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29.9.09

The Bad Seed

Borges disse que a censura é a mãe da metáfora, e na Hollywood clássica há inúmeros exemplos que o ilustram: basta pensarmos como cineastas como Billy Wilder ou Cuckor, Lubich ou Hitchcock, entre tantos outros, se refinaram em contornar os censores, sendo os resultados obtidos pela mera sugestão em geral mais perversos do que se a coisa tivesse sido mostrada, como não se cansou de nos ensinar João Bénard da Costa.


Mas casos houve em que os argumentistas e cineastas resolveram pegar o touro pelos cornos e, regra geral, a tesoura imposta pelo célebre código Hayes era impiedosa.


 ( eu vou ignorar este apelo, pelo que os leitores  que não gostam de 'spoilers' são aconselhados a não passarem daqui)

Um dos casos mais flagrantes que se me deparou é o final deste ‘The Bad Seed’, obra de 1956 do veterano da Warner Bros. Mervyn LeRoy. O filme, adaptado de uma peça da Broadway, trata de uma encantadora miúda de 8 anos, Rhoda Penmark (excelente Patty McCormack) que é assim uma espécie de assassina em série, eliminando tranquilamente quem se atravessa no seu caminho.

No argumento original, Rhoda acabava pacatamente a tocar o seu "Claire de Lune" ao piano, depois de ter enviado desta para melhor metade do elenco. Mas, no final imposto ao realizador - que parece claramente um excrescência aposta no filme e que deixa o espectador moderno boquiaberto – a cativante Rhoda é, nem mais nem menos, que fulminada por um raio! Mas as coisas não se ficam por aqui... É que mesmo sendo uma assassina, que diabo, Rhoda é uma miudinha de 8 anos - há de ter pensado alguém - pelo que não fica bem morrer! Assim, num assomo pós moderno, no final do filme uma voz off apresenta-nos os actores (procedimento roubado a Orson Welles), momento aproveitado por Nancy Kelly (a mãe) para dar umas boas palmadas a Patty Penmark, ao que se segue o insólito fotograma final acima mostrado!



E assim um simpático filme de bom travo clássico, que hesita entre o terror e a análise sociológica (tema: será o 'mal' hereditário?), é instantaneamente transformado num filme de culto, um verdadeiro camp classic.

The Bad Seed, E.U.A., 1956. Realização: Mervyn LeRoy. Com: Nancy Kelly, Patty McCormack, Henry Jones,Eileen Heckart, Evelyn Varden, William Hopper.

25.9.09

Cellphone failures in horror movies



via o grande maradona (e antes que ele apague a coisa)

24.9.09

Mudar de vida















Eis a mini-biografia que vem no IMDB de Martin Stephens, que interpreta o miúdo, Miles, em 'The Innocents' :

Martin Stephens was the most popular child actor in Britain during the late 1950s and early 1960s. Having lost interest in acting as he became an adult, he moved to Belfast in 1968, where he studied architecture at Queen's University, Belfast. He later returned to England, where he pursued his new career in architecture and as a teacher of Meditation.

Há muitos 'popular child actors' que não singram, em adultos, no mundo do cinema. Será o caso da generalidade deles, até. Mas é a primeira vez que leio que um deles voluntáriamente abandonou a carreira de actor e preferiu seguir antes uma 'anónima' vida de arquitecto (e de professor de Meditação).

23.9.09

The Innocents


Lia há dias na net alguém a defender que as histórias de ‘fantasmas’ dão melhores comédias que filmes de terror. A ser verdade (só se estiverem a falar do caça-fantasmas!), vi recentemente dois filmes que infirmam essa regra: ‘The Haunting’, obra-prima de Robert Wise, e este ‘The Innocents’.

'The Innocents' é uma adaptação do clássico de Henry James ‘The Turn of the Screw’, realizado pelo britânico Jack Clayton e com argumento de William Archibald e Truman Capote. Se Jack Clayton recria com mestria um ambiente gótico de fantasmagórico suspense que faz jus ao livro, já os argumentistas não resistiram a carregar freudianamente nas tintas do recalcamento sexual de Miss Giddens (uma surpreendente Deborah Kerr) - a ama que vê fantasmas - explicitando o que James deixou no ar. O muito politicamente incorrecto final do filme, não só faria corar o pudico escritor, como de certeza que seria impossível de 'passar' hoje em dia.


Seja como for, não é esta pequena ´traição' nada inocente dos argumentistas - e eu geralmente prefiro a sugestão à explicação - que diminui os méritos do filme. A elegante realização, a cuidada fotografia a  preto e branco de Freddie Francis, o inteligente uso do som, as actuações imaculadas e, no geral, a fidelidade ao espírito de James (e por vezes a melhor maneira de elogiar uma obra é interpretá-la e não apenas ilustrá-la) tornam este filme uma das melhores adaptações do escritor anglo-americano ao grande ecrã e, já agora,  um dos melhores filmes de 'terror' já feitos.

The Innocents, E.U.A., 1961. Realização: Jack Clayton. Com: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Martin Stephens, Pamela Franklin.

So Tell The Girls That I'm Back In Town...

14.9.09

29.4.09




17.4.09

Brazil + Che - O Argentino



Amanhã, Sábado, pelas 14h00 (e repete Domingo às 13h00), vai para o ar mais uma emissão do 'Café Bagdad'.
Na primeira parte elogiamos 'Brazil', a excêntrica distopia de Terry Gilliam; na segunda, Adriano Faria louva 'Che - O Argentino', a primeira parte do díptico de Steven Soderbergh, enquanto a Marta Catarino e eu próprio nos mostramos mais reservados nas loas ao filme. Como sempre, o Pedro Peixoto Costa modera.

Na Rádio Clube do Minho (Braga, 92.9).

14.4.09

A mulher sem cabeça




Depois de atropelar algo (um cão, um miúdo?), Verónica ‘desliga’. Como que tem um apagão.
Esquece-se das coisas, não se lembra da filha, move-se como um fantasma. Os raios X que faz não revelam nada. Será que o cérebro obliterou algo? Ou o acidente foi apenas o pretexto para saltar de um vida programada, de gestos automáticos e rotineiros? Ou será que não foi o acidente mas a mudança de cor do cabelo? (para loiro, e é impossível não pensar em Madeleine/Judy).

Partindo deste argumento mínimo, Lucrecia Martel regressa aos seus temas de sempre: a alienação, o tédio, a rotina de uma certa classe média/alta argentina. Daí se convocar por vezes Antonioni a propósito da realizadora sul-americana.

Mas só num sentido muito lato a filiação faz sentido, pois o universo de Lucrecia Martel é pessoalíssimo e inconfundível. Embora ao terceiro filme mostre sinais de algum esgotamento. ‘A mulher sem cabeça’ é uma variação de ‘O pântano’ sem o efeito surpresa que este provocava no espectador, e não obstante os seus méritos (desde logo a realizadora filma muitíssimo bem – vejam-se os planos pouco convencionais; ou o som sempre em ‘primeiro plano’) eu senti algum cansaço ao ver o filme, uma sensação de déjà vu que se sobrepôs a tudo o resto.
E presumo que não fosse intenção da realizadora transferir de forma tão directa os sentimentos das suas personagens para o espectador.

La Mujer sin Cabeza, Argentina/México/Itália/Espanha, 2008. Realização: Lucrecia Martel. Com: Mercedes Morán, Maria Onetto, Ines Efron, Claudia Cantero, Cesar Bordon, Daniel Genoud, Guillermo Arengo, Maria Vaner.

7.4.09

Vicky Cristina Barcelona (2)



'Vicky Cristina Barcelona' poder-se-ia chamar sem prejuízo (excepto o da musicalidade do titulo) 'Vicky Cristina Espanha'. Porque são essas as personagens do filme: Vicky, Cristina e Espanha, sendo que Espanha é representada, mais que pelas paisagens barcelonesas, pelas personagens arquetípicas de Javier Barden e principalmente Penelope Cruz. Ele é o artista boémio, galã, mas não machista e ainda nostálgico da ex-mulher. De certa forma, podia ser de outra nacionalidade qualquer. Ela não. Ela representa o cliché da mulher latina de sangue quente, de coração na boca, exaltada, sexy, fervilhante. Só podia ser espanhola.

Eu acho que Woody Allen se deve ter divertido bastante a criar esta personagem estereotipada, que é uma espécie de McGuffin: permite complicar e impossibilitar as relações amorosas entre Bardem/Juan Antonio e Vicky e Cristina, as que verdadeiramente interessam a Woody.


Vicky (que viu abrir-se e fechar-se uma nesga na sua vida pré-programada) e Cristina (a eterna insatisfeita) poderiam ter saído de qualquer outro filme de Allen, fazem parte do seu universo e é a sua história, como o próprio título indicia, que ele quer contar, analisando a sua personalidade fora do seu habitat natural (NY), em Barcelona, neste caso. E para isso serve-se de Barden e de Penelope. Compreendendo isto, a personagem de Penelope Cruz já não me irritou como da primeira vez que vi o filme e vi com outros olhos o desempenho da actriz (que cumpre o que lhe foi pedido: fazer de mulher à beira dum ataque de nervos).

Volto a isto após a revisão do filme, aquele de que mais gostei do que leva até agora 2009, porque aquando do meu primeiro post estas duas meninas chamaram-me simpaticamente de maluco para cima (ou para baixo) por ter menorizado Maria Elena e Penelope. De certa forma mantenho a opinião, mas espero ter-me explicado melhor desta vez.