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28.6.10

Alma perdida


‘Alma perdida’ é a primeira longa-metragem de Sophie Barthes, que além da realização assina o argumento charliekaufmaniano: Paul Giamatti, himself, recorre aos serviços de uma empresa que extrai almas; quer ficar sem esse ‘acessório’, que o angustia. Mas depois descobre que não consegue representar devidamente a peça que anda a ensaiar, ‘Tio Vânia’, e recorre à mesma empresa para lhe pôr uma nova alma... de uma poeta russa!

Sophie Barthes filma esta mistura de ficção ciêntifica e surrealismo com melancolia, serenidade e humor, não caindo jamais em excessos que a bizarria do argumento poderia propiciar. Claro que para isso conta com a preciosa ajuda de Giamatti e da sua neurótica e algo alienada persona.

É sem duvida uma inteligente e promissora estreia desta realizadora francesa de 34 anos - que além de Paris cresceu em sitios como o Irão, Abu Dhabi, Argelia, Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Caracas! - e diz ter Buñuel como mestre.

Cold Souls, E.U.A./França, 2009. Realização: Sophie Barthes. Com: Paul Giamatti, Dina Korzun, Emily Watson, David Strathairn, Katheryn Winnick, Lauren Ambrose, Boris Kievsky.

20.6.10

Nada Pessoal


Ela (nunca haverá nomes neste filme - nada pessoal) parte à boleia pela Irlanda, sem rumo, sozinha, por sua conta. Até que encontra uma casa junto ao mar, no meio de nada, onde mora um homem (Stephen Rea) isolado do mundo. Ela é rude, mal-educada, irritante. Mas ele é simpático com ela e oferece-lhe trabalho - ou porque se sente só, ou porque se sente velho, ou porque simpatiza com ela (inicialmente pensaremos que pensa em sexo, mas nisso o filme frustra a previsão). Ela deixa-se ficar e, com o tempo, naturalmente vai amaciando.

Stephen Rea é um belo actor e Lotte Verbeek é especialmente bem escolhida, tendo um palminho de cara e ar de working class simultaneamente. E realmente não há nada de errado com este filme: tem uma bonita fotografia e Urszula Antoniak filma verdadeiramente bem a agreste paisagem Irlandesa e a sua áspera e ruiva protagonista. Apenas é razoavelmente previsível e ligeiramente entediante, o que o impede de ser algo mais que simpático.

Nothing Personal, Irlanda/Holanda, 2009. Realização: Urszula Antoniak. Com: Stephen Rea, Lotte Verbeek, Tom Charlfa, Fintan Halpenny, Ann Marie Horan.

4.6.10

Filmes de Maio

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 5 estrelas.


*****
Pulp Fiction, Quentin Tarantino, 1994

****1/2
Polícia sem lei, Werner Herzog, 2009

****
Memento, Cristopher Nolan, 2000
Eu sou o amor, Luca Guadagnino, 2009

***1/2
Soul Kitchen, Fatih Akin, 2009
Como desenhar um circulo perfeito, Marco Martins, 2009
City Island - Segredos à medida, Raymond De Fellita, 2009

***
Paris vu par..., Claude Chabrol, Jean Douchet, Jean-Luc Godard, Jean-Daniel Pollet, Eric Rohmer, Jean Rouch, 1965
Greenberg, Noah Baumbach, 2010

**
Libano, Samuel Maoz, 2009

1.6.10

Herzog

Quem se indigna por Herzog se ter atrevido a fazer um remake do filme de culto de Ferrara, esquece-se que Herzog se atreveu a fazer um remake do 'Nosferatu' de Murnau (e com excelentes resultados, acrescento eu).

30.5.10

Dennis Hopper (17/05/1936-29/05/2010)


Dennis Hopper, um dos grandes iconoclastas de Hollywood, tinha há muito o seu lugar reservado na história do cinema, quer como actor, quer como realizador. Desde logo como actor de 'Rebelde sem causa' (Ray, 1955) e 'O gigante' (Stevens, 1956), dois dos três filmes protagonizados por James Dean, de quem era amigo e cuja morte aos 24 anos muito o traumatizou, segundo disse. Depois com o seu fantástico come back nos anos 80, como o sádico Frank Booth, no clássico 'Blue Velvet' (Lynch, 1986), um papel que parece feito à medida para si.

Como realizador é basicamente conhecido pela sua famosa estreia atrás das câmaras: 'Easy Rider', um pequeno filme independente que se tornou um símbolo da contracultura, um êxito comercial e que ajudou a enterrar o famigerado Código de Produção, contribuindo para uma nova era em Hollywood. Mas eu gostaria de o lembrar aqui também como o realizador de 'The Hot Spot' (1990), um neo noir em que um tal de Harry Madox (Don Johnson), vigarista de segunda categoria, se perde na América profunda entre a virginal Gloria (Jennifer Connelly, com 19 aninhos) e a femme fatale Dolly (Virginia Madsen ).

(post corrigido graças a uma paciente lição de português que me foi dada por um amigo, após eu ter incorrido numa das mais espectaculares calinadas dadas à luz neste blog)

25.5.10

Polícia sem lei


Werner Herzog esqueceu o sério lado metafísico de Ferrara e "limita-se" a filmar o Bad Lieutenant numa viagem alucinante e sonâmbula por uma devastada Nova Orleães pós-Katrina. Um Nicholas Cage possuído, em sofrimento constante devido a dores nas costas, snifa cocaína, rouba, chantageia, aposta, endivida-se, alucina e vai levando a vida numa constante fuga para a frente, encontrando apenas breves momentos de paz junto de uma call girl que o ama (a belíssima Eva Mendes). A banda sonora de Mark Isham, a câmara de Herzog, e o cinismo do argumento fazem o resto da trip. Não perca.

The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans, E.U.A., 2009. Realização: Werner Herzog. Com: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Fairuza Balk, Alvin `Xzibit` Joiner, Shawn Hatosy, Jennifer Coolidge, Brad Dourif.

24.5.10

Eu sou o amor


Luca Guadagnino filma uma endinheirada família milanesa na altura em que se começam a abrir brechas na implacável fachada construída pelo patriarca que está a morrer. 'São precisos dois homens para me substituir', diz ele ao passar o testemunho a filho e neto. Mas nada será mais como era.

O despertar da nora, uma esfíngica e enigmática Tilda Swinton, que passa todo o filme como que hipnotizada, até se apaixonar por um cozinheiro da idade do filho, é o maior dos tremores que abalarão esta família duma aristocracia démodée.

Guadagnino filma em tom operático, opulento, estilizado, este melodrama com ares viscontianos. A impressiva banda sonora de John Adams, as repetições das falas, a câmara em travellings altivos, a fotografia de Yorick Le Saux que foi beber aos museus de arte antiga, também hipnotizam o espectador, à maneira da sua protagonista. Este por vezes até pode cabecear, mas não pode negar o savoir-faire do empreendimento (pormenor: note-se o contraste das cenas filmadas no campo - o cenário dos encontros sexuais - a fazer lembrar a 'Lady Chatterley' de Pascal Ferran).

Não me parece caso para gritar obra-prima - mas é certamente um  filme distinto e que merece ser salientado no deserto que tem sido este ano cinematográfico.

Io Sono L`Amore, Itália, 2009. Realização: Luca Guadagnino. Com: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Alba Rohrwacher, Pippo Delbono, Diane Fleri, Marisa Berenson.

23.5.10

City Island — Segredos à medida


Inicialmente parece-nos estar em presença de mais um filme  de actores e argumento, escrito por um aluno de um curso de escrita criativa daqueles em que sai tudo igual. Mas a verdade é que o argumentista e realizador Raymond De Felitta nos consegue surpreender e elevar o filme: mantendo sempre um tom de comédia cool, injecta-lhe dois ou três momentos que abanam a sério o espectador, duma maneira de que este não está à espera. Contributo essencial são duas belas actrizes: Emily Mortimer e Julianna Margulies. Uma boa surpresa.

City Island, E.U.A., 2009. Realização: Raymond De Felitta. Com: Andy Garcia, Julianna Margulies, Emily Mortimer, Steven Strait, Alan Arkin, Dominik Garcia-Lorido.

20.5.10

Sondagem encerrada: Qual é o maior realizador da Nouvelle Vague?


François Truffaut foi o preferido dos leitores cá da casa com 43% dos votos. A seguir ficou Jean-Luc Godard com 30%  das preferências e Éric Rohmer fechou o pódio com 20%. Rivette teve 2 votos e Chabrol não mereceu a preferência de ninguém.

Comentários? Confesso que pensei que Godard limparia isto facilmente; a partir daí não fazia ideia. Pelo que a preferência por Truffaut, cineasta, crítico, pessoa, que muito me toca, me surpreendeu e encantou (não obstante eu ter votado racionalmente em Rohmer). Apenas tristeza pelo zero de Chabrol, que muito admiro, inclusive os últimos filmes. Mas até compreendo: podendo os leitores votar apenas numa opção, talvez tenha sido penalizado por ser, digamos, o menos carismático, aquele que despertará menos paixões.
Talvez em futuras sondagens seja de considerar a hipótese de escolha múltipla. Que parece ao caro leitor?

14.5.10

Qual é o maior realizador da Nouvelle Vague?

Deixe a sua opinião na sondagem aqui ao lado. Começo eu: voto em Éric Rohmer!