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14.3.11

Um Plano


Quando recebi o amável convite do Cine Resort para escolher um plano, pensei logo neste (de ‘O homem que matou Liberty Valance’, John Ford, 1962): John Wayne na soleira da porta, a olhar para Vera Miles e James Stewart; ela chora e acaricia este último, aliviada por ele ter sobrevivido ao confronto com Liberty Valance. E Wayne mentaliza-se aí, definitivamente, que perdeu para sempre a mulher que ama. (...)

(continuo aqui)

11.3.11

Os 2 da (Nova) Vaga


François Truffaut é oriundo da classe baixa parisiense, nunca conheceu o pai e é ignorado pela mãe. Foi um adolescente problemático, chegou a estar preso, e pode-se dizer que o cinema (viu milhares de filmes na adolescência) salvou a sua vida, dando-lhe um propósito. Jean-Luc Godard, pelo contrário, descende de uma família suíça de industriais e banqueiros, com ligação à cultura (o seu avô foi amigo de Paul Valéry) e era uma amante de carros rápidos. Mas também o cinema teria um papel crucial na sua formação, e o gosto comum com Truffaut (Renoir, Hitchcock, Rossellini ...) faria com que se tornassem amigos nos Cahiers.

A primeira hora de 'Os dois da Nova Vaga' relata os primeiros tempos destes dois críticos e cineastas, a sua amizade, a sua admiração mutua, a sua colaboração, os seus sucessos iniciais ('Os 400 golpes' e 'O acossado'), não trazendo nada de especialmente novo. Já a última meia hora me pareceu bastante mais interessante. Aí relata-se o inevitavel afastamento dos dois cineastas, a partir do Maio de 68 (que, como aqui se diz, foi antecipado em 3 meses pelos protestos da geração dos Cahiers contra o afastamento de Langlois da Cinématheque por André Malraux, o então ministro da cultura do general De Gaulle - Malraux, acrescente-se, que tinha defendido 'Os 400 golpes' como representante da França em Cannes, onde viria a ganhar a Palma de Ouro).

Há então como que uma ruptura no cinema francês. Godard opta pela via radical (o seu período 'revolucionário'), enquanto Truffaut se mantém fiel à arte 'pela beleza, pelas pessoas, pelo consolo'. Quando Godard lhe escreve manifestando a sua repulsa por 'A noite Americana', Truffaut responde-lhe furiosamente lembrando Matisse, que atravessou olimpicamente 3 guerras, enquanto pintava os seus peixes e as suas paisagens,  jamais os seus quadros reflectindo os horrores à sua volta. Nunca mais os dois cineastas falariam um com o outro.

Não é por acaso, digo eu, que em a 'Noite Americana', Alphonse, interpretado por Jean-Pierre Léaud (apresentado neste filme como o símbolo da dicotomia Trufaut - o seu 'pai '/Godard - o cineasta que lhe deu os papeis onde podia escapar da personagem Doinel) advoga que os filmes 'são mais harmoniosos do que a vida': era essa a visão de Truffaut (e, abro parêntesis, a minha. Não por acaso sempre preferi Trufaut - principalmente o do 'ciclo Doinel' -ao hiper-cerebral e ideológico Godard).

Resumindo, o realizador Emmanuel Laurent e o argumentista Antoine de Baecque (autor de uma recente biografia de Godard) não trazem aqui propriamente nada de novo, mas dão-nos um bom resumo da matéria, bem documentado com arquivos da época, permitindo-nos conhecer um pouco melhor dois dos mais importantes críticos e cineastas da história do cinema. Um filme indispensável, portanto, para qualquer cinéfilo que se preze.

Deux de la Vague, França, 2010. Realização: Emmanuel Laurent. Documentário.

7.3.11

Two Eyes Staring


Na sinopse fornecida pelo site do Fantasporto, fala-se de Hitchcock e David Lynch a propósito deste filme holandês, vencedor do ‘Grande Prémio da 31ª edição do Festival Internacional de Cinema do Porto’ e também do ‘Prémio de Melhor Argumento’. Não imagino porquê.

‘Two Eyes Staring’ é um filme não incompetente mas banal, sobre uma miúda que “vê” um fantasma, supostamente uma irmã gémea da sua mãe, que esta assassinara em criança. O filme encaixa-se no subgénero ‘sobrenatural’, departamento ‘com crianças’, e poder-nos-á fazer lembrar, quanto muito, clássicos como 'The Innocents' de Jack Clayton (que vi à venda na 'banca' do Fantas), mas jamais atingindo o seu nível.

Falta quer ao argumento (incompreensível o prémio que arrebatou) quer à realização de Elbert van Strien (muito à base de abusar da banda sonora para ‘assustar’ o espectador) um mínimo de originalidade, parecendo-nos assistir a um condensado de vários filmes do género. Mesmo o aspecto mais interessante do argumento – a ambígua relação mãe-filha, em que a primeira chega a negar a existência da segunda numa entrevista de emprego – não é suficientemente explorado, sendo que a personagem da mãe (a muito boa Hadewych Minis) é estranhamente desleixada pelo realizador durante longos períodos.

Este ano não tive oportunidade de assistir a muitos mais filmes no Fantas, mas é difícil acreditar que não havia melhor obra para premiar…

Zwart Water, Holanda, 2010. Realização: Elbert van Strien. Com: Hadewych Minis, Barry Atsma, Isabelle Stokkel.

3.3.11

Rabbit Hole


Passaram 8 meses desde que Becca e Howie perderam o filho de 4 anos, atropelado, e ainda não conseguem lidar com o facto. Ele persiste em ver vídeos do filho no telemóvel, quer permanecer numa associação de apoio, quer tentar outro filho. Ela tem mais dificuldade em exteriorizar a dor e está como que bloqueada. Escusado será dizer que o casamento não vai bem.

John Cameron Michell, agora num registo ('formal', que não temático) totalmente antagónico de Shortbus, filma com sensibilidade e talento esta história, excelentemente adaptada por David Lindsay-Abaire da sua peça vencedora de um Pulitzer, e luminosamente fotografada por Frank G. Demarco. Mas o que verdadeiramente eleva o filme é a magnífica interpretação de Nicole Kidman, a mãe severamente magoada por uma perda irreparável e inexprimivel, mas que ainda assim vai mantendo o sentido de humor e a força, e nos transmite uma personalidade dorida mas cativante.

Kidman, à beira dos 44 anos, continua belíssima, e não obstante ter perdido o Óscar para a inevitável Natalie Portman, mostra uma vez mais porque é uma das grandes actrizes da sua geração. Eis um filme que valia a pena estrear por cá.

Rabbit Hole, E.U.A., 2010. Realização:John Cameron Mitchell. Com: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Tammy Blanchard, Sandra Oh, Sandra Oh, Miles Teller.

2.3.11

Somewhere - Algures


Johnny é uma estrela de filmes de acção. Acabou as filmagens de mais um filme, tem um braço facturado,  e na verdade não tem muito para fazer. Vai-se deixando estar pelo seu quarto no célebre hotel 'Chateau Marmont', onde se entretém a ver duas gémeas pole dancers, vai flirtando com mulheres que se atiram a ele, vai sonolentamente a um ou outro compromisso profissional, e ao fim de semana recebe a doce filha de 11 anos, a única altura em que ainda lhe vemos um raio de ternura, de vida.

A sequência inicial de ‘Somewhere’ (o Ferrari preto de Johnny às voltas) fez-me lembrar ‘Brown Bunny’. A partir daí tudo me fez lembrar…’Lost in Translation’. A personagem principal que é um actor, tão ou mais 'lost' que Bill Murray, e que por momentos também se encontra ‘lost in translation’, aqui em Itália (e a TV local é devidamente gozada numa cena quase idêntica à da TV em Tóquio), as roupitas cor de rosa das performers, a rimarem com as calcinhas cor de rosa de Scarlett Johansson, etc., etc.

Pode-se dizer que Sofia fez mais do mesmo, que este filme não acrescenta nada à sua obra, que é uma variação em tom menor do neste género insuperável ‘Lost in Translation’. É verdade. Mas quem diz que ela não arriscou, basta pensar no pastelão que este ano limpou os principais Óscares, e em quanto este filme minimal e lacónico está nos antípodas da ‘história bem contada’ oscarizavel ou das ‘sequelas-remakes-a 3D-com efeitos-digitais-de-última-tecnologia’ que 'vencem' nas bilheteiras.

Eu acho que enquanto vierem somewheres de Hollywood nem tudo está perdido.

Somewhere, E.U.A., 2011. Realização: Sofia Coppola. Com: Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Michelle Monaghan, Lala Sloatman.

21.2.11

Tóquio!

M.Merde!

Parece que os filmes em segmentos voltaram a estar na moda, nomeadamente os que levam uma cidade por título e pretexto.
'Tóquio!' é sem dúvida um dos mais interessantes, desde logo por ter 3 segmentos muito equilibrados, não havendo qualquer elo fraco.

Começamos com o de Michel Gondry, baseado numa graphic novel de Gabrielle Bell, que começa em tons realistas (um jovem casal procura casa e emprego em Tóquio) e acaba em tons surreais. Muito interessante.

A seguir entra Leos Carax, que não deixa os seus créditos por mãos alheias e nos dá o episódio mais bizarro do trio: um lunático que fala uma linguagem esquisita, emerge dos esgotos para aterrorizar a população de Tóquio. O seu nome é, nem mais nem menos que Merde, e diz que obedece ao seu Deus, que o envia para os países que mais detesta. No final é-nos prometida uma sequela em Nova Iorque ("Merde in USA")...

Para o final fica o melhor segmento deste filme em crescendo. É realizado pelo coreano Joon-ho Bong (o realizador de 'The Host/A criatura') e o seu protagonista é um hikikomori, termo que se refere uma daquelas especificidades japonesas, neste caso a pessoas que se recusam a sair de casa e se isolam totalmente da sociedade. É todo um retrato do Japão que nos é dado através de um melancólico homem que se aventura a sair de casa pela primeira vez em 10 anos, depois de se ter apaixonado por uma entregadora de pizza que desmaia à porta de sua casa aquando de um terramoto...

No final, ficamos surpreendidos com dois aspectos raros neste tipo de filmes: a curiosa unidade formal dos três segmentos, e o papel efectivo que o 'elemento Japonês' tem em todos eles, não se limitando nenhum a tomar Tóquio como mera paisagem.

(publicado originalmente em 01.01.2010)

Tokyo!, França, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, 2008. Realização: Michel Gondry ('Interior Design'), Leos Carax ('Merde'), Joon-ho-Bong ('Shaking Tokyo').

18.2.11

Despojos de Inverno


Um mergulho na América profunda tão cru e realista quanto é possível a um filme de Hollywood. E Jennifer Lawrence, não obstante ser improvavelmente bonita para uma redneck, saca um papelaço.

Winter's Bone, E.U.A., 2010. Realização: Debra Granik. Com: Jennifer Lawrence, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, John Hawkes.

17.2.11

Indomável


‘True Grit’ balança entre dois universos: um grave, violento, com ressonâncias do antigo testamento; e um paródico, ridículo, divertido.

Os Coen já mostraram que têm unhas para ambos (veja-se de um lado ‘Este país não é para velhos’ e do outro todas as suas comédias), mas aqui inclinam-se mais para o segundo.

‘True Grit’ é muito divertido (e bem filmado e bem interpretado e etc.) e  brinca com classe com toda a tradição do Western, mas falta-lhe alguma gravidade: sentimos a determinação obstinada e infantil de Mattie (Hailee Steinfeld), mas nem tanto a sua moralidade implacável; rimo-nos amiúde com a descontracção de Rooster (o grande Jeff Bridges, que eclipsa completamente Matt Damon), mas não sentimos totalmente a sua violência sanguinolenta.

E assim, em vez de uma obra-prima como 'Este país...', temos apenas um (muito) bom filme.

True Grit, E.U.A., 2010. Realização: Joel e Ethan Coen. Com: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Ed Corbin, Paul Rae

16.2.11

Vincent

15.2.11

O 'Bafta' mais bem entregue

(...)