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31.7.08

Os amores de Astrea e de Celadon



Adaptação de uma obra do século XVII de Honoré d`Urfé, esta nova obra de Rohmer é algo desconcertante por trás da sua aparente simplicidade.

É assim uma espécie de teatro filmado, em que os actores vão declamando pelos bosques, encarnando pastores, druidas e ninfas, exalando um erotismo subtil (aqueles vestidos translúcidos...), possuídos de uma graça quase etérea, emersos num irreal ambiente mágico e antigo.

Mesmo tomando um texto alheio de há quatro séculos, não escapará a nenhum fã de Rohmer que os dilemas morais e amorosos de Astrea e Celadon na Gália do século V, rimam com os dos jovens nossos contemporâneos dos 'Contos Morais' ou dos 'Contos das Quatro Estações'.

E, se no global, talvez não se atinja aqui o nível dos melhores daqueles (fasquia elevadíssima, note-se), é no entanto um filme que possui aquela singeleza e despojamento que só os velhos mestres conseguem alcançar.

Les Amours d`Astrée et de Céladon, França/Itália/Espanha, 2007. Realização: Eric Rohmer. Com: Andy Gillet, Stéphanie Crayencour, Cécile Cassel.

28.7.08

O Cavaleiro das Trevas


Heath Ledger como Joker: o melhor do filme.

Sinceramente ultrapassa-me completamente o porquê de tanto barulho à cerca deste novo Batman. Como filme de acção, a maior parte do tempo achei-o - não encontro outra palavra - entediante. Como reflexão sobre ética e moral, mais concretamente sobre a possibilidade de agir correctamente num mundo em que já não há moral (atenção! 11 de Setembro! atenção!), como actualização da máxima Fordiana do 'quando a lenda ultrapassa a realidade imprima-se a lenda', pareceu-me medianíssimo.

É tudo fraco? Não, nada disso. Tem meia hora a dois terços do fim - em que se instala um caótico ambiente negro e desconfortável - bem boa. Tem uma estupenda interpretação de Heath Ledger, como toda a gente tem sublinhado. Mas pouco mais. Muita acção chapa cinco, muita gente angustiada, mas pouca substância e até, pareceu-me, pouca espectacularidade e zero originalidade por trás de todo o fogo-de-vista.

Acrescento que acho Nolan um bom realizador, que gostei de 'Memento', apesar do seu exibicionismo, que gostei de 'Insónia'. Mas este filme, peço desculpa, não me parece ser mais que um mediano Blockbuster com pretensões. Volto ao início: não percebo mesmo todo o hype à sua volta. Faz-me lembrar aquela história que João Bénard da Costa conta já não sei onde, que termina com a célebre frase do pacóvio: 'tanto barulho por causa de uma galinha!?'

The Dark Knight, 2008. Realização: Christopher Nolan. Com: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman.

24.7.08

Vigilância



‘Vigilância’ nem começa mal. Numa esquadra da polícia de uma terriola da América profunda, vamos assistindo a um interrogatório, por parte de dois agentes do FBI, das testemunhas (um polícia local, uma rapariga meia junkie e uma criança) de um crime violento perpetrado por uns serial killers que andam a aterrorizar a zona, e em montagem paralela vamos tendo uma visão daquilo a que na realidade estas personagens assistiram.

Depressa percebemos que cada um só conta o que lhe convém e que os polícias daquela esquadra são um caricato bando de crianças grandes, que não só metem água por todo lado, como contribuíram mesmo para grande parte dos trágicos acontecimentos. Até aqui tudo bem, temos mais um retrato cínico mas não desinteressante sobre uma certa América interior, o mundo white trash, dos motéis, dos drogados, da polícia acéfala, do imaginário on road. Mesmo algumas cenas mais caricaturais são justificadas por esta afiada visão panorâmica.

Mas às tantas o filme dá uma volta de 180º, uma daquelas viragens com que alguns argumentistas gostam de surpreender o espectador, e a coisa descamba completamente. Não pela cambalhota, que enfim, é mais uma, mas pelo ambiente de psicologia chã que se instala, pelo ridículo das cenas em que se pretende fundir pulsões sexuais com crime, erotismo com transgressão da lei, em que não escapa nenhum, mas mesmo nenhum, cliché do género. É tudo de fugir e – é inevitável – não podemos deixar de pensar que estamos perante uma grotesca e simplória imitação do universo de David Lynch, pai da realizadora Jeniffer Lynch. Não havia necessidade.
Surveillance, E.U.A., 2008. Realização: Jennifer Lynch. Com: Julia Ormond, Bill Pullman, Pell James, Ryan Simpkins, French Stewart, Kent Harper.

22.7.08

Comprei o Público para ler o que lá se dizia dos concertos de Sábado. Do de Lou Reed fiquei a saber, por Vítor Belanciano, que 'o público, esse, era maduro, como se esperava. Trajado a rigor, elas vestidos vaporosos, eles camisas brancas'. Do de Cohen, em que estive presente, que 'surpreendentemente, houve Cohen', apesar de haver 'uma certa ironia em ver uma dezena e tal de milhares de pessoas a urrar perante uma espécie de versão cantada de Livro do Apocalipse'. Ah! Que pena não termos todos a cultura superior de João Bonifácio para percebermos que não se 'urra' perante uma 'espécie de versão cantada de Livro do Apocalipse''!

Nem sei se é pior o estilo Nova Gente de VB, se o desdém altivo de J "mas quem é esse pobre do Cohen, afinal?"B.

Uma coisa sei: o Público (que tem boas secções de literatura e cinema), tem os piores críticos de música do mundo. E arredores.

(ao fim de 4 anos já tinha direito a um post não cinematográfico!)

19.7.08

18.7.08

Procurado



Fui ver este filme com a esperança que fosse o 'Shoot`em Up' deste ano, ou seja, uma coisa meio descerebrada, mas divertida e speedada, assim ao jeito da silly season.

Infelizmente não chega a tanto: nem é muito divertido, nem as cenas de acção têm um quinto da coolness de 'Shoot`em Up'. E mais que descerebrado, é uma palermice mesmo (fui informado a posteriori que baseada num jogo de computador numa BD).
Não chega a aborrecer, mas é fracote. Vai ser um longo Verão cinematográfico...
Wanted, E.U.A., 2008. Realização: Timur Bekmambetov. Com: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp, Thomas Kretschmann.

17.7.08

Tropa de elite



No seu excelente ensaio sobre Kieślowski, incluído no cá recém-publicado ‘Lacrimae Rerum’, Slavoj Žižek explica que o realizador polaco se iniciou nos documentários para combater a imagem optimista e resplandecente transmitida pelos media oficiais, sujeitos à censura, mas depois concluiu que quando se filmam cenas da ''vida real'' num documentário, temos pessoas a representar o seu próprio papel, pelo que o único modo de descrever as pessoas debaixo da sua máscara protectora é passar à ficção.

José Padilha terá pensado em algo semelhante. A sua primeira obra é precisamente um documentário, 'Ônibus 174' acerca de um miúdo que sequestra um autocarro, e a sua primeira ideia para este seu mais recente filme foi fazer um documentário sobre o 'BOPE', mas depressa percebeu que não haveria policias dispostos a 'dar a cara'. E assim sendo, era impossível mostrar o que ele queria mostrar.

A primeira parte de 'Tropa de elite' mostra-nos o enorme grau de corrupção que grassa no seio da polícia brasileira, que é mais uma peça no sistema: os polícias limitam-se a arrecadar um quinhão do dinheiro da droga e assim eles e os narcotraficantes que, armados até aos dentes, dominam as favelas, convivem harmoniosamente. De caminho, Padilha arrasa os ‘meninos bem’ que vão para as favelas movidos por ‘bons sentimentos’, mas que acabam mais por ser cúmplices do status quo que outra coisa.

Na segunda parte, por contraste, é-nos apresentado o BOPE (as forças especiais da policia), sempre do ponto de vista do seu capitão: têm treino militar rigorosíssimo (‘mais elitista que o exército de Israel’), estão preparados para obter resultados por todos os meios (incluindo a tortura) e são incorruptíveis. ‘O BOPE quando entra numa favela é para matar, não é para ser morto’, resume o seu capitão.

Evidentemente que um argumento destes provocou uma pequena tempestade – o filme e o seu realizador foram apelidados de fascistas para cima – cujos dados mais visíveis foram um sucesso de bilheteira estrondoso no Brasil e um reconhecimento associado a polémica um pouco por toda a parte, que culminou na atribuição do Urso de Ouro em Berlim (por um júri presidido pelo realizador ‘esquerdista’ Costa-Gravas).

Vamos por partes: ‘Tropa de elite’ é um filme razoavelmente conservador na sua forma, com uma voz off a pontuar a narrativa, filmada de câmara à mão, mas quase sempre sóbria e acima de tudo eficaz. Padilha gere as coisas com secura e mão firme, não caindo em tentações rambescas ou excessivamente pirotécnicas ('Cidade de Deus' pareceu-me bem mais exibicionista). E -a mim parece-me claro - não endeusa ninguém.
Se Padilha é demolidor para com a polícia tradicional, o BOPE também está muito longe de ficar bem na fotografia. Quando o Capitão Nascimento diz com orgulho que Matias se transformou finalmente num polícia, o que nós vemos é que o idealista e justo Matias do início do filme, que conciliava a polícia com os estudos de Direito, se transformou num assassino a sangue frio, seguidor do ‘olho por olho, dente por dente’ e não das leis penais.

Talvez seja esta a maior inquietação que ‘Tropa de elite’ nos deixa: haverá solução para o flagelo do narcotráfico nas favelas brasileiras, ou tudo terá que oscilar entre o absentismo da polícia comum e os métodos à margem da lei - inaceitáveis numa democracia que se preze - de um qualquer BOPE?

Tropa de Elite, Brasil, 2007. Realização: José Padilha. Com: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Maria Ribeiro, Fernanda Machado, Fábio Lago, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, Paulo Vilela, Marcelo Valle.

Correio dos leitores

No post sobre o Oliveira tens repetida a letra a, faltam acentos, e chamas Gorbatchev ao Krutschev.
Fónix!!

14.7.08

Oliveira em Vila do Conde

Um dos momentos mais fortes que fica da 16ª edição do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Vila do Conde, que ontem terminou, é a homenagem prestada na passada 5ª feira a Manoel de Oliveira, o 'padrinho' do festival, como foi apresentado pelos organizadores.


obrigado à Marta pelas fotos

Foi exibido um curto excerto de uma conversa gravada há alguns anos, no festival, entre Oliveira e Aleksandr Sokurov.



Infelizmente, uma tradutora algo titubeante e um Sokurov nitidamente desconcertado com o que Oliveira lhe dizia ('o mais importante é seguir as leis'), impediu que houvesse grande comunicação entre os dois realizadores. Ou então o excerto escolhido para esta homenagem não foi o mais conseguido...



Seguidamente Oliveira foi convidado a subir ao palanque: ignorou as escadas de acesso e saltou literalmente para o palco, dando a primeira prova da sua extraordinária vitalidade no ano em que completará o seu centenário.

Nas breves palavras que dirigiu ao público mostrou uma vez mais a sua jovialidade e magnífico sentido de humor, prometendo, perante um desafio dos organizadores, que para o ano será apresentada aqui a sua conversa com José Régio (natural de Vila de Conde), cuja fita se encontra mais ou menos abandonada há décadas. 'A questão é só saber se não bato a bota até lá'.

Para terminar foi projectado o seu muito divertido segmento d0 filme colectivo Chacun Son Cinéma, uma curta-metragem muda, narrando um breve encontro entre Krutschev (Michele Piccoli) e o Papa João XXIII (João Bénard da Costa!).

Um grande momento.

Curtas de Vila do Conde

A curta brasileira ‘Muro’, de Tião, foi a vencedora do Grande Prémio Cidade de Vila do Conde 2008. O filme esteve integrado na secção ‘ficção’, mas também não teria ficado mal na ‘experimental’. O seu conteúdo é razoavelmente hermético, alternando diferentes narrativas que se pressupõem alegóricas e carregadas de crítica social (a quê?). Tal como acontece com algumas obras de arte moderna, talvez só um texto do realizador explicando os seus propósitos nos poderia dar mais pistas…
Fãs da curta falaram-me em ‘imagens fortes, poderosas’, mas a mim esteve longe de me convencer, embora quem cá ande há algum tempo o intua logo como filme ‘premiável’.

Em sentido contrário gostei bastante de ‘Love You More’, Prémio UIP/Vila do Conde, da britânica Sam Taylor-Wood, história de descoberta sexual de um adolescente ao som dos Buzzcocks. Em 15 minutos dá-nos todo um retrato de uma época e de uma geração pré-downloads, em que se esperava com fervor pelo single que antecedia o álbum da nossa banda favorita.
Tenho um amigo meu que costuma dizer que estou muito agarrado ao ‘formato canção’, dado o meu desdém por hip-hops e quejandos, e foi esse sabor ‘old fashion’, esse ‘formato canção’, que tanto gostei nesta curta.

Muito acima da média, pareceu-me também ‘Corrente’ de Rodrigo Areias, sedutora e misteriosa curta centrada no rio que banha uma pequena povoação mineira, onde cada um lava as suas ‘sujidades’. Acumulou o triunfo na Competição Nacional, com o Prémio do Público, o que não deixa de ser surpreendente (o público costuma votar em ‘anedotas filmadas’).

O Prémio para a Melhor Ficção foi para ‘The Adventure’, do americano Mike Brune, que parte duma premissa curiosa – a confusão instalada por dois mimos em duas personagens muito ‘americanas’, muito ‘normais’ – mas que acaba por se perder um pouco. Penso que a brecha que abre entre realidade e ficção seria mais matéria de análise para um crítico a la Zizek, que para o cinéfilo comum que termina razoavelmente entediado…


Os vencedores dos restantes prémios sectoriais, não aqueceram nem arrefeceram. O vencedor do Prémio para Melhor Animação, 'RGBXY', do irlandês David O’Reilly, é algo original na forma, com personagens de jogo de computador, mas esse efeito é diluído pela ‘mensagem’ e por um tom geral dejá vu. O mesmo se diga dos vencedores dos prémios para o Melhor Filme Experimental, 'Ah, Liberty!', de Ben Rivers (Reino Unido) e do Prémio para o Melhor Documentário, 'Three Of Us', de Umesh Kulkarni (Índia), competentes e correctos, mas indistintos de tantos outros que têm passado por este festival.
Houve ainda um prémio para um vídeo dos Liars, mas eu de videoclips não falo, nem percebo o que andam aqui a fazer.


Uma última palavra para 'Dennis' do dinamarquês Mads Matthiesen, o filme extra-palmarés que mais gostei (das 3 sessões que vi), discreto retrato da solidão urbana que retoma a história do ‘Homem elefante’ na forma de um acanhado body builder.