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7.3.11

Two Eyes Staring


Na sinopse fornecida pelo site do Fantasporto, fala-se de Hitchcock e David Lynch a propósito deste filme holandês, vencedor do ‘Grande Prémio da 31ª edição do Festival Internacional de Cinema do Porto’ e também do ‘Prémio de Melhor Argumento’. Não imagino porquê.

‘Two Eyes Staring’ é um filme não incompetente mas banal, sobre uma miúda que “vê” um fantasma, supostamente uma irmã gémea da sua mãe, que esta assassinara em criança. O filme encaixa-se no subgénero ‘sobrenatural’, departamento ‘com crianças’, e poder-nos-á fazer lembrar, quanto muito, clássicos como 'The Innocents' de Jack Clayton (que vi à venda na 'banca' do Fantas), mas jamais atingindo o seu nível.

Falta quer ao argumento (incompreensível o prémio que arrebatou) quer à realização de Elbert van Strien (muito à base de abusar da banda sonora para ‘assustar’ o espectador) um mínimo de originalidade, parecendo-nos assistir a um condensado de vários filmes do género. Mesmo o aspecto mais interessante do argumento – a ambígua relação mãe-filha, em que a primeira chega a negar a existência da segunda numa entrevista de emprego – não é suficientemente explorado, sendo que a personagem da mãe (a muito boa Hadewych Minis) é estranhamente desleixada pelo realizador durante longos períodos.

Este ano não tive oportunidade de assistir a muitos mais filmes no Fantas, mas é difícil acreditar que não havia melhor obra para premiar…

Zwart Water, Holanda, 2010. Realização: Elbert van Strien. Com: Hadewych Minis, Barry Atsma, Isabelle Stokkel.

3.3.11

Rabbit Hole


Passaram 8 meses desde que Becca e Howie perderam o filho de 4 anos, atropelado, e ainda não conseguem lidar com o facto. Ele persiste em ver vídeos do filho no telemóvel, quer permanecer numa associação de apoio, quer tentar outro filho. Ela tem mais dificuldade em exteriorizar a dor e está como que bloqueada. Escusado será dizer que o casamento não vai bem.

John Cameron Michell, agora num registo ('formal', que não temático) totalmente antagónico de Shortbus, filma com sensibilidade e talento esta história, excelentemente adaptada por David Lindsay-Abaire da sua peça vencedora de um Pulitzer, e luminosamente fotografada por Frank G. Demarco. Mas o que verdadeiramente eleva o filme é a magnífica interpretação de Nicole Kidman, a mãe severamente magoada por uma perda irreparável e inexprimivel, mas que ainda assim vai mantendo o sentido de humor e a força, e nos transmite uma personalidade dorida mas cativante.

Kidman, à beira dos 44 anos, continua belíssima, e não obstante ter perdido o Óscar para a inevitável Natalie Portman, mostra uma vez mais porque é uma das grandes actrizes da sua geração. Eis um filme que valia a pena estrear por cá.

Rabbit Hole, E.U.A., 2010. Realização:John Cameron Mitchell. Com: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Tammy Blanchard, Sandra Oh, Sandra Oh, Miles Teller.

2.3.11

Somewhere - Algures


Johnny é uma estrela de filmes de acção. Acabou as filmagens de mais um filme, tem um braço facturado,  e na verdade não tem muito para fazer. Vai-se deixando estar pelo seu quarto no célebre hotel 'Chateau Marmont', onde se entretém a ver duas gémeas pole dancers, vai flirtando com mulheres que se atiram a ele, vai sonolentamente a um ou outro compromisso profissional, e ao fim de semana recebe a doce filha de 11 anos, a única altura em que ainda lhe vemos um raio de ternura, de vida.

A sequência inicial de ‘Somewhere’ (o Ferrari preto de Johnny às voltas) fez-me lembrar ‘Brown Bunny’. A partir daí tudo me fez lembrar…’Lost in Translation’. A personagem principal que é um actor, tão ou mais 'lost' que Bill Murray, e que por momentos também se encontra ‘lost in translation’, aqui em Itália (e a TV local é devidamente gozada numa cena quase idêntica à da TV em Tóquio), as roupitas cor de rosa das performers, a rimarem com as calcinhas cor de rosa de Scarlett Johansson, etc., etc.

Pode-se dizer que Sofia fez mais do mesmo, que este filme não acrescenta nada à sua obra, que é uma variação em tom menor do neste género insuperável ‘Lost in Translation’. É verdade. Mas quem diz que ela não arriscou, basta pensar no pastelão que este ano limpou os principais Óscares, e em quanto este filme minimal e lacónico está nos antípodas da ‘história bem contada’ oscarizavel ou das ‘sequelas-remakes-a 3D-com efeitos-digitais-de-última-tecnologia’ que 'vencem' nas bilheteiras.

Eu acho que enquanto vierem somewheres de Hollywood nem tudo está perdido.

Somewhere, E.U.A., 2011. Realização: Sofia Coppola. Com: Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Michelle Monaghan, Lala Sloatman.

21.2.11

Tóquio!

M.Merde!

Parece que os filmes em segmentos voltaram a estar na moda, nomeadamente os que levam uma cidade por título e pretexto.
'Tóquio!' é sem dúvida um dos mais interessantes, desde logo por ter 3 segmentos muito equilibrados, não havendo qualquer elo fraco.

Começamos com o de Michel Gondry, baseado numa graphic novel de Gabrielle Bell, que começa em tons realistas (um jovem casal procura casa e emprego em Tóquio) e acaba em tons surreais. Muito interessante.

A seguir entra Leos Carax, que não deixa os seus créditos por mãos alheias e nos dá o episódio mais bizarro do trio: um lunático que fala uma linguagem esquisita, emerge dos esgotos para aterrorizar a população de Tóquio. O seu nome é, nem mais nem menos que Merde, e diz que obedece ao seu Deus, que o envia para os países que mais detesta. No final é-nos prometida uma sequela em Nova Iorque ("Merde in USA")...

Para o final fica o melhor segmento deste filme em crescendo. É realizado pelo coreano Joon-ho Bong (o realizador de 'The Host/A criatura') e o seu protagonista é um hikikomori, termo que se refere uma daquelas especificidades japonesas, neste caso a pessoas que se recusam a sair de casa e se isolam totalmente da sociedade. É todo um retrato do Japão que nos é dado através de um melancólico homem que se aventura a sair de casa pela primeira vez em 10 anos, depois de se ter apaixonado por uma entregadora de pizza que desmaia à porta de sua casa aquando de um terramoto...

No final, ficamos surpreendidos com dois aspectos raros neste tipo de filmes: a curiosa unidade formal dos três segmentos, e o papel efectivo que o 'elemento Japonês' tem em todos eles, não se limitando nenhum a tomar Tóquio como mera paisagem.

(publicado originalmente em 01.01.2010)

Tokyo!, França, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, 2008. Realização: Michel Gondry ('Interior Design'), Leos Carax ('Merde'), Joon-ho-Bong ('Shaking Tokyo').

18.2.11

Despojos de Inverno


Um mergulho na América profunda tão cru e realista quanto é possível a um filme de Hollywood. E Jennifer Lawrence, não obstante ser improvavelmente bonita para uma redneck, saca um papelaço.

Winter's Bone, E.U.A., 2010. Realização: Debra Granik. Com: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, John Hawkes.

17.2.11

Indomável


‘True Grit’ balança entre dois universos: um grave, violento, com ressonâncias do antigo testamento; e um paródico, ridículo, divertido.

Os Coen já mostraram que têm unhas para ambos (veja-se de um lado ‘Este país não é para velhos’ e do outro todas as suas comédias), mas aqui inclinam-se mais para o segundo.

‘True Grit’ é muito divertido (e bem filmado e bem interpretado e etc.) e  brinca com classe com toda a tradição do Western, mas falta-lhe alguma gravidade: sentimos a determinação obstinada e infantil de Mattie (Hailee Steinfeld), mas nem tanto a sua moralidade implacável; rimo-nos amiúde com a descontracção de Rooster (o grande Jeff Bridges, que eclipsa completamente Matt Damon), mas não sentimos totalmente a sua violência sanguinolenta.

E assim, em vez de uma obra-prima como 'Este país...', temos apenas um (muito) bom filme.

True Grit, E.U.A., 2010. Realização: Joel e Ethan Coen. Com: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Ed Corbin, Paul Rae

16.2.11

Vincent

15.2.11

O 'Bafta' mais bem entregue

(...)

14.2.11

O discurso do Rei


O Dr.Freud só se exilou em Londres em 1938, por isso o futuro Rei Eduardo VI, possuidor de traumas vários, cujo sintoma mais embaraçoso era a gaguez,  teve que recorrer aos serviços de um terapeuta da fala australiano, Lionel Logue, que nem médico era, para lhe servir de confidente e psicanalista. 'Lionel' trata o snobe monarca por 'Bertie' e, após o devido choque e reticências iniciais deste, obviamente cura-o, e nasce uma grande amizade, e blá, blá, blá.

'O discurso do rei' é, garantidamente, o filme mais aborrecido e previsível que vi em anos.  E previsivelmente vai proporcionar um Oscar a Colin Firth por emular  um gago na perfeição, engordando ainda mais o rol de galardoados por papeis de deficientes. E uma vez que se segundo dizem os entendidos, está também na linha da frente para levar a estatueta de "melhor filme", está encontrado o 'Rain Man' deste ano.

The King`s Speech, Grã-Bretanha/Austrália/E.U.A., 2010. Realização: Tom Hooper. Com: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Jennifer Ehle, Eve Best, Derek Jacobi, Timothy Spall, Anthony Andrews, Claire Bloom.

10.2.11

TOY STORY 3 é o filme do ano para a Liga dos Blogues Cinematográficos


Sendo um filme de que gostei, o meu voto foi no entanto para 'À prova de morte' de Tarantino (que só estreou o ano passado no Brasil, sendo por isso elegível), que ficou em segundo lugar ex aequo com 'Vencer' de Marco Bellochio. 'O laço branco' de Haneke e 'Bad Lieutenant' de Herzog (o meu segundo preferido) fecharam a classificação, por esta ordem. (AQUI)