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10.8.08

Filmes de Julho

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Picnic em Hanging Rock, Peter Weir, 1975 (7)
Profondo Rosso, Dario Argento, 1975 (8,5)
A insustentável leveza do ser, Philip Kaufman, 1988 (8)
O caso da mulher infiel, Jack Nicholson, 1990 (8)
Filadélfia, Jonathan Demme, 1993 (8,5)
The Last Seduction, John Dahl, 1994 (7,5)
Eu servi o rei de Inglaterra, Jiri Manzel, 2006
Brincadeiras perigosas, Michael Haneke, 2007
Tropa de elite, José Padilha, 2007
Procurado, Timur Bekmambetov, 2008
Vigilância, Jennifer Lynch, 2008
O cavaleiro das trevas, Cristopher Nolan, 2008

A pilha de livros por ler, aqui na estante, estava a atingir proporções alarmantes, de modo que dediquei o mês passado a pôr a leitura em dia (e neste a saga continua).
Principal sacrificada? A dvdteca, claro. Há anos que não via tão poucos filmes em casa (mas tenho sobrevivido).

1.8.08



'Este país não é para velhos', de Joel e Ethan Coen, lidera o ranking dos melhores filmes do 1º semestre da Liga dos Blogues Cinematográficos. 'I´m not there', de Todd Haynes e 'Haverá sangue' de P.T.Anderson fecham o pódio.

De salientar ainda 'O acontecimento', único filme que integra o top dos melhores (12º) e dos piores (7º), provando uma vez mais que poucos realizadores dividem tanto as águas hoje em dia como Shyamalan.

P.S.: Rankings referentes aos filmes estreados no 1º semeste no Brasil.

Aqui o meu top do 1º semestre.

31.7.08

Os amores de Astrea e de Celadon



Adaptação de uma obra do século XVII de Honoré d`Urfé, esta nova obra de Rohmer é algo desconcertante por trás da sua aparente simplicidade.

É assim uma espécie de teatro filmado, em que os actores vão declamando pelos bosques, encarnando pastores, druidas e ninfas, exalando um erotismo subtil (aqueles vestidos translúcidos...), possuídos de uma graça quase etérea, emersos num irreal ambiente mágico e antigo.

Mesmo tomando um texto alheio de há quatro séculos, não escapará a nenhum fã de Rohmer que os dilemas morais e amorosos de Astrea e Celadon na Gália do século V, rimam com os dos jovens nossos contemporâneos dos 'Contos Morais' ou dos 'Contos das Quatro Estações'.

E, se no global, talvez não se atinja aqui o nível dos melhores daqueles (fasquia elevadíssima, note-se), é no entanto um filme que possui aquela singeleza e despojamento que só os velhos mestres conseguem alcançar.

Les Amours d`Astrée et de Céladon, França/Itália/Espanha, 2007. Realização: Eric Rohmer. Com: Andy Gillet, Stéphanie Crayencour, Cécile Cassel.

28.7.08

O Cavaleiro das Trevas


Heath Ledger como Joker: o melhor do filme.

Sinceramente ultrapassa-me completamente o porquê de tanto barulho à cerca deste novo Batman. Como filme de acção, a maior parte do tempo achei-o - não encontro outra palavra - entediante. Como reflexão sobre ética e moral, mais concretamente sobre a possibilidade de agir correctamente num mundo em que já não há moral (atenção! 11 de Setembro! atenção!), como actualização da máxima Fordiana do 'quando a lenda ultrapassa a realidade imprima-se a lenda', pareceu-me medianíssimo.

É tudo fraco? Não, nada disso. Tem meia hora a dois terços do fim - em que se instala um caótico ambiente negro e desconfortável - bem boa. Tem uma estupenda interpretação de Heath Ledger, como toda a gente tem sublinhado. Mas pouco mais. Muita acção chapa cinco, muita gente angustiada, mas pouca substância e até, pareceu-me, pouca espectacularidade e zero originalidade por trás de todo o fogo-de-vista.

Acrescento que acho Nolan um bom realizador, que gostei de 'Memento', apesar do seu exibicionismo, que gostei de 'Insónia'. Mas este filme, peço desculpa, não me parece ser mais que um mediano Blockbuster com pretensões. Volto ao início: não percebo mesmo todo o hype à sua volta. Faz-me lembrar aquela história que João Bénard da Costa conta já não sei onde, que termina com a célebre frase do pacóvio: 'tanto barulho por causa de uma galinha!?'

The Dark Knight, 2008. Realização: Christopher Nolan. Com: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman.

24.7.08

Vigilância



‘Vigilância’ nem começa mal. Numa esquadra da polícia de uma terriola da América profunda, vamos assistindo a um interrogatório, por parte de dois agentes do FBI, das testemunhas (um polícia local, uma rapariga meia junkie e uma criança) de um crime violento perpetrado por uns serial killers que andam a aterrorizar a zona, e em montagem paralela vamos tendo uma visão daquilo a que na realidade estas personagens assistiram.

Depressa percebemos que cada um só conta o que lhe convém e que os polícias daquela esquadra são um caricato bando de crianças grandes, que não só metem água por todo lado, como contribuíram mesmo para grande parte dos trágicos acontecimentos. Até aqui tudo bem, temos mais um retrato cínico mas não desinteressante sobre uma certa América interior, o mundo white trash, dos motéis, dos drogados, da polícia acéfala, do imaginário on road. Mesmo algumas cenas mais caricaturais são justificadas por esta afiada visão panorâmica.

Mas às tantas o filme dá uma volta de 180º, uma daquelas viragens com que alguns argumentistas gostam de surpreender o espectador, e a coisa descamba completamente. Não pela cambalhota, que enfim, é mais uma, mas pelo ambiente de psicologia chã que se instala, pelo ridículo das cenas em que se pretende fundir pulsões sexuais com crime, erotismo com transgressão da lei, em que não escapa nenhum, mas mesmo nenhum, cliché do género. É tudo de fugir e – é inevitável – não podemos deixar de pensar que estamos perante uma grotesca e simplória imitação do universo de David Lynch, pai da realizadora Jeniffer Lynch. Não havia necessidade.
Surveillance, E.U.A., 2008. Realização: Jennifer Lynch. Com: Julia Ormond, Bill Pullman, Pell James, Ryan Simpkins, French Stewart, Kent Harper.

22.7.08

Comprei o Público para ler o que lá se dizia dos concertos de Sábado. Do de Lou Reed fiquei a saber, por Vítor Belanciano, que 'o público, esse, era maduro, como se esperava. Trajado a rigor, elas vestidos vaporosos, eles camisas brancas'. Do de Cohen, em que estive presente, que 'surpreendentemente, houve Cohen', apesar de haver 'uma certa ironia em ver uma dezena e tal de milhares de pessoas a urrar perante uma espécie de versão cantada de Livro do Apocalipse'. Ah! Que pena não termos todos a cultura superior de João Bonifácio para percebermos que não se 'urra' perante uma 'espécie de versão cantada de Livro do Apocalipse''!

Nem sei se é pior o estilo Nova Gente de VB, se o desdém altivo de J "mas quem é esse pobre do Cohen, afinal?"B.

Uma coisa sei: o Público (que tem boas secções de literatura e cinema), tem os piores críticos de música do mundo. E arredores.

(ao fim de 4 anos já tinha direito a um post não cinematográfico!)

19.7.08

18.7.08

Procurado



Fui ver este filme com a esperança que fosse o 'Shoot`em Up' deste ano, ou seja, uma coisa meio descerebrada, mas divertida e speedada, assim ao jeito da silly season.

Infelizmente não chega a tanto: nem é muito divertido, nem as cenas de acção têm um quinto da coolness de 'Shoot`em Up'. E mais que descerebrado, é uma palermice mesmo (fui informado a posteriori que baseada num jogo de computador numa BD).
Não chega a aborrecer, mas é fracote. Vai ser um longo Verão cinematográfico...
Wanted, E.U.A., 2008. Realização: Timur Bekmambetov. Com: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp, Thomas Kretschmann.

17.7.08

Tropa de elite



No seu excelente ensaio sobre Kieślowski, incluído no cá recém-publicado ‘Lacrimae Rerum’, Slavoj Žižek explica que o realizador polaco se iniciou nos documentários para combater a imagem optimista e resplandecente transmitida pelos media oficiais, sujeitos à censura, mas depois concluiu que quando se filmam cenas da ''vida real'' num documentário, temos pessoas a representar o seu próprio papel, pelo que o único modo de descrever as pessoas debaixo da sua máscara protectora é passar à ficção.

José Padilha terá pensado em algo semelhante. A sua primeira obra é precisamente um documentário, 'Ônibus 174' acerca de um miúdo que sequestra um autocarro, e a sua primeira ideia para este seu mais recente filme foi fazer um documentário sobre o 'BOPE', mas depressa percebeu que não haveria policias dispostos a 'dar a cara'. E assim sendo, era impossível mostrar o que ele queria mostrar.

A primeira parte de 'Tropa de elite' mostra-nos o enorme grau de corrupção que grassa no seio da polícia brasileira, que é mais uma peça no sistema: os polícias limitam-se a arrecadar um quinhão do dinheiro da droga e assim eles e os narcotraficantes que, armados até aos dentes, dominam as favelas, convivem harmoniosamente. De caminho, Padilha arrasa os ‘meninos bem’ que vão para as favelas movidos por ‘bons sentimentos’, mas que acabam mais por ser cúmplices do status quo que outra coisa.

Na segunda parte, por contraste, é-nos apresentado o BOPE (as forças especiais da policia), sempre do ponto de vista do seu capitão: têm treino militar rigorosíssimo (‘mais elitista que o exército de Israel’), estão preparados para obter resultados por todos os meios (incluindo a tortura) e são incorruptíveis. ‘O BOPE quando entra numa favela é para matar, não é para ser morto’, resume o seu capitão.

Evidentemente que um argumento destes provocou uma pequena tempestade – o filme e o seu realizador foram apelidados de fascistas para cima – cujos dados mais visíveis foram um sucesso de bilheteira estrondoso no Brasil e um reconhecimento associado a polémica um pouco por toda a parte, que culminou na atribuição do Urso de Ouro em Berlim (por um júri presidido pelo realizador ‘esquerdista’ Costa-Gravas).

Vamos por partes: ‘Tropa de elite’ é um filme razoavelmente conservador na sua forma, com uma voz off a pontuar a narrativa, filmada de câmara à mão, mas quase sempre sóbria e acima de tudo eficaz. Padilha gere as coisas com secura e mão firme, não caindo em tentações rambescas ou excessivamente pirotécnicas ('Cidade de Deus' pareceu-me bem mais exibicionista). E -a mim parece-me claro - não endeusa ninguém.
Se Padilha é demolidor para com a polícia tradicional, o BOPE também está muito longe de ficar bem na fotografia. Quando o Capitão Nascimento diz com orgulho que Matias se transformou finalmente num polícia, o que nós vemos é que o idealista e justo Matias do início do filme, que conciliava a polícia com os estudos de Direito, se transformou num assassino a sangue frio, seguidor do ‘olho por olho, dente por dente’ e não das leis penais.

Talvez seja esta a maior inquietação que ‘Tropa de elite’ nos deixa: haverá solução para o flagelo do narcotráfico nas favelas brasileiras, ou tudo terá que oscilar entre o absentismo da polícia comum e os métodos à margem da lei - inaceitáveis numa democracia que se preze - de um qualquer BOPE?

Tropa de Elite, Brasil, 2007. Realização: José Padilha. Com: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Maria Ribeiro, Fernanda Machado, Fábio Lago, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, Paulo Vilela, Marcelo Valle.