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29.10.08

Do outro lado



Depois do desequilibrado mas muito interessante ‘A esposa turca’, Fatih Akin está de volta com um filme mais convencional (haverá quem diga mais 'maduro').
‘Do outro lado’ ganhou o prémio de melhor argumento em Cannes, e de facto é um filme em que a realização – funcional, competente – é totalmente posta ao serviço do argumento: uma vez mais sobre as relações de emigrantes turcos (de primeira e segunda geração) com o seu país de origem e com o que habitam – a Alemanha.

Nejat nasceu na Alemanha e até é professor de literatura alemã numa universidade local, mas acaba por se instalar em Istambul. Ayten é perseguida na Turquia por razões politicas, foge para a Alemanha onde arranja uma namorada que a protege, mas acaba por ser deportada. Os dois nunca se cruzam, mas as suas histórias acabam por se interligar indirectamente, numa tapeçaria cuidadosamente entrelaçada, mas sem grandes rasgos, repetindo o esquema do filme-mosaico, que teima em não sair de moda.

Akin confirma-se como bom realizador (e argumentista), a seguir, mas não cumpre totalmente o que a obra anterior prometia. O próximo filme poderá tirar-nos as dúvidas.

Auf der anderen Seite/The Edge of Heaven, Turquia/Alemanha, 2007. Realização: Fatih Akin. Com: Baki Davrak, Nursel Kose, Hanna Schygulla, Tunkel Kurtiz, Nurgul Yesilçay, Patrycia Ziolowska.

27.10.08

W.



Como é que alguém que aos quarenta anos ainda era um estroina alcoólico, passado pouco tempo chega a homem mais poderoso do mundo?

Oliver Stone dá-nos o seu retrato de George W. Bush: um homem impulsivo, que demorou imenso tempo a assentar, que apesar de vir de uma família da ‘elite’ é essencialmente um homem do povo (‘tens um toque humano’, diz-lhe a mulher), que é pouco articulado a falar, tem pouca cultura, gosta é de basebol e cervejas; um homem perpetuamente angustiado pela desconfiança que o pai lhe vota, um pai que nunca acredita nele e prefere nitidamente o irmão Jeb, mais bem comportado e inteligente; mas também um ingénuo bem-intencionado, um cristão ‘renascido’, rodeado de falcões iluminados (Karl Rove, Dick Cheney, Donald Rumsfeld), que dão uma perigosa base teórica às suas intuições (o propagar da Democracia pelo Médio Oriente; uma politica musculada à Reagan; um certo desprezo por tudo que cheire a ‘esquerda’).

Stone é nitidamente das bandas do Partido Democrata, mas o seu retrato de Bush é bastante humano. Não obstante alguma ironia (notoriamente na duvidosa utilização recorrente da música ‘Robin Wood’..), o seu retratado mais do que diabolizado, é de certa forma objecto de compaixão: é o tal homem ingénuo (acreditava mesmo na existência de armas de destruição massiva), mal preparado, com a sombra do pai sempre a pairar sobre ele, com um certo misticismo cândido (acha que Deus quer que ele seja presidente). Mas não uma figura tenebrosa (como a maioria do seu séquito de maquiavélicos conselheiros, excepção feita ao sensato Colin Powell, que acabará no entanto por também ceder), nem sequer trágica.

Stone nem sempre escapa ao estilo telefilme, mas no global o esquema de alternar entre passado e presente, mostrando uns episódios e saltando outros (como a campanha para presidente) funciona bem, e consegue interessar-nos verdadeiramente por esta figura algo patética mas muito humana, evitando completamente o lado panfletário que eventualmente se poderia esperar dele.

Uma última palavra para os actores: Josh Brolin mimetiza na perfeição George W. Bush, Richard Dreyfuss está magnífico como o sinistro Dick Cheney e Toby Jones é o perfeito anão maligno Karl Rove.

W., E.U.A./Hong-Kong/Alemanha/Grã-Bretanha/Austrália, 2008. Realização: Oliver Stone. Com: Josh Brolin, Elizabeth Banks, Ioan Gruffudd, Thandie Newton, Rob Corddry, Scott Glenn, Ellen Burstyn, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Toby Jones.

24.10.08

Olhos de Lince



Depois de ter realizado uma espécie de versão adolescente de 'Janela Indiscreta', 'Paranóia', J.D.Caruso volta a uma intriga Hitchcockiana por excelência: um cidadão comum encontra-se subitamente envolvido em algo que lhe escapa completamente e é obrigado a encetar uma fuga (de um bando de criminosos, da polícia, ou de ambos) enquanto tenta descobrir o que se passa (e entretanto conhece uma mulher que também é envolvida na fuga).

A primeira diferença significativa para Hitch, que levou este leit motif aos píncaros da excelência em 'Intriga Internacional', é que enquanto este se estava a borrifar no quem e no porquê (o famoso McGuffin), Caruso está bastante interessado nisso. O 'porquê': o filme tem uma mensagem, que uma personagem de encarrega de enunciar no final, caso alguém tenha adormecido a meio e a não tiver percebido: 'os meios que usamos para nos proteger podem-se virar contra nós' (crítica mais que directa aos excessos securitários dos States pós 11 de Setembro). O 'quem': curiosamente Caruso mata um dos poucos pontos de interesse do filme, ao desvendar a meio deste o vilão (que é bastante bem achado, diga-se) - donde se prova que não basta imitar o mestre, que seguiu este procedimento mais que uma vez, mas é preciso ter ideias de cinema próprias.

E aqui é que a porca torce o rabo. Não tivesse 'Intriga Internacional' nenhum outro interesse (e se o tem!), bastariam as antológicas cenas de Cary Grant bêbado no carro, o ataque da avioneta, a perseguição do monte Rushmore, etc., etc., para o tornar inesquecível. Mas quem ao fim deste 'Olhos de Lince' for capaz de se lembrar de uma única sequência memorável que levante o dedo. É que não há uma mera ideia original de cinema em toda a fita! É cena de perseguição estafada, após cena de perseguição estafada.

Posto isto, que fica deste thriller? Quase nada, pois. Voltando à redução por absurdo, se nada mais tivesse, 'Intriga Internacional' valeria ainda a pena só por causa de Cary Grant e Eva Marie Saint. Mas que dizer de Shia Labeouf (quando for grande quer ser o Harrison Ford) e de Michelle Monaghan (quanto a mim, o facto de me fazer lembrar o Michael Jackson, retira-lhe inapelavelmente qualquer tipo de sex appeal)? Que não têm grandes personagens para defender, mas que, verdade verdadinha, também não conseguem acrescentar nenhuma mais valia...

A vida segue difícil para os fãs de thrillers que insistem em deslocar-se regularmente às salas: por cada 'Ultimato', apanhamos com dez 'Olhos de Lince'.

Eagle Eye, E.U.A., 2008. Realização: D.J. Caruso. Com: Shia Labeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson, Billy Bob Thornton, Michael Chiklis.

17.10.08

A ronda da noite


Martin Freeman, excelente como Rembrandt.

Confesso que fui ver este filme de Peter Greenaway (que saiu em 2007, chegou cá em Maio passado, e a que eu só agora tive oportunidade de assistir) com expectativas moderadas.

Apesar de ter boas recordações de filmes como ‘Maridos à água’, do clássico ‘O Cozinheiro, o ladrão…’ ou de ‘Os livros de Prospero’ (a sua idiossincrática versão de ‘A Tempestade’), a última obra dele que cá estreara em sala (há quase 10 anos!), ‘8 mulheres e meia’, era de fugir, uma espécie de versão caricatural do seu universo barroco, excessivo, erótico. A sensação de esgotamento formal da sua obra, que já se sentia há algum tempo, era aqui levada a um extremo grotesco.

Visto este ‘A ronda da noite’, interpretação pessoalissíma de Greenaway do famoso quadro de Rembrandt (com ele o pintor pretenderia denunciar um crime levado a cabo pelos mercadores nele representados…), somos surpreendidos pela contenção de Greenaway. Talvez inspirado pela paleta do mestre holandês, pela sua estrutura do claro-escuro, a fotografia do filme é sombria, discreta, e toda a mise en scene é mais recatada que o habitual no exuberante realizador inglês.

O seu universo profundamente teatral continua presente (a representação está mesmo no cerne do filme), mas sem dúvida que Greenaway controlou a mão. ‘Ronda da noite’ não está ao nível das suas obras máximas, mas vê-se muito bem (não obstante a intriga 'policial' ser por vezes algo monótona) e nota-se que o realizador teve o cuidado de dar um passo atrás no caminho sem saída para onde se dirigia.
Esperemos para ver se é para dar dois em frente no próximo filme - e em que direcção.

PS.: Vejo que entretanto já estrearam mais dois filmes de Greenaway que não chegaram cá, o último dos quais se intitula 'Rembrandt's J'accuse' e segundo o IMDB J'accuse is an essayistic documentary in which Greenaway's fierce criticism of today's visual illiteracy is argued by means of a forensic search of Rembrandt's Nightwatch

Nightwatching, França/Polónia/Grã-Bretanha/Canadá/Alemanha/Holanda, 2007. Realização: Peter Greenaway. Com: Martin Freeman, Emily Holmes, Jodhi May, Eva Birthistle, Toby Jones, Natalie Press.

14.10.08

Café Bagdad



Esta semana, excepcionalmente, o 'Café Bagdad' irá para o ar amanhã, quarta-feira, e não na quinta-feira.

Como sempre, a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio divagamos e o Pedro Peixoto Costa modera.

Em rodagem estarão 'Duck Soup/Os grandes aldrabões', de Leo McCarey com os fabulosos Irmãos Marx, e 'Destruir depois de ler' dos também muito estimáveis irmãos Coen.

Na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9), à hora habitual (13h15-13h45).

9.10.08

Até já


7.10.08

Yella



‘Yella’ é a nona longa-metragem (e a última de uma chamada ‘Trilogia dos Fantasmas’) de Christian Petzold - nome de proa da chamada Nova Escola de Berlim - e tem recebido vários prémios, onde avulta o Urso de Prata para melhor actriz (Nina Hoss) na última Berlinale.

A primeira sensação que atinge um perfeito desconhecedor da obra de Petzold como eu, é a estranheza deste ‘Yella’.
Yella é a protagonista do filme (a estupenda Nina Hoss), que vagueia por ele como um fantasma: tanto é extremamente passiva (nomeadamente perante a agressividade do seu ex-marido), como revela dotes surpreendentes, rapidamente dominando os tortuosos meandros dos negócios de alto risco onde é introduzida por um desconhecido. Às tantas já toma mesmo iniciativas surpreendentes.
Mas sempre com um ar ausente, com uma frieza distante (que encontra ressonância na magnífica e gélida fotografia de Hans Fromm) e denotando aqui e ali sinais inquietantes (e o leitor que há tempos se queixou dos meus spoilers pode ficar por aqui). E são estes sinais (um copo de água quebrado; uma surdez momentânea) que vão intrigando o espectador. Será que há algo de estranho no meio deste desenrolar algo enfadonho de reuniões de negócios, de análises de balanços, de percentagens de risco?

O final mais do que aberto do filme dá azo a todas as interpretações possíveis, e o realizador deita a sua acha na fogueira nomeando como forças inspiradoras deste filme um documentário sobre capital de risco (‘Nicht ohne risiko’ de Harun Farocki) e o clássico de terror ‘Carnival of Souls’ de Herk Harvey...

Resumindo e simplificando – e não obstante os elogios já referidos – eu diria que os pressupostos são mais interessantes que o resultado final. A crítica ao ‘capitalismo’, que se fica mais por um retrato de pessoas individualistas, solitárias, alienadas, resulta algo frágil e monótona e o lado fantástico, chamemos-lhe assim, acaba por ser demasiado rarefeito e inconsequente.

Quase que parece estarmos perante uma curta-metragem: há um argumento interessante, filmado de uma forma concisa e imaculada, mas ficamos com a sensação de que tudo é algo superficial, nunca chegando as personagens e as situações a ganhar consistência.

Yella, Alemanha, 2007. Realização: Christian Petzold. Com: Nina Hoss, Devid Striesow.

2.10.08

Destruir depois de ler



O filme dos irmãos Coen de que mais me lembrei ao ver ‘Destruir depois de ler’ foi ‘Fargo’: pelo absurdo das situações, pelo argumento (um par de cromos cria uma confusão incrível), pelo tom ‘low-key’ (apesar do leque de estrelas, talvez por ser uma comédia, parece claramente um filme menos ambicioso que ‘Este país não é para velhos’), até pelo papel dominante de Mrs.Joel Coen, Frances McDormand.

Já alguém definiu o pessoalíssimo universo dos irmãos Coen como sendo uma mistura de ‘hard boiled’ com ‘screwball’, sendo que neste filme é a segunda componente que domina, numa proporção inversa à de ‘Fargo’.

Não obstante os seus notáveis méritos – elenco fantástico; realização impecável, fluida, cheia de ritmo (os manos estão em grande forma); argumento engenhoso, inteligente, observador – que o tornam um grande divertimento, não me parece ter a gravitas de um clássico como ‘Fargo’. Pareceu-me mais um excelente ‘filme de intervalo’, uma inteligente variação dos temas de sempre dos realizadores, do que um dos seus filmes topo de gama.

Por outras palavras, achei-o um grande filme menor dos Coen.

Burn After Reading, E.U.A., 2008. Realização: Ethan e Joel Coen. Com: George Clooney, Frances McDormand, Brad Pitt, John Malkovich, Tilda Swinton, Richard Jenkins, David Rasche, J.K. Simmons, Olek Krupa.

1.10.08

Filmes de Setembro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



A loja da esquina, Ernest Lubitsh, 1940 (8)
O estrangeiro, Orson Welles, 1946 (8,5)
Carta de uma desconhecida, Max Ophuls, 1948 (8,5)
A Dama de Xangai, Orson Welles, 1948 (8,5)
Serpico, Sidney Lumet, 1973 (9)
Vestida para matar, Brian de Palma, 1979 (7)
Pepi, Luci, Bom e outras tipas do grupo, Pedro Almodovar, 1980 (6)
O veredicto, Sidney Lumet, 1982 (8,5)
Christine, John Carpenter, 1983 (8,5)
Nome Carmen, Jean-Luc Godard, 1983 (7,5)
As aventuras de Jack Burton nas garras do mandarim, John Carpenter, 1986 (8,5)
Armas afiadas, Billy Tang, 2001 (5)
Terra de bravos, Irvin Wilkin, 2006
Irina Palm, Sam Garbarski, 2007
Mamma Mia!, Phyllida Lloyd, 2008
Gomorra, Matteo Garrone, 2008
Tempestade tropical, Benn Stiller, 2008

Café Bagdad



Amanhã, 5ª feira, vai para o ar mais uma edição do 'Café Bagdad' no horário habitual (13h15 - 13h45).

Como sempre, a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio divagamos e o Pedro Peixoto Costa modera.

Na primeira parte, como não podia deixar de ser, recordamos Paul Newman, através de um dos seus maiores papeis: o de Eddie Felson, na obra-prima de Robert Rossen, 'The Hustler/A vida é um jogo'. Na segunda parte falamos de 'Tempestade Tropical'.

Na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).