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30.5.10

Dennis Hopper (17/05/1936-29/05/2010)


Dennis Hopper, um dos grandes iconoclastas de Hollywood, tinha há muito o seu lugar reservado na história do cinema, quer como actor, quer como realizador. Desde logo como actor de 'Rebelde sem causa' (Ray, 1955) e 'O gigante' (Stevens, 1956), dois dos três filmes protagonizados por James Dean, de quem era amigo e cuja morte aos 24 anos muito o traumatizou, segundo disse. Depois com o seu fantástico come back nos anos 80, como o sádico Frank Booth, no clássico 'Blue Velvet' (Lynch, 1986), um papel que parece feito à medida para si.

Como realizador é basicamente conhecido pela sua famosa estreia atrás das câmaras: 'Easy Rider', um pequeno filme independente que se tornou um símbolo da contracultura, um êxito comercial e que ajudou a enterrar o famigerado Código de Produção, contribuindo para uma nova era em Hollywood. Mas eu gostaria de o lembrar aqui também como o realizador de 'The Hot Spot' (1990), um neo noir em que um tal de Harry Madox (Don Johnson), vigarista de segunda categoria, se perde na América profunda entre a virginal Gloria (Jennifer Connelly, com 19 aninhos) e a femme fatale Dolly (Virginia Madsen ).

(post corrigido graças a uma paciente lição de português que me foi dada por um amigo, após eu ter incorrido numa das mais espectaculares calinadas dadas à luz neste blog)

25.5.10

Polícia sem lei


Werner Herzog esqueceu o sério lado metafísico de Ferrara e "limita-se" a filmar o Bad Lieutenant numa viagem alucinante e sonâmbula por uma devastada Nova Orleães pós-Katrina. Um Nicholas Cage possuído, em sofrimento constante devido a dores nas costas, snifa cocaína, rouba, chantageia, aposta, endivida-se, alucina e vai levando a vida numa constante fuga para a frente, encontrando apenas breves momentos de paz junto de uma call girl que o ama (a belíssima Eva Mendes). A banda sonora de Mark Isham, a câmara de Herzog, e o cinismo do argumento fazem o resto da trip. Não perca.

The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans, E.U.A., 2009. Realização: Werner Herzog. Com: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Fairuza Balk, Alvin `Xzibit` Joiner, Shawn Hatosy, Jennifer Coolidge, Brad Dourif.

24.5.10

Eu sou o amor


Luca Guadagnino filma uma endinheirada família milanesa na altura em que se começam a abrir brechas na implacável fachada construída pelo patriarca que está a morrer. 'São precisos dois homens para me substituir', diz ele ao passar o testemunho a filho e neto. Mas nada será mais como era.

O despertar da nora, uma esfíngica e enigmática Tilda Swinton, que passa todo o filme como que hipnotizada, até se apaixonar por um cozinheiro da idade do filho, é o maior dos tremores que abalarão esta família duma aristocracia démodée.

Guadagnino filma em tom operático, opulento, estilizado, este melodrama com ares viscontianos. A impressiva banda sonora de John Adams, as repetições das falas, a câmara em travellings altivos, a fotografia de Yorick Le Saux que foi beber aos museus de arte antiga, também hipnotizam o espectador, à maneira da sua protagonista. Este por vezes até pode cabecear, mas não pode negar o savoir-faire do empreendimento (pormenor: note-se o contraste das cenas filmadas no campo - o cenário dos encontros sexuais - a fazer lembrar a 'Lady Chatterley' de Pascal Ferran).

Não me parece caso para gritar obra-prima - mas é certamente um  filme distinto e que merece ser salientado no deserto que tem sido este ano cinematográfico.

Io Sono L`Amore, Itália, 2009. Realização: Luca Guadagnino. Com: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Alba Rohrwacher, Pippo Delbono, Diane Fleri, Marisa Berenson.

23.5.10

City Island — Segredos à medida


Inicialmente parece-nos estar em presença de mais um filme  de actores e argumento, escrito por um aluno de um curso de escrita criativa daqueles em que sai tudo igual. Mas a verdade é que o argumentista e realizador Raymond De Felitta nos consegue surpreender e elevar o filme: mantendo sempre um tom de comédia cool, injecta-lhe dois ou três momentos que abanam a sério o espectador, duma maneira de que este não está à espera. Contributo essencial são duas belas actrizes: Emily Mortimer e Julianna Margulies. Uma boa surpresa.

City Island, E.U.A., 2009. Realização: Raymond De Felitta. Com: Andy Garcia, Julianna Margulies, Emily Mortimer, Steven Strait, Alan Arkin, Dominik Garcia-Lorido.

20.5.10

Sondagem encerrada: Qual é o maior realizador da Nouvelle Vague?


François Truffaut foi o preferido dos leitores cá da casa com 43% dos votos. A seguir ficou Jean-Luc Godard com 30%  das preferências e Éric Rohmer fechou o pódio com 20%. Rivette teve 2 votos e Chabrol não mereceu a preferência de ninguém.

Comentários? Confesso que pensei que Godard limparia isto facilmente; a partir daí não fazia ideia. Pelo que a preferência por Truffaut, cineasta, crítico, pessoa, que muito me toca, me surpreendeu e encantou (não obstante eu ter votado racionalmente em Rohmer). Apenas tristeza pelo zero de Chabrol, que muito admiro, inclusive os últimos filmes. Mas até compreendo: podendo os leitores votar apenas numa opção, talvez tenha sido penalizado por ser, digamos, o menos carismático, aquele que despertará menos paixões.
Talvez em futuras sondagens seja de considerar a hipótese de escolha múltipla. Que parece ao caro leitor?

14.5.10

Qual é o maior realizador da Nouvelle Vague?

Deixe a sua opinião na sondagem aqui ao lado. Começo eu: voto em Éric Rohmer!

12.5.10

Líbano


Nas suas magníficas memórias ('O meu último suspiro', Fenda), Luis Buñuel diz: "Detestei 'Roma, cidade aberta' de Rosselini. Achei que o contraste fácil entre o padre torturado e, na sala contígua, o oficial alemão bebendo champanhe com uma mulher no colo era um procedimento repugnante."

Não concordando com D.Luis no que respeita ao excelente filme de Rosselini, lembrei-me destas palavras nos primeiros minutos de 'Líbano'. Um carro dirige-se ao tanque israelita onde se passa todo o filme. O atirador desobedece às ordens de disparar ('não consegui, nunca atirei em ninguém, só em latas') e em consequência um colega seu é morto. A seguir dispara sem aviso contra uma carrinha que se aproxima e - adivinhem -  mata um inocente vendedor de galinhas. Não diria que o procedimento é repugnante, mas não prima certamente pela subtileza - e condicionou desde logo a minha adesão ao filme.

O realizador Samuel Maoz foi soldado na primeira guerra do Líbano e percebe-se o que pretende: desconstruir a ideia feita do exército israelita como uma implacável máquina de guerra. O exército é constituído por rapazes como ele e outros, mal preparados, emocionalmente instáveis,  que queriam estar em toda a parte menos ali.  Mas, para demonstrar a sua tese, Maoz carrega demasiadamente nas cores e cai num outro extremismo: eu nunca me acreditei no bando de bebés chorões e assustadiços daquele tanque.

Naturalmente eu nunca estive na guerra do Líbano nem em qualquer outra e não posso contestar que as coisas eram mesmo assim; mas posso contestar a maneira do realizador mostrar as coisas, e esta sobre-simplificação exemplificativa e hiper-demonstrativa arruina o filme, que até parte duma boa ideia cénica (todo um filme passado nos escassos metros quadrados de um tanque de guerra) e é indubitavelmente bem filmado. Um tiro ao lado.

Lebanon, Alemanha/Israel/França, 2009. Realização: Samuel Maoz. Com: Oshri Cohen, Zohar Shtrauss, Michael Moshonov, Itay Tiran, Yoav Donat, Reymond Amsalem, Dudu Tassa.

11.5.10

Sondagem encerrada: Qual é o melhor filme de Hitchcock?


‘Vertigo – A mulher que viveu duas vezes’ foi o vencedor claro desta sondagem, com 40% dos votos. ‘Intriga Internacional’, ‘Janela Indiscreta’ e ‘Psycho’ compartilharam o 2º lugar com 14% dos votos cada, e ‘Os pássaros’ fechou o pódio com 7%. ‘Difamação’ teve 1 voto, tal como a opção ‘outro’ (note-se que ‘A corda’ e ‘Rebecca’ foram mencionados nos comentários). ‘Suspeita’ não mereceu a preferência de ninguém.

Refira-se que os leitores deste blog estão em sintonia com um sentimento generalizado entre os cinéfilos: nas clássicas listas do BFI/Sight & Sound, lideradas desde sempre pelo inevitável 'Citizen Kane', 'Vertigo' é o 2º na última votação dos críticos (e é o primeiro de Slavoj Zizek) e o 6º na votação dos realizadores, confirmando-se como o Hitch mais apreciado, e um dos filmes mais bem cotados de sempre entre os amantes da sétima.

10.5.10

Como desenhar um círculo perfeito


'Como desenhar um rculo perfeito' tem um argumento minimal (co-escrito pelo realizador e por Gonçalo M.Tavares): um adolescente taciturno, a descobrir a sexualidade, apaixona-se pela irmã gémea e sente-se algo perdido.

A irmã é carinhosa, protectora, até algo mais, mas não deixa de sair com outros homens (o que o perturba imenso); a mãe, com quem ele e a irmã vivem numa num velho casarão, é algo distante; e o pai, um escritor francês que vive sozinho num velho apartamento, levando uma vida vagamente decadente, acaba por não ter paciência suficiente para ele.

Este é acima de tudo um filme de ambientes: as casas velhas, o clima sombrio, o sexo casual (os encontros ocasionais do pai, da irmã, presume-se que da mãe, as festas adolescentes), com um erotismo sempre latente (as belas Joana de Verona e Beatriz Batarda) e um tom geral melancólico e lacónico.

(abra-se aqui parênteses para notar alguns paralelos interessantes com 'Goodbye Irene': as casas velhas, o bilinguismo, uma Lisboa escura).

Não é um filme perfeito: a parte que Guilherme (Rafael Morais) passa com o pai é um pouco arrastada e a arriscada cena final safa-se no limite. Mas, de facto, envolve-nos na sua atmosfera gubre e rarefeita - mas não totalmente desagradável - e neste aspecto parece-me completamente conseguido.

Não me parece é que venha a ter o sucesso (de estima e de público) que 'Alice' teve - aqui não há uma 'história' forte a que o espectador se possa agarrar - mas a mim tocou-me indubitavelmente mais.

Como desenhar um círculo perfeito, Portugal, 2009. Realização: Marco Martins. Com: Rafael Morais, Joana de Verona, Beatriz Batarda, Daniel Duval, Lourdes Norberto.

6.5.10

Qual é o melhor filme de Hitch?

Deixe a sua opinião na sondagem aqui ao lado. Começo eu: voto em Intriga Internacional!