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3.2.10

Anticristo


















Mais uma vez o Rei do Marketing planeou um filme ao milímetro para chocar, para se falar dele. Mas eu, infelizmente, só vi um desfilar de lugares comuns sobre culpa e sexo, sobre a natureza como espaço catártico mas impiedoso, com metáforas tão subtis como uma corça com um feto morto pendurado - e tudo embrulhado em montes de treta pseudo-terapeutica e psicologia de pacotilha a rodos. E cenas de sexo violento à fartura, é claro. E ainda um prólogo de uma foleirice indescritível. Ah, e não esquecer que tem uma fotografia "poética".

Já achei Von Trier pedante ('Europa'), insuportável ('Ondas de Paixão'), ridículo ('Dancer in the Dark') e demagogo ('Dogville'). Desta vez achei-o apenas infinitamente bocejante.

Antichrist, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polónia, 2009. Realização: Lars Von Trier. Com: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg.

1.2.10

Invictus














No ipsilon desta semana, John Carlin, autor do livro 'Playing the Enemy', que inspirou este filme, diz que talvez o facto de Clint Eastwood ter tratado tantas vezes ao longo da sua carreira o tema da vingança, tenha sido precisamente o que o atraiu neste projecto. É uma ideia sedutora: ao contrário de tantas personagens encarnadas por Eastwood, do vingador solitário, Mandela aguentou 27 anos num buraco às mãos dos algozes do Apartheid e saiu de lá focado no perdão e na reconciliação, nunca na vingança - precisamente por não ser um lonely ranger, mas antes um homem que pôs sempre o interesses nacional à frente de tudo. Um herói dos nossos tempos, sem dúvida. Mas, claro, não o tipo de herói que à partida seja bom material para um biopic, a não ser para puxar pela lágrima ou para a hagiografia. Qualquer psicopata sinistro a la Idi Amin é naturalmente mais interessante para um ficcionista.

Eastwood não seria a escolha mais óbvia para filmar esta história sobre Mandela, sobre Francois Pienaar, sobre a nova África do Sul, sobre racismo e reconciliação, mas também John Ford não seria a escolha óbvia para filmar 'As vinhas da ira', e algum do desconforto que por aí vemos em relação a 'Invictus' será do mesmo género do sentido à altura em relação a Ford.

Eastwood não conseguiu contornar todas as dificuldades inerentes ao projecto e, ao contrário de Ford no caso citado, fazer uma obra prima - nem sequer reinventar o biopic, esse género sensaborão por excelência - mas dá-nos um sólido filme humanista, um retrato justo e rigoroso de um homem excepcional, e põe-nos, de passagem, a apreciar um jogo de rugby durante largo tempo (desporto que dirá tão pouco à generalidade dos portugueses como à dos americanos). Dificilmente alguém teria feito melhor.

Invictus, E.U.A., 2010. Realização: Clint Eastwood. Com: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Julian Lewis Jones, Adjoa Andoh, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Leleti Khumalo.

31.1.10

Bem-Vindo a Zombieland

















'Zombieland' é uma divertida e despretensiosa comédia de zombies, que vai buscar o seu modelo mais ao road movie que aos filmes apocalípticos. Os zombies aqui são quase figurantes, pretexto apenas para as piadas e para pôr na estrada os pares Jesse Eisenberg /Woody Harrelson e Emma Stone/Abigail Breslin (sendo que há um claro desiquilíbrio a favor do par de actores masculino, muito mais carismático).

É o lado 'busca pessoal' das personagens que interessa ao realizador, ignorando o lado 'crítica social' com tanta tradição nos filmes de zombies menos mainstream (o zombie como representante do estranho, do irracional, do Outro em suma). Mas nem essa busca, motivada pela ansiedade de integração numa 'família', de que todas a personagens sofrem, é levada muito a sério, sendo a procura de uma boa piada o objectivo numero um. E aqui o filme cumpre bem os seus desígnios: é bem filmado, inteligente e divertido q.b., e termina num tour de force passado num parque de diversões, que merece figurar nas antologias do género. Last but not least proporciona ainda um cameo completamente desmiolado ao nosso actor favorito.

Em suma, é o filme ideal para ver num Domingo à tarde chuvoso. (sempre tive vontade de usar esta frase)

Zombieland, E.U.A., 2009. Realização: Ruben Fleischer. Com: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray, Derek Graf.

28.1.10

Tout Truffaut















"The relationship that seemed to exist between François Truffaut and his audience may be hard to explain to anyone who came to his films on video, or perhaps even to those who will see them for the first time during "Tout Truffaut," the complete retrospective of the director's work that opens Friday at New York's Film Forum and will tour 11 other cities. In the '60s and early '70s (the period in which I became a serious moviegoer), movie audiences greeted each new Truffaut film as a visit from a beloved friend. Maybe it had something to do with the feeling that they had grown up alongside Truffaut's alter ego, Antoine Doinel, played by Jean-Pierre Leaud in the director's first feature, "The 400 Blows" (1959), and in four subsequent features and one short. Perhaps they looked at the freedom and passion of "Jules and Jim" (1961) and -- ruinous though the passion depicted in that film is -- saw a vision of everything they wanted out of life. Or perhaps it was just that, at his greatest, Truffaut seemed the most tender of all filmmakers."

Continue a ler aqui este magnífico artigo sobre Truffaut.

26.1.10

Descubra a diferença















Pack Pier Paolo Pasolini

Colecção Pasolini



Solução: A diferença são 44,44€. E  ainda leva de bónus, além da 'Trilogia da vida', 'Porcile' e 'Ostia'.

25.1.10

Nas nuvens
















'Nas nuvens' tem um lado de critica ao capitalismo, um lado de comédia romântica e um lado de parábola sobre - não é bem sobre a solidão, como eu ia dizer - sobre ser-se avesso a compromissos, talvez.

Enquanto 'lado Michael Moore' safa-se bastante bem, mostrando com humor e eficácia o lado cego e inumano do Capitalismo (nomeadamente o made in USA), embora a personagem de Anna Kendrick não seja inteiramente credível (nunca percebemos bem como é que aquela rapariga voluntariosa mas ingénua convenceu tão depressa o patrão a seguir as suas ideias). Enquanto comédia romântica consegue o principal - dar-nos um par cuja química funciona (Vera Farmiga é fantástica e é bom Hollywood achar que uma mulher de 36 anos pode ser bonita). Quanto à tal questão dos compromissos, enfim, como o dizer, o filme é bastante reaccionário. A moral é mais ou menos: só é feliz quem tiver 1) um marido (ou mulher); 2) meia dúzia de filhos; 3) um cão. Mesmo a fuga ao happy end, que já vi elogiada, não é mais do que levar isto às últimas consequências: quem tanto desprezou a santa instituição da família (Ámen), não terá direito a ela mesmo depois de ver a Luz e de se arrepender.


Claro que ao mesmo tempo há um evidente lado irónico nisto tudo: o de ser George Clooney, o playboy e solteirão mais cobiçado de Hollywood, a representar o papel do solteirão e executivo de sucesso Ryan Bingham, que só se excita com milhas aéreas e cartões dourados, até que um dia vê uma vida solitária à sua frente. Mas não é de crer que Clooney tenha visto Bingham como o seu Fantasma dos Natais Futuros.
 
Up in the Air, E.U.A., 2009. Realização: Jason Reitman. Com: George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, Jason Bateman, Amy Morton, Melanie Lynskey, J.K. Simmons.

22.1.10

Top 15 Filmes de Terror - 1º

1.
Os olhos sem rosto
Les Yeux sans visage, Georges Franju, 1959

Geralmente o 'filme de terror' não é um género que associemos ao cinema francês. Mas não é por qualquer tipo de provocação que ponho em primeiro lugar este filme realizado pelo co-fundador da Cinemateca Francesa, Georges Franju. 'Os olhos sem rosto' é uma obra-prima única no género.

O argumento, inspirado nos filmes 'série Z' dos anos 30 e 40, é uma requintada variante do clássico cientista louco, que neste caso pretende transplantar o rosto de uma jovem na sua filha, desfigurada num acidente. A novidade é o tom poético e extremamente cuidado com que esta história de horrores é tratada, para o que muito contribui a extraordinária fotografia do mestre Eugen Schufftan (que ganhou o Oscar de melhor fotografia com 'The Hustler' e fotografou também 'Metropolis' de Lang e 'Napoleon' de Gance, além de filmes de Max Ophüls e Pabst, por exemplo).

Esta brilhante fusão de 'low' e 'high art' - que um crítico sintetizou como parecendo 'Jean Cocteau a filmar Edgar A.Poe' - foi, tal como os seus contemporâneos 'Psycho' e 'Peeping Tom', muito criticada à altura pelo seu conteúdo, mas também aqui o tempo se encarregaria da sua reabilitação. Há mesmo quem tenha lido este filme como uma espécie de 'actualização' do Dr.Mabuse, depois de serem conhecidos todos os horrores do Nazismo que aquele prenunciara. E é bem visto.

5º ao 2º
10º ao 6º
15º a 11º

21.1.10

Top 15 Filmes de Terror - 5º ao 2º

5.
A Semente do Diabo
Rosemary's Baby, Roman Polanski, 1968


Mais uma obra-prima do terror em que tudo se passa ao nível da sugestão (repare-se que nunca chegamos a ver o bebé do título original). Rosemary é vítima do Diabo ou apenas dos seus pesadelos induzidos pela culpa Católica? Eis uma das maiores provas do génio de Polanski, realizador que hoje em dia anda nas bocas do mundo por infelizes razões extra-cinematográficas.

4.
O despertar dos mortos-vivos
Night of the Living Dead, George Romero, 1968


Esta obra de estreia de Romero não é o primeiro filme de zombies, mas é seguramente o mais influente, definindo as regras que todos seguiriam depois. Há quem defenda que esta fita série B, filmada a preto e branco, misturando um estilo documental com gore e humor, foi o primeiro filme de terror a reflectir a sensação de mal-estar da sociedade sua contemporânea (o Vietname, o racismo, etc.). Como cereja em cima do bolo, tem o final mais cínico da história do cinema.

3.
Os Pássaros
The Birds, Alfred Hitchcock, 1963


Há quarenta e tal anos que os espectadores se perguntam, ao assistir a este filme: 'Porque é que os pássaros atacam?'; pergunta que Hitchcock deixa implacavelmente sem resposta. É um mal 'sem culpa', o que angustia e desorienta o espectador, que não tem qualquer tábua racional a que se agarrar.
Por isso, este que é talvez o filme em que Hitch mais se aproximou do filme de terror 'convencional', é uma das suas mais fascinantes e enigmáticas obras.

2.
Psycho
Psico, Alfred Hitchcock, 1960


Ao contrário da maioria dos meus confrades hitchcockianos, sabe-se lá porquê Psycho não estava entre os meus filmes preferidos de Hitch, até que uma revisão recente o pôs no seu devido lugar: no topo da sua obra, ou seja, entre os melhores filmes da história do cinema. E, como quase todos os filmes de Hitch, presta-se a múltiplas leituras, agradando a todos os públicos, desde os amantes de filmes de suspense/terror pipoqueiros, aos mais exigentes exegetas. Zizek, por exemplo, em 'Lacrimae Rerum' teoriza sobre o facto de, caso tivesse sido Frank Gehry a construir o Motel Bates, não teria havido a necessidade de Norman matar as suas vítimas...

20.1.10

Top Filmes de Terror - 10º ao 6º

10.
A Descida
The Descent, Neil Marshall, 2005


Citando-me a mim próprio: "O realizador Neil Marshall aprendeu com os mestres que em situações de desespero, tanto ou mais que o inimigo externo, o maior adversário que se depara a um grupo é a tensão que se cria entre os seus elementos". É isso mesmo. Um grande filme de terror dentro do velho espírito série B, com um elenco totalmente feminino.
 
9.
A Pantera
Cat People, Jaques Tourneur, 1942


Realizado sem um único efeito especial, aqui tudo se baseia  em jogos de luz e sombra e no poder da sugestão. Será a bela Irena Dubrovna (Simone Simon) uma mulher-felina, ou apenas uma mulher recalcada na sua sexualidade, que tem medo de consumar o casamento? Tourneur prefere que seja a imaginação do espectador a decidir, em vez de explicitar a violência sexual latente, como faria Paul Schrader no seu remake sem sentido de 1982.

8.
A Vítima do medo
Peeping Tom, Michael Powell, 1960


Pessimamente recebido a quando da sua estreia, com críticas insultuosas e histéricas, este filme quase que acabou com a carreira de Powell, sendo apenas resgatado do esquecimento muitos anos mais tarde graças ao esforço de fãs como Martin Scorcese.
É ainda hoje um filme impressionante, sobre Marl Lewis, um assassino-documentarista, que mata mulheres enquanto as filma. Mark foi vítima na infância das experiências sádicas do seu pai psicanalista, e é inegável a simpatia que o realizador, apesar de tudo, sente por esta personagem complexa ( Powell, numa entrevista, chegou a compará-la ao transtornado assassino de M, de Lang).
E talvez esta identificação, que passa para o espectador, tenha sido o que tanto perturbou as almas sensíveis da altura.

7.
O sexto sentido
The Sixth Sense, M.Night Shyamalan, 1999


Pouco há a acrescentar sobre esta famosíssima primeira obra de Shyamalan, à altura com 29 anos de idade. Apenas dizer que esta história de fantasmas foi a que mais hesitei em incluir no género 'filme de terror'. Mas depois achei que não só fazia sentido, como até seria dos mais arrepiantes filmes deste top.

6.
Carrie
Carrie, Brian de Palma, 1976


O crítico Adrian Martin definiu 'Carrie' como 'um operático melodrama de terror que mistura família gótica, fenómenos sobrenaturais e filme de teens'.
A obra de Stephen King tem dado origem a excelentes adaptações cinematográficas ('The Shining', 'Christine', 'Misery',...) e esta é das mais poderosas, muito por graça do talento do seu realizador (aquela sequência do baile...), um fã de Hitchcock que entraria com este filme para a primeira divisão do cinema americano, e, claro, da sua fabulosa actriz. Voltando a Martin: 'Sissy Spaceck é assombrosa no papel principal. O seu rosto e corpo contorcem-se como um efeito especial vivo para exprimir as insuportáveis contradições da experiência de Carrie; veja-se a alarmante mutação da jovem esquecida no baile em Rainha da Morte'.

19.1.10

Top Filmes de Terror - 15º a 11º

15.
O Gabinete do Dr.Caligari
Das Kabinett des Doktor Caligari, Robert Wiene, 1919


Provavelmente é defeito meu, que até sou um grande fã de cinema mudo, mas dificilmente encaro um clássico do mudo (digamos, um 'Nosferatu') como um filme de terror. Talvez no meu inconsciente o terror esteja demasiadamente associado a 'séries B', a low budgets, a códigos muito específicos, em que as obras de arte do mudo dificilmente se encaixam. Mais que medo, encantamento é o que sinto. Mas o fascínio que o imaginário deste filme exerceu sobre mim, com o cientista louco, o sonâmbulo meio morto-vivo, o argumento inesperadíssimo, não se esbateu até hoje e está indelevelmente associado ao género. E nem só de arrepios e saltos na cadeira vive o terror.

14.
O Regresso do mal
Halloween, John Carpenter, 1978


Eis um dos filmes de terror mais influentes de sempre, que deu origem a não sei quantos slasher films de terceira categoria. Claro que Carpenter não tem culpa disso, e as suas armas para nos angustiar são o suspense e o voyeurismo (à Hitchcock) e não o gore que os horror teen movies adoptariam depois. Pegar numa pacata cidade e abalar a sua 'normalidade' é um must do cinema americano. 'Halloween' é um dos exemplos mais conseguidos.

13.
Anjo ou demónio
Ôdishon (Audition), Takeshi Miike, 1999


'Kiri, kiri, kiri' (algo como 'mais fundo, mais fundo') murmura docemente a bela Asami enquanto perfura com agulhas os olhos do seu apaixonado Aoyama, numa espécie de vingança feminista demente que encerra violentamente um filme que durante uma hora parecia um melodrama suave.
Realizado pelo hiperactivo Takeshi Miike, um ano depois do sucesso mundial de Ringu, de Hideo Nakata, é talvez a melhor prova da vitalidade do cinema japonês no género terror. Ninguém que veja este filme se esquecerá dele, garanto.

12.
A máscara da morte vermelha
The Mask of the Red Death, Roger Corman, 1964


Visualmente deslumbrante, com um uso fantástico das cores e da luz (a fotografia é de Nicholas Roeg), com o grande Vincent Price a comandar as operações como o satânico Principe Prospero, esta é a minha preferida das excelentes adaptações que Corman fez de Poe - e é, para muitos, a sua obra-prima.

11.
Aquele Inverno em Veneza
Don't Look Now, Nicholas Roeg, 1973


Baseado num conto de Daphne du Maurier (a autora de 'A pousada da Jamaica', 'Rebecca' ou 'Os pássaros', todos adaptados por Hitchcock), 'Don't look Now' passa-se numa Veneza inquietante e poética, para onde um casal se muda para tentar recuperar da morte da filha. Roeg cria um ambiente verdadeiramente angustiante, à medida que o homem vai ficando obcecado com a ideia de que vê a filha, que morreu afogada, a vaguear pela cidade, culminando com uma cena que merece estar presente em qualquer antologia de finais arrepiantes.
Curiosamente, à altura,  o filme ficou famoso foi por uma muito realista cena de sexo entre o casal (Donald Sutherland e Julie Christie) - é sabido que sexo no cinema era só entre amantes, as crianças 'legitimas' eram trazidas por cegonhas.