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30.6.08

The Mist - Nevoeiro misterioso



Se é certo que este filme de Darabont me parece falhar em algo essencial - meter medo ao espectador! - também é verdade que tem várias virtudes.

Na minha opinião falha por mostrar mais do que devia - todos os bicharocos que emergem do nevoeiro para matar pessoas causam, quando muito, repulsa. Sem dúvida que o invisível, o indefinido, seriam mais aterrorizantes.

Quanto às virtudes, sobressai desde logo o excelente conjunto de personagens, que estão fechadas num supermercado à espera que o nevoeiro assassino passe, desde a fanática religiosa que anuncia o apocalipse até ao insuspeitamente sensato e determinado empregado do supermercado (e a catártica cena em que este cala a primeira é excepcional na sua simplicidade). Toda a psicologia relacionada com este grupo fechado, em que para cada pessoa que tenta manter a calma há meia dúzia de pessoas absolutamente irracionais, é muito boa.

Last but not the least, tem o final menos Hollywoodiano de que me lembro desde 'A noite dos mortos-vivos'.
The Mist, E.U.A., 2007. Realização: Frank Darabont. Com: Thomas Jane, Andre Braugher, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Toby Jones, Nathan Gamble, Frances Sternhagen.

29.6.08

A rapariga cortada em dois



A recepção crítica aos pioneiros da Nouvelle Vague tem sido bastante diversa com o passar dos anos: enquanto Rohmer e Rivette continuam a ter muito boas criticas, Godard caiu numa espécie de limbo e Chabrol, para aí desde os anos 80 que tem mais quem lhe torça o nariz que quem o admire (e os últimos filmes de Truffaut também já não eram nada consensuais).

Eu não me queixo nada de Chabrol, nomeadamente dos seus filmes dos anos 2000, que me têm parecido todos muito bons. Quando estava a ver este 'A rapariga cortada em dois' pensei mesmo em Woody Allen, e como este filme poderia ser o 'Match Point' de Chabrol, o filme que o reconciliaria com a crítica. Mas parece que não foi o caso e é pena.

No mínimo, podemos dizer que a ironia do realizador francês se tem refinado com a idade, e que atinge picos demolidores nesta última obra, em que volta aos seus temas e personagens de sempre (os burgueses, o crime, a loucura, o campo e a cidade, etc., etc.).

Gabrielle (excelente Ludivine Sagnier) é a apresentadora da meteorologia de um canal de TV local, que rapidamente chama sobre si as atenções de duas das mais famosas personagens da terra: o célebre e premiado escritor cinquentão Charles Saint-Denis (excelente François Berléand), que apesar de casado é um notório sedutor e conquistador, e o Gaudens 'filho', o jovem herdeiro da família mais abastada do local, um dandy desequilibrado e mimado (superiormente interpretado por Benoît Magimel num registo à beira da caricatura), a quem não falta uma espécie de acompanhante protector que evita que ele faça asneiras. Gabrielle deixa-se seduzir pelo intelectual mais velho, o que só lhe trará desgostos (dupla ironia do realizador?), que tentará esquecer nos braços do mais jovem (o que lhe trará ainda mais desgostos).

Todas as personagens são obviamente estereotipadas, notando-se o grande gozo de Chabrol ao criá-las, desde logo nos nomes: o escritor chama-se na realidade Charles Denis, mas acrescentou o 'Saint' (e passa o filme a repetir que a mulher, a quem põe alegremente os cornos, é uma Santa!); Paul André Claude Gaudens só é conhecido pelo 'Gaudens filho'; e a rapariga chama-se Gabrielle Aurore (enquanto que a mãe e irmãs do Gaudens filho chamam-se Dona, Joséphine e Eléonore). Nada de admirar, se nos lembrarmos que a juíza justiceira de 'A comédia do poder' se chamava Jeanne Charmant-Killman...

Como disse, a mordacidade de Chabrol está no seu auge, e se há talvez mais leveza nos seus últimos filmes, tal deve-se à sabedoria de um quase octogenário (78 anos feitos há dias), cuja quase invisibilidade da mise en scéne não devemos confundir com menor capacidade, mas sim com uma espécie de austeridade e despojamento do superficial à sua maneira.

Um filme delicioso.
La Fille Coupée en Deux, França/Alemanha, 2007. Realização: Claude Chabrol. Com: Ludivine Sagnier, Benoît Magimel, François Berléand, Mathilda May, Caroline Sihol .

27.6.08

O orfanato



'O orfanato' encaixa-se num género que poderemos chamar 'terror sobrenatural': há uma mãe que tenta trazer o seu filho adoptivo do reino dos mortos, há fantasmas de crianças assassinadas, há uma casa que é um antigo orfanato onde os crimes foram cometidos, etc.

Tirando uma entaladela dum dedo numa porta, penso que não se vê sangue em mais nenhum momento do filme: o medo vem todo da expectativa do espectador, de sons inesperados, de aparições, de fantasmagorias.

Não trazendo nada de novo ao género, 'O orfanato' aplica competentemente as suas regras, resume bem o seu imaginário (veja-se o argumento, todo construído a partir de citações e piscadelas de olho a clássicos, quer do terror, quer das fábulas infantis) e dá-nos alguns momentos de verdadeiro suspense, de que o melhor exemplo será a sequência da medium.

Se o facto de ter a lição bem estudada não deixa de ser um trunfo do realizador Juan Antonio Bayona , a verdade é que tem o seu reverso da medalha: há uma sensação de déjà vu, é algo indistinto. Quem já viu muitos filmes deste género, nomeadamente da legião asiática que costuma passar pelo Fantas (onde até foi premiado), não desgostará a fita, mas também não achará nela nada de particularmente excitante.
El orfanato, Espanha/México, 2007. Realização: Juan Antonio Bayona. Com: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Geraldine Chaplin.

24.6.08

Obsessão mortal



O agente agente federal Errol Babbage (Richard Gere, cujos dotes interpretativos têm melhorado exponencialmente com o passar dos anos) tem como missão acompanhar os acusados de delitos sexuais que saem da prisão. Os seus métodos são poucos ortodoxos, é obsessivo, não segue as regras e tem uma visão mais do que negra da humanidade (que o filme não lhe desmente): para ele, cada recluso libertado é um reincidente a curto prazo.

Babbage está prestes a ser reformado e a ser substituído por uma novata (a sempre interessante Claire Danes, aqui num papel com pouco sumo para espremer), mas não desiste dum último caso.

Estamos assim perante um tema clássico, que vem - pelo menos - dos westerns: o do pistoleiro experiente e desencantado que passa o testemunho ao adjunto inexperiente e idealista que acaba por o admirar.

Andrew Lau, realizador de Hong Kong que realizou a trilogia de culto 'Infernal Affairs' - de cujo primeiro tomo Scorsese fez um remake chamado 'The Departed' com o sucesso que se sabe - estreia-se com este filme em Hollywood, pisando terrenos algo distantes do que seria de esperar.

É que mais do que um filme de acção - há aqui muito pouca 'acção' - 'Obsessão mortal' é uma sombria reflexão (ía escrever meditação, mas o filme não chega a tanto) sobre o mal e sobre o modo como perturba quem se aproxima dele (Gere). Ou será que só se aproxima dele quem já sente o seu fascínio, mesmo que escolha o outro lado?

Não estando ao nível do melhor que Lau fez na sua terra natal, 'Obsessão mortal' é ainda assim uma obra competente, segura e bem filmada (tem mesmo meia dúzia de muito belos planos), que não deslustra o nome do realizador.
The Flock, E.U.A., 2007. Realização: Andrew Lau. Com: Richard Gere, Claire Danes, KaDee Strickland, Avril Lavigne, Ray Wise.

20.6.08

Ranking anos 2000



A Liga, elegeu o seu top da década de 2000 (até 2008, bem entendido!). Como se pode ver aqui, em primeiro lugar ficou Mulholland Drive, de David Lynch.

Por razões várias, optei por não participar na votação. Se o tivesse feito, é certo que para o primeiro lugar hesitaria entre Lost in Translation e Uma história da violência (que ficaram colocados, respectivamente, em 10º e 4º lugar; aliás, gosto bastante do top 10).

Mas há um filme, que nem nos 50 primeiros ficou, e que eu tentaria meter no meu top 10: este OVNI.

18.6.08

Corações na penumbra



Este filme é o resultado de uma luta constante entre a força da peça de Tenessee Williams, que adapta, e as limitações do realizador Richard Brooks. Nestes casos, é sempre o mais fraco que triunfa.

Não que seja um mau filme. Basta o que fica da peça. Basta o par Geraldine Page/Paul Newman. Mas é inevitável o travo a desilusão. Quem ainda pensa que o realizador é só mais uma peça na engrenagem - com um peso igual ao do argumento ou ao dos actores - tem aqui uma vez mais um exemplo que o nega.

Só de pensar no que Kazan ou Mankiewicz fariam com esta matéria-prima...

Sweet Bird of Youth, E.UA., 1962. Realização: Richard Brooks. Com: Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight, Ed Begley, Rip Torn, Mildred Dunnock, Madeleine Sherwood.

Café Bagdad

Como acontece de vez em quando, devido à ausência no estrangeiro de um elemento do habitual trio de divagadores, amanhã não haverá Café Bagdad. Estaremos de volta daqui a 2 semanas, como sempre às 15h.

17.6.08

O acontecimento



Depois do enorme flop que foi ‘A Senhora da água’ (de que eu gostei muito), Shyamalan surge agora com este filme ‘menor’. ‘Menor’ na ambição, no tom, no conjunto de actores escolhido (além do opaco Mark Wahlberg, só secundários e mesmo desconhecidos). Fez-me mesmo lembrar, e muito, um filme série B, daqueles que se faziam há 50 anos, misto de ficção científica e terror.

Mas, claro, com o savoir-faire de Shyamalan, um dos grandes realizadores da actualidade. A sua marca registada está lá inteirinha, e mesmo que por vezes a realização pareça um pouco ‘tosca’, sentimos que era para ser mesmo assim, que o realizador tem um controlo total do que está a fazer, como o prova o ambiente verdadeiramente angustiante que instala com quase nada: umas plantas estremecendo com o vento, uma pessoa petrificada, um olhar vítreo.

Como sempre acontece com os filmes de Shyamalan, não convém falar muito do argumento, embora este filme aposte menos no seu efeito bombástico do que outros. A ‘mensagem’, algo mística como sempre, aqui também ecológica, irritará os detractores do costume (e se ele tem muitos!), mas a mim não me pareceu o mais importante: tal como acontecia nos tais filmes série B, reflecte as angústias da sua época.

E numa época de filmes amorfos e realizadores insossos, que bom é ainda haver um verdadeiro autor como Shyamalan: ame-se ou deteste-se, nunca um seu filme é vulgar ou indistinto.
The Happening, E.U.A., 2008. Realização: M. Night Shyamalan. Com: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Spencer Breslin, Betty Buckley, Jeremy Strong.

13.6.08

Liga 2008



Após uma longa sabática pos-Alfred, a Liga recomeçou a mexer, e já estão aí os rankings dos 3 primeiros meses do ano (e o de Abril está a sair).

'Livro Negro', de Paul Verhoeven (que por cá estreou o ano passado), 'Este país não é para velhos' dos manos Coen e 'I'm Not There' de Tod Haynes, foram os eleitos para filme do mês. No ranking global do ano, intromete-se entre eles 'Haverá sangue' de P.T.Anderson.

9.6.08

Os reis da rua



Tom Ludlow (Keanu Reeves) é o homem dos trabalhos sujos do Departamento de Policia de Los Angeles: qual Dirty Harry, ele prefere disparar primeiro e perguntar depois. Para quê levar um suspeito a tribunal e arriscar a sua absolvição, se o pode matar logo e ficar o assunto resolvido?

O seu chefe (Forest Whitaker) protege-o, mas um capitão dos assuntos internos (Hugh Laurie, o famoso Dr.House) começa-o a incomodar: aparentemente um seu colega e ex-amigo denunciou os seus métodos pouco ortodoxos. Digo aparentemente, porque neste filme nada é o que parece (embora o espectador experimentado não se acredite nas parecenças e cheire o 'vilão' a léguas), e não tardamos muito a ver-nos envolvidos num enorme novelo de corrupção e interesses pouco claros, em que quanto mais se mexe mais emaranhado fica. Não há praticamente uma pessoa neste filme que seja honesta, e Keanu Reeves, um assassino consumado e impiedoso, acaba por fazer o papel de bom da fita, pois é uma mera peça do puzzle, que mata os 'maus' não por dinheiro ou ambição, mas ''apenas'' porque são criminosos. Quem se indignou com o fascismo de Dirty Harry tem neste argumento mais do que cínico - baseado numa história de James Ellroy, que também aparece como co-argumentista - pano para mangas...

Deixando agora o enredo de lado, diga-se que o realizador David Ayer (argumentista de 'Dia de Treino', que volta assim a um terreno que bem conhece), não sendo um Don Siegel, não se safa mal de todo, sendo competente e eficaz q.b., tirando ainda bom partido do lado menos glamoroso de L.A. (ainda que actualmente este tipo de filmes me pareçam ser todos filmados da mesma maneira, por pessoas que viram séries de TV e vídeos de hip-hop a mais - e aqui nem faltam uns rappers conhecidos nuns papeis secundários).

Uma boa surpresa é Keanu Reeves, que não sendo Clint Eastwood, compõe a sua violenta e moralmente distorcida personagem com grande credibilidade e secura.

Tudo somado, é um filme que vale a pena ver.
Street Kings, E.U.A., 2008. Realização: David Ayer. Com: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Terry Crews, Amaury Nolasco, Naomie Harris, Common, The Game, Cedric the Entertainer.