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12.2.09

Filmes de Janeiro

Após alguma hesitação, resolvi manter esta secção em 2009. De modo que como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês passado. Classificação de 0 a 10.



Casablanca, Michael Curtiz, 1942 (10)
A rapariga da mala, Valerio Zurlini, 1961 (9)
The Plague of the Zombies, John Gilling, 1966 (7)
Outono escaldante, Valerio Zurlini, 1972 (10)
O cão branco, Samuel Fuller, 1982 (8)
Debaixo do Vulcão, John Huston, 1984 (7)
O feitiço do tempo, Harold Ramis, 1993 (8,5)
O grande Lebowski, Irmãos Coen, 1997 (8,5)
Intimidade, Patrice Chereau, 2001 (8)
A canção mais triste do mundo, Guy Maddin, 2003 (8)
Big Man Japan, Hitoshi Matsumoto, 2007 (5)
Palácio de Verão, Lon Ye, 2006 (8)
RocknRolla, Guy Ritchie, 2008
Sim!, Peyton Reed, 2008
Austrália, Baz Luhrmann, 2008
A valsa com Bashir, Ari Folman, 2008
Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen, 2008

9.2.09

Frost/Nixon



‘Frost/ Nixon’ é o típico filme de argumento e actores. O argumento é de Peter Morgan (o argumentista de ‘A Rainha’), baseado na sua peça homónima, sobre a célebre entrevista que o entertainer inglês David Frost fez ao deposto presidente Nixon, e em que este assumiu pela primeira vez a sua culpa no escândalo Watergate.

Talvez o argumento seja excessivamente didáctico, mas a sua reflexão sobre os media, mais concretamente a TV (mais do que uma vez mortífera para Nixon) é afiada e certeira, e, acima de tudo, o seu retrato dos dois oponentes, o algo leviano mas justo showman David Frost, que aposta o que tem e o que não tem, contra tudo e contra todos, numa entrevista política, completamente fora do seu âmbito, e o ainda manipulador, mas cansado, frustrado e desiludido Richard Nixon, para quem a entrevista funciona como uma espécie de catarse, é verosímil, judicioso e até tocante.

Claro que isto só é possível devido ao extraordinário duo de actores, Michael Sheen (o Tony Blair de ‘A Rainha’) e o veterano Frank Langella, duas escolhas pouco óbvias, mas que funcionam na perfeição.

Uma palavra para Ron Howard, que não é nenhum ás atrás da câmara - e por vezes não evita cair no tom telefilme - mas que no cômputo geral faz um bom trabalho, sóbrio e discreto, deixando brilhar quem de direito. Nota claramente positiva para esta sua obra, que é uma coisa rara hoje em dia em Hollywood: um filme que não é para teenagers.

Frost/Nixon, E.U.A./Grã-Bretanha/França, 2008. Realização: Ron Howard. Com: Frank Langella, Michael Sheen, Rebecca Hall, Toby Jones, Matthew Macfadyen, Kevin Bacon, Oliver Platt, Sam Rockwell.

6.2.09

Valquíria



De ‘Valquíria’, nome da engenhosa operação que um grupo de oficiais alemães levou a cabo para tentar derrubar Hitler, pode-se dizer o mesmo que de vários outros filmes que têm chegado de Hollywood: é sólido, competente a todos os níveis, mas falta-lhe alma.

Pode-se elogiar o ensemble de actores, pode-se elogiar Tom Cruise, pode-se elogiar o argumento bem urdido, pode-se elogiar a elegante e eficaz realização de Bryan Singer - e todos estes elogios não são desmerecidos. Mas a verdade é que o conjunto é insosso, e não há algo forte que fique connosco depois de deixarmos a sala. Nem uma personagem, nem um momento, nem sequer um actor. Vê-se bem e olvida-se.

Valkyrie, E.U.A./Alemanha, 2008. Realização: Bryan Singer. Com: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Terence Stamp, Carice van Houten, Thomas Kretschmann, Kevin McNally, Eddie Izzard.

5.2.09

Compras em saldos



£12

Aguirre, o aventureiro
Nosferatu, o fantasma da noite
Woyzek
Fitcarraldo
Cobra verde
My Best Friend







£28

The Young One
Diário de uma criada de quarto
A bela de dia
Via láctea
Tristana, amor perverso
O charme discreto da burguesia
O fantasma da liberdade
Este obscuro objecto do desejo



Em Londres. Ou como se verifica, uma vez mais, a obscenidade que são os preços dos dvds em Portugal. Nem quero imaginar quanto custariam estes packs na FNAC.

30.1.09

Quiz

Chegou a altura de mais uma edição do Alfred, em que os membros da Liga dos Blogues Cinematográficos votam nos melhores do ano (notar que são elegíveis os filmes que estrearam no Brasil em 2008).
Eis os meus votos para melhor filme, com os títulos do outro lado, pois claro:

1. Um beijo roubado
2. Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
3. Climas
4. Vicky Cristina Barcelona
5. Senhores do crime

27.1.09

Vicky Cristina Barcelona



Confesso que estava a gostar tanto de ‘Vicky Cristina Barcelona’ que até fiquei um bocadinho, como direi, desiludido?, irritado?, quando apareceu a personagem de Penelope Cruz. Estavam-me a saber tão bem aqueles jogos de sedução entre Juan Antonio (excelente Bardem) e Vicky e Cristina que nem queria que se passasse mais nada.

Enfim, continuo a achar que Penelope desequilibra um pouco o filme (parece-me a única personagem que não descola do estereotipo), mas nem assim se quebrou o meu encantamento. O modo como Woody Allen joga com todos os clichés sobre os espanhóis, sobre Barcelona, sobre os americanos, sobre as relações, abertas ou nem por isso, é de mestre. E Vicky e Cristina, meu Deus, nem há palavras para Scarlett e Rebecca Hall, magnífica dupla que Woody em boa hora juntou.

E o modo como Allen combina leveza e gravidade, como põe toda a sala a rir com um filme em que ninguém é verdadeiramente feliz (só o enfadonho marido de Vicky, o que não é muito consolador) e que não acaba bem para uma única personagem.

Acrescento apenas, que desde ‘ Death Proof’ que não saía de um filme com tanta vontade de entrar na sala outra vez para o rever (ainda não tive oportunidade de o fazer, mas não deve passar de hoje). É assim Woody Allen: sempre que o querem enterrar (e eu quase que o fiz com ‘O sonho de Cassandra’), lá saca ele de mais um coelho da sua cartola-universo de obras-imperdiveis.
Vicky Cristina Barcelona, Espanha/E.U.A., 2008. Realização: Woody Allen. Com: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penélope Cruz, Chris Messina, Patricia Clarkson, Kevin Dunn.

24.1.09

Notas breves #4



A rapariga da mala
Tal como em ‘Verão violento’, há aqui uma paixão impossível, neste caso de um adolescente (Lorenzo, o excelente Jacques Perrin) por uma mulher mais velha (Aida, a bela Claudia Cardinale), que foi abandonada pelo irmão mais velho daquele, e anda a fazer pela vida. É mais ‘leve’ que os outros Zurlinis que vi, pois é um amor impossível a priori, uma paixão juvenil, meio desinteressada, mas ainda assim tem momentos terríveis, como o da conversa de Cardinale com o padre. Aliás, se virmos o filme pelo lado dela, há uma sombra trágica sempre presente.
Mas, se tanto Aida como Lorenzo são personagens imperdíveis, o simpático e disponível menino rico Lorenzo Fainardi fica mesmo na nossa memória e vemos muito o filme pelos seus olhos.
De resto, a discreta mise en scene de Zurlini é o primor habitual.
La ragazza con la valigia, Valerio Zurini, 1961 (9/10)

Outono escaldante
Terceiro filme de Zurlini que vejo, terceira história de amor (impossível) entre pessoas de idades muito diferentes. A diferença é que, neste caso, o mais velho é o homem (a situação mais vulgar). E o homem é Alain Delon, o Samurai, com trinta e muitos e barba por fazer, que tem uma relação complicada em casa (e a que, como saberemos, está irremediavelmente preso), mas que não se coíbe de se atirar a uma sua aluna, de 19 anos, em plena sala de aula, em frente aos colegas.
Ela namora com o playboy local, sendo que o local é Rimini, uma Rimini muito diferente da de Fellini, uma Rimini de jovens abastados, do jogo, das seduções, das festas, dos segredos, da pequenez, do ambiente irrespirável. Ela não é feliz e gosta da atenção que ele lhe dá. Ela é complicada e ele é complicado, num mundo superficial ou que faz por o ser. E não há hipótese do seu amor, ou o que quer que lhe chamemos, dar certo.
‘Outono escaldante’, fraca ‘tradução’ de ‘La Prima notte di quiete’ (sendo que essa prima notte é a morte), é uma obra-prima absoluta, um daqueles filmes que criam um universo completo, de onde não escapamos sem marcas.
La Prima notte di quiete, Valerio Zurlini, 1972 (10/10)

20.1.09

O estranho caso de Benjamin Button


Pitt dos 80 aos 8: um prodígio do digital, mas com a técnica sempre ao serviço da narrativa.

Não é fácil filmar a vida de um homem, várias décadas, sem cair na superficialidade ou no acumular de episódios dispersos. E havendo uma característica especial nesse homem – neste caso nasceu velho e vai rejuvenescendo – a tentação de a ilustrar excessivamente aumenta o risco da coisa.

E esse é o primeiro triunfo de Fincher: a continuidade do filme é admirável, conseguindo entrar dentro da sua principal personagem, o curioso e ponderado Benjamin Button, sem descurar as outras (não só a bela Blanchett, observe-se também Tilda Swinton, por exemplo), focando-se em episódios da sua vida sem perder nunca de vista o seu principal objectivo (o encontro de Benjamin com a sua amada), não esquecendo a sua especificidade (andar ao contrário no tempo), mas não deixando que esta atrapalhe o plano geral.

Sem dúvida que o sólido argumento de Eric Roth, baseado na short story de Scott Fitzgerald, sobre o tempo e os seus efeitos, sobre a impossibilidade do amor entre duas pessoas que não podem envelhecer juntas, pincelando em fundo o século XX Americano, contribui bastante para o êxito da obra, mas o quinhão principal tem que ser atribuído a David Fincher, que movendo-se dentro das coordenadas clássicas sabe inserir aspectos insólitos (os episódios do homem atingido por raios) ou ‘modernaços’ (o episódio do acidente de Blanchett) sem perder nunca o rumo, conseguindo conjugar o seu habitual olhar analítico e rigoroso, esteticamente impecável, com um lado afectuoso e, na parte final, mesmo tocante (ou o mais perto que se pode chegar disso numa obra com um espectro tão alargado).

Depois de ‘Zodíaco’ e deste ‘Benjamin Button’ já não pode haver dúvidas: o ‘jovem prodígio’ tornou-se um grande cineasta.

The Curious Case of Benjamin Button, E.U.A., 2008. Realização: David Fincher. Com: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Elle Fanning, Tilda Swinton, Taraji P. Henson .

12.1.09

Snobs



Ao sair, [William] Wyler disse-me que pensava que a qualidade da crítica cinematográfica americana não tinha melhorado em relação directa da dos filmes e que não era de nível tão elevado como na Europa. Como exemplo assinalou-me que um dos seus filmes , The Big Country, tinha obtido uma recepção maravilhosa na Europa e pouco fizera na América. "Na Europa, sabe" disse, "são tão snobs como em Nova Iorque. Preferem os filmes estrangeiros."

Peter Bogdanovich in 'Nacos de tempo - Crónicas de Cinema'

11.1.09

Três macacos



Neste seu terceiro filme a estrear por cá (salvo erro), Nuri Bilge Ceylan mantém as características que o destacaram: uma cinematografia primorosa, com planos (muitos deles fixos) elaborados meticulosamente e enquadramentos tirados ao milímetro; e um certo mal-estar existencial, com personagens melancólicas e de poucas falas que lhe valeram o epíteto de Antonioniano.

Aqui esse qualificativo é menos justificado que no excelente 'Climas', até porque ‘Três macacos’ tem muito menos força e é, dentro das premissas autorais referidas, muito mais indistinto. Tem algumas boas ideias (como o uso dos telemóveis – e a cena em que Eyüp procura interminavelmente o seu na carteira, enquanto ele toca exuberantemente uma música romântica turca, é de antologia), mas a sua beleza formal parece um bocadinho decorativa e a história (a decomposição de uma família depois do sacrifício do patriarca – por dinheiro, por um politico que não o merece) não tem a impressividade do seu anterior filme.

Não quer dizer que não valha a pena ver 'Três macacos' ou continuar a seguir Nuri Bilge Ceylan: apenas que esta é uma sua obra menor.

Üç maymun/Three Monkeys, Turquia/França/Itália, 2008. Realização: Nuri Bilge Ceylan. Com: Yavuz Bingöl, Hatice Aslan, Ahmet Rifat Sungar, Ercan Kesal.