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8.11.08

Comentários do realizador

"Não faço faixas de comentários do realizador nos meus lançamentos em DVD. Sei que as pessoas gostam de extras, mas, agora, com todos os acrescentos, parece que o filme simplesmente se perdeu. Temos de preservar o filme em si. Deveria estar sozinho. Trabalha-se tanto para conseguir um filme de uma certa maneira; não se devia mexer nele. Os comentários do realizador só abrem a porta à mudança da percepção das pessoas ao elemento número um - o filme. Acredito, sim, em contar histórias que girem à volta do filme, mas comentar à medida que se vai rodando é um sacrilégio.
Em vez disso acho que se devia tentar ver o filme todo de uma ponta à outra, e tentar vê-lo num lugar sossegado, num ecrã tão grande quanto se conseguir, com um sistema de som tão bom quanto se conseguir. Então, pode-se entrar nesse mundo e ter essa experiência."

David Lynch, Em Busca do Grande Peixe, Estrela Polar, 2008.

6.11.08

Em Bruges



Imagine-se um filme que à primeira vista se poderia inserir no ‘realismo britânico’, com uma fotografia à realismo britânico, com actores à realismo britânico (Ralph Fiennes só entra lá para o final), mas que se passa na medieval e turística cidade de Bruges (pois claro), entre assassinos profissionais e... é uma comédia. E bastante divertida por sinal, com alguns dos diálogos mais afiados do ano, as piadas mais politicamente incorrectas e um argumento metodicamente inventivo. E que ainda se dá ao luxo de às tantas se transformar numa espécie de filme noir; e que pelo meio até mete uma história de amor.
Está facilmente encontrado o ovni do ano, nesta primeira longa-metragem do dramaturgo inglês Martin McDonagh.

In Bruges, E.U.A./Grã-Bretanha, 2008. Realização: Martin McDonagh. Com: Colin Farrell, Brendan Gleeson, Ralph Fiennes, Clémence Poésy, Jérémie Renier.

3.11.08

Paris



Nunca tinha visto nenhum filme de Cédric Klapisch, tendo passado ao largo dos seus sucessos decorridos em ambiente Erasmus. No entanto, quer o título deste filme, quer os seus actores - desde logo Juliette Binoche e Romain Duris - chamaram-me a atenção.

Duris é um dançarino que descobre sofrer de uma doença de coração, fechando-se em casa, apenas se entretendo imaginando as vidas das pessoas que vê da sua varanda parisiense. Binoche é a sua irmã, que vem tomar conta dele, trazendo dois filhos pequenos - está separada, e algo ressentida com os homens.

Está assim lançado mais um filme-mosaico, em que diversas personagens e vidas se vão entrecruzando. O maior encanto de 'Paris' (que em boa verdade se poderia passar noutra cidade qualquer), é uma espécie de leveza melancólica que emana. Não tem a profundidade psicológica de um 'Magnólia' nem a beleza formal de um 'Corações', mas o seu tom suave, o optimismo moderado que sobressai apesar de tudo, acabam por nos marcar algo mais que superficialmente.

Binoche e Duris são actores magníficos, e todas as cenas em que estão presentes valem a pena. As outras histórias que preenchem o filme não são tão fortes, havendo algumas mal resolvidas, outras que parece ficarem-se pela rama, mas não comprometendo ainda assim o quadro geral, merecendo mesmo saliência o subplot de Fabrice Luchini (actor de vários filmes de Rohmer), um deprimido professor de história de meia-idade que pensa ter descoberto o amor.

No cômputo geral, uma boa surpresa.

Paris, França, 2008. Realização: Cédric Klapisch. Com: Juliette Binoche, Romain Duris, Fabrice Luchini, Albert Dupontel, François Cluzet, Karin Viard, Gilles Lellouche, Mélanie Laurent, Zinedine Soualem.

2.11.08

Filmes de Outubro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



A grande esperança, John Ford, 1939, (9)
Duelo de ambições, Raoul Walsh, 1955 (9)
D.O.A., Rudolph Mate, 1949 (7)
Deserto vermelho, Michelangelo Antonioni, 1964 (8,5)
A escalada, Clint Eastwood, 1975 (7)
Halloween, John Carpenter, 1976 (8)
Scarface, Brian de Palma, 1983 (10)
O tédio, Cédric Kahn, 1998 (9)
Cigarette Burns (Masters of Horror), John Carpenter, 2005 (7,5)
Leonard Cohen: I'm Your Man, Lian Lunson, 2005 (7)
Yella, Christian Petzold, 2007
Anamorph, Henry Miller, 2007 (4,5)
Do outro lado, Fatih Akin, 2007
Prime Time, Luis Calvo Ramos, 2008 (4,5)
Destruir depois de ler, Joel e Ethan Coen, 2008
Donkey Punch, Oliver Blackburn, 2008 (5,5)
I Sell the Dead, Glenn McQuaid, 2008 (6,5)
Dance of the Dead, Gregg Bishop, 2008 (6)
Long Weekend, Jamie Blanks, 2008 (7)
Ponyo on the Cliff by the Sea, Hayao Miyazaki, 2008 (7)
Olhos de Lince, J.D.Caruso, 2008
W., Oliver Stone, 2008

1.11.08

Diário de Blindness (I)



A sensivelmente duas semanas de estrear por cá 'Blindness', a adaptação para a tela que Fernando Meirelles fez de 'Ensaio sobre a cegueira' de Saramago, saiu oportunamente nas livrarias 'Diário de Blindness' (quasi edições), transcrição do blogue homónimo mantido pelo realizador brasileiro durante a rodagem do filme (embora esta origem não seja referida no livro - talvez o editor tenha tido medo de perder leitores em favor do blogue!).

Seja qual for o meio que o leitor escolha para ler este diário (para mim não há nada como o papel), não dará o seu tempo por mal empregue. Muito pelo contrário. Não sendo Meirelles um dos meus realizadores de eleição (gostei de 'O fiel jardineiro', mas o celebrado 'Cidade de Deus' deixou-me indiferente), a verdade é que este conjunto de notas (16 posts, apenas) são uma excelente abordagem ao oficio de realizador, escritas com humor, talento, humildade - que não exclui uma série de opiniões fortes e - não menos importante - num português (do Brasil, claro) muito agradável e legível.

Meirelles vai reflectindo livremente sobre os problemas que se lhe vão deparando, quer sejam artísticos (como adaptar um livro que ele considera uma obra-prima? Como não desiludir Saramago, 'uma figura um pouco intimidante', mas que lhe deu total confiança?), técnicos (que câmara usar? que cenário?) ou logísticos (em que cidade filmar esta cena?).

E muitos são uma combinação de factores de diversa natureza, claro. Como o facto de uma personagem ganhar mais importância em relação ao livro porque o seu actor assim o 'impôs', ou como ter que suavizar algo que é suportável no papel mas que não funciona em imagens.

Um exemplo: na rodagem de uma cena, Julianne Moore irrompe pelo cenário fora transbordando uma emoção fortíssima, mas apanhando toda a gente desprevenida, principalmente Mark Rufallo com quem contracenava. Donde teve que se repetir a cena. Mas a seguir era um microfone que não funcionava. Com tantas paragens e repetições, Julianne Moore já tinha perdido um pouco a emoção, mas tudo o resto já ia batendo melhor. Qual a 'tomada' a usar na sala de montagem? Meirelles explica: "na sala de montagem com o Daniel, vimos que o ideal seria usar a quarta tomada da Julie, ainda quente, mas menos descontrolada e a oitava do Mark. O Daniel vai ter que dar um truque, montando partes de falas rodadas em momentos diferentes e sem um dos microfones, talvez tenhamos que assumir alguma descontinuidade na figuração, mas isso faz parte". E conclui, com o seu típico sentido de humor: "E quer saber? Se numa cena destas alguém ficar olhando para o fundo da sala para procurar erro de continuidade, merece encontrar. Um baita esforço deste para nêgo vir dizer que não gostou do filme porque o barbudinho atrás da Julianne desapareceu no segundo contraplano? Give me a break!." (cont.)

30.10.08

Café Bagdad



Hoje vai para o ar mais uma emissão do 'Café Bagdad'.

Como sempre, a Marta Catarino, a Patrícia Jerónimo e eu próprio divagamos e o Pedro Peixoto Costa modera.

Em rodagem estarão 'Young Mr.Lincoln/A grande esperança', de John Ford e 'W.' de Oliver Stone.

Na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9), no horário 13h15-13h45, repetindo também às 23h. À quinta-feira de duas em duas semanas.

29.10.08

Do outro lado



Depois do desequilibrado mas muito interessante ‘A esposa turca’, Fatih Akin está de volta com um filme mais convencional (haverá quem diga mais 'maduro').
‘Do outro lado’ ganhou o prémio de melhor argumento em Cannes, e de facto é um filme em que a realização – funcional, competente – é totalmente posta ao serviço do argumento: uma vez mais sobre as relações de emigrantes turcos (de primeira e segunda geração) com o seu país de origem e com o que habitam – a Alemanha.

Nejat nasceu na Alemanha e até é professor de literatura alemã numa universidade local, mas acaba por se instalar em Istambul. Ayten é perseguida na Turquia por razões politicas, foge para a Alemanha onde arranja uma namorada que a protege, mas acaba por ser deportada. Os dois nunca se cruzam, mas as suas histórias acabam por se interligar indirectamente, numa tapeçaria cuidadosamente entrelaçada, mas sem grandes rasgos, repetindo o esquema do filme-mosaico, que teima em não sair de moda.

Akin confirma-se como bom realizador (e argumentista), a seguir, mas não cumpre totalmente o que a obra anterior prometia. O próximo filme poderá tirar-nos as dúvidas.

Auf der anderen Seite/The Edge of Heaven, Turquia/Alemanha, 2007. Realização: Fatih Akin. Com: Baki Davrak, Nursel Kose, Hanna Schygulla, Tunkel Kurtiz, Nurgul Yesilçay, Patrycia Ziolowska.

27.10.08

W.



Como é que alguém que aos quarenta anos ainda era um estroina alcoólico, passado pouco tempo chega a homem mais poderoso do mundo?

Oliver Stone dá-nos o seu retrato de George W. Bush: um homem impulsivo, que demorou imenso tempo a assentar, que apesar de vir de uma família da ‘elite’ é essencialmente um homem do povo (‘tens um toque humano’, diz-lhe a mulher), que é pouco articulado a falar, tem pouca cultura, gosta é de basebol e cervejas; um homem perpetuamente angustiado pela desconfiança que o pai lhe vota, um pai que nunca acredita nele e prefere nitidamente o irmão Jeb, mais bem comportado e inteligente; mas também um ingénuo bem-intencionado, um cristão ‘renascido’, rodeado de falcões iluminados (Karl Rove, Dick Cheney, Donald Rumsfeld), que dão uma perigosa base teórica às suas intuições (o propagar da Democracia pelo Médio Oriente; uma politica musculada à Reagan; um certo desprezo por tudo que cheire a ‘esquerda’).

Stone é nitidamente das bandas do Partido Democrata, mas o seu retrato de Bush é bastante humano. Não obstante alguma ironia (notoriamente na duvidosa utilização recorrente da música ‘Robin Wood’..), o seu retratado mais do que diabolizado, é de certa forma objecto de compaixão: é o tal homem ingénuo (acreditava mesmo na existência de armas de destruição massiva), mal preparado, com a sombra do pai sempre a pairar sobre ele, com um certo misticismo cândido (acha que Deus quer que ele seja presidente). Mas não uma figura tenebrosa (como a maioria do seu séquito de maquiavélicos conselheiros, excepção feita ao sensato Colin Powell, que acabará no entanto por também ceder), nem sequer trágica.

Stone nem sempre escapa ao estilo telefilme, mas no global o esquema de alternar entre passado e presente, mostrando uns episódios e saltando outros (como a campanha para presidente) funciona bem, e consegue interessar-nos verdadeiramente por esta figura algo patética mas muito humana, evitando completamente o lado panfletário que eventualmente se poderia esperar dele.

Uma última palavra para os actores: Josh Brolin mimetiza na perfeição George W. Bush, Richard Dreyfuss está magnífico como o sinistro Dick Cheney e Toby Jones é o perfeito anão maligno Karl Rove.

W., E.U.A./Hong-Kong/Alemanha/Grã-Bretanha/Austrália, 2008. Realização: Oliver Stone. Com: Josh Brolin, Elizabeth Banks, Ioan Gruffudd, Thandie Newton, Rob Corddry, Scott Glenn, Ellen Burstyn, James Cromwell, Richard Dreyfuss, Toby Jones.

24.10.08

Olhos de Lince



Depois de ter realizado uma espécie de versão adolescente de 'Janela Indiscreta', 'Paranóia', J.D.Caruso volta a uma intriga Hitchcockiana por excelência: um cidadão comum encontra-se subitamente envolvido em algo que lhe escapa completamente e é obrigado a encetar uma fuga (de um bando de criminosos, da polícia, ou de ambos) enquanto tenta descobrir o que se passa (e entretanto conhece uma mulher que também é envolvida na fuga).

A primeira diferença significativa para Hitch, que levou este leit motif aos píncaros da excelência em 'Intriga Internacional', é que enquanto este se estava a borrifar no quem e no porquê (o famoso McGuffin), Caruso está bastante interessado nisso. O 'porquê': o filme tem uma mensagem, que uma personagem de encarrega de enunciar no final, caso alguém tenha adormecido a meio e a não tiver percebido: 'os meios que usamos para nos proteger podem-se virar contra nós' (crítica mais que directa aos excessos securitários dos States pós 11 de Setembro). O 'quem': curiosamente Caruso mata um dos poucos pontos de interesse do filme, ao desvendar a meio deste o vilão (que é bastante bem achado, diga-se) - donde se prova que não basta imitar o mestre, que seguiu este procedimento mais que uma vez, mas é preciso ter ideias de cinema próprias.

E aqui é que a porca torce o rabo. Não tivesse 'Intriga Internacional' nenhum outro interesse (e se o tem!), bastariam as antológicas cenas de Cary Grant bêbado no carro, o ataque da avioneta, a perseguição do monte Rushmore, etc., etc., para o tornar inesquecível. Mas quem ao fim deste 'Olhos de Lince' for capaz de se lembrar de uma única sequência memorável que levante o dedo. É que não há uma mera ideia original de cinema em toda a fita! É cena de perseguição estafada, após cena de perseguição estafada.

Posto isto, que fica deste thriller? Quase nada, pois. Voltando à redução por absurdo, se nada mais tivesse, 'Intriga Internacional' valeria ainda a pena só por causa de Cary Grant e Eva Marie Saint. Mas que dizer de Shia Labeouf (quando for grande quer ser o Harrison Ford) e de Michelle Monaghan (quanto a mim, o facto de me fazer lembrar o Michael Jackson, retira-lhe inapelavelmente qualquer tipo de sex appeal)? Que não têm grandes personagens para defender, mas que, verdade verdadinha, também não conseguem acrescentar nenhuma mais valia...

A vida segue difícil para os fãs de thrillers que insistem em deslocar-se regularmente às salas: por cada 'Ultimato', apanhamos com dez 'Olhos de Lince'.

Eagle Eye, E.U.A., 2008. Realização: D.J. Caruso. Com: Shia Labeouf, Michelle Monaghan, Rosario Dawson, Billy Bob Thornton, Michael Chiklis.

17.10.08

A ronda da noite


Martin Freeman, excelente como Rembrandt.

Confesso que fui ver este filme de Peter Greenaway (que saiu em 2007, chegou cá em Maio passado, e a que eu só agora tive oportunidade de assistir) com expectativas moderadas.

Apesar de ter boas recordações de filmes como ‘Maridos à água’, do clássico ‘O Cozinheiro, o ladrão…’ ou de ‘Os livros de Prospero’ (a sua idiossincrática versão de ‘A Tempestade’), a última obra dele que cá estreara em sala (há quase 10 anos!), ‘8 mulheres e meia’, era de fugir, uma espécie de versão caricatural do seu universo barroco, excessivo, erótico. A sensação de esgotamento formal da sua obra, que já se sentia há algum tempo, era aqui levada a um extremo grotesco.

Visto este ‘A ronda da noite’, interpretação pessoalissíma de Greenaway do famoso quadro de Rembrandt (com ele o pintor pretenderia denunciar um crime levado a cabo pelos mercadores nele representados…), somos surpreendidos pela contenção de Greenaway. Talvez inspirado pela paleta do mestre holandês, pela sua estrutura do claro-escuro, a fotografia do filme é sombria, discreta, e toda a mise en scene é mais recatada que o habitual no exuberante realizador inglês.

O seu universo profundamente teatral continua presente (a representação está mesmo no cerne do filme), mas sem dúvida que Greenaway controlou a mão. ‘Ronda da noite’ não está ao nível das suas obras máximas, mas vê-se muito bem (não obstante a intriga 'policial' ser por vezes algo monótona) e nota-se que o realizador teve o cuidado de dar um passo atrás no caminho sem saída para onde se dirigia.
Esperemos para ver se é para dar dois em frente no próximo filme - e em que direcção.

PS.: Vejo que entretanto já estrearam mais dois filmes de Greenaway que não chegaram cá, o último dos quais se intitula 'Rembrandt's J'accuse' e segundo o IMDB J'accuse is an essayistic documentary in which Greenaway's fierce criticism of today's visual illiteracy is argued by means of a forensic search of Rembrandt's Nightwatch

Nightwatching, França/Polónia/Grã-Bretanha/Canadá/Alemanha/Holanda, 2007. Realização: Peter Greenaway. Com: Martin Freeman, Emily Holmes, Jodhi May, Eva Birthistle, Toby Jones, Natalie Press.