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23.3.09

Che - O Argentino



Esta primeira parte do díptico que Steven Soderbergh realizou baseado nas memórias do mítico Che Guevara é, não direi apologética, mas demasiadamente respeitadora do mito.

Che é um intelectual brilhante, um guerreiro corajoso e determinado, um médico generoso, um camarada cheio de boas intenções, que quer levar a revolução não só a Cuba mas a toda a América Latina, que não quer o povo escravizado nem perante os Estados Unidos nem perante a União Soviética. É certo que ordena uns fuzilamentos aqui e ali, mas só contra desertores que violam e abusam do povo. Quando às tantas Che fala à jovem Aleida (uma das raríssimas mulheres que se destaca num mundo de guerreiros barbudos) da sua mulher e filha que estão no México, até nos surpreendemos ao pensar que aquele herói melancólico tem família e vida privada.

Não obstante os esforços de Benicio del Toro (impecável), jamais conseguimos penetrar no homem por trás do mito.

Mais interessante, parece-me, é o retrato apenas esboçado, que vai surgindo em fundo, de Fidel, o líder incontestado, respeitado mas temido, que não hesita em despromover o já famoso Che (a quem os populares pedem autógrafos) quando este falha uma operação. Em três ou quatro cenas ficamos a conhecer melhor a sua personalidade (ou a visão que dela tem Soderbergh) do que nas inúmeras cenas passadas nos montes ficamos a conhecer Che para lá do que é a sua imagem pública.

De resto SoderbergH não sabe filmar mal e o naipe de actores é muito bom, mas este monocromatismo do retrato, aliado a uma interminável profusão de cenas repetitivas, retratando o dia a dia da guerrilha pelos montes, tornam esta primeira parte do filme algo maçadora. Embora não o suficiente para me retirar a vontade de ver a segunda, que estreará daqui a duas semanas.

Che: Part One, E.U.A./França/Espanha, 2008. Realização: Steven Soderbergh. Com: Benicio Del Toro, Julia Ormond, Rodrigo Santoro, Demián Bichir, Ramon Fernandez, Yul Vazquez.

20.3.09

Café Bagdad



Amanhã, Sábado, pelas 13h00 (e repete Domingo à mesma hora), vai para o ar mais uma emissão do 'Café Bagdad'.

O Adriano Faria estreia-se nestas lides (substituindo a Patrícia, ausente por uns tempos no estrangeiro), e a Marta Catarino, o Pedro Peixoto Costa (na moderação) e eu próprio completamos a equipa habitual.

Em rodagem estarão 'The Searchers/A Desaparecida', de John Ford e 'Gran Torino' de Clint Eastwood.

Na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

13.3.09

Gran Torino



Clint Eastwood tem sido tão (justamente) aclamado como realizador, que por vezes até nos esquecemos do grande actor que ele é. E é essa faceta que nos atrai desde logo em ‘Gran Torino’: se estamos meio filme a rir com uma personagem xenófoba, racista, anti-social, que rosna literalmente perante os vizinhos (‘os chinocas’, ‘os pretos’, etc.), é porque Eastwood nos dá uma composição extraordinária deste Walt Kowalski.

Tal como a miúda asiática sua vizinha, também nós valorizamos mais os pequenos gestos que ele vai tendo (nem sempre com motivações claras) que todos os defeitos apontados. Não conseguimos antipatizar com ele, em suma. Tal como o Padre do bairro (‘um virgem de 27 anos sobre-educado’), também nós cedo percebemos que por trás daquela carapaça dura e irascível está um homem à espera da redenção.

E ela virá, sem grandes subtilezas, que Eastwood não é homem para isso. Tal como nos Westerns, o meio que formou Eastwood, também aqui só há lugar para ambiguidade no lado do herói. De resto há os bons e os maus, ponto final.

É tentador falar dum Dirty Harry envelhecido, mas não estou a ver Dirty Harry com um peso na consciência perante as mortes que tem na sua conta. Walt Kowalski é um outro homem.

Eastwood, esse, continua a dar-nos grandes filmes regularmente (sem pretender entrar na onda de canonização acrítica que sobre ele caiu – ainda não vi ‘A troca’, mas ‘Flags of Our Fathers’ por exemplo, desiludiu-me bastante), e quando alia a sua mestria (tem que se usar a palavra) atrás e à frente da câmara, melhor ainda. E então quando canta no genérico final, da forma que o faz aqui (conferir abaixo, s.f.f.), quase que tenho vontade de chorar. Este homem é insubstituível.

Gran Torino, E.U.A./Austrália, 2008. Realização: Clint Eastwood. Com: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, John Carroll Lynch.



10.3.09

O Complexo Baader Meinhof



‘O Complexo Baader-Meinhof’ esboça um quadro das actividades do grupo terrorista alemão de extrema-esquerda RAF – mais conhecido por Baader-Meinhof – nas décadas quentes de 60 e 70.

O veterano realizador Uli Edel parte do retrato particular para alcançar uma perspectiva mais lata. E quem não sai nada bem no retrato é o carismático líder do grupo, Andreas Baader, apresentado como impulsivo, leviano e, por trás dos seus discursos sobre a emancipação da mulher e o amor livre, profundamente machista (sempre que algo corre mal, descarrega numa das várias mulheres do grupo). Mais simpatias do realizador colhe Ulrike Meinhof, uma mulher mais velha e aquela que tinha mais a perder com a entrada para a clandestinidade: à altura já era uma jornalista conceituada e tinha duas filhas pequenas (que abandonou para aderir às RAF). Era a única intelectual do grupo e tentou dar algum cimento ideológico às suas acções, bem como uma maior organização e ponderação. Talvez por isso foi sendo progressivamente olhada de lado dentro do grupo, nomeadamente pela fanática Gudrun Ensslin, a namorada de Andreas Baader, e foi a primeira a suicidar-se após a prisão.

Uli Edel contextualiza o sucesso e até popularidade do grupo – houve uma altura em que um quarto dos alemães com menos de 30 anos apoiava os seus actos terroristas – no quadro dos ares do tempo. Era a altura das lutas estudantis contra o Estado, das manifestações contra a guerra do Vietname, e também da revolução sexual e da emancipação feminina. Neste caldo ‘anti-burguês’ e 'anti-capitalista' era fácil arranjar apoiantes e simpatias para a causa armada. Vemos também a dificuldade da polícia em lidar com este fenómeno, e a sua progressiva especialização e dureza até conseguir desmantelar o grupo. E as ligações do Baader-Meinhof aos grupos árabes pro-Palestina, uma ligação condenada à partida (as alemãs das RAF pavoneavam-se nuas nos campos de treino Jordanos, sobre o olhar incrédulo dos guerrilheiros árabes...) e que acabou por ser fatal para a organização terrorista alemã – aquando do espectacular desvio dum avião da Lufthansa para a Somália, em que as RAF exigiram a libertação dos seus dirigentes presos como condição para terminarem o sequestro, nenhum país árabe aceitou acolhe-los o que contribuiu para a operação ser um enorme fiasco, que terá levado mesmo ao suicídio na cadeia dos seus dirigentes que deixaram de acreditar definitivamente nas suas hipóteses de sucesso.

Uli Edel tem o mérito de abordar todos estes aspectos contraditórios sem romantizar (as brutais acções sanguinolentas das RAF são detalhadamente mostradas) nem diabolizar acriticamente (consegue mostrar o porquê do fascínio de uma fatia considerável da população, especialmente a camada mais jovem, pelas actividades dum grupo terrorista que atacou inúmeros civis). A sua maior falha residirá no facto de, entre tantos campos por onde se mover ao longo de 2h30, acabar por deixar várias pontas soltas e termos um pouco a sensação que as coisas são tratadas algo ligeiramente, simplificadamente, ficando-se um pouco pela superfície. Não compreendemos inteiramente o suicídio dos membros fundadores do Baader-Meinhof na cadeia (na altura bastante controversos mas que o filme aceita como verdadeiros), nem a influência que mantiveram sobre a 2ª geração de operacionais cá fora, por exemplo.

Mas, apesar destes reparos, fica um bom retrato geracional que vale a pena ver.

Der Baader Meinhof Komplex, Alemanha, 2008. Realização: Uli Edel. Com: Martina Gedeck, Moritz Bleibtreu, Johanna Wokalek, Nadja Uhl, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Bruno Schmidt, Stipe Erceg.

6.3.09

Os guardiões



‘Os Guardiões’ é um objecto estranho (falo do filme, porque nunca li a BD - ou a graphic novel, como agora se diz – que, ao que parece, este adapta fielmente).
A acção passa-se num mundo em que os E.U.A. ganharam a guerra do Vietname, Nixon vai no seu 3º mandato e está-se à beira de um choque nuclear entre os States e a URSS.

A esperança americana de impedir o ataque nuclear reside no homem que já lhes deu a vitória no Vietname: o Dr. Manhattan, um físico nuclear que sofreu um acidente que lhe deu super-poderes e uma considerável veia metafísica. Ficou azul, anda nu ou com uma tanga, e foi-se afastando cada vez mais da humanidade, preferindo refugiar-se em Marte e mandando uns seus avatares fazer sexo com a namorada.

Entretanto há também os guardiões: uns mascarados que em tempo usavam meios pouco ortodoxos para combater o crime, até Nixon acabar com os seus serviços. O assassínio de um deles traz os restantes de volta à acção: um deles recupera o seu veículo da cave e veste o seu traje à Batman; uma outra desempoeira o seu fatinho de Barbie; e um terceiro, que nunca tirou a máscara, comanda as coisas com tiques de psicopata (o excelente Jackie Earle Haley, que se destaca num elenco coeso e sem vedetas). Enfim, estamos a tratar mais com nerds do que com super-heróis.

Posto isto diga-se que as angústias existenciais do Dr.Manhattan contagiam todo o filme: há mais paleio sobre a humanidade, a ameaça nuclear, o fim do sonho americano, o sentido de tudo isto enfim, do que cenas de acção ou de pancadaria (embora haja algumas bastante cruéis). Fossem estas mais de duas horas e meia de meditação sombria sobre o homem, com um ritmo algo perro, realizadas por algum realizador ‘pseudo-intelectual’, como dizem os comentadores do Cinema 2000, e estava o caldo entornado. Mas como vêm embrulhadas em BD e cinema ‘popular’ ainda se torna um blockbuster (embora não me cheire muito).

Eu gostava de dizer que isto primeiro se estranha e depois se entranha, mas a verdade é que nunca se entranhou. Não sei se por culpa da matéria original, se por culpa do realizador Zack Snyder (se bem que este terá sempre culpas no cartório - a banda sonora, por exemplo, um best of que vai de Simon & Garfunkel a Leonard Coen não ajuda), ‘Os guardiões’ pareceu-me um bocado como aqueles brinquedos caros e sofisticados (tipo uma Playstation), de que alguns adultos fazem alarde. Mas que não deixam de ser um brinquedo. Uma coisa para teens, mais que para adultos, não obstante as suas pretensões.

Watchmen, E.U.A./Grã-Bretanha/Canadá, 2009. Realização: Zack Snyder. Com: Malin Akerman, Billy Crudup, Matthew Goode, Jackie Earle Haley, Jeffrey Dean Morgan, Patrick Wilson, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie.

4.3.09

O Wrestler



Darren Aronofsky teve a ideia de fazer um filme sobre Mickey Rourke. Mostrar o estado a que chegou o ex-menino bonito de 'Rumble Fish'.

O propósito tem algo de generoso e algo de obsceno. Aronofsky fá-lo num tom não só hiper-realista, como carregando nas tintas todas. Rourke ganhou as suas cicatrizes e uma cara desfigurada no boxe, mas Aronofsky resolveu deslocar a sua personagem para o grotesco mundo do wrestling, esse verdadeiro monumento à estupidez.

Na primeira meia hora do filme assistimos ao derramar de sangue, vindo de pontapés, quedas, agrafadelas, cortes, pancadaria com mesas e cadeiras, golpes de toda a espécie, e não é nada bonito de ver. Aronofsky não quer que tenhamos dúvidas nenhumas de onde chegou a ex-estrela do wrestling e pôe-a a viver naquele mundo white trash que só existe nos E.U.A., morando num parque de roulottes, procurando algum calor humano junto a uma filha que o rejeita e a uma stripper (excelentíssima Marisa Tomei) que por vezes se sente embaraçada com ele.

E arrisca em várias cenas: safa-se umas vezes (como quando a stripper fala no Cordeiro de Deus - mas descobrimos que foi buscar a citação a Mel Gibson e não à Bíblia), noutras nem tanto (o falhado encontro com a filha; a cena demasiadamente ilustrativa do miúdo a falar a Rourke/Randy “The Ram” dos novos jogos da playstation).

E Rourke no meio disto? Está espantoso. Expõe o seu corpo, a sua cara, a sua alma, mas com uma dignidade espantosa que impede sempre, que ele próprio mas também o filme, caiam no grotesco ou no lamechas. Rourke mostra a decadência de Rourke mas não tem pena de Rourke; algum arrependimento, algumas mágoas, mas sempre de pé para o comeback.

Resumindo: Rourke merece todos os elogios; Aronofsky, não tenho tanta certeza.

The Wrestler, E.U.A./França, 2008. Realização: Darren Aronofsky. Com: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Ernest Miller, Gregg Bello, Todd Barry.

2.3.09

João César Monteiro

(as últimas 10 palavras, além de tornarem a frase confusa, estão a mais.)

O portal ainda está numa fase embrionária, mas promete disponibilizar 'imenso material', incluindo 'uma base dados completa da biblioteca e fonoteca particular de João César Monteiro'. Prometedor, sem dúvida.

Filmes de Fevereiro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Os olhos sem rosto, George Franju, 1960 (10)
O imenso adeus, Robert Altman, 1970 (8)
O charme discreto da burguesia, Luis Bunuel, 1972 (8,5)
Os olhos da montanha, Wes Craven, 1977 (6,5)
Children of the Corn, Fritz Kiersch, 1984 (6)
Cobra Verde, Werner Herzog, 1987 (9)
Uma década em revolução-O cinema americano dos anos 70, Richard LaGravanese+Ted Demme, 2003 (7,5)
Valquíria, Bryan Singer, 2008 (7)
Dúvida, John Patrick Shanley, 2008 (6,5)
Revolutionary Road, Sam Mendes, 2008 (5)
O leitor, Stephen Daldry, 2008 (6)
Quem quer ser bilionário, Danny Boyle, 2008 (7)
Milk, Gus Van Sant, 2008 (8)

26.2.09

O termo 'desconstrução'



"Ainda hoje fico muitas vezes siderado com as críticas que leio em certas revistas de cinema. (...) Um dia tive um encontro com estudantes de cinema numa universidade em Viena; tive que pedir que me explicassem umas cinco ou seis vezes o termo 'desconstrução' até perceber de que é que me estavam a falar. E devo confessar que ainda hoje não estou certo de ter compreendido o que se estava ali a passar..."

John Carpenter, em entrevista a Luc Lagier e Jean-Baptiste Thoret.

Mal começo a ler o catálogo da cinemateca dedicado a Carpenter, deparo-me logo com esta pérola que imediatamente me fez lembrar esta de D.Luis. Nem de propósito, na resposta seguinte, Carpenter declara Bunuel como um dos seus cineastas preferidos. Não há que enganar.

25.2.09

Milk



Dentro do género biopic ‘tradicional’, ‘Milk’ é um filme perfeito. Sean Penn merece todos os encómios possíveis pelo seu papel de Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay a ser eleito para um cargo público (supervisor na câmara de S.Francisco), e Gus Van Sant, um dos grandes realizadores do cinema actual, embrulha com estilo e precisão factos documentais e ficção para, a partir de Harvey, compor um retrato mais lato da luta pelos direitos homossexuais, e do movimento gay que se formou em Castro Street e rapidamente expandiu fronteiras.

O único problema desta obra está precisamente na palavra ‘tradicional’: 1) porque Todd Haynes já provou com ‘I’m not There’ que é possível estilhaçar o biopic com excelentes resultados; 2) porque de Gus Van Sant, especialmente depois do magnífico ‘Paranoid Park’, esperamos mais do que filmes convencionais (mesmo quando são imaculadamente bem feitos como este).

Mas, tal como Harvey Milk às tantas cortou o cabelo e pôs uma gravata, também aqui dá ideia que Van Sant não quis arriscar e deu mesmo prioridade a passar a ‘mensagem’ (a luta pelos direitos gay numa altura em que alguns passos atrás foram dados na Califórnia), sacrificando a ousadia em prol da eficácia e visibilidade. As nomeações para os Óscares e as duas importantes vitórias que obteve (melhor actor e melhor argumento original) mostram que conseguiu o seu objectivo.

Milk, E.U.A., 2008. Realização: Gus Van Sant. Com: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, James Franco, Alison Pill, Victor Garber, Denis O`Hare.