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5.8.10

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(o "autor" Stalone)

Canino


No pouco que fui lendo sobre ‘Canino’ pela net (aqui, por exemplo), vi referências a Haneke, a Wes Anderson, a ‘The Village’, de Shyamalan. E estes nomes fazem sentido – principalmente Haneke, que me parce uma referência incontornável (embora 'Canino' possua um erotismo alheio aos universos citados).

Será esse o ponto fraco deste elegante e sorumbático filme sobre uma família grega em que os filhos – já quase adultos - nunca saíram de casa e não conhecem o mundo exterior: faz sempre lembrar qualquer coisa. Recordo-me especialmente de, aquando de um plano fixo em que duas personagens, vestidas imaculadamente de branco, olham para nós, ter pensado “já vi isto em qualquer lado!” . E essa foi uma sensação recorrente. Paradoxalmente, parece-nos que, apesar da sua estranheza, quase estamos perante uma súmula de muito do cinema indy dos últimos anos.

Mas  uma súmula inteligente, bem feita e que acaba por ter uma personalidade própria - e apesar de tudo, mais violenta que o habitual.

Kynodontas, Grécia, 2009. Realização: Giorgos Lanthimos. Com: Christos Stergioglou, Michelle Valley, Aggeliki Papoulia, Mary Tsoni, Hristos Passalis, Anna Kalaitzidou.

3.8.10


Fiquei algo estupefacto com um texto de João Lopes no Cinema 2000, em que a propósito do inócuo 'A Origem' declarava, nem mais, que "o futuro já começou"! Por isso li com prazer este texto de Luís Miguel Oliveira. Parece-me que é cada vez mais necessário reafirmar certas coisas 'básicas', como: Que o cinema tem certamente uma história tecnológica mas não se reduz a ela nem a uma sucessão de “marcos” progressivamente “superados”, e que, antes pelo contrário, o que interessa nele são os objectos únicos, que por o serem resistem à camisa de forças da “evolução” e excluem a necessidade, ou a possibilidade, de serem “superados”? Como explicar, em suma, que qualquer random Griffith dos anos dez permanece… “insuperado”?

2.8.10

A Origem


Durante uma hora e um quarto ou uma hora e meia segui este 'Inception' com interesse, não obstante a presença, sempre irritante, de vários diálogos ‘explicativos’ – género ‘agora vou fazer isto para que aquilo aconteça’. Mas depois comecei a aborrecer-me.

O argumento começa a enrolar-se sobre si próprio, à volta de sonhos, sonhos dentro de sonhos, confusões sobre o que é sonho e realidade, e não sai dali. E o filme não tem muito mais para dar. Nolan é um bom realizador, não é um qualquer Michael Bay, mas aqui está muito longe de primar pela originalidade, andando algures entre a FC e a acção, entre um ‘Matrix’ e um ‘Bourne’, filmando com competência mas sem rasgo. Resta DiCaprio, que depois da sua pareceria com Scorsese está um grande actor e se destaca facilmente num elenco em piloto automático (as prestações femininas são especialmente anémicas).

Parece que Nolan está possuído daquele toque de Midas que transforma em êxito de bilheteira tudo o que faz, mas eu tenho saudades dos tempos de ‘Memento’ e ‘Insónia’, em que jamais me entediava durante um filme seu.

Inception, E.U.A./Grã-Bretanha, 2010. Realização: Christopher Nolan. Com: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite

16.7.10

O Escritor fantasma


'O escritor fantasma' é um thriller que, embora esteja colado à actualidade - um ex-primeiro ministro britânico é acusado de crimes de guerra pelo TPI por ter entregue suspeitos de terrorismo à CIA para serem torturados - tem a marca dos clássicos. Mantendo um tom impecavelmente sóbrio, agarra o espectador - mesmo o mais batido neste tipo de enredos - do início ao fim duma maneira que vai sendo rara hoje em dia.

Ewan McGregor está irrepreensível como o escritor fantasma que vai escrever as memórias do dito ex-PM e se vê envolvido numa história mais que nublosa, e Olivia Williams, com muito charme e distinção, saca discretamente um papelaço (como mulher do PM). Um regresso em grande forma de Polanski - que bem que o homem continua a filmar!

The Ghost Writer, França/Alemanha/Grã-Bretanha, 2010. Realização: Roman Polanski. Com: Ewan McGregor, Kim Cattrall, Olivia Williams, Pierce Brosnan, Timothy Hutton, Tom Wilkinson, Robert Pugh, James Belushi.

6.7.10

Partir


Suzanne é uma fisioterapeuta inglesa que veio para França trabalhar como au pair, casa com um médico local e assim ascende à burguesia bem instalada. Até que um dia se apaixona por um operário que vem fazer obras a sua casa e larga tudo por ele. Mas depressa descobre que a força do dinheiro (do marido) é muito poderosa…

‘Partir’ apoia-se numa grande actriz – Kristin Scott Thomas – e na câmara elegante de Catherine Corsini para ir prendendo o interesse do espectador mas, apesar de na última meia hora os acontecimentos se telenovelamexicanizarem, não deixa de lhe faltar sal, algo que o torne precisamente mais que uma história que vai prendendo a atenção do espectador.

2010 é o ano dos filmes bem cozinhados mas insossos.

Partir, França, 2009.  Realização: Catherine Corsini. Com: Kristin Scott Thomas, Sergi López, Yvan Attal, Bernard Blancan, Aladin Reibel, Alexandre Vidal.

28.6.10

Alma perdida


‘Alma perdida’ é a primeira longa-metragem de Sophie Barthes, que além da realização assina o argumento charliekaufmaniano: Paul Giamatti, himself, recorre aos serviços de uma empresa que extrai almas; quer ficar sem esse ‘acessório’, que o angustia. Mas depois descobre que não consegue representar devidamente a peça que anda a ensaiar, ‘Tio Vânia’, e recorre à mesma empresa para lhe pôr uma nova alma... de uma poeta russa!

Sophie Barthes filma esta mistura de ficção ciêntifica e surrealismo com melancolia, serenidade e humor, não caindo jamais em excessos que a bizarria do argumento poderia propiciar. Claro que para isso conta com a preciosa ajuda de Giamatti e da sua neurótica e algo alienada persona.

É sem duvida uma inteligente e promissora estreia desta realizadora francesa de 34 anos - que além de Paris cresceu em sitios como o Irão, Abu Dhabi, Argelia, Buenos Aires, Rio de Janeiro ou Caracas! - e diz ter Buñuel como mestre.

Cold Souls, E.U.A./França, 2009. Realização: Sophie Barthes. Com: Paul Giamatti, Dina Korzun, Emily Watson, David Strathairn, Katheryn Winnick, Lauren Ambrose, Boris Kievsky.

20.6.10

Nada Pessoal


Ela (nunca haverá nomes neste filme - nada pessoal) parte à boleia pela Irlanda, sem rumo, sozinha, por sua conta. Até que encontra uma casa junto ao mar, no meio de nada, onde mora um homem (Stephen Rea) isolado do mundo. Ela é rude, mal-educada, irritante. Mas ele é simpático com ela e oferece-lhe trabalho - ou porque se sente só, ou porque se sente velho, ou porque simpatiza com ela (inicialmente pensaremos que pensa em sexo, mas nisso o filme frustra a previsão). Ela deixa-se ficar e, com o tempo, naturalmente vai amaciando.

Stephen Rea é um belo actor e Lotte Verbeek é especialmente bem escolhida, tendo um palminho de cara e ar de working class simultaneamente. E realmente não há nada de errado com este filme: tem uma bonita fotografia e Urszula Antoniak filma verdadeiramente bem a agreste paisagem Irlandesa e a sua áspera e ruiva protagonista. Apenas é razoavelmente previsível e ligeiramente entediante, o que o impede de ser algo mais que simpático.

Nothing Personal, Irlanda/Holanda, 2009. Realização: Urszula Antoniak. Com: Stephen Rea, Lotte Verbeek, Tom Charlfa, Fintan Halpenny, Ann Marie Horan.

4.6.10

Filmes de Maio

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 5 estrelas.


*****
Pulp Fiction, Quentin Tarantino, 1994

****1/2
Polícia sem lei, Werner Herzog, 2009

****
Memento, Cristopher Nolan, 2000
Eu sou o amor, Luca Guadagnino, 2009

***1/2
Soul Kitchen, Fatih Akin, 2009
Como desenhar um circulo perfeito, Marco Martins, 2009
City Island - Segredos à medida, Raymond De Fellita, 2009

***
Paris vu par..., Claude Chabrol, Jean Douchet, Jean-Luc Godard, Jean-Daniel Pollet, Eric Rohmer, Jean Rouch, 1965
Greenberg, Noah Baumbach, 2010

**
Libano, Samuel Maoz, 2009

1.6.10

Herzog

Quem se indigna por Herzog se ter atrevido a fazer um remake do filme de culto de Ferrara, esquece-se que Herzog se atreveu a fazer um remake do 'Nosferatu' de Murnau (e com excelentes resultados, acrescento eu).