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17.12.09

Top 10 - Filmes da década - 8º

Duplo Amor
Two Lovers, James Gray, 2008



O meu filme do ano é também um dos meus filmes da década. Um realizador sabático (ao que parece cada vez menos) e um actor genial (pelo menos antes de ficar oficialmente maluco), dão-nos um melodrama sobre a resignação como há muito não víamos.

Ele apaixonou-se, a coisa falhou e ele quase desistiu. Atirou-se outra vez, tornou a falhar e resignou-se à vidinha como ela é. Uma obra-prima dos nossos dias, que só não ponho mais à frente nesta lista por pudor em relação à pouca distância temporal decorrida desde que a vi (e revi).

Top 10 - Filmes da década - 9º

My Blueberry Nights — O Sabor do Amor

My Blueberry Nights, Wong Kar Wai, 2008



'My Blueberry Nights' é um mal-amado de Wong Kar Wai, mas eu acho fascinante esta transposição do seu universo romântico e de solidão para a paisagem on the road americana ao som de Cat Power.

E o que dizer de David Strathairn, de Rachel Weisz, de Natalie Portman? E o que dizer daquele final?

Kar Wai é um dos grandes realizadores em actividade, quer filme em Hong Kong, na Argentina, nos States, ou na lua.

16.12.09

Top 10 - Filmes da década - 10º

Mystic River
Mystic River, Clint Eastwood, 2003



O que primeiro sobressai em 'Mystic River' é o argumento, baseado num policial de Dennis Lehane. É um argumento intrincado, que toca em temas como o destino, as marcas inultrapassáveis do passado, a difusa fronteira entre a inocência e a culpa.

A seguir, o extraordinário elenco: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Márcia Gay Harden, Laura Linney, Laurence Fishburne.

E, só depois, a discreta mise-en-scène de Clint Eastwood (e a sombria fotografia de Tom Stern).

Será, provavelmente, um dos filmes mais contidos de Eastwood, e onde a sua marca ‘autoral’ estará mais difusa. Talvez contribua para isso ele própro não actuar - salvo erro apenas pela segunda vez num filme seu - mas a sua persona não deixa de estar presente, algures entre as personagens de Kevin Bacon e de Sean Penn.

Para um fã de policiais como eu - e, obviamente, este filme é muito mais do que um policial - é uma bênção um argumento destes encontrar um realizador do calibre de Eastwood.

14.12.09

Histórias de Caçadeira

















Um homem morre e no seu funeral aparecem os três filhos de um primeiro casamento, que ele abandonou. O mais enigmático, Son (Michael Shannon, actor com carisma de estrela) mostra o seu repúdio pelo morto. Os filhos do segundo casamento do homem, da sua segunda vida, após se ter tornado um cristão devoto e um pai de família consciencioso, não gostam.

'Histórias de Caçadeira' é um filme de ódios e vinganças, um olhar sobre a América profunda inserido numa linhagem que o cinema independente americano tem sabido prolongar desde os Westerns.

É um filme melancólico e minimalista, apoiado nos actores, na paisagem, e na memória de um certo cinema (americano). Não o perca.

P.S.: Dado o desfasamento temporal entre as estreias dos filmes e a sua referência aqui, que tem sido apanágio desta segunda vida do Duelo, quando eu digo 'Não o perca', leia-se, 'arranje-o em dvd ou na net', bem entendido...).

Shotgun Stories, E.U.A., 2007. Realização: Jeff Nichols. Com: Michael Shannon, Douglas Ligon, Natalie Canerday, Glenda Pannell, Lynnsee Provence, Michael Abbott Jr., David Rhodes, Travis Smith.

13.12.09

Topmania

O meu dicionário define década como 'série de dez anos', pelo que não será descabido chamar filmes da década aos do período 2000-2009 - embora pelo sentido mais corrente, em que houve a primeira década (ano 1 a 10), a segunda, e por aí adiante, o período a que chamaríamos década devesse ser 2001-2010. Pormenores. Vou então aderir à moda dos balanços da década e postar aqui os meus "10 filmes da década", ou seja os meus 10 filmes destes últimos 10 anos.

Depois, como sempre, postarei os meus 10 filmes do ano.

Finalmente, ando também a preparar um post com os meus 10 filmes de terror preferidos de sempre.

Em suma, reactivar a topmania é um dos grandes objectivos aqui do tasco neste final de ano.

11.12.09

"O que o Porto não precisa"















Não tenho nenhuma ideia para a cinemateca no Porto e muito menos de como ela deve funcionar, mas uma coisa parece-me evidente: ela deve ser tudo menos democrática! Estou farto de cinemas democráticos no Porto. O Porto precisa tanto de cinemas democráticos como de concertos do Pedro Abrunhosa. Desde o outlet em Vila do Conde até ao Arrábida Shopping em Gaia o distrito do Porto está cheio de cinemas democráticos. A cada 10km de auto-estrada há um cinema democrático que não vale um charuto. Se fosse para abrir outro cinema democrático com o nome de Cinemateca não seria precisa nenhuma Cinemateca no Porto. O Porto precisa exactamente de um sítio em que a programação seja elaborada com todos os cuidados, mas que um desses cuidados não seja a mínima preocupação de atrair uma boa quantidade democrática de público. Para isso serve o que há.

10.12.09

Contra Informação













Qualquer pessoa no staff de um jornal acha que pode questionar a opinião do colunista de cinema. O director do jornal, que mostra um respeito cauteloso pelo seu crítico de música, deterá casualmente o crítico de cinema no corredor: "Bom, realmente deitaste abaixo o último filme do Louis Malle. A minha mulher não concorda nada contigo. Ela adorou".

Truffaut escreveu isto em 1975 ( 'What Do Critics Dream About?', incluído em 'The Films In My Life', tradução livre minha), mas em 2009 mantém-se toda a sua actualidade.

A propósito da nomeação de Maria João Seixas para directora da Cinemateca, o jornal i não se lembrou de ninguém melhor a quem pedir a opinião do que a Nuno Artur Silva, 'director-geral das Produções Fictícias'.

Quando for nomeado um novo director da Biblioteca Nacional, aguardamos que o i vá ouvir a opinião de Bruno Aleixo.

7.12.09

Actividade paranormal





















O fenómeno em que este filme se tornou é conhecido: foi rodado numa semana em casa do realizador, com quatro ou cinco actores amigos, e custou 10.000 dólares. Foi comprado pela Deamworks apenas para dele fazer um remake, esteve dois anos na prateleira do estúdio, mas acabou por ser lançado numa dúzia de salas, na sessão da meia-noite. E eis senão quando um marketing sabiamente orquestrado e o passa-palavra dos espectadores foram criando uma bola de neve, que neste momento se cifra na bela quantia de 107 milhões de dólares facturados, só nos States. (o slogan promocional foi "Não veja este filme sózinho", conselho que não pude seguir até porque, ironicamente... estava sozinho na sala de cinema!)

O argumento? Um casal ouve barulhos estranhos durante a noite. Ela, que já tem experiência de actividades paranormais desde criança (mas nunca lhe contou a ele) fica assustadíssima. Ele, que é ultra-racional, só pensa em desvendar o mistério. Compra então uma câmara  (pois claro) e coloca-a a filmar o tempo todo, mormente durante a noite (supostamente vemos todo o filme através desta câmara).

O resultado? Bom, confesso que passei dois terços do filme a pensar "tanto barulho por isto"? Mas, tal como o protagonista masculino, depois de tanta espera, de tantas imagens fixas nocturnas, de tantos ruídos e estremecimentos vagos (o realizador tem a inteligência de nunca mostrar demasiado), quando as coisas começaram a aquecer, senti alguma angústia. E, admito, os dez minutos finais conseguem levar a tensão a níveis acima da média, acabando o filme em grande (se bem que eu preferisse que acabasse numa cena anterior). E, talvez a intenção do realizador fosse mesmo pôr-nos a marinar até este crescendo final.

Tudo somado, diria que é um filme simpático, nos antípodas do 'gore' actual, que não desapontará os fãs de terror e é capaz de assustar verdadeiramente (e é esse o objectivo de um filme como este) o espectador menos batido...

Paranormal Activity, E.U.A., 2007. Realização:Oren Peli. Com: Katie Featherston, Micah Sloat, Mark Fredrichs, Ashley Palmer e Amber Armstrong.

30.11.09

Tetro



















Desde 'O Vigilante' (1974) que Coppola não escrevia um argumento original. E desde 'Rumble Fish' (1983) que não filmava a preto e branco. Não quero dizer que haja aqui um regresso às "origens". Há uma parte operática em 'Tetro' que remete para o universo de 'O Padrinho', para não falar do tal argumento, basicamente, uma vez mais, sobre a família. Apenas pretendo sublinhar que nesta "2ª fase" da carreira, Coppola faz o que muito bem lhe dá na veneta.

E se não há duvida que se mantém uma coerência com a obra passada, não é menos verdade que, tal como em 'Uma segunda juventude, ‘ há uma sensação de estranheza ao ver esta obra que não nos abandona. Há um lado onírico, espectral, que a torna diferente dos trabalhos anteriores a 'Uma segunda juventude'. Não provém tanto do argumento (Vicente Gallo, o filho de um maestro famoso, tenta lidar com o 'fantasma' do pai), nem do preto e branco (extraordinário), nem da maneira de filmar (Coppola continua um mestre); é algo de mais ténue, que tem a ver com alguma indefinição própria dos sonhos, em que nem tudo encaixa na perfeição, há buracos, zonas de sombra, momentos surreais, impressões fugidias. Lembrei-me várias vezes de Orson Welles, do desequilíbrio de vários dos seus filmes, ainda assim sempre belos, com planos que redimiam quase tudo.

Mas o exemplo mais próximo que me ocorre é o das obras finais de Hitchcock, em que este não parou de desconcertar os seus fãs com filmes insólitos e surpreendentes. E se eu não vou ao ponto de pôr 'Intriga em família' (ou 'Tetro') acima de 'Vertigo' (ou 'O Padrinho’), a verdade é que é um filme que não deixa de me fascinar.

Tetro, E.U.A./Itália/Espanha/Argentina, 2009. Realização:Francis Ford Coppola. Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura, Rodrigo de la Serna, Leticia Brédice, Mike Amigorena.

24.11.09

Ou Morro ou Fico Melhor



















O pai de Martial abandonou o lar para ir viver com uma mulher muito zen. A mãe preocupa-se com ele, mas acima de tudo com ela própria e com o seu romance com um homem que conheceu num bar.

Martial tem 16 anos e tem que se adaptar a uma nova escola e a uma nova vida e nada disso lhe agrada. Uma loirinha engraça com ele, mas ele é que não lhe liga nenhuma. Apenas as fantásticas gémeas Colette e Ernestine despertam o seu interesse. Andam sempre juntas, não ligam a ninguém e parecem saídas de um filme mudo. Aliás, durante metade do filme, uma delas só segreda ao ouvido da outra, que é por assim dizer a porta-voz do dueto.

Elas vão envolvendo Martial no seu mundo, nomeadamente no seu hobby que é penetrarem em casas de estranhos. Este sente-se desconcertado com o seu comportamento, mas ao mesmo tempo fascinado. Ou morre ou fica melhor.

Durante meio filme, esta nova obra (de 2008) de Laurence Ferreira Barbosa é uma muito divertida comédia sobre a adolescência, mas também sobre o mundo moderno, sobre as famílias disfuncionais. Depois engonha um bocado, normaliza-se - e nem vou repisar no lugar-comum que associa (filmes) franceses e sexo - e acaba de uma forma um bocado chocha. Mas, tal como para Martial, se o final não é brilhante, a experiência do que passamos vale a pena.

Talvez seja por ver(mos)  tantos filmes americanos, mas a verdade é que mesmo um filme 'corrente' francês como este me traz sempre um sabor diferente. Não saio de lá a pensar que vi mais do mesmo.

Soit je meurs, soit je vais mieux, França, 2008. Realização: Laurence Ferreira Barbosa. Com: Florence Thomassin, François Civil, Marine Barbosa, Carine Barbosa, Thomas Cerisola, Valérie Lang, Emile Berling.