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3.11.09
Onde se fala de Hitchcock, Spielberg, Kubrick, Proust, Jarvis Cocker ...
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harry madox
Arnaud Desplechin entrevista Wes Anderson, ou melhor dizendo, Arnaud Desplechin conversa com Wes Anderson.
(via Cruel Vitória)
1.11.09
Filmes de Outubro
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harry madox
Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.
(A última vez que postei nesta 'secção' foi em Março. Nesse mês vi 20 filmes, algo habitual à época. Agora ando a bater todos os records negativos neste campo, mas não é por causa de pormenores desses que um viciado em listas vai acabar com a tradição)
(A última vez que postei nesta 'secção' foi em Março. Nesse mês vi 20 filmes, algo habitual à época. Agora ando a bater todos os records negativos neste campo, mas não é por causa de pormenores desses que um viciado em listas vai acabar com a tradição)
A minha noite em casa de Maud, Eric Rohmer, 1969 (10)
O homem que gostava das mulheres, François Truffaut, 1977 (8,5)
Noce blanche, Jean-Claude Brisseau, 1989 (6,5)
Battle Royale, Kinji Fukasaku, 2000 (7)
Deixa-me entrar, Tomas Alfredson, 2008Abraços desfeitos, Pedro Almodovar, 2009
30.10.09
Queria dar-lhes a oportunidade de saírem
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harry madox
"Sabia que teria de adicionar uma espécie de prólogo de cinco minutos: os primeiros três permitiriam à audiência acostumar-se ao carácter invulgar do filme, para poder decidir se quer ou não sair da sala. Queria dar-lhes a oportunidade de saírem, no caso de pensarem que talvez durante a próxima hora e meia o filme apenas mostrasse aviões a aterrar."
Werner Herzog, a propósito de 'Fata Morgana', in 'Sinais de vida. Werner Herzog e o cinema', Grazia Paganelli, Edições 70
23.10.09
Exactamente
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harry madox
"A fotografia de Azul de Kieslowski é muito bonita mas é demasiado assinada, tem demasiados filtros, demasiados efeitos pessoais da parte do director de fotografia.
Isto acontece por vezes com os maiores responsáveis pela fotografia: a fotografia pela qual Nestor Almendros ganhou o Óscar, a de Dias do Paraíso [Terence Malick, 1978], é o exemplo de um trabalho em que o técnico faz valer demasiado a sua presença. Isso pode depender do filme: em Black Narcisus [Quando os sinos dobram, 1947], de Michael Powell, o director de fotografia, Jack Cardiff, fez uma obra extravagante e muito bem conseguida."
Pedro Almodovar, no imprescindível 'Conversas com Pedro Almodovar', Frédéric Strauss, 90º Editora.
22.10.09
Battle Royale
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harry madox
Quarenta estudantes de uma turma do secundário são enviados para uma ilha onde têm que se entregar a um curioso jogo: têm que se matar uns aos outros em três dias. Das duas, uma: ou há um sobrevivente ou morrerão todos. O sádico professor Kitano (himself) vai anunciando diariamente, através de um altifalante, as mortes ocorridas.
É claro que o pior de cada um vem ao de cima, e a partir de uma certa altura (para alguns a partir do primeiro segundo) o único pensamento é a sobrevivência, o que implica despachar o maior número de colegas possível. Um tema clássico, portanto.
'Battle Royale' é um 'Deus das moscas' em versão videogame. Tem aquela mistura de violência, algum erotismo juvenil (colegiais de mini-saia, um must nipónico) e palermice de que só os japoneses têm o segredo. É também conhecido por ser o filme preferido de Tarantino dos últimos 17 anos.
Classificação: 7/10
Classificação: 7/10
Batoru rowaiaru, Japão, 2000. Realização: Kinji Fukasaku. Com: Takeshi Kitano, etc.
21.10.09
François Truffaut (06/02/1932-21/10/1984)
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harry madox
Faz hoje 25 anos que faleceu, com 52 anos de idade, vítima de um tumor cerebral, François Truffaut. Três dias depois seria o seu funeral, seguido por milhares de anónimos, mas também por muitas das mulheres que amou (onde se contam Jeanne Moreau, Claude Jade, Françoise Dorléac, Jaqueline Bisset, Leslie Caron, Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Madeleine Morgenstern), tal como ocorreu no funeral de Morane, em o ‘Homem que gostava das mulheres’.
É impossível ser-se um cinéfilo e não amar Truffaut, paradigma por excelência do cinéfilo, de quem se diz que terá visto mais de 3000 filmes entre 1946 e 1956, dois e três por dia, encontrando nas salas de cinema um refúgio a um lar hostil, com um pai ausente e que nunca conheceu (foi o padrasto que lhe deu o apelido) e uma mãe que o não amava (e são os seus filmes que o confirmam, não estou a fazer qualquer tipo de psicologia barata). Dessas sessões começou a organizar arquivos sobre filmes e realizadores, prenúncio da actividade que primeiro o celebraria: a de critico cinematográfico.
E foi apenas um dos mais importantes e influentes do século, cunhando a célebre teoria do cinema de autor, defendendo realizadores americanos como Hitchcock ou Hawks, de quem conhecia os filmes de cor, muitas vezes fotograma a fotograma, contra o cinema francês da época, “a tradição de qualidade”, lançando as sementes para a Nouvelle Vague. Mais tarde teria ainda as célebres conversas com Hitchcock, reunidas num livro de leitura obrigatória a qualquer pessoa que pense o cinema como algo mais que um acompanhamento para comer pipocas.
Se a sua importância como critico é incontestada, a importância dada ao seu legado como realizador tem variado, e penso que não exagerarei ao dizer que hoje em dia colegas seus da Nouvelle Vague como Rohmer, Rivette ou Godard gozam mais dos favores da critica do que Truffaut. Só ‘Os 400 golpes’ e ‘Jules e Jim’ são habitualmente citados como obras-primas e não se costuma ir muito além disso no conhecimento da sua obra. Eu acrescentaria, pelo menos, ‘As duas Inglesas e o continente’ e ‘Atirem sobre o pianista’ como filmes obrigatórios em qualquer lista de ‘melhores de sempre’. E outros, como ‘Beijos roubados’ e ‘Angústia’, contam-se entre os meus filmes preferidos.
Mas há vida para além destes filmes, e não há nenhum dos 24 que realizou (21 longas e três curtas) que não valha a pena ver. Como recordação repesco aqui dois posts que escrevi sobre dois filmes fundamentais para conhecer Truffaut, como cineasta e como homem (e todos os seus filmes são muito autobiográficos, formando a sua obra um conjunto inseparável): ‘A noite Americana’, a maior declaração de amor ao cinema que já vi (e compare-se, por contraste, com as mais que cínicas visões que Hollywood nos deu de si própria) e ‘Amor em fuga’, o filme que encerra o extraordinário ciclo Doinel, 20 anos depois de ‘Os 400 golpes’.
Nunca mais ninguém conseguiu transmitir uma tristeza persistente por trás de uma aparente leveza e leviandade, como Truffaut nestas (e noutras) obras.
Nunca mais ninguém conseguiu transmitir uma tristeza persistente por trás de uma aparente leveza e leviandade, como Truffaut nestas (e noutras) obras.
14.10.09
Deixa-me entrar
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harry madox
Ao fim de 10 minutos a ver 'Deixa-me entrar' já me tinha lembrado tanto de Kaurismaki (andam por lá umas lacónicas personagens secundárias que vieram directamente dos seus filmes) como de Donnie Darko (esta é mais difícil de explicar). E, note-se, estas são duas referências muito caras nesta casa. Começo por aqui para que os mais snobs (e inocentes) não fujam deste texto quando eu falar em vampiros, tema bastante respeitável mas que ultimamente se tornou sinónimo de praga, que vem invadindo cinema e literatura.
É que este filme trata da história de amor, nas belas paisagens suecas, sempre cobertas de neve, entre um rapaz de 12 anos e uma vampirinha da mesma idade ('tenho 12 anos, mas já tenho 12 anos há muito tempo'). E, surpresa, fá-lo com um romantismo raro. E, extraordinário, com um erotismo tocante - de todo impossível em Hollywood, diga-se (quando se lembrarem de fazer um remake vão ter obliterar esta parte).
'Deixa-me entrar' trata de adolescentes e de amores adolescentes e de diferença como só Gus Van Sant ou Larry Clark (e este só nos seus melhores momentos) o têm feito. Aqui tanto há lugar para momentos de uma ternura surda, como há para uma cena de bullying ao som de 'A flash in the night' (lembram-se?) que termina com membros decepados a voarem. Sim, como em qualquer grande história de amor, aqui também há sangue e violência e vingança (mas não gore nem coisas demasiado explicitas).
Assim de repente, o único defeito que lhe posso apontar é o de por vezes ser demasiado 'bonitinho', de o realizador ser demasiado 'virtuoso', de escolher sempre o ângulo mais original ou o melhor plano (quando a gente repara demais nelas, estas coisas deixam de ser uma virtude). Mas, diga-se, até isso contribui para o grau de estranheza que o filme provoca, pois são elementos de que não estaríamos à espera neste género. Que o tornam ainda mais um objecto estranho. E, certamente, umas das surpresas do ano e um forte candidato a filme de culto.
Låt den rätte komma in , Suécia, 2008. Realização: Tomas Alfredson. Com: Kare Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist.
Låt den rätte komma in , Suécia, 2008. Realização: Tomas Alfredson. Com: Kare Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist.
10.10.09
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harry madox
Muito poderia também ser dito sobre a figura do realizador documentarista, cujos filmes voyeuristas o pai visiona numa sala escura, acompanhado apenas por uma mulher que lê os lábios com uma voz monocórdica. Mas para isso precisaríamos de um psicanalista lacaniano esloveno que, por enquanto, ainda não colabora neste blogue.
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Serão as categorias esquerda e direita aplicáveis ao melodrama? Julgo que sim. Rachel Getting Married (Jonathan Demme, 2009) é um grande melodrama de esquerda. E Two Lovers (James Gray, 2008) um melhor melodrama de direita.
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Serão as categorias esquerda e direita aplicáveis ao melodrama? Julgo que sim. Rachel Getting Married (Jonathan Demme, 2009) é um grande melodrama de esquerda. E Two Lovers (James Gray, 2008) um melhor melodrama de direita.
9.10.09
Distrito 9
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harry madox
No papel, ‘Distrito 9’ tem tudo para ser um filme de que eu gostaria: uma colónia de extra-terrestres subnutridos, que chega numa nave espacial a Joanesburgo, é colocada num ‘campo de refugiados’ que rapidamente se transforma num ghetto, explorado por uma espécie de máfia local. Embora a alegoria com o Apartheid não seja muito subtil, os ingredientes até me fizeram lembrar uma boa sci-fi série B de outros tempos, com uns toques Carpentianos .
Mas, na prática, esta permissa é rapidamente esbanjada, e por muitos motivos. Desde logo já acho um bocado cansativo o tom de falso documentário que agora está na moda. Não digo que não confira um tom algo angustiante à fita, mas também reforça a sensação de déjà vu e, paradoxalmente, contribuiu para enfraquecer a minha ‘suspensão da descrença’.
Depois, nunca me identifiquei com o ‘herói’, um funcionário da Comissão para os Alienígenas, promovido pelo sogro a responsável pela relocação dos ‘gafanhotos’ (como os ETs são simpaticamente tratados pela população), que é um palerma completo durante meio filme, sendo depois difícil criar empatia com ele.
E, finalmente, o caminho que o argumento toma a partir do momento da transferência dos ditos gafanhotos - e nem falo dos mais que muitos buracos que apresenta; exemplo: porquê tanta obsessão com as armas dos alienígenas, que nem parecem especialmente destruidoras? Bom, a dita transferência, para um local fora da cidade, é conduzida por uma ‘corporation’ paramilitar que entra literalmente a matar e, enfim, penso que já estão a ver o filme... a parábola sobre o modo como o mundo ocidental trata os imigrantes passa agora a mais uma estafada crítica às multinacionais, ao capitalismo, ao militarismo, etc., etc. A partir daqui, confesso, desliguei.
Onde raio se meteu a sci-fi série B que me prometeram no início?
District 9, E.U.A./Nova Zelândia, 2008. Realização: Neill Blomkamp. Com: Sharlto Copley, Jason Cope, John Sumner, Vanessa Haywood, Marian Hooman, David James, Robert Hobbs.
7.10.09
Abraços desfeitos
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harry madox
Talvez o argumento deste ‘Abraços desfeitos’ enrole um pouco, talvez haja um desequilíbrio entre os dois blocos temporais, o do presente com o realizador cego (imagem já utilizada por Woody Allen, recordemo-nos), e o de 14 anos atrás com a sua paixão por Penélope. Almodóvar é um grande argumentista mas não tem aquela precisão cirúrgica de Tarantino.
Mas depois há planos - de um conjunto de fotografias rasgadas, de uma praia, do rosto de Penélope - que nos fazem sentir mais do que filmes inteiros. Que nos lembram que há um cineasta atrás da câmara. E dos grandes. Daqueles cujos filmes em ritmo de cruzeiro estão acima de quase tudo o que para aí anda.
Los Abrazos Rotos, Espanha, 2008. Realização: Pedro Almodóvar. Com: Penélope Cruz, Rubén Ochandiano, Blanca Portillo, Ángela Molina, Alejo Sauras, Lola Dueñas.



