Como acontece de vez em quando, devido à ausência no estrangeiro de um elemento do habitual trio de divagadores, amanhã não haverá Café Bagdad. Estaremos de volta daqui a 2 semanas, como sempre às 15h.
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18.6.08
17.6.08
O acontecimento
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Depois do enorme flop que foi ‘A Senhora da água’ (de que eu gostei muito), Shyamalan surge agora com este filme ‘menor’. ‘Menor’ na ambição, no tom, no conjunto de actores escolhido (além do opaco Mark Wahlberg, só secundários e mesmo desconhecidos). Fez-me mesmo lembrar, e muito, um filme série B, daqueles que se faziam há 50 anos, misto de ficção científica e terror.
Mas, claro, com o savoir-faire de Shyamalan, um dos grandes realizadores da actualidade. A sua marca registada está lá inteirinha, e mesmo que por vezes a realização pareça um pouco ‘tosca’, sentimos que era para ser mesmo assim, que o realizador tem um controlo total do que está a fazer, como o prova o ambiente verdadeiramente angustiante que instala com quase nada: umas plantas estremecendo com o vento, uma pessoa petrificada, um olhar vítreo.
Como sempre acontece com os filmes de Shyamalan, não convém falar muito do argumento, embora este filme aposte menos no seu efeito bombástico do que outros. A ‘mensagem’, algo mística como sempre, aqui também ecológica, irritará os detractores do costume (e se ele tem muitos!), mas a mim não me pareceu o mais importante: tal como acontecia nos tais filmes série B, reflecte as angústias da sua época.
E numa época de filmes amorfos e realizadores insossos, que bom é ainda haver um verdadeiro autor como Shyamalan: ame-se ou deteste-se, nunca um seu filme é vulgar ou indistinto.
The Happening, E.U.A., 2008. Realização: M. Night Shyamalan. Com: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Spencer Breslin, Betty Buckley, Jeremy Strong.
13.6.08
Liga 2008
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Após uma longa sabática pos-Alfred, a Liga recomeçou a mexer, e já estão aí os rankings dos 3 primeiros meses do ano (e o de Abril está a sair).
'Livro Negro', de Paul Verhoeven (que por cá estreou o ano passado), 'Este país não é para velhos' dos manos Coen e 'I'm Not There' de Tod Haynes, foram os eleitos para filme do mês. No ranking global do ano, intromete-se entre eles 'Haverá sangue' de P.T.Anderson.
9.6.08
Os reis da rua
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Tom Ludlow (Keanu Reeves) é o homem dos trabalhos sujos do Departamento de Policia de Los Angeles: qual Dirty Harry, ele prefere disparar primeiro e perguntar depois. Para quê levar um suspeito a tribunal e arriscar a sua absolvição, se o pode matar logo e ficar o assunto resolvido?
O seu chefe (Forest Whitaker) protege-o, mas um capitão dos assuntos internos (Hugh Laurie, o famoso Dr.House) começa-o a incomodar: aparentemente um seu colega e ex-amigo denunciou os seus métodos pouco ortodoxos. Digo aparentemente, porque neste filme nada é o que parece (embora o espectador experimentado não se acredite nas parecenças e cheire o 'vilão' a léguas), e não tardamos muito a ver-nos envolvidos num enorme novelo de corrupção e interesses pouco claros, em que quanto mais se mexe mais emaranhado fica. Não há praticamente uma pessoa neste filme que seja honesta, e Keanu Reeves, um assassino consumado e impiedoso, acaba por fazer o papel de bom da fita, pois é uma mera peça do puzzle, que mata os 'maus' não por dinheiro ou ambição, mas ''apenas'' porque são criminosos. Quem se indignou com o fascismo de Dirty Harry tem neste argumento mais do que cínico - baseado numa história de James Ellroy, que também aparece como co-argumentista - pano para mangas...
Deixando agora o enredo de lado, diga-se que o realizador David Ayer (argumentista de 'Dia de Treino', que volta assim a um terreno que bem conhece), não sendo um Don Siegel, não se safa mal de todo, sendo competente e eficaz q.b., tirando ainda bom partido do lado menos glamoroso de L.A. (ainda que actualmente este tipo de filmes me pareçam ser todos filmados da mesma maneira, por pessoas que viram séries de TV e vídeos de hip-hop a mais - e aqui nem faltam uns rappers conhecidos nuns papeis secundários).
Uma boa surpresa é Keanu Reeves, que não sendo Clint Eastwood, compõe a sua violenta e moralmente distorcida personagem com grande credibilidade e secura.
Tudo somado, é um filme que vale a pena ver.
Street Kings, E.U.A., 2008. Realização: David Ayer. Com: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Terry Crews, Amaury Nolasco, Naomie Harris, Common, The Game, Cedric the Entertainer.
6.6.08
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
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Nunca fui especial fã de Steven Spielberg e muito menos da trilogia Indiana Jones, de cujos filmes sinceramente já nem me lembro muito bem. Não serei assim a pessoa mais indicada para elaborar considerações metafísicas à volta do regresso do herói, quase 20 anos depois.
Registo com agrado, no entanto, que não há neste quarto episódio qualquer tentativa de nos impingir reflexões pseudo-profundas sobre 'o envelhecimento do mito', ou tretas no género a la Bronco Stallone. Há apenas, uma vez mais, a vontade de nos contar uma história de aventuras, de nos entreter honestamente com peripécias e lutas de bons contra maus.
Ainda assim, na minha opinião o resultado não é muito entusiasmante, não havendo aqui um grão de originalidade e sendo o filme vagamente entediante e mesmo algo pateta. Um filme desnecessário, diria. Mas também é verdade que há sempre algo em Spielberg que nos remete para para uma certa inocência primordial de fazer cinema, há sempre uma certa magia, para usar um termo foleiro caro aos seus admiradores. E isso uma vez mais está presente, o que aliado ao facto de Harrison Ford estar em excelente forma, justifica que o tempo despendido com este último Indy não seja totalmente perdido.
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, E.U.A., 2008. Realização: Steven Spielberg. Com: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent, Igor Jijikine.
5.6.08
Mais um...
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Um dos filmes mais elogiados do ano passado, 'Before the Devil Knows You're Dead', do veterano Sidney Lumet, que já esteve previsto chegar às nossas salas este mês, entretanto desapareceu do mapa das estreias...
Mais um que irá directo para o mercado vídeo?
4.6.08
Café Bagdad
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Pedro Peixoto Costa modera, e a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio vamos divagando. Esta semana elogiamos fortemente 'Darjeeling Limited', última opus de Wes Anderson, e tentamos não repetir todos os estafados encómios a 'O Padrinho', de Francis Ford Coppola.
Como sempre, na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).
2.6.08
Filmes de Maio
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Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.

Vontade indómita, King Vidor, 1949 (8,5)
O gosto do saké, Yasujiro Ozu, 1962 (9,5)
O Mercenário, Damiani Damiano, 1966 (8,5)
Django, Segio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Destinos opostos, Bob Rafelson, 1970 (8)
Prime Cut, Michael Ritchie, 1972 (7)
Lady Snowblood, Toshiya Fujiti, 1973 (7)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)
Recordações, Woody Allen, 1980 (8,5)
Scott Walker - 30 Century Man, Stephen Kijak, 2006 (8)
Cashback, Sean Ellis, 2006
No vale de Elah, Paul Haggis, 2007
Angel, François Ozon, 2007
Tudo o que perdemos, Susanne Bier, 2007
Triângulo, Johnnie To+Ringo Lam+Tsui Hark, 2007
Diário dos mortos, George Romero, 2007
O segredo de um cuscuz, Abdel Kachiche, 2007
Homem de Ferro, Jon Favreau, 2008
My Blueberry Nights, Wong Kar-Wai, 2008
Goodnight Irene, Paolo Marinou-Blanco, 2008

Vontade indómita, King Vidor, 1949 (8,5)
O gosto do saké, Yasujiro Ozu, 1962 (9,5)
O Mercenário, Damiani Damiano, 1966 (8,5)
Django, Segio Corbucci, 1966 (8)
O grande silêncio, Sergio Corbucci, 1968 (8)
Destinos opostos, Bob Rafelson, 1970 (8)
Prime Cut, Michael Ritchie, 1972 (7)
Lady Snowblood, Toshiya Fujiti, 1973 (7)
O meu nome é ninguém, Tonino Valerii, 1973 (7,5)
Recordações, Woody Allen, 1980 (8,5)
Scott Walker - 30 Century Man, Stephen Kijak, 2006 (8)
Cashback, Sean Ellis, 2006
No vale de Elah, Paul Haggis, 2007
Angel, François Ozon, 2007
Tudo o que perdemos, Susanne Bier, 2007
Triângulo, Johnnie To+Ringo Lam+Tsui Hark, 2007
Diário dos mortos, George Romero, 2007
O segredo de um cuscuz, Abdel Kachiche, 2007
Homem de Ferro, Jon Favreau, 2008
My Blueberry Nights, Wong Kar-Wai, 2008
Goodnight Irene, Paolo Marinou-Blanco, 2008
1.6.08
O segredo de um cuscuz
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A família à volta da mesa - uma cena extraordinária.
O que desde logo surpreende neste filme realista e politico é ser tão caloroso, é das suas personagens (todas interpretadas por actores não profissionais, todos sem excepção com uma relação perfeita com a câmara) emanar uma espécie de alegria de viver, de humanismo, que não entra nunca em conflito com a crítica social cerrada que Abdel Kechiche nos vai servindo.
Kechiche é implacavel para com a burguesia francesa, racista e mesquinha, mas fácil de animar com álcool e mulheres, mas também não deixa de dar uns remoques à família magrebina que está no seio do filme, incapaz de integrar a mulher ucraniana de um dos seus, e brinca ainda com o facto de o resignado Sr.Beiji, patriarca de uma família árabe e supostamente machista, atravessar uma verdadeira via-sacra sempre rodeado de mulheres, que são os elementos mais fortes da história, ora o suportando (como a sua extraordinária enteada) ora o martirizando (o longo discurso à beira do histerismo que ele ouve silenciosamente da sua nora ucraniana é todo um programa).
Este retrato tão humano e caloroso (repito os adjectivos), como mordaz e impiedoso, seria mais do que suficiente para elevar bem alto 'O segredo de um cuscuz' (mais um titulo português idiota), mas Kechiche vai mais longe e dá-nos uma última meia hora de um suspense verdadeiramente hitchcockiano, numa angustiante montagem paralela esticada mesmo para lá do suportável, culminando com um dos finais mais sádicos que já me foi dado a ver.
A não perder.La Graine et le Mulet, França, 2007. Realização: Abdel Kechiche. Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache, Abdelhamid Aktouche, Bouraouïa Marzouk, Alice Houri.