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30.11.09

Tetro



















Desde 'O Vigilante' (1974) que Coppola não escrevia um argumento original. E desde 'Rumble Fish' (1983) que não filmava a preto e branco. Não quero dizer que haja aqui um regresso às "origens". Há uma parte operática em 'Tetro' que remete para o universo de 'O Padrinho', para não falar do tal argumento, basicamente, uma vez mais, sobre a família. Apenas pretendo sublinhar que nesta "2ª fase" da carreira, Coppola faz o que muito bem lhe dá na veneta.

E se não há duvida que se mantém uma coerência com a obra passada, não é menos verdade que, tal como em 'Uma segunda juventude, ‘ há uma sensação de estranheza ao ver esta obra que não nos abandona. Há um lado onírico, espectral, que a torna diferente dos trabalhos anteriores a 'Uma segunda juventude'. Não provém tanto do argumento (Vicente Gallo, o filho de um maestro famoso, tenta lidar com o 'fantasma' do pai), nem do preto e branco (extraordinário), nem da maneira de filmar (Coppola continua um mestre); é algo de mais ténue, que tem a ver com alguma indefinição própria dos sonhos, em que nem tudo encaixa na perfeição, há buracos, zonas de sombra, momentos surreais, impressões fugidias. Lembrei-me várias vezes de Orson Welles, do desequilíbrio de vários dos seus filmes, ainda assim sempre belos, com planos que redimiam quase tudo.

Mas o exemplo mais próximo que me ocorre é o das obras finais de Hitchcock, em que este não parou de desconcertar os seus fãs com filmes insólitos e surpreendentes. E se eu não vou ao ponto de pôr 'Intriga em família' (ou 'Tetro') acima de 'Vertigo' (ou 'O Padrinho’), a verdade é que é um filme que não deixa de me fascinar.

Tetro, E.U.A./Itália/Espanha/Argentina, 2009. Realização:Francis Ford Coppola. Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura, Rodrigo de la Serna, Leticia Brédice, Mike Amigorena.

24.11.09

Ou Morro ou Fico Melhor



















O pai de Martial abandonou o lar para ir viver com uma mulher muito zen. A mãe preocupa-se com ele, mas acima de tudo com ela própria e com o seu romance com um homem que conheceu num bar.

Martial tem 16 anos e tem que se adaptar a uma nova escola e a uma nova vida e nada disso lhe agrada. Uma loirinha engraça com ele, mas ele é que não lhe liga nenhuma. Apenas as fantásticas gémeas Colette e Ernestine despertam o seu interesse. Andam sempre juntas, não ligam a ninguém e parecem saídas de um filme mudo. Aliás, durante metade do filme, uma delas só segreda ao ouvido da outra, que é por assim dizer a porta-voz do dueto.

Elas vão envolvendo Martial no seu mundo, nomeadamente no seu hobby que é penetrarem em casas de estranhos. Este sente-se desconcertado com o seu comportamento, mas ao mesmo tempo fascinado. Ou morre ou fica melhor.

Durante meio filme, esta nova obra (de 2008) de Laurence Ferreira Barbosa é uma muito divertida comédia sobre a adolescência, mas também sobre o mundo moderno, sobre as famílias disfuncionais. Depois engonha um bocado, normaliza-se - e nem vou repisar no lugar-comum que associa (filmes) franceses e sexo - e acaba de uma forma um bocado chocha. Mas, tal como para Martial, se o final não é brilhante, a experiência do que passamos vale a pena.

Talvez seja por ver(mos)  tantos filmes americanos, mas a verdade é que mesmo um filme 'corrente' francês como este me traz sempre um sabor diferente. Não saio de lá a pensar que vi mais do mesmo.

Soit je meurs, soit je vais mieux, França, 2008. Realização: Laurence Ferreira Barbosa. Com: Florence Thomassin, François Civil, Marine Barbosa, Carine Barbosa, Thomas Cerisola, Valérie Lang, Emile Berling.

21.11.09

Longe da Terra Queimada



















Um dos ódios de estimação de parte da crítica portuguesa e não só, é o mexicano Alejandro González Iñárritu, realizador de 'Amor Cão', '21 Gramas' ou 'Babel'. Todos estes filmes têm em comum o argumentista, Guillermo Arriaga, e este é sem dúvida um dos principais 'culpados' da marca autoral destes filmes, caracterizados por  narrativas não lineares, hiatos temporais, episódios segmentados.

Tal como outros argumentistas 'autores', também Arriaga não resistiu a passar para trás da câmara e realizar um seu argumento. Arriaga é acima de tudo um bom contador de histórias, e essa característica mantém-se nesta obra, em que dois segmentos espaçados temporalmente se vão encandeando, até formarem o puzzle completo, retratando um drama familiar, numa zona de fronteira.

A realização é 'neutra', pondo-se ao serviço do argumento, há um bom naipe de actores, destacando-se Kim Basinger e Charlize Theron, e no global é um filme sólido e adulto, em que o espectador não dá o seu tempo por perdido. Mas, de facto, talvez não ultrapasse o nível de um episódio médio de 'Californication' ou de 'Dexter'...

The Burning Plain, E.U.A., 2008. Realização: Guillermo Arriaga. Com: Kim Basinger, Charlize Theron, Joaquim de Almeida, José María Yazpik, Jennifer Lawrence

20.11.09

Épicos

















(...) penso que, actualmente, uma vez que os homens de letras parecem ter negligenciado os seus deveres épicos, a epopeia, estranhamente, foi salva para nós pelos westerns.

Jorge Luis Borges in 'Entrevistas da Paris Review', Tinta da China Edições

(Julho de 1966)

16.11.09

Megafone






















[O cinema] é de tal modo um meio do realizador que, dos filmes, surgiu apenas um escritor, trabalhando exclusivamente como guionista, a quem pode ser atribuida a designação de génio do cinema. Refiro-me áquele tímido e encantador camponês que foi Zavattini. Que sentido visual! Oitenta por cento dos bons filmes italianos foram feitos a partir de guiões de Zavattini - todos os De Sica, por exemplo.
De Sica é um homem fascinante, uma pessoa talentosa e profundamente sofisticada; no entanto, é acima de tudo um megafone de Zavattini, os filmes dele são em absoluto criações de Zavattini: todos os matizes, os ambientes, o mais pequeno pormenor está claramente indicado nos guiões de Zavattini.

Truman Capote in 'Entrevistas da Paris Review', Tinta da China Edições

14.11.09





13.11.09

I'm still unemployed

Did you bang her?
- No
What, hum job? Hand job?
-Man, no. No jobs. I'm still unemployed.

[(500) Days of Summer ]

12.11.09

Os limites do controlo
















Jim Jarmush leva aqui o seu minimalismo discreto (nos dois sentidos da palavra) e melancólico quase ao nível da abstracção.

O impassível Isaach De Bankolé, assassino contratado, pose à samurai (o de Melville e os outros), vagueia por Madrid, por Sevilha, por uma aldeola andaluza, até finalmente cumprir a sua missão. O seu rosto de pedra, os seus fatos elegantes, os seus rituais (2 cafés em chávenas separadas, as trocas de caixas de fósforos com diversas personagens, etc.) é o que interessa ao realizador. E a fotografia (de Christopher Doyle) e a banda sonora (Boris, Earth, Sunn O))),.. ) dão o tom adequado. O argumento não passa de um vago pretexto.

Jarmush permanece igual a si próprio e não sou eu que me queixarei: cada vez gosto mais dos seus filmes.

The Limits of Control, E.U.A./Espanha/Japão, 2009. Realização: Jim Jarmusch. Com: Isaach De Bankolé, Luis Tosar, Tilda Swinton, John Hurt, Gael García Bernal, Bill Murray, Paz de la Huerta.

8.11.09

Os Irmãos Bloom



















Durante 10 minutos, mais exactamente durante o período em que a personagem de Adrien Brody toma conhecimento com a de Rachel Weisz, pareceu-me estar a ver um filme de Wes Anderson. Pelo próprio Brody, por causa das famílias, dos objectos, do guarda-roupa, do tom melancolicamente excêntrico. E isso é bom, claro. Mas essa impressão foi-se desvanecendo por culpa do realizador: a câmara é muito vistosa e é dada muita importância ao argumento, uma história meia confusa que faz lembrar Guy Ritchie. E isso já não é tão bom, claro.

Tal como os dois irmãos Bloom têm dificuldade em cortar o laço umbilical que os liga, apesar das personalidades opostas, Ruffalo teatral, exibicionista, cheio de ideias, e Brody melancólico, sedutor, recatado, também Rian Johnson não se consegue livrar desta bipolaridade. E tem dificuldade em encontrar o tom certo entre a história de golpes cheia de reviravoltas e a história de amor entre dois desadaptados; em conseguir canalizar alguma da energia dispersa numa realização ostensiva para se concentrar mais na atenção aos pormenores, aos sentimentos.

No meio disto tudo o filme perde-se e Johnson acaba por desbaratar algum do crédito ganho com a sua muito boa estreia, ‘Brick’. Um terceiro filme servirá para tirar as dúvidas sobre o caminho que seguirá.

The Brothers Bloom, E.U.A., 2008. Realização: Rian Johnson. Com: Rachel Weisz, Adrien Brody, Mark Ruffalo, Rinko Kikuchi, Maximilian Schell, Robbie Coltrane.

4.11.09

Parabéns!











É assim que o Google hoje comemora o 20º aniversário dos extraordinários Wallace and Gromit, que apareceram pela 1ª vez em 1989 na curta-metragem 'A Grand Day Out', realizada por Nick Park, dos Estúdios Aardman.

Seguir-se-iam mais duas curtas, as obras-primas absolutas  'The Wrong Trousers' (1993) e 'A Close Shave' (1995), surgindo em 2005 a primeira e até à data única longa-metragem, 'The Curse of the Were-Rabbit'.

Os fãs podem ainda descobrir na net uma quarta curta-metragem feita para a televisão em 2008, 'A Matter of Loaf and Death' .

O método é sempre o mesmo: animação stop motion com bonecos de plasticina; os resultados também não variam muito: oscilam entre o muito bom e o génio puro.

A Grand Day Out  (9/10)
The Wrong Trousers (10/10)
A Close Shave (10/10)
The Curse of the Were-Rabbit/A maldição do Coelhomem (8/10)
A Matter of Loaf and Death (7/10)

OBS.: Tanto 'The Curse...' como as 3 primeiras curtas se encontram editadas em dvd por cá.