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8.1.09

João Bénard da Costa deixa Cinemateca



João Bénard da Costa, director da Cinemateca Portuguesa desde 1991 e seu subdirector de 1980 até Julho desse ano, vai sair da instituição por razões de saúde. A transição ainda não está agendada, e Pedro Mexia, subdirector da instituição desde Março de 2008, assumirá o cargo interinamente até à nomeação do sucessor de Bénard da Costa.

Ao contrário de muitas opiniões que li aquando da sua nomeação para subdirector, a mim parece-me que o melhor blogger português seria um excelente substituto, a título definitivo, da pessoa que melhor escreve sobre cinema em Portugal (e a quem desejo um rápido restabelecimento, claro). E pelo menos haveria a esperança de continuarem a ser editadas, com a mesma qualidade, as excelentes folhas da Cinemateca. A ver vamos os desenvolvimentos.

7.1.09

Austrália



‘Austrália’ começa mal, num tom paródico que me pareceu francamente despropositado. Mas depois, de repente, transforma-se num western. Com uma travessia de gado pelo deserto, com um baile, com nativos, com racismo, com proprietários gananciosos, com paisagens a perder de vista, com um cowboy solitário e uma mulher cheia de força. E é difícil eu não gostar de um western.

Claro que depois vem a guerra e a coisa perde fôlego, dispersa-se, desequilibra-se. E há coisas que nunca batem muito bem, como aquele lado místico (e os ‘especialistas’ que criticaram Bruce Chatwin por ter simplificado o canto aborígene no magnífico ‘Songlines’, aqui devem arrepelar o cabelo).

Mas entretanto já houve romance, aventura, tragédia, drama. E aquele prazer primordial de ver cinema por causa dos actores (chamem o que chamarem a Nicole Kidman, vale sempre o bilhete), das paisagens, do romanesco.

Esteja em cima da mesa um concurso de danças de salão ou Shakespeare, um musical ou um épico, uma coisa é certa: Baz Luhrmann nunca fará um filme convencional. Bebo um copo de Poor Fella a isso.

Australia, Austrália/E.U.A., 2008. Realização: Baz Luhrmann. Com: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Bryan Brown, Brandon Walters, David Wenham, Jack Thompson.

4.1.09

Sim!



Porque cada 'Homem na lua', Jim Carrey faz meia dúzia de comédias palermas como esta. Depois de ser um homem que dizia sempre a verdade em 'O mentiroso compulsivo', agora é um homem que diz sempre que sim a tudo. Original...

Mais careta menos careta faz sempre o mesmo papel, e já é cansativo vê-lo desperdiçar assim o seu talento, estando-se a tornar uma espécie de Adam Sandler, nem mais nem menos.

Tirando meia dúzia de cenas divertidas que nos arrancam umas gargalhadas, o que salva este filme da irrelevância é o terno romance que por lá há (verdade!) entre Jim e a luminosa Zooey Deschanel. Todas as cenas em que ela entra valem a pena.

Yesman, E.U.A., 2008. Realização: Peyton Reed. Com: Jim Carrey, Zooey Deschanel, Bradley Cooper, John Michael Higgins, Rhys Darby, Terence Stamp.

3.1.09

Filmes de Dezembro



Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.

Casamento escandaloso, George Cukor, 1940, (10)
Roma, cidade aberta, Roberto Rossellini, 1945 (10)
A bela e o monstro, Jean Cocteau, 1946 (8,5)
Do céu caiu uma estrela, Frank Capra, 1946 (9,5)
Escândalo de amor, Michelangelo Antonioni, 1950 (8,5)
Verão violento, Valerio Zurlini, 1959 (9,5)
The Little Shop of Horrors, Roger Corman, 1960 (6)
O processo, Orson Welles, 1962 (9)
A máscara da morte vermelha, Roger Corman, 1964 (8,5)
Alphaville, Jean-Luc Godard, 1965 (8,5)
Funeral in Berlin, Guy Hamilton, 1966 (7,5)
La notte dei dannati, Filippo Walter Ratti, 1971 (5)
Vampyres, José Ramón Larraz, 1974 (4)
Mommie Dearest, Frank Perry, 1981 (5)
Opera, Dario Argento, 1987 (7,5)
O estranho mundo de Jack, Henry Selick, 1993 (9)
Baile de Outono, Veiko Õunpuu, 2007
Quatro Noites com Anna, Jerzy Skolimowski, 2007
A turma, Laurent Cantet, 2008
Caos Calmo, Antonello Grimaldi, 2008

2.1.09

RocknRolla - A Quadrilha



RockandRolla é um retrato da Londres actual vista a partir do submundo do crime. Da Londres da especulação imobiliária e da corrupção a ela associada, dos emigrantes russos (uma das personagens é um bilionário russo, dono de um clube de futebol e de um iate…), das estrelas rock caprichosas, dos gangues, dos pequenos e grandes criminosos de toda a espécie.

Tudo isto narrado naquele estilo chico-esperto que é imagem de marca de Guy Ritchie: argumento engenhoso, diálogos rápidos, uma piada a cada esquina, uma câmara exibicionista, com movimentos lentos, com movimentos rápidos, com cortes bruscos, com uma montagem vistosa.

É sem dúvida um estilo que se pode tornar cansativo e até irritante, mas o filme aguenta-se sempre no fio da navalha, acabando milagrosamente por não resvalar para a auto-indulgência ou para a palhaçada e deixando-se ver bem. Embora no final não possamos de deixar de ficar com a sensação, como resumiu exemplarmente uma amiga com quem vi o filme, que é muita parra e pouca uva.
RocknRolla, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Guy Ritchie. Com: Gerard Butler, Tom Wilkinson, Thandie Newton, Mark Strong, Idris Elba, Tom Hardy, Toby Kebbell, Jeremy Piven, Ludacris, Karel Roden.

31.12.08

Boas entradas...

Um dos delirantes momentos do feel good movie do ano, que ao que parece também foi o filme mais visto por cá em 2008. Bendita pátria.

...e um óptimo 2009



“I’ve gone just about as far as I can go with this body"

(a frase do ano, dita por Linda Litzke (Frances McDormand) in 'Burn After Reading', dos irmãos Coen)

30.12.08

2008 - as minhas falhas



Vi recentemente em sala ‘Quatro noites com Anna’ (comme si, comme ça) e em casa ‘O voo do balão vermelho’ (gosto sempre destes filmes em que não se passa nada), mas acabo o ano sem ter (ainda) visto vários filmes que pretendia.

Tenho muita pena de ter perdido ‘Lobos’, ‘The Lovebirds’ e, principalmente, ‘Mal nascida’ (Amálias à parte, é verdadeiramente difícil ver filmes portugueses fora de Lisboa; estes passaram tão fugazmente pelo Porto que nem tive oportunidade de os apanhar); e ainda vou tentar ver ‘California Dreamin’, de Cristian Nemescu (a ‘Nova vaga’ Romena não é tão elogiada em Portugal como merece; fosse Cristian Mungiu português e Miguel Gomes romeno, e eu gostava de ver se muitos tops eram iguais ao que são).

Tenho alguma curiosidade sobre ‘Fome’, ‘Alexandra’ e ‘O segredo de Lorna’ (embora nem Sokurov nem os irmãos Dardenne sejam muito my cup of tea), vê-los-ei se tiver oportunidade para isso em sala.

Last but not the least, faltam-me ver os recém estreados 'Australia' (Baz Luhrmann nunca me desiludiu) e ‘Três Macacos’, de Nuri Bilge Ceylan (cujo excelente ‘Climas' foi o meu filme do ano passado).

É muita coisa. Aliás vejo pelas labels do blogue que este ano vi 84 estreias, menos 5 do que o ano passado…
Pelo que nunca se sabe se o top abaixo ainda é revisto.

Adenda: falta-me também o 'Pas Douce'.

23.12.08

2008 - Top 10



1 - My Blueberry Nights - O sabor do amor, de Wong Kar-Wai

2 - A turma, de Laurent Cantet

3 - Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street, de Tim Burton

4 - Darjeeling Limited, de Wes Anderson

5 - Este país não é para velhos, de Joel e Ethan Coen

6 - 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

7 - Corações, de Alain Resnais

8 - A rapariga cortada ao meio, de Claude Chabrol

9 - I'm Not There — Não estou aí, de Todd Haynes

10 - Juno, de Jason Reitman

22.12.08

Caos calmo



Se, na ignorância, me fizessem um Pepsi Challenge com este filme, eu provavelmente apostaria que o realizador não era Nanni Moretti. Há algo na realização, na banda sonora por exemplo (que podia ser mais discreta), que denunciam outra mão. Mas não há duvida que este é um filme de Moretti, no sentido em que a sua personagem se insere completamente na linhagem que vem de Michele Apicella no já distante 'Io sono un autarchico' (1976), se prolongou por meia dúzia filmes e passou testemunho a Nanni himself em 'Querido diário'.

Será porventura impossível Moretti ser um mero actor num filme, como o será com Woody Allen ou como era até certo ponto com Orson Welles, mas é mais do que isso: o Moretti obsessivo, irritado com os outros (mas mais moderadamente), egoísta, de praticamente todos os seus filmes, cá está novamente. Não importa que o argumento seja baseado num livro (mas o próprio escritor Sandro Veronesi já admitiu que inconscientemente se pode ter inspirado em aspectos da personalidade de Moretti!), nem que esteja outro realizador por trás da câmara (Antonio Grimaldi): este Pietro Paladini é Nanni Moretti, ou a persona de Moretti.

Posto isto, diga-se que é um muito bom filme, esta história do executivo que após a morte da mulher passa os dias sentado num banco em frente à escola da filha, sendo os amigos, colegas e conhecidos que se habituam a ir lá ter com ele. O realizador Antonio Grimaldi gere as coisas com mão segura, Moretti continua Moretti e a sua persona não nos cansa, sendo que curiosamente parece que precisou de outro realizador para a continuar, depois dos algo atípicos 'O quarto do filho' e 'O caimão'.

PS: Não deixa de ser curiosa a polémica que houve em Itália por causa da cena de sexo 'cru' envolvendo Moretti. A cena per si não tem nada que não se veja todos os dias noutros filmes; quanto ao facto de ser Moretti a interpretá-la (as pessoas vê-lo-ão como 'um pai'), é esquecer que uma das suas personas, o Michele Apicella de 'Bianca', era... um assassino em série!

Caos Calmo, Itália, 2008. Realizador: Antonio Grimaldi. Com: Nanni Moretti, Valeria Golino, Isabella Ferrari, Alessandro Gassman, Blu Yoshimi, Hippolyte Girardot, Kasia Smutniak, Denis Podalydès, Charles Berling.