá directo para o mercado vídeo?

4.6.08

Café Bagdad


Amanhã, 5ª feira, entre as 15h e as 16h, tem lugar mais uma emissão do Café Bagdad.

Pedro Peixoto Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio vamos divagando. Esta semana elogiamos fortemente 'Darjeeling Limited', última opus de Wes Anderson, e tentamos não repetir todos os estafados encómios a 'O Padrinho', de Francis Ford Coppola.

Como sempre, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

2.6.08

Filmes de Maio

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Vontade indómita, King Vidor, 1949 (8,5)
O gosto do saké, Yasujiro Ozu, 1962 (9,5)
O Mercenário, Damiani Damiano, 1966 (8,5)
Django, Segio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Destinos opostos, Bob Rafelson, 1970 (8)
Prime Cut, Michael Ritchie, 1972 (7)
Lady Snowblood, Toshiya Fujiti, 1973 (7)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)
Recordações, Woody Allen, 1980 (8,5)
Scott Walker - 30 Century Man, Stephen Kijak, 2006 (8)
Cashback, Sean Ellis, 2006
No vale de Elah, Paul Haggis, 2007
Angel, François Ozon, 2007
Tudo o que perdemos, Susanne Bier, 2007
Triângulo, Johnnie To+Ringo Lam+Tsui Hark, 2007
Diário dos mortos, George Romero, 2007
O segredo de um cuscuz, Abdel Kachiche, 2007
Homem de Ferro, Jon Favreau, 2008
My Blueberry Nights, Wong Kar-Wai, 2008
Goodnight Irene, Paolo Marinou-Blanco, 2008

1.6.08

O segredo de um cuscuz


A família à volta da mesa - uma cena extraordinária.

O que desde logo surpreende neste filme realista e politico é ser tão caloroso, é das suas personagens (todas interpretadas por actores não profissionais, todos sem excepção com uma relação perfeita com a câmara) emanar uma espécie de alegria de viver, de humanismo, que não entra nunca em conflito com a crítica social cerrada que Abdel Kechiche nos vai servindo.
Kechiche é implacavel para com a burguesia francesa, racista e mesquinha, mas fácil de animar com álcool e mulheres, mas também não deixa de dar uns remoques à família magrebina que está no seio do filme, incapaz de integrar a mulher ucraniana de um dos seus, e brinca ainda com o facto de o resignado Sr.Beiji, patriarca de uma família árabe e supostamente machista, atravessar uma verdadeira via-sacra sempre rodeado de mulheres, que são os elementos mais fortes da história, ora o suportando (como a sua extraordinária enteada) ora o martirizando (o longo discurso à beira do histerismo que ele ouve silenciosamente da sua nora ucraniana é todo um programa).
Este retrato tão humano e caloroso (repito os adjectivos), como mordaz e impiedoso, seria mais do que suficiente para elevar bem alto 'O segredo de um cuscuz' (mais um titulo português idiota), mas Kechiche vai mais longe e dá-nos uma última meia hora de um suspense verdadeiramente hitchcockiano, numa angustiante montagem paralela esticada mesmo para lá do suportável, culminando com um dos finais mais sádicos que já me foi dado a ver.
A não perder.
La Graine et le Mulet, França, 2007. Realização: Abdel Kechiche. Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache, Abdelhamid Aktouche, Bouraouïa Marzouk, Alice Houri.

29.5.08

Então!!??

28.5.08

Westerns à Italiana

Este mês andei a ver Westerns Spaghetti, garantidamente um dos géneros mais menosprezados da história do cinema – além do mestre fundador Sergio Leone, quem conhece outro realizador do género? Mesmo em guias tipo o Rough Guide to Film, e outros, aparecem realizadores de géneros tão exóticos como os filmes de zombies eróticos (um Jean Rollin, por exemplo), mas jamais encontrei realizadores de westerns spaghetti, exceptuando Leone, cuja influência em muito extravasou o género (aliás a própria designação spaghetti é depreciativa; inicialmente houve quem os baptizasse de Horse Opera, mas não pegou!).

Mas há vida para além de Leone! Desde logo há o ‘outro Sergio’, Sergio Corbucci, que realizou os icónicos ‘O grande silêncio’ (que tem um dos finais mais tenebrosos para os "bons" que conheço) e ‘Django’ (onde Tarantino foi buscar a famosa cena da orelha cortada de ‘Cães danados’ e de que Takeshi Miike fez uma espécie de prequela japonesa!). Estes dois filmes, em traços largos, são descendentes directos de Leone e dos seus ‘heróis’ lacónicos e misteriosos. Mas houve variações.

Há mesmo quem considere que a decadência do género começou com os westerns ‘políticos’, passados durante a revolução Mexicana, mas eu confesso que dois dos meus exemplares preferidos se encaixam nesta categoria: ‘Companheiros' (com Franco Nero), de Corbucci e, acima de todos, uma pérola que cá se chamou ‘Mercenário’ (originalmente ‘El Chuncho, quien sabe?’ ou ‘A Bullet for the General’ – estes filmes, geralmente com castings internacionais, onde um Franco Nero coabitava com um Henry Fonda ou um Klaus Kinski, eram geralmente dobrados quer em inglês quer em italiano), de Damiano Damiani, com uma interpretação portentosa de Gian Maria Volonté.

“- São revolucionários ou bandidos?
– Há alguma diferença?
– Nenhuma”,

é um diálogo deste filme, entre um soldado mexicano e o impassível assassino americano El Nino (Lou Castel), que resume exemplarmente o cinismo destes ‘Westerns Zapata’, em que bandos de revolucionários/salteadores espalham o terror pela paisagem Mexicana (na realidade na paisagem espanhola de Almeria, onde a maior parte dos ‘spaghetti’ eram filmados – e aqui a paisagem e a banda sonora, principalmente quando do mestre Morricone, são tão importantes como as personagens ou o argumento - pelo que também não seria inapropriado chamar-lhes ‘westerns tortilla’, ou algo no género).

Na opinião de Leone, no entanto, o declínio veio com os westerns com veia cómica, notoriamente os protagonizados por Terence Hill (que na realidade se chamava Mario Girotti), o famoso Trinitá, e o ex-nadador olímpico Bud Spencer (Carlo Pedersoli), que eu me lembro de ver na minha adolescência e a que ainda não tive coragem de voltar. No intervalo de 10 anos a que se submeteu antes de conseguir filmar ‘Era uma vez na América’, Leone produziu (e realizou três cenas cruciais, embora nos créditos da realização apenas apareça Tonino Valerii) um filme em que reflectia sobre este subgénero: ‘O meu nome é ninguém’, em que Terence Hill, nem mais nem menos, se assume como 'assassino'/herdeiro do veterano Henry Fonda, representando este o fim de uma época. É ainda assim um filme bastante divertido, que pode ser visto como o enterro de um género que entre 1960 e 1975 nos deu quase 600 filmes.

Nota: Aqui pode-se ler uma boa introdução ao género.

O mercenário, Damiano Damiani, 1966 (8,5)
Django, Sergio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Companheiros, Sergio Corbucci, 1970 (8)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)

Sydney Pollack (01/07/1934-26/05/2008)



Para mim, era acima de tudo o actor de 'Maridos e mulheres' e de 'Eyes Wide Shut'. O que não é pouco.

26.5.08

Diário dos mortos



Um grupo de estudantes universitários está a rodar um filme, trabalho de curso, quando ouve a notícia de que os mortos estão a ressuscitar e a atacar os vivos (*). Resolvem então dirigir-se, numa caravana, para a casa dos pais duma das raparigas, que quer ver se eles estão bem.

O estudante-realizador, namorado desta, nunca larga a câmara, e vai filmando a carnificina que se segue: 'é preciso documentar o que se está a passar', diz; 'a televisão só diz mentiras, temos que ser nós a contar a verdade sem filtros'; 'é nossa obrigação registar, temos uma câmara, temos internet, temos todos os meios', etc., etc.; a namorada vai dando umas achegas, entre o zangada e o fascinada, 'filma isto, se não filmares é como se não tivesse acontecido, certo?', etc., etc.

Não sei o que é mais irritante neste filme: se aderir à mania agora em voga de filmar com câmara à mão em registo de falso documentário ('Censurado' e 'REC', recentemente), se o facto de as personagens nos estarem a gritar de cinco em cinco minutos a 'MENSAGEM', sobre a actual sociedade de informação, a sociedade do youtube, dos blogues, dos milhões de câmaras, do excesso de informação, em suma.

Eu às tantas ainda pensei que Romero estivesse a ser irónico, que pretendesse ridicularizar um pouco o seu personagem, que se sente poderoso pelo facto de ter uma câmara e poder pôr a sua 'verdade' na internet: '78.000 visitas em 10 minutos', repete fascinado. Mas não há qualquer sinal de ironia: pelo contrário, Romero parece estar tão obcecado como as suas personagens em gritar-nos a sua opinião sobre o estado das coisas, sobre o cinema, sobre a televisão, sobre tudo.

Mas há infinitamente mais 'crítica social' no morbidamente estupendo plano final de 'A noite dos mortos-vivos', que na 1h30 de discursos deste 'Diário dos mortos'. É uma pena que o mestre do género não o tenha percebido.
(*) Porque é que as personagens dos filmes de zombies nunca viram um filme de zombies!? Nunca identificam o fenómeno quando ele aparece...
Diary of the Dead, E.U.A., 2007. Realização: George A. Romero. Com: Michelle Morgan, Josh Close, Shawn Roberts, Amy Lalonde, Joe Dinicol, Scott Wentworth, Philip Riccio, Chris Violette, Tatiana Maslany.