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22.11.11

A pele onde eu vivo


Um 'cientista louco' à 'Les yeux sans visage', uma vingança à Chan-wook Park e um final melodramático... eis muito resumidamente o último Almodóvar.

As duas primeiras sentenças não batem bem com o realizador espanhol? Pois no filme as coisas também não batem lá muito bem. Acima de tudo, parece-me que a maior crítica que se pode fazer a 'A pele onde eu vivo' é - passe o trocadilho - que é um bocado descosido. As coisas parecem não encaixar totalmente, há muitas pontas soltas (como a aparição do bizarro 'Zeca' que não dá em nada), e nunca se percebe totalmente o que Almodóvar pretende com este filme.

Dizer que é estranho (no sentido em que se pode dizer que os últimos filmes de Coppola são estranhos) não explica a coisa. Parece-me mais que é um passo em falso do espanhol, que tentou fugir (embora não tanto como possa parecer) ao seu universo habitual e só não se espetou completamente dado o seu enorme talento como realizador. Porque este argumento...

La piel Que habito, Espanha, 2011. Realização: Pedro Almodóvar. Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo.

17.11.11

Giallo!


Parte da grandeza do cinema italiano vem da capacidade que teve para gerar géneros (ou subgéneros) autóctones, que em muito marcaram a história do cinema: desde logo o peplum (Sword And Sandal, chamam-lhe pragmaticamente os anglo-saxónicos) e a 'comédia à italiana', mas também (sub)géneros mais associados a 'séries B',  notoriamente o western spaghetti e o giallo.

O giallo (à letra 'amarelo', cor das capas dos livros de detectives lançados no final dos anos 20 pela editora Mondadori) é talvez o género mais difícil de definir. "The Italian sub-genre that combined barroque horror with the detective thriller" é como é apresentado na entrada sobre Mario Bava do Rough Guide to Movies, e não me parece mal.

Mario Bava, precisamente, é considerado o pai dos gialli. Director de fotografia desde o inicio dos anos 40 (de filmes de Jacques Tourneur ou Raoul Walsh, por exemplo) , estreou-se atrás das câmaras em 1960 com 'A máscara do demónio', um clássico instantâneo do horror gótico. Três anos depois dirigiria aquele que é geralmente considerado o primeiro giallo: 'A rapariga que sabia demasiado' (embora o conceito do género seja tão lato que haja quem atribua a sua paternidade a 'Ossessione' de Visconti...).

Embora assumida e obviamente devendo muito a Hitchcock, neste excelente filme de Bava com efeito já estão presentes muitas das marcas dos futuros gialli: há um assassino em série, há um estrangeiro que se encontra em Itália, se vê metido por acaso na trama, e que vai investigar por conta própria (uma constante nos filmes de Argento), há muita psicanálise metida ao barulho (até ao fim põe-se a hipótese de tudo não passar da imaginação da protagonista), há muito estilo no modo de filmar, e há até uma 'solução' que envolve duas pessoas (outra constante em Argento). Ainda faltam aqui outras características marcantes, como a fotografia de cores berrantes (o filme é a preto e branco) e o gore em geral, mas esses chegariam no filme seguinte de Bava, de 1964,  'Sei donne per l'assassino' (ou 'Blood and Black Lace', que estes filmes eram sempre dobrados quer em italiano quer em inglês).


Os dados estavam então lançados, mas o género só se tornaria uma força equivalente aos spaghetti, aos peplum ou aos filmes de terror, já na entrada da década de 70, quando o mais dotado dos discípulos de Bava se estreou na realização: Dario Argento, um conceituado argumentista (com Leone e Bertolluci de 'Aconteceu no Oeste', por exemplo), que com 'O pássaro com plumas de cristal' (1970) reinventou o giallo, permanecendo o filme como uma das melhores primeiras obras do cinema.

Se alguém quiser ver um giallo que veja este, que está lá tudo, desde os peculiares e e influentíssimos movimentos de câmara de Argento, da sua composição 'operática' das cenas  - a sequência do assassinato inicial, digna de Hitch, tem 3 longos minutos e 66 planos - até às obsessões perenes do realizador, como a testemunha ocular que tem muito freudianamente que voltar ao local do crime até se lembrar do que efectivamente aconteceu, e que de uma forma quase paranóica não desiste de encontrar o culpado. Acrescentem-se os nomes de Ennio Morricone e Vittorio Storaro (para os mais distraidos: um dos maiores compositores de bandas sonoras e um dos maiores directores de fotografia da história do cinema) à ficha técnica e admire-se o que Argento conseguiu na sua estreia.

Argento faria outros filmes que carregam mais no lado do sobrenatural (como o muito famoso 'Suspiria'), mas na minha opinião só voltou a atingir a força desta sua primeira obra noutro giallo 'puro', que é uma espécie de refinamento do 'Pássaro...': 'Profondo Rosso', com David Hemmings (o actor de 'Blow Up'), em que Argento exponencia o grau de violência e introduz o rock progressivo (dos Goblin) na banda sonora, outra inovação que toda a gente adoptaria depois dele. 'Profondo Rosso' permanece talvez como a sua obra mais carismática.

Se, como vimos, Mario Bava é o pai do giallo e Dário Argento o filho que deu continuidade e superou a obra do pai, a Santíssima Trindade do género é completada com Lúcio Fulci, que não será bem o Espírito Santo, mas mais uma espécie de Anjo demente.

Ao contrário de Argento (que praticamente se cingiu ao género ‘giallo/terror’ e o elevou a um patamar único), Fulci tocou em todos os subgéneros 'série B' imagináveis (é, por exemplo,  realizador do inclassificável 'Zombi 2').

Senhor de um estilo muito próprio, mais ‘cru’ e menos estilizado que o do restante trio, atingiu o seu cume no giallo com o magnífico ‘Non si sevizia un paperino'  (Don't Turture a Duckling', 1972), em que sugere que tanto ou mais perigoso que o assassino de crianças que anda à solta numa terriola italiana, é a própria comunidade retrógrada e altamente preconceituosa, que lincha sem grandes problemas de consciência o suspeito (errado) mais ‘óbvio’: a bruxa da aldeia… E as maldades de Fulci não se ficam por aqui: só vendo.

Há inúmeros outros realizadores que se dedicaram ao género, e aqui podem-se encontrar os mais desvairados exemplos, a maior parte deles carregando mais na nudez e no sexo que os filmes dos mestres, e - acrescente-se - muitos deles com títulos fabulosos (como por exemplo 'Your Vice is a Locked Room and Only I Have the Key', um belo filme de Sergio Martini muito livremente inspirado no famoso conto de Poe, 'O gato negro') .

Eu, por mim,  posso dizer que desde que andei a ver spaghettis que não me divertia tanto nem ficava tão 'viciado' em descobrir novos filmes.

Gialli essenciais:
O pássaro das plumas de cristal, Dario Argento, 1970 (****1/2)
Profondo Rosso/O mistério da casa assombrada, Dario Argento, 1975 (****1/2)
Non si sevizia un paperino, Lucio Fulci, 1972 (****)
A rapariga que sabia demasiado, Mario Bava, 1960 (****)
Sei donne per l'assassino, Mario Bava, 1964 (***)

12.11.11

As Aventuras de Tintim - O Segredo do Licorne


Este Tintim da firma Spielberg/Jackson é um entretenimento levezinho, que pelo que pude constatar não desiludiu a miudagem que estava na sala, mas que, não obstante uma ou outra sequência mais exuberantemente coreografada - a invasão dos piratas ao navio do antepassado do Capitão Haddock; a perseguição em Marrocos - dificilmente entusiasmará quem vá à espera de algo mais do que competência técnica e utilização de tecnologia de ponta. Custa-me mesmo perceber que alguém com mais de 18 anos possa sentir mais do que uma indiferença mais ou menos bocejante pela coisa...

The Adventures of Tintin, E.U.A./Nova Zelândia, 2011. Realização: Steven Spielberg. Longa-metragem de animação. Vozes (versão original): Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Simon Pegg, Nick Frost

7.11.11

Crazy Horse


‘Crazy Horse’ pode ser visto como um filme gémeo de 'Dança - Le Ballet de L´Opera de Paris'. Depois de deambular por uma das companhias de ballet mais prestigiadas do mundo, Wiseman vira-se agora para o auto-intitulado melhor espectáculo de dança de nus do mundo.

E o mínimo que se pode dizer é que no Crazy Horse se levam tão a sério como no Ballet de l’Opera. O coreógrafo queixa-se da pressão dos accionistas sobre datas de estreia, mas ele responde que não acorda genial todos os dias, e que não se podem impor prazos a artistas. E o director artístico fala mesmo em Fassbinder e Michael Powell para explicar as suas criações. E todos têm teorias próprias sobre a mulher, a feminilidade, o desejo.

Este filme tem sido criticado, no entanto, por Wiseman se deter mais no espectáculo, mostrando-nos inúmeros ‘números’, do que naquilo que se passa à volta, ou no que está por trás. E penso que as críticas têm alguma razão de ser, não obstante alguns momentos magníficos de humor e subtileza (como quando o realizador nos mostra as bailarinas num momento de descontracção a verem um vídeo de ‘apanhados’ de dançarinas famosas, do Bolshoi, etc., a caírem, ou em situações cómicas provocadas por falhas; ou quando nos dá uma panorâmica do público da casa meramente mostrando-nos a impressão das fotografias que os espectadores tiram para recordação).

Mas de facto (a montagem de) Wiseman centrou-se essencialmente nos números do Crazy Horse, o que às tantas, paradoxalmente, torna o filme um pouco aborrecido. Mas talvez Wiseman tenha tentado captar assim o que desde à décadas tanto atrai milhares e milhares de pessoas (uma boa fatia das quais mulheres, é-nos dito por uma responsável) para este espectáculo.

Seja como for, se não é um Wiseman de 5 estrelas, é um Wiseman de 4 estrelas. A não perder, portanto.

Crazy Horse, Estados Unidos/França, 2011. Realização: Frederick Wiseman. Documentário.

23.10.11

Buddy Buddy - Os amigos da onça


Nos anos 60, findaram as carreiras de Frank Capra, Charles Chaplin, Michael Curtiz, John Ford, Howard Hawks, Fritz Lang, Mervin LeRoy, Leo McCarey, George Stevens, Jacques Tourneur, Raoul Walsh, King Vidor, William Wyler, entre outros. Nos anos 70, terminaram as de Alfred Hitchcock, Elia Kazan, Joseph L.Mankiewicz, Vincent Minelli, Otto Preminger, Nicholas Ray, Douglas Sirk, Orson Welles, etc., etc. O ano de 1981 ficou a assinalar o fim das obras de George Cukor e Billy Wilder. Dos grandes clássicos, só John Huston prosseguiu mais algum tempo, até à morte. Nessas três décadas - aparte a persistência de um ou outro veterano - todo o cinema americano da grande época desapareceu. Buddy Buddy é um dos marcos históricos desses fins. Veremos - se Deus nos der vida e saúde - muita coisa. Nunca mais veremos um Billy Wilder. Com este filme, como com Rich and Famous de Cukor, dissemos adeus a uma época. É sempre triste.

João Bénard da Costa, 'Folhas da Cinemateca - Billy Wilder'

19.10.11

Ciclo Giallo



Obs.: Quem for contra o 'sacanço' pode sempre servir-se do blog apenas como guia. Não dará o seu tempo por mal empregue. (mas claro que terá imensas dificuldades em encontar à venda em dvd muitos dos filmes)

15.10.11

Play it Again, Sam


Foi o próprio Woody Allen quem disse, numa entrevista, que em 1975 resolveu "acabar com as palhaçadas" (leia-se  o período que vai de 'O inimigo público' a 'Nem guerra nem paz') e dar "um primeiro passo rumo à maturidade" (leia-se começar a escrever 'Annie Hall').  E, de facto, há na sua obra um antes e depois de 'Annie Hall' (lançado em 1977). Mas, na minha opinião, há um elo perdido entre estas duas 'fases': 'Play it Again, Sam' (de 1972, o mesmo ano de 'O ABC do amor'), interpretado e adaptado pelo próprio Woody da sua peça homónima (onde conheceu Diane Keaton), mas realizado por Herbert Ross.

'Play it Again, Sam' (penso que por cá se chamou 'O grande conquistador'...) é um filme muito, muito divertido, quer ao nível do argumento (Allen era já imbatível a escrever piadas memoráveis - e a cena recorrente do workaholic que, numa época pré-telemóveis, telefona para o escritório donde quer que esteja a dar o número de telefone desse local, é brilhante), quer da interpretação de Allen (que teria sido um grande actor do mudo) no papel de um desastrado crítico de cinema, que tem conversas imaginárias com Humprey Bogart sobre como conquistar uma mulher, agora que a sua o deixou (e o filme está sempre a citar 'Casablanca'). Mas tem também muitas marcas do que virá a ser a sua obra futura, sobre pessoas inseguras, que não sabem qual o melhor caminho para a sua vida, com aquele toque de angústia existencial que nunca mais deixámos de associar a Allen.

Como disse, o filme não foi realizado por Allen mas, sem desmerecer Herbert Ross, é como se fosse. E eu, não hesito em colocá-lo entre os seus melhores.

Play it Again, Sam, E.U.A., 1972. Realização: Herbert Ross. Com: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Jerry Lacy.

13.10.11

Submarino


Sempre estreou. Escrevi sobre ele aqui.

26.9.11

Meia-Noite em Paris


Eu sei que a ideia de Woody Allen era mesmo simplificar: mostrar uma Paris de postal, idealizada, de sonho, o mais contrastante possível com os States. Mas o problema é que nada neste filme de fantasia ganha espessura, e não há uma única personagem de carne e osso, nem nas ‘actuais’, nem nas ‘históricas’ (Hemingway é mesmo caricaturizado até ao ridículo). E, embora Allen não saiba escrever maus diálogos, a verdade é que aqui são menos memoráveis do que o habitual, e mais do que uma sensação de ‘leveza’ deliberada que sentimos em alguns dos seus filmes, aqui pareceu-me que faltava mesmo alguma coisa.

Se é certo que o Allen touch não se perdeu de todo e estão presentes em ‘Meia-noite em Paris’ algumas das suas imagens de marca (uma das características perenes dos seus filmes que mais me encanta é a capacidade dos seus idiossincráticos avatares – aqui Owen Wilson – arranjarem belas mulheres), não posso deixar de pensar que não obstante este ser um dos filmes de maior sucesso comercial nos 45 anos de carreira do realizador, é também um filme menoríssimo na sua (grandiosa) obra.

Midnight in Paris, Espanha/E.U.A., 2011. Realização: Woody Allen. Com: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Carla Bruni, Kathy Bates, Léa Seydoux.



12.9.11

Colombiana


Fosse o assassino 'justiceiro' deste filme protagonizado por um qualquer Jason Statham e o filme não valeria um chavo. Sendo-o por Zoe Saldana, enfim, como o dizer, continua a não valer um chavo, mas... percebem onde eu quero chegar.

Colombiana, E.U.A./França, 2011. Realização: Olivier Megaton. Com: Zoe Saldana.