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12.5.10

Líbano


Nas suas magníficas memórias ('O meu último suspiro', Fenda), Luis Buñuel diz: "Detestei 'Roma, cidade aberta' de Rosselini. Achei que o contraste fácil entre o padre torturado e, na sala contígua, o oficial alemão bebendo champanhe com uma mulher no colo era um procedimento repugnante."

Não concordando com D.Luis no que respeita ao excelente filme de Rosselini, lembrei-me destas palavras nos primeiros minutos de 'Líbano'. Um carro dirige-se ao tanque israelita onde se passa todo o filme. O atirador desobedece às ordens de disparar ('não consegui, nunca atirei em ninguém, só em latas') e em consequência um colega seu é morto. A seguir dispara sem aviso contra uma carrinha que se aproxima e - adivinhem -  mata um inocente vendedor de galinhas. Não diria que o procedimento é repugnante, mas não prima certamente pela subtileza - e condicionou desde logo a minha adesão ao filme.

O realizador Samuel Maoz foi soldado na primeira guerra do Líbano e percebe-se o que pretende: desconstruir a ideia feita do exército israelita como uma implacável máquina de guerra. O exército é constituído por rapazes como ele e outros, mal preparados, emocionalmente instáveis,  que queriam estar em toda a parte menos ali.  Mas, para demonstrar a sua tese, Maoz carrega demasiadamente nas cores e cai num outro extremismo: eu nunca me acreditei no bando de bebés chorões e assustadiços daquele tanque.

Naturalmente eu nunca estive na guerra do Líbano nem em qualquer outra e não posso contestar que as coisas eram mesmo assim; mas posso contestar a maneira do realizador mostrar as coisas, e esta sobre-simplificação exemplificativa e hiper-demonstrativa arruina o filme, que até parte duma boa ideia cénica (todo um filme passado nos escassos metros quadrados de um tanque de guerra) e é indubitavelmente bem filmado. Um tiro ao lado.

Lebanon, Alemanha/Israel/França, 2009. Realização: Samuel Maoz. Com: Oshri Cohen, Zohar Shtrauss, Michael Moshonov, Itay Tiran, Yoav Donat, Reymond Amsalem, Dudu Tassa.

11.5.10

Sondagem encerrada: Qual é o melhor filme de Hitchcock?


‘Vertigo – A mulher que viveu duas vezes’ foi o vencedor claro desta sondagem, com 40% dos votos. ‘Intriga Internacional’, ‘Janela Indiscreta’ e ‘Psycho’ compartilharam o 2º lugar com 14% dos votos cada, e ‘Os pássaros’ fechou o pódio com 7%. ‘Difamação’ teve 1 voto, tal como a opção ‘outro’ (note-se que ‘A corda’ e ‘Rebecca’ foram mencionados nos comentários). ‘Suspeita’ não mereceu a preferência de ninguém.

Refira-se que os leitores deste blog estão em sintonia com um sentimento generalizado entre os cinéfilos: nas clássicas listas do BFI/Sight & Sound, lideradas desde sempre pelo inevitável 'Citizen Kane', 'Vertigo' é o 2º na última votação dos críticos (e é o primeiro de Slavoj Zizek) e o 6º na votação dos realizadores, confirmando-se como o Hitch mais apreciado, e um dos filmes mais bem cotados de sempre entre os amantes da sétima.

10.5.10

Como desenhar um círculo perfeito


'Como desenhar um rculo perfeito' tem um argumento minimal (co-escrito pelo realizador e por Gonçalo M.Tavares): um adolescente taciturno, a descobrir a sexualidade, apaixona-se pela irmã gémea e sente-se algo perdido.

A irmã é carinhosa, protectora, até algo mais, mas não deixa de sair com outros homens (o que o perturba imenso); a mãe, com quem ele e a irmã vivem numa num velho casarão, é algo distante; e o pai, um escritor francês que vive sozinho num velho apartamento, levando uma vida vagamente decadente, acaba por não ter paciência suficiente para ele.

Este é acima de tudo um filme de ambientes: as casas velhas, o clima sombrio, o sexo casual (os encontros ocasionais do pai, da irmã, presume-se que da mãe, as festas adolescentes), com um erotismo sempre latente (as belas Joana de Verona e Beatriz Batarda) e um tom geral melancólico e lacónico.

(abra-se aqui parênteses para notar alguns paralelos interessantes com 'Goodbye Irene': as casas velhas, o bilinguismo, uma Lisboa escura).

Não é um filme perfeito: a parte que Guilherme (Rafael Morais) passa com o pai é um pouco arrastada e a arriscada cena final safa-se no limite. Mas, de facto, envolve-nos na sua atmosfera gubre e rarefeita - mas não totalmente desagradável - e neste aspecto parece-me completamente conseguido.

Não me parece é que venha a ter o sucesso (de estima e de público) que 'Alice' teve - aqui não há uma 'história' forte a que o espectador se possa agarrar - mas a mim tocou-me indubitavelmente mais.

Como desenhar um círculo perfeito, Portugal, 2009. Realização: Marco Martins. Com: Rafael Morais, Joana de Verona, Beatriz Batarda, Daniel Duval, Lourdes Norberto.

6.5.10

Qual é o melhor filme de Hitch?

Deixe a sua opinião na sondagem aqui ao lado. Começo eu: voto em Intriga Internacional!

5.5.10

Scorsese's 11 Scariest Horror Movies of All Time


Martin Scorsese elege os seus 11 filmes de terror mais assustadores. Em primeiro lugar está o clássico 'The Haunting', de Robert Wise, e em décimo esta pérola. Uma lista a não perder, ou não fosse Marty um cinéfilo de primeira apanha.

(descoberto via coisas do arco da velha)

4.5.10

Soul Kitchen


‘Soul Kitchen’ é um filme em crescendo. Não parece prometer muito de início, mas pouco a pouco vai-se enchendo de vida, de cores, de música, à medida que se vão sucedendo mil peripécias na vida de Zinos Kazantsakis, um jovem greco-alemão proprietário de um restaurante em Hamburgo (o excelente Adam Bousdoukos, também co-argumentista do filme com o realizador).

O imaginativo e vibrante genérico final, exemplifica bem o espirito deste despretensioso, divertido e algo melancólico feel good movie.

Ainda não foi desta que Fatih Akin realizou o grande filme de que parece ser capaz, mas continua a manter a bitola a bom nível.

Soul Kitchen, Alemanha, 2009. Realização: Fatih Akin. Com: Adam Bousdouks, Moritz Bleibtreu, Birol Ünel, Anna Bederke, Pheline Roggan.

3.5.10

Greenberg


É bom habitar no universo do cinema independente americano. Qualquer deprimido, a braços com um desgosto amoroso, uma deriva emocional, ou a passar por uma qualquer crise, tem um remédio santo para a maleita: mete-se num avião e vai passar uma temporada à terra natal. Aí, é certo e sabido, encontra uma loirinha gira, compreensiva e terna, que fará tudo para lhe consolar as mágoas. Quanto mais alto ele gritar que só quer estar sozinho, mais carinhosamente ela o tomará nos seus braços. Resumindo, o homem ultrapassa a crise e encontra a mulher da sua vida.

Com mais variação, menos variação, este argumento já foi tantas vezes à tela que merece ser considerado um subgénero próprio do cinema indie dos States. Algo como os "filmes da loirinha redentora".

Aqui o deprimido é um Ben Stiller neurótico, à Woody Allen, a passar por uma crise dos 40 especialmente aguda e a loirinha de serviço (Greta Gerwig) é a empregada do seu irmão de sucesso, que lhe emprestou a casa de LA, onde Stiller/Greenberg regressa ao fim de largos anos em NY, reencontrando os amigos de juventude.

Como seria de esperar de um argumento de Noah Baumbach (escrito em pareceria com a sua mulher Jennifer Jason Leigh) os diálogos são inteligentes e tem uma mão cheia de boas deixas (como a melancólica "a juventude é um desperdício nos jovens") mas, por vezes - como nas cartas de reclamação que Greenberg escreve obsessivamente - nota-se demasiadamente a mão do argumentista. De resto, os actores cumprem na perfeição, e o tom geral é de elegante savoir faire.

Mas, lá está, no final não podemos deixar de sentir que é mais do mesmo - os tais filmes da loirinha redentora. Não são só os blockbusters que às tantas parecem todos iguais...

Greenberg, E.U.A., 2010. Realização: Noah Baumbach. Com: Ben Stiller, Greta Gerwig, Jennifer Jason Leigh, Rhys Ifans, Juno Temple, Dave Franco, Chris Messina.

2.5.10

Filmes de Abril

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 5 estrelas.


****1/2
Jules e Jim, François Truffaut, 1959
Disparem sobre o pianista, François Truffaut, 1960
Blade Runner, Ridley Scott, 1982
Tokyo-Ga, Wim Wenders, 1985

****
As ervas daninhas, Alain Resnais, 2009

***1/2
The Yakuza, Sidney Pollack, 1974

***
José Cardoso Pires - Diário de bordo, Manuel Mozos, 1998
Thirst - Este é o meu sangue, Park Chan-wook, 2009
De Paris com amor, Pierre Morel, 2010

*
Um cidadão exemplar, F.Gary Gray, 2009

29.4.10

10 filmes a que gosto de voltar

A propósito de uma conversa sobre o prazer de rever filmes (uma actividade intrigante para muito boa gente), uma amiga desafiou-me a listar 10 filmes a que eu volte de vez em quando, "que não sejam clássicos!"

Percebi a ideia. Referia-se, por um lado, a filmes mais recentes; mas não só: também a filmes que podemos nem considerar que sejam obras-primas, mas a que por um motivo ou por outro nos afeiçoamos, e a que gostamos de regressar.

Como eu gosto de desafios e, ainda mais de listas, cá vão, sem pensar muito, 10 filmes, que não são clássicos, mas que não ganham pó na minha dvdteca. Penso que cumpri as regras: 8 são dos anos '00 (e nenhum está no top que fiz destes anos),  1 dos anos 90, e 1 dos anos 80.
 
 
 
O Americano tranquilo, Phillip Noyce, 2002
Bela adaptação de um dos livros da minha vida. Michael Caine é o Thomas Fowler definitivo.

2 dias em Paris, Julie Delpy, 2007
O terceiro episódio, não oficial, da vida de Celine (Julie Delpy), depois de ‘Before Sunrise’ e Before Sunset’. Aqui chama-se Marion e não Celine, mas isso é um pormenor.

Broken Flowers, Jim Jarmush, 2005
Serei provavelmente o único jarmushiano a ter este filme como preferido do realizador. Não é um filme perfeito, demora um bocado a arrancar e tem um final meio trôpego. Mas enquanto Murray anda on the road é um magnífico retrato da América - da América de Carver mas não só - tirado no feminino. E que grupo de actores...

Insónia, Christopher Nolan, 2002
Sempre tive um certo fascínio pelo Alasca. Devido àquela paisagem e àquela ideia de que as pessoas vão para lá iniciar outra vida, pareceu-me sempre que era o cenário indicado para westerns, policiais ou noirs - ou seja, aqueles géneros em que o ambiente conta tanto como o argumento. Nolan teve a mesma ideia (tirada do filme homónimo de Erik Skjoldbjærg , de que este é um remake) e assina o seu melhor filme até à data. Al Pacino e Hillary Swank são os cowboys de serviço, Robin Williams o vilão.

Roger Dodger, Dylan Kidd, 2002
Uma mais que cínica visão das batalhas entre sexos, que proporciona uma interpretação do outro mundo a Campbell Scott.

A trilogia Bourne (The Bourne Identity, Doug Liman, 2002; The Bourne Supremacy, Paul Greengrass, 2004; The Bourne Ultimatum, Paul Greengrass, 2007)
Já achei que o segundo episódio não estava à altura, já defendi que o terceiro era o melhor de longe, até que percebi que é um daqueles raros exemplos em que vale a pena falar do conjunto. Jason Bourne é mesmo o herói do século XXI.

O ano do dragão, Michael Cimino, 1985
Esta incursão de Mickey Rourke na Chinatown nova iorquina, primeiro filme de Cimino depois de o flop de 'Heaven’s Gate' lhe ter dado cabo da carreira, é um excelente thriller, violento, repleto de acção, cínico, politicamente incorrecto. E só por Rourke já valia a pena.

O feitiço do tempo, Harold Ramis, 1993
A minha comédia romântica preferida. Mais um filme com uma personagem mais que cínica. Mais um filme com Bill Murray.

28.4.10

I have a dream


O meu sonho é fazer deste blog uma versão cibernauta deste (excelente e viciante) livro. Amanhã cá estará mais uma listinha.