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12.10.10
Recuso-me a ir ver (I)
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O remake americano de 'Deixa-me entrar'. Esta mania hollywoodiana de, em vez de legendar filmes estrangeiros, fazer remakes deles, é uma coisa...
8.10.10
Daybreakers — O Último Vampiro
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Estamos em 2019, os vampiros são a maioria da população da terra e deparam-se com um problema vital: a escassez de sangue. Os humanos, a principal fonte de sangue, estão reduzidos a uns milhares de pessoas que se escondem como podem dos exércitos de vampiros caçadores. Há racionalização de sangue (só 5% numa chávena de café, por exemplo), nas ruas as pessoas (perdão, os vampiros, que agora são os 'normais') começam a amotinar-se e há vampiros que não resistem a alimentar-se do sangue de outros vampiros, o que os torna numa espécie de morcegos zombies que atacam tudo e todos semeando o pânico nas populações. Entretanto, as grandes corporações fornecedoras de sangue – mormente a Bromley Marks chefiada por Sam Neil - tentam sintetizar um sangue substituto que resolva o problema…
Este argumento – que parte de uma grande ideia, mesmo sem forçarmos analogias do género sangue/petróleo – prova que é possível fazer filmes de vampiros que vão para lá de amores adolescentes ao crepúsculo (tal como ‘30 dias de escuridão’ era outro bom exemplo de uma grande ideia).
Mas, infelizmente, não é bem desenvolvido. Não obstante uma bela fotografia estilizada, a fazer lembrar uma graphic novel, um sólido naipe de actores principais (Ethan Hawke, Willem Dafoe, Sam Neil; os secundários australianos, sinceramente, pareceram-me pouco convincentes), e um par de bons pormenores (os carros com modo de condução diurna; os vampiros sempre a fumar - afinal são imortais...), o filme rapidamente se torna previsível e as personagens não ganham espessura, raramente ultrapassando o cliché. Se Ethan Hawke ainda defende bem o seu hematologista com problemas de consciência, a personagem do seu irmão (Michael Dorman), um soldado caçador de humanos, pouco mais é que papelão reciclado e nunca a (pretensamente) complexa relação entre os dois é convincente. Tal como não o é a relação de Sam Neil com a sua filha foragida (ainda humana). Ou a de Hawke com a líder rebelde dos humanos (Claudia Karvan). Tudo fica pela rama e é pena.
Por várias vezes os frios tons metálicos e azuis com que é filmada a Bromley Marks me fez lembrar os ambientes de 'Gattaca', com o mesmo Ethan Hawke, que era aquilo que este 'Daybreakers' poderia facilmente ser mas não consegue: um bom sci-fi de culto. Assim permanece apenas um filme com um certo interesse para fãs de fantástico, que apesar de tudo ficarão com um olho nos irmãos Michael e Peter Spierig, os australianos que o escreveram e realizaram.
Daybreakers, Austrália/E.U.A., 2009. Realização: The Spierig Brothers. Com: Ethan Hawke, Willem Dafoe, Sam Neill, Claudia Karvan, Michael Dorman, Isabel Lucas.
7.10.10
Meu filho, olha o que fizeste!
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'Meu filho, olha o que fizeste!' (que na ‘tradução’ portuguesa parece o titulo de uma comédia foleira) foi o segundo filme de Werner Herzog a estrear nas salas portuguesas este ano, depois de ‘O polícia sem lei’ (são ambos de 2009). Embora nem sempre estreiem por cá, entre documentários e obras de ficção (e o alemão é um dos realizadores em que estes dois géneros mais se interligam e comunicam) Herzog mantém um ritmo imbatível de praticamente um ou dois filmes por ano há quase 4 décadas.
Ao contrário de ‘Polícia sem lei’, este filme (tal como ‘Rescue Dawn’ há uns anos) passou por cá praticamente despercebido. Numa das raras coisas que me lembro de ler sobre ele, dizia-se que seria uma espécie de Lynch em segunda mão (provavelmente por David Lynch ser produtor do filme e por haver uma cena com um anão). Mas não é. 'Meu filho, olha o que fizeste!' é Herzog até à medula.
Os planos são de Herzog; a utilização da banda sonora é de Herzog (atente-se numas cenas em que as imagens se suspendem, dando o primeiro plano à banda sonora – uma canção de Chavela Vargas, por exemplo – que parecem directamente saídas de um ‘Fata Morgana’); e, claro, Brad McCullum (Michael Shannon), o lunático possuído por uma ‘voz interior’, faz parte de uma longa galeria herzoguiana que inclui Aguirre, Fitzcarraldo, Cobra Verde ou Timothy Treadwell.
É certo que Michael Shannon, apesar de excelente actor e ter certa tendência para personagens alucinadas (lembremo-nos de 'Bug', por exemplo), não é Klaus Kinski (Christian Bale, outro grande actor, também se ressentia desse fantasma), e falta à sua personagem aquele tom épico de louco visionário que Kinski tinha nos genes – talvez, também, por haver um excessivo enfase ‘freudiano’ no facto de a sua progressiva loucura emergir da possessiva relação que tem com a mãe, e que o leva a viver intensamente as tragédias gregas, nomeadamente a 'Oresteia'.
Mas, ainda assim, mesmo que o filme possa ser acusado de ser uma variação em tom menor dos grandes Herzogs (e todos os grandes realizadores - pelo menos em vida - acabam por ser acusados de andarem sempre a fazer o mesmo), aquele fascínio que quase todos os filmes do realizador alemão – um dos grandes realizadores em actividade, insistamos– nos incutem, está sem dúvida presente. O que por si só é mais do que suficiente para incluir ‘Meu filho, olha o que fizeste!‘ entre as mais interessantes estreias do ano.
My Son, My Son, What Have Ye Done, E.U.A./Alemanha, 2009. Realização: Werner Herzog. Com: Willem Dafoe, Chloe Sevigny, Michael Shannon, Brad Dourif, Anthony Mackie, Michael Peña.
My Son, My Son, What Have Ye Done, E.U.A./Alemanha, 2009. Realização: Werner Herzog. Com: Willem Dafoe, Chloe Sevigny, Michael Shannon, Brad Dourif, Anthony Mackie, Michael Peña.
6.10.10
30.9.10
29.9.10
28.9.10
A Dança — Le Ballet de l´Ópera de Paris
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Não há aqui depoimentos, entrevistas, legendas de imagens, ou algo no género. O método de Wiseman é deixar a câmara falar. A câmara anda por lá, por toda a parte, e depois a montagem faz o resto (130 horas de filmagem reduzidas na mesa de montagem a 2h30).
Durante a fase inicial o filme centra-se essencialmente nos ensaios de vários ballets do reportório da companhia. Aí vemos o rigor e trabalho exigidos, mesmo estando a falar de bailarinos créme de la crème. Vemos indicações de coreógrafos, diálogos (num deles coreógrafo e bailarino falam em ‘X-Man’ e ‘Eduardo mãos de tesoura’ para precisar o que pretendem), comentários, muitas vezes humorísticos (componente intrínseca a Wiseman) de quem assiste. Mais para o fim a câmara detém-se principalmente no resultado final, dando-nos belíssimas sequências de espectáculos da companhia, parecendo-nos estar quase a ver um musical.
Pelo meio, em breves apontamentos, vamos vendo o que é necessário para o funcionamento do Ballet, o que está por trás da dança. A directora artística Brigitte Lefèvre explica a um coreógrafo a forte hierarquia existente entre bailarinas; numa reunião da administração discute-se uma recepção aos mecenas americanos (incluindo representantes do recém falido Lehman Brothers… já falámos do humor de Wiseman); assistimos a parte de uma sessão de esclarecimento sobre as novas leis laborais da função pública francesa; é-nos dado um plano duma costureira; ou dum caiador; ou da cantina; ou de um apicultor que cria abelhas no telhado do imponente Palais Garnier, sede da companhia; ou das catacumbas do palácio.
Sabiamente, com um ritmo e fluidez impecáveis, Wiseman vai-nos integrando no Ballet, fazendo-nos perceber a sua estrutura laboral, as suas dificuldades, o seu modo de funcionamento, tudo o que é necessário para o espectáculo funcionar, mostrando-nos simultaneamente o espectáculo, deslumbrando mesmo o espectador mais distante do meio (como eu).
Wiseman só estreou em Portugal com mais de 30 anos de atraso? Pois nunca é tarde de mais para ter uma lição de cinema deste calibre.
La Danse – Le Ballet de l`Opéra de Paris, França/E.U.A., 2009. Realização: Frederick Wiseman. Documentário.
24.9.10
Depois da vida
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- Eliot (Liam Neeson), o homem da funerária: 'É o que todos dizem...'
'Depois da Vida' é um filme fantástico, subgénero 'sobrenatural', daqueles que é mais normal apanhar num Fantasporto que nas salas 'comerciais'. Distingue-se um pouco pelas suas pretensões filosóficas - que não vão muito além do 'já estavas morta em vida' ou 'as pessoas acham que têm medo da morte, mas têm mais da vida' - e pela seráfica fotografia de Anastas Michos e elegante realização de Agnieszka Wojtowicz-Vosloo. Mas o seu verdadeiro trunfo é Christina Ricci - que está para o magrinho, mas muito bela - que domina todo o filme no papel da melancólica, triste e fantasmagórica Anna. Só por ela o preço do bilhete já é bem empregue.
After.Life, E.U.A., 2009. Realização: Agnieszka Wojtowicz-Vosloo. Com: Christina Ricci, Liam Neeson, Justin Long, Chandler Canterbury, Celia Weston, Josh Charles.
23.9.10
22.9.10
The Killer Inside Me
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Parece absurdo num mundo repleto de (imagens de) violência ainda alguém se chocar com um filme, e de facto não penso que este seja mais violento do que muita coisa que para aí anda. Talvez o choque causado provenha do facto de a violência mais gráfica do filme ser exercida sobre mulheres e num filme que não é propriamente um slasher movie.
'The Killer Inside Me' é baseado num romance do argumentista (de Kubrick, por exemplo) e autor de pulp fiction Jim Thompson (que Stephen Frears também levou à tela no magnífico ‘The Grifters’), e segue o trajecto alucinado de Lou Ford (excelente Casey Affleck), aparentemente um pacato agente da lei, mas na verdade um psicopata com traumas de infância.
O filme pode ser descrito como uma espécie de cruzamento entre ‘Este país não é para velhos’ e ‘9 canções’ (substituindo o sexo explicito por violência explicita). Filma bem a América profunda dos anos 50 (bela fotografia límpida de Marcel Zyskind), com a sua violência por trás da aparente normalidade, que vai alternando com flash backs etéreos saídos das recordações de Affleck, tudo em tons estilizados.
Quanto a mim, no entanto, o filme padece de dois defeitos: a banda sonora musical é omnipresente, e se funciona bem em meia dúzia de cenas, é no geral demasiado intrusiva, ocupa ‘espaço’ de mais (sem ter a óbvia função que tinha em ‘9 canções’). E o argumento parece que está cheio de buracos. Certamente que adaptar pulp fiction é sempre complicado, e não são poucos os argumentos deste género que são pouco mais do que ininteligíveis, mas neste caso parece que houve a preocupação de escrever um argumento ‘direitinho’ - mas de que depois na hora de filmar se perderam algumas páginas.
Estes dois pecados, a que podemos acrescentar um lamento por realização e montagem não serem um pouco mais secas (a cena final, por exemplo, merecia um realizador muito mais discreto), impedem que o filme seja o que a espaços mostra que poderia ser: se não uma obra-prima, um modern classic como ‘Este país não é para velhos’.
Ainda assim proporciona-nos um elenco de luxo, incluindo um actor raro - Casey Affleck - e é mais arriscado e tem mais cinema do que praticamente tudo o que está em exibição nas salas portuguesas. Merecia que fosse por cá estreado.
The Killer Inside Me, E.U.A., Suécia, Reino Unido, Canada, 2010. Realização: Michael Winterbottom. Com: Casey Affleck, Kate Hudson, Jessica Alba, Ned Beatty, Tom Bower, Elias Koteas, Simon Baker, Bill Pullman, Brent Briscoe.

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