Ao ver este novo filme de Mike Leigh lembrei-me de Woody Allen. Claro que os seus universos são praticamente opostos, mas ambos têm universos muito próprios e reconhecíveis. Uma pessoa vai ver um filme seu e sabe com o que conta. E - isso é que é importante - há um nível de qualidade que ambos são absolutamente incapazes de baixar.
Se esquecermos o detalhe, as semelhanças estão lá: a magnifica direcção de actores (Leigh sempre sem grandes estrelas - mais uma vez, aqui o elenco é perfeito); os argumentos (escritos pelos próprios, são ambos óptimos argumentistas) nunca menos que bons, à volta de temáticas recorrentes (a upper class e as partidas aleatórias do destino, no caso de Allen; a working class e os destinos desde cedo traçados, no caso de Leigh); a câmara próxima, discreta, sempre focada nos actores. E até o facto de nos surpreenderem quando já não se espera mais do que a tal qualidade média. De repente Allen dá-nos um magnífico 'Match Point' e Leigh sai-se com um estupendo 'Happy-Go-Lucky'; Allen rebusca o tom com 'Vicky Cristina Barcelona' e Leigh refina o olhar com 'Um dia de cada vez'.
Porque este é um filme magnífico. Tirando uma personagem (bastante) secundária que me pareceu forçada em demasia (Carl, o filho de Ronnie), tudo o resto me pareceu admirável. Leigh encontrou há muito aquele tom único que lhe permite retratar alguns dos solitários mais desesperados que o cinema nos deu (o Scott de 'Happy-Go-Lucky', a Mary deste filme, só para ficarmos pelos mais recentes) sem nunca perder o sentido de humor, e ao mesmo tempo mostrar-nos pessoas impossivelmente optimistas (a inesquecível Poppy do filme anterior) ou incuravelmente bem com a vida (Tom e Gerri deste filme) sem ser lamechas nem nos provocar um sorriso cínico. É, por assim dizer, um realismo ferozmente terno e afiado, ao mesmo tempo.
E eu gosto de realizadores que andam sempre a fazer o mesmo filme. Por isso Leigh, tal com Allen, é um realizador muito cá da casa.
Another Year, Grã-Bretanha, 2010. Realização: Mike Leigh. Com: Jim Broadbent, Lesley Manville, Ruth Sheen, Oliver Maltman, Peter Wight, David Bradley, Imelda Staunton.
Se esquecermos o detalhe, as semelhanças estão lá: a magnifica direcção de actores (Leigh sempre sem grandes estrelas - mais uma vez, aqui o elenco é perfeito); os argumentos (escritos pelos próprios, são ambos óptimos argumentistas) nunca menos que bons, à volta de temáticas recorrentes (a upper class e as partidas aleatórias do destino, no caso de Allen; a working class e os destinos desde cedo traçados, no caso de Leigh); a câmara próxima, discreta, sempre focada nos actores. E até o facto de nos surpreenderem quando já não se espera mais do que a tal qualidade média. De repente Allen dá-nos um magnífico 'Match Point' e Leigh sai-se com um estupendo 'Happy-Go-Lucky'; Allen rebusca o tom com 'Vicky Cristina Barcelona' e Leigh refina o olhar com 'Um dia de cada vez'.
Porque este é um filme magnífico. Tirando uma personagem (bastante) secundária que me pareceu forçada em demasia (Carl, o filho de Ronnie), tudo o resto me pareceu admirável. Leigh encontrou há muito aquele tom único que lhe permite retratar alguns dos solitários mais desesperados que o cinema nos deu (o Scott de 'Happy-Go-Lucky', a Mary deste filme, só para ficarmos pelos mais recentes) sem nunca perder o sentido de humor, e ao mesmo tempo mostrar-nos pessoas impossivelmente optimistas (a inesquecível Poppy do filme anterior) ou incuravelmente bem com a vida (Tom e Gerri deste filme) sem ser lamechas nem nos provocar um sorriso cínico. É, por assim dizer, um realismo ferozmente terno e afiado, ao mesmo tempo.
E eu gosto de realizadores que andam sempre a fazer o mesmo filme. Por isso Leigh, tal com Allen, é um realizador muito cá da casa.
Another Year, Grã-Bretanha, 2010. Realização: Mike Leigh. Com: Jim Broadbent, Lesley Manville, Ruth Sheen, Oliver Maltman, Peter Wight, David Bradley, Imelda Staunton.







