Pouco a pouco continuo a pôr em dia a agenda cinematográfica, vendo uma série de filmes que me escaparam na estreia. Deste, basicamente, tinha ouvido dois tipos de opinião de amigos: dos que o acharam uma obra-prima e dos que o acharam um spot publicitário de duas horas. Eu, munido de um saudável preconceito, inclinava-me a priori para a segunda, pelo simples facto de a realização ser de um estilista (ou costureiro, ou lá como é que se diz).
E, de início, o guarda-roupa imaculado, a fotografia estilizada, e dois ou três grandes planos ao ralenti até pareciam confirmar esta estética a la anúncio publicitário ou à vídeoclip (águas perigosas: o único realizador de cinema que conheço que se move bem nelas é Wong-Kar Wai).
Mas os meus piores medos não se confirmaram. Não só Tom Ford não se excede, como tem, de facto, um controlo rigoroso da mise-en-scène. E, factor decisivo, uma grande interpretação de Colin Firth faz efectivamente a sua personagem ser mais do que um excelente corte de cabelo e uns irrepreensíveis fato e gravata. O seu alheamento do mundo depois da morte do seu amado, o seu sentimento irreparável de perda, transpira para o espectador na proporção inversa da sua contenção (da personagem e do actor).
Talvez o contexto em que a história decorre não seja suficientemente explicitado (temos só a visão da personagem de Julianne Moore para isso), talvez o filme seja sempre demasiado “bonitinho”, ou “limpinho” (essa sensação nunca me largou totalmente), não atingindo – para o bem ou para o mal – a carga de um Tod Haynes, por exemplo, mas é indubitavelmente uma estreia marcante e Ford um nome a reter também por razões cinematográficas.
A Single Man, E.U.A., 2009. Realização: Tom Ford. Com: Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Jon Kortajarena.










