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11.4.10

As ervas daninhas


Há um aspecto desconcertante neste novo filme de Resnais: onde o encaixar. Inicialmente pareceu-me que teria algo de 'Corações', porventura o seu filme mais caloroso; mas rapidamente me apercebi que os 'jogos' cerebrais, tão ao gosto de Resnais, lá estavam, para nos baralhar um pouco; entretanto, ri-me francamente numa mão cheia de cenas (nem sempre acompanhado pela sala); e, quando o filme passou mais abertamente para um registo de absurdo, que estivera sempre a pairar, desisti de vez de o tentar classificar.

Resnais (tal como Godard, tão diferente) tem um lado cerebral muito vincado que me impede de aderir totalmente aos seus filmes. Este não foi excepção, mas a sua inteligência, o seu modo engenhosamente divertido de apresentar as situações (aquele falso 'Fim' ao som da música da 20th Century Fox...), o domínio que o realizador tem de todos os elementos (mais uma vez os cenários merecem um destaque especial), os actores, magníficos como sempre, seduziram-me e por vezes até me encantaram.

Aos 87 anos - só será batido neste campo por Manoel de Oliveira - o realizador francês mantém-se em excelente forma.

Les Herbes Folles, França/Itália, 2009. Realização: Alain Resnais. Com: André Dussollier, Sabine Azéma, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Anne Consigny.

8.4.10

44

7.4.10

Destaques de Março

A pedido de inúmeras famílias (um amigo e uma leitora), rendi-me às estrelinhas (conferir no post abaixo). E cinema com estrelas é outra coisa.
Por razões, vá lá, estéticas (desde que mudei de template, depois de um amigo ter criticado a pobreza franciscana do anterior, que passei a ligar a estas coisas) os destaques passam, como se nota, para post próprio.



Destaque: O muito, muito divertido 'O fim do Outono', antepenúltimo filme de Ozu, realizado três anos antes da sua morte (com apenas 60 anos). Onde três velhos amigos resolvem fazer de casamenteiros, tentando arranjar um marido, não só para a filha de um amigo falecido, como também para a sua viúva. Simplicidade de meios e agudeza na análise das relações humanas numa sociedade em mudança, como foi imagem de marca do grande mestre Japonês. Imprescindível

Surpresa: As duas primeiras adaptações da trilogia Millenium. Dois competentes thrillers negros (melhor o primeiro), com sotaque sueco.

Cromo: O final, do até aí excelente, 'O Americano tranquilo': aqui o final do romance de Greene é totalmente deturpado, para o livrar do "antiamericanismo". E é estranhíssimo, mesmo para quem nunca leu o livro. Desde 'The Bad Seed' que não via uma coisa assim!

5.4.10

Filmes de Março

Como é habitual (ou era, e conto que volte a ser), a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 5 estrelas.


*****
O fim do Outono, Yasujiro Ozu, 1960
Fantastic Mr.Fox, Wes Anderson, 2009

****
Desaparecida!, Alfred Hitchcock, 1938
O Americano tranquilo, Joseph L. Mankiewicz, 1958
Dune, David Lynch, 1984
Estado de guerra, Kathryn Bigelow, 2009
Shutter Island, Martin Scorsese, 2010

***1/2
Point Break, Kathryn Bigelow, 1991
O Mensageiro, Oren Moverman, 2009
New York, I Love You, vários, 2009
Heartless, Philip Ridley, 2009
Alice no país das maravilhas, Tim Burton, 2010

***
Fernando Lopes, Provavelmente, João Lopes, 2008
Millenium 1 - Os homens que odeiam as mulheres, Niels Arden Oplev, 2009
Millenium 2 - A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo, Daniel Alfredsson, 2009

**1/2
Los Cronocrímenes, Nacho Vigalongo, 2007
Fora de controlo, Martin Campbell, 2010

0
Jennifer's Body, Karyn Kusama, 2009

1.4.10

Canção de amor e saúde


Depois do excelente ‘Rapace’, “Canção de amor e saúde ” foi para mim uma grande desilusão. Esta curta tem semelhanças com a anterior – João Nicolau é um realizador, para não dizer que é um auteur : dá-nos o retrato de uma geração (glup!) através de uma mera personagem; mantém um tom joãocesarmonteiriano e original ao mesmo tempo; e saca da cartola planos fantásticos (a sequência dos créditos iniciais é uma ideia magnifica).

Mas perde a concisão do filme anterior e entra em devaneios escusados e que para mim não fizeram qualquer sentido. Dá a ideia que tinha filme para 10 minutos e resolveu esticá-lo para meia hora, enchendo o tempo com sequências por vezes bonitas mas que esquecem o excelente inicio. Ou, se calhar, o que lhe interessava era filmar essas sequências surreais, os raccords pouco usuais, os planos estranhos, e arranjou uma história à sua volta. Seja como for, nunca me pareceu bater a bota com a perdigota, diluindo-se muita da originalidade que lhe reconheci em ‘Rapace’.

‘Rapace’ parecia um filme da maturidade, ‘Canção de amor e saúde’ parece um filme dum puto talentoso a armar ao pingarelho.
 
(já publicado noutro lado aquando das Curtas de Vila do Conde)
 
Canção de amor e saúde, Portugal/França, 2009. Realização: João Nicolau. Com: Norberto Lobo, Marta Sena, Ana Francisca, Helena Carneiro, Andreia Bertini, Miguel Gomes.

31.3.10

Millennium 2: A Rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo


Devido à minha alergia congénita a best sellers, principalmente na subcategoria calhamaços, nunca li a trilogia 'Millenniun' do malogrado Stieg Larsson. Mas, enquanto Hollywood anda a tratar da respectiva adaptação à tela, resolvi espreitar as duas primeiras fitas com que os seus conterrâneos se anteciparam aos americanos.

‘Millenniun 1 – Os homens que odeiam as mulheres’, realizado por Niels Arden Oplev, é um thriller negro e lacónico, que a partir duma trama policial – a busca de uma mulher desaparecida há 40 anos – leva o jornalista Mikael Blomkvist a deparar-se com temas como as simpatias nazis na Suécia, fraudes económicas, o estupro, o assassínio em série e outros igualmente agradáveis. É uma visão verdadeiramente sombria da humanidade. Talvez a intriga seja despachada um bocado depressa de mais, mas não deve ser fácil condensar, mesmo em duas horas e pico, um tijolo do tamanho do do 1º volume da trilogia.

Em ‘Millenniun 2 – A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo’, que estreou a semana passada nas nossas salas, a realização passa para Daniel Alfredson, e talvez o filme esteja um furo abaixo do seu antecessor (Daniel não tem o enorme talento demonstrado pelo seu irmão Tomas). Mantém algumas das suas virtudes, como as impecáveis interpretações de Michael Nyqvist (Blomkvist, que tem uma invejável barriguinha que o seu sucessor hollywoodiano não terá de certeza) e Noomi Rapace (Lisbeth Salander), e um estilo despachado e frio, muito nórdico, passe o cliché.

Mas o ambiente não é tão negro e, embora o argumento se centre no passado da Lisbeth, a hacker-punk com traumas por desvendar, paradoxalmente as personagens parecem menos desenvolvidas, menos espessas, meros peões ao serviço da trama. Ou talvez isto seja uma mera consequência da ‘moral da história’ de Millennium, em que o mundo (ou pelo menos a Suécia) é visto como uma gigantesca Sin City, onde não passamos (nós os cidadãos comuns, e mais agudamente as mulheres) de meros títeres nas mãos de gente poderosa e sem escrúpulos que domina um mundo angustiante.

Que esta angústia, este ambiente malsão, passe para o espectador, é façanha que torna estes dois filmes não despiciendos.

Flickan som lekte med elden, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009. Realização: Daniel Alfredson. Com: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre, Sofia Ledarp, Georgi Staykov.

29.3.10

Kaurismäki é estranho, a Finlândia não


Os encantadores finlandeses que conheci não tinham nada de tenebrosos nem graves. (...) Não só não eram tenebrosos, como tinham humor e eram perspicazes, amáveis, comunicativos. Não se encontravam estranhezas dignas de registo. Anotei isto na dinâmica esplanada do Grande Hotel Kamp: "[Aki] Kaurismäki é estranho, a Finlândia não."

Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, Editorial Teorema

26.3.10

Fernando Lopes, Provavelmente

Fernando Lopes é o autor de um dos grandes filmes do cinema português: 'Belarmino'. Além disso, é uma personalidade que vale muito a pena conhecer: natural da Várzea, fugiu ao destino de lavrador, como nos diz, de trabalhar com a terra, para trabalhar com sons e imagens. Além de cineasta foi também director do 'Cinéfilo' - importante revista de cinema que hoje talvez poucos conheçam - e era uma 'personagem' lisboeta, de uma altura de muitas personagens lisboetas; é, ainda, um excelente conversador, com uma bela voz, calorosa, algo tímida, simpática. Dar-nos então a conhecer melhor Fernando Lopes torna este documentário precioso.

Porque de resto me parece que o realizador João Lopes - conhecido e estimável critico de cinema - falha um pouco o tiro. Tenta fugir ao previsível - o habitual documentário que segue cronologicamente a obra do autor através de imagens e comentários de amigos/colaboradores - centrando-se (e bem) nas palavras do realizador. Mas, na tentativa de evitar o óbvio, cai no extremo oposto e o filme é algo confuso, disperso, aleatório. Quem não conhecer a obra de Fernando Lopes também não é por aqui que a ficará a conhecer. Uma pessoa deixa-se levar agradavelmente pelas palavras do realizador, mas falta um enquadramento a essas palavras. E a realização também não ajuda, não evitando cair numa série de lugares comuns e por vezes tendo mesmo um aspecto estranhamente amador (o som, por exemplo, é francamente mau).

Nos extras do dvd há que salientar um magnífico depoimento de Baptista Bastos sobre o seu amigo Fernando Lopes, sobre Belarmino e sobre a Lisboa da época. Dá-nos, precisamente, o tal enquadramento que falta ao filme.

Fernando Lopes, Provavelmente, Portugal, 2008. Realização: João Lopes. Documentário.

24.3.10

Fora de Controlo



Do muito pouco que tinha lido sobre este filme - basicamente que tratava de um policia (Mel Gibson) a tentar vingar a morte da filha - ficara com uma vaga ideia de que seria uma espécie de Taken. Ou seja, um bom (esperava eu) thriller musculado e movimentado.

Mas não é bem isso. Embora tenha alguma acção e muita mortandade, é, antes, um conspiracy thriller, (sub)género de nobre tradição no cinema americano, mas cujo argumento aqui não passa do bê-a-bá, envolvendo armas nucleares, governadores corruptos (um pleonasmo, a julgar por Hollywood), ecologistas radicais e agências governamentais secretas. Ainda tive esperança que isto não passasse dum McGuffin, mas infelizmente o filme é mesmo isto.

Mel Gibson e Ray Winstone, dois actores com carisma para dar e vender, o primeiro no papel de homem reservado e solitário, o segundo de cínico (com coração) e solitário, fizeram-me aguentar a coisa sem fastio, mas o final estapafúrdio fez-me retirar imediatamente alguns pontos ao filme. Pontos que tinha ganho por ser um filme adulto, com uma star (Gibson) com 54 anos e não um adolescente rançoso, com uma realização apesar de tudo competente. 

Ao comentar o filme com um amigo, ele respondeu-me lacónicamente que podia ser pior. É verdade. Mas também podia ser melhor. Bem melhor. Não vamos começar a nivelar tudo que chega de Hollywood por baixo...

Edge of Darkness, E.U.A./Grã-Bretanha, 2010. Realização: Martin Campbell. Com: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic, Shawn Roberts, David Aaron Baker, Jay O. Sanders.

23.3.10

Los cronocrímenes


'Los cronocrímenes', realizado por tuta e meia pelo espanhol Nacho Vigalondo, ganhou uma série de prémios em festivais de cinema fantástico e tornou-se um pequeno fenómeno de culto.

O argumento, também escrito pelo realizador, parte dum tema clássico – a viagem no tempo – mas com uma variante curiosa: o seu protagonista anda para trás no tempo… uma hora.

'Los cronocrímenes' enreda-se nos habituais paradoxos que os saltos temporais suscitam, e o espectador avisado não se preocupa demasiadamente com alguns buracos que apareçam no argumento nem quebra demasiadamente a cabeça à procura deles.

Posto isto, a partir de meio filme o argumento é razoavelmente previsível e não trás nada de novo. O realizador, no entanto, tem um estilo despachado, faz das fraquezas (o filme tem 4 actores - e um é o próprio realizador; o cenário não é mais do que uma casa e os seus arredores; a máquina do tempo parece saída dum filme dos anos 50) forças (tudo tem um saudável ar ‘série B’, não um ar ‘pobrezinho’) e não está ali para engonhar (a fita não chega à hora e meia).

Em suma, não sendo mais do que um divertimento, é ainda assim um muito razoável divertimento para os fãs do género (não vou ao ponto de o aconselhar à população em geral, não vá algum amigo mais sério me trepanar depois de o ver) – o tipo de filme que seria espectável ver no Fantasporto, se o Fantas não atraísse cada vez menos este tipo de filmes.

Los cronocrímenes , Espanha, 2007. Realização: Nacho Vigalondo. Com: Karra Elejalde, Candela Fernández, Bárbara Goenaga, Nacho Vigalondo.