Recent Posts

31.8.08

Filmes de Agosto

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



O quarto mandamento, Orson Welles, 1942 (8,5)
Belarmino, Fernando Lopes, 1964 (8,5)
A montanha do Deus canibal, Sergio Martino, 1978 (6)
Palombella Rossa, Nanni Moretti, 1989 (9)
Ghost Dog, Jim Jarmush, 1999 (8)
Sicilia!, Danièle Huillet + Jean-Marie Straub, 1999 (8)
O Americano tranquilo, Philip Noyce, 2002 (8)
Saraband, Ingmar Bergman, 2004 (10)
O estado mais quente, Ethan Hawke, 2006
Garage, Leonard Abrahamson, 2007
Margot e o casamento, Noah Baumbach, 2007
O meu irmão é filho único, Daniele Luchetti, 2007
Ficheiros secretos - Quero acreditar, Chris Carter, 2008
WALL-E, Andrew Stanton, 2008
Aquele querido mês de Agosto, Miguel Gomes, 2008

28.8.08

Aquele querido mês de Agosto



Há três ideias fortes que estruturam este filme, porventura algumas nascidas da necessidade.
A primeira, que lhe serve de leitmotiv, é a música pimba. Mais concretamente o Portugal da música pimba, o Portugal profundo, dos emigrantes, das romarias, dos incêndios.

A ‘primeira parte’ do filme, chamemos-lhe assim, é uma espécie de documentário, filmado em terriolas das Beiras, da zona de Arganil, sobre as suas gentes e costumes.
Tendo alguns momentos bem conseguidos, nomeadamente toda a parte das bandas pimba - só as letras das músicas de Marante, Diapasão, Dino Meira (que dá o titulo ao filme), etc., etc. são todo um programa – fica no entanto a sensação que Miguel Gomes se limita a filmar condescendentemente os cromos locais. Não há dúvida que descobriu umas personagens castiças (um tal de Paulo é impagável), mas às tantas parece que estamos no jardim zoológico, a rirmo-nos dos animais que fazem umas habilidades para os citadinos que os vêm pela primeira vez. Miguel Gomes, que não é burro (se calhar é até esperto demais, mas já lá vamos), tem consciência disso e faz-se filmar a enxotar umas moçoilas locais que querem fazer um casting para o filme, pois está a jogar à malha. Parece querer-nos avisar que não está ali para ‘tratar bem’ os locais. Mas não anula a superioridade desagradável com que o faz.

Mas o filme é suposto ser uma ficção. Gomes filma-se então a responder tranquilamente a um membro da produção que lhe chama a atenção para isso mesmo: que lhe enviem dinheiro que ele arranjará os actores e seguirá o guião. Uma espécie de Fellini no 8 ½, mas descontraído, com tudo controlado, os outros à volta dele é que stressam. Esta reflexão sobre o próprio filme, que se prolonga até ao genérico final, parece-me francamente desnecessária e algo pedante, é uma chico-espertice para coser documentário e ficção, enquanto o realizador brinca aos Fellinis e Godards (o argumento que se lixe!).

E vem então a ficção, espécie de segunda parte do filme, história de amores adolescentes, traições, emigração. E temos aqui alguns dos melhores momentos do filme, que podem ser uma viagem de mota ao som de música pimba, uma conversa de adolescentes à beira-rio ou um terrível desafio à desgarrada. Paradoxalmente é aqui que temos pessoas, gente de carne e osso e não cromos pitorescos. A ‘história’ não daria para mais do que uma curta-metragem, mas é realmente bem filmada, tem esses momentos que agarram, é onde a cinefilia de Miguel Gomes melhor se exprime.

Ao fim das 2h30 (que passam muito bem), fica um filme original e até bastante interessante, mas onde não está ausente uma boa dose de displicência, na minha modesta opinião derivada do facto do realizador se julgar num patamar que ainda não alcançou.

Aquele Querido Mês de Agosto, Portugal, 2008. Realização: Miguel Gomes. Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Paulo Moleiro, Luís Marante, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares, Emmanuelle Fèvre.

25.8.08

Ando há uns tempos para escrever qualquer coisa sobre este livro, que reúne críticas de cinema de Vinicius de Moraes, actividade a que se dedicou durante mais de 10 anos.

Como a preguiça estival tem levado a melhor, mas não quero deixar de assinalar aqui esta edição que já tem uns anos (fez parte da colecção 'Horas Extraordinárias' do entretanto desaparecido 'O Independente), mas que ainda se encontra por aí nas feiras do livro (comprei-o há semanas por 5 euros), deixo à laia de aperitivo a selecção de Vinicius dos '11 maiores directores de cinema', à maneira de um 'supertime' de futebol (Última Hora, 10.12.1951):

Chaplin
Griffith - Stroheim
Eisenstein - Pudovkin - Dovchenko
Flaherty - Gance - Vigo - Dreyer - King Vidor

21.8.08

WALL-E



A primeira meia hora de WALL-E é um portento visual, sem palavras, cinema puro. Depois, quando o simpático robot sai da terra, o filme ‘normaliza’, apesar de alguns momentos muito bons (a dança de WALL-E e Eve no espaço, a fuga dos robots avariados), para no regresso ao planeta terminar novamente em grande.

Tudo somado, é uma das melhores e mais originais animações dos últimos anos, apesar de eu achar que podia ter ido ainda mais longe.
WALL·E, E.U.A., 2008. Realização: Andrew Stanton. Longa-metragem de animação.

19.8.08

O meu irmão é filho único



'O meu irmão é filho único' (um grande título, já agora) foi realizado por Daniele Luchetti, actor de Moretti em 'Palombella Rossa' e co-escrito pelo realizador e por Sandro Petraglia e Stefano Rulli, argumentistas de 'A melhor juventude'.

E é inevitável não associarmos os dois filmes. Também aqui temos um retrato de uma geração italiana do pós guerra, traçado através do percurso de dois irmãos muito diferentes: um, mulherengo e algo leviano, comunista, que envereda por caminhos perigosos; e o outro sério e revoltado (fazendo lembrar algumas personagens de...Moretti!), que passa pelo seminário e pelo fascismo antes de se desiludir da política (mas não das actividades cívicas).

Não é só por ter menos de um terço da duração que 'O meu irmão...' parece uma versão ligeira de 'A melhor juventude': falta-lhe a densidade trágica deste último. É mais um esboço de uma época que um fresco geracional. Não obstante 'A melhor juventude' ter sido originalmente feito para a televisão, é 'O meu irmão...' que tem a leveza das séries de TV.

Fica, assim, claramente aquém do seu 'modelo'. Mas também será esse o seu principal defeito porque, comparações à parte, fica um bom filme, que se vê com agrado e simpatia, ideal para desenjoar dos blockbusters de Verão.
Mio fratello è figlio unico, Itália, 2007. Realização: Daniele Luchetti. Com: Elio Germano, Riccardo Scamarcio, Angela Finocchiaro, Massimo Popolizio, Alba Rohrwacher, Luca Zingaretti, Anna Bonaiuto.

17.8.08

Margot e o casamento



Noah Baumbach é o realizador de um dos melhores filmes de 2006, 'A lula e a baleia', e co-argumentista com Wes Anderson de um dos melhores de 2005, 'The Life Aquatic with Steve Zissou', realizado pelo último. Apesar disso, e de contar no elenco com nomes como Nicole Kidman, Jennifer Jason Leigh, Jack Black e John Turturro, a distribuidora portuguesa resolveu lançar 'Margot e o casamento' directamente em vídeo, sem passar pelas salas. Deve ser devido ao excesso de filmes de qualidade em exibição no grande ecrã... Adiante.

Se Wes Anderson é o génio excêntrico, Baumbach é o melhor aluno da turma. Anderson só faz dois tipos de obras: obras nota vinte e obras inclassificáveis (às vezes simultaneamente). Baumbach não tem obras nota 20 (para já), mas também nunca tem menos de 16. É um excelente argumentista, um realizador talentoso, e escolhe e dirige optimamente os seus actores.

Aqui, anda uma vez mais à volta de famílias disfuncionais, tratando do reencontro de duas irmãs muito diferentes: uma (Nicole Kidman, excelente) é paranóica, mandona, não se consegue decidir entre o marido e o amante, e tem uma relação possessiva com o filho adolescente; a outra (J.J.Leigh) é mais destrambelhada, menos confiante, tem uma relação de amor-ódio com a irmã, e vai-se casar pela segunda vez com um freak (Jack Black) que não faz nada na vida (ou melhor, escreve cartas para jornais). Um universo que não anda nada distante do de Wes Anderson, mas que é mais controlado, menos extravagante, mais filme-de-actores-e-argumento e menos filme de ideias (narrativas e visuais) excessivas e delirantes. Baumbach é uma espécie de Anderson sem os delirios de Anderson. E, parece-me, sem o génio atrás da câmara de Anderson.

Porventura será injusta esta comparação, uma vez que ele faz óptimos filmes - e este não é excepção - e o melhor será o leitor/espectador concentrar-se neles, que não dará o seu tempo por mal empregue.

Margot At Wedding, E.U.A., 2007. Realização: Noah Baumbach. Com: John Turturro, Jennifer, Jason Leigh, Jack Black, Nicole Kidman, Zane Pais.

15.8.08

Ficheiros Secretos: quero acreditar


Uma paisagem permanentemente branca: um cenário natural bem achado.
As adaptações de séries de TV para o grande ecrã não costumam ser nada famosas e qualquer fã treme quando sabe que uma das suas séries favoritas vai ter esse destino.

Felizmente, os fãs de X-Files não têm nada a temer: este filme, dirigido pelo próprio criador da série, mantém-se fiel ao espírito da coisa e é um bom filme por direito próprio, não um episódio esticado.

Os não iniciados também não ficarão desapontados com este thriller adulto e bem realizado, em que se busca uma mulher desaparecida, sendo que o cientifico e o sobrenatural (ou não) vão contribuindo para o deslindar do mistério, como é da praxe. Vale a pena ver.

The X Files: I Want to Believe, E.U.A./Canadá, 2008. Realização: Chris Carter. Com: David Duchovny, Gillian Anderson, Amanda Peet, Billy Connolly, Alvin `Xzibit` Joiner, Mitch Pileggi, Callum Keith Rennie, Adam Godley.

13.8.08

Garage



A um primeiro nível, 'Garage' é um filme sobre a tacanhez de viver numa terriola, tomando como eixo narrativo o empregado da bomba de gasolina local, um simplório, simpático e boa pessoa, um pouco retardado. A um segundo nível, é uma análise sobre a hipocrisia contemporânea do politicamente correcto. E num terceiro nível, é uma visão negra, seca e deprimente da raça humana.
'Garage' insere-se na tradição do 'realismo Britânico', e poucas vezes o termo 'realismo' será tão bem empregue como aqui.
Garage, Irlanda, 2007. Realização: Leonard Abrahamson. Com: Pat Shortt, Anne-Marie Duff, Conor Ryan, Don Wycherley, Andrew Bennett, Denis Conway, Tom Hickey.

12.8.08

O estado mais quente



Ele está apaixonado e acha que ela é a mulher da sua vida. Mas ela é complicada. Quer estar por sua conta. Não quer ter sexo com ele para não se apaixonar. Mas pede-lhe para casar com ela e muda de ideias a seguir. E pede-lhe para ir atrás dela se fugir. Mas quando foge, nunca mais lhe dá uma chance. E ele desespera e sofre e dá em doido. E começa a pensar no pai que o abandonou a ele e à mãe há muitos anos.

'O estado mais quente' insere-se na linha do filme indy temática boy meets girl de 'Antes do anoitecer' e 'Antes do amanhecer', mas em tons mais sombrios.

Ethan Hawke, que adapta um romance seu, não se revela um realizador tão talentoso como Richard Linklater, nem sequer tem a agilidade que Julie Delpy demonstrou na sua estreia atrás da câmara (a fotografia e a banda sonora, por exemplo, nunca me pareceram bater totalmente certo). Mas o argumento tem muita força e os actores também, Mark Webber arrancando inclusive um papelão. Mesmo um momento em que o filme poderia fraquejar, o do encontro de Webber com o pai (um pouco convencional, este paralelismo entre o abandono pelo pai e pela namorada), é salvo pelo extraordinário desempenho de Ethan Hawke e pela inteligência dos diálogos.

No meio de tantos filmes anódinos que se tentam fazer notar pelo estrondo da pirotecnia, é de saudar um filme que se concentra nos seus actores, no seu argumento, que aposta nas emoções, que se expõe e se dá ao espectador. Que foge à história bonitinha com happy end. Que arrisca, que tem força. São virtudes mais que suficientes para se destacar da modorra que por aí vai.
The Hottest State, E.U.A., 2006. Realização: Ethan Hawke. Com: Mark Webber, Catalina Sandino Moreno, Laura Linney, Ethan Hawke, Sonia Braga, Michelle Williams, Josh Zuckerman.

11.8.08

Eu servi o Rei de Inglaterra



Quarenta anos depois de 'Comboios rigorosamente vigiados', o filme que lhe deu fama, Jiri Menzel volta a adaptar um romance do seu compatriota Bohumil Hrabal. De Hrabal, disse Kundera que "é uma das incarnações mais autênticas da Praga mágica; é o incrível casamento do amor plebeu e da imaginação barroca".

'Eu servi o Rei de Inglaterra' é um retrato de um país desaparecido, a Checoslováquia dos anos 40 e 50, 'tirado' do ponto de vista de um oportunista empregado de mesa. E o retrato até é simpático: a história (e a História) é interessante, os actores bem escolhidos e a realização correcta. Falta-lhe no entanto o tal lado da 'imaginação barroca', que sobra a Hrabal mas mingua em Menzel, só se entrevendo de quando em quando. E sem ela ficamos com algo mais parecido com um telefilme - dos bem feitos, ainda assim - do que de grande cinema.
Obsluhoval jsem anglického krále/I Served the King of England, República Checa/Eslováquia, 2006. Realização: Jiri Menzel. Com: Ivan Barnev, Oldrich Kaiser, Julia Jentsch, Martin Huba, Marián Labuda, Milan Lasica.