O júri de Cannes 2011 (presidido por Robert De Niro) que deu a Palma de Ouro a 'A árvore da vida' de Terence Malick, deu o prémio de realização a Nicolas Winding Refn por este 'Drive'. Quase todas as pessoas de bom gosto que eu conheço gostaram muito do primeiro e não gostaram nada do segundo. Pois comigo sucedeu precisamente o contrário.
Dou desde já de barato que o lado 'videoclip' do filme pode irritar muito boa gente, mas se há um ou outro momento mais exibicionista (nomeadamente na banda sonora), a aposta é ganha, pois o estilo é aqui o que mais conta. Não se chega ao extremo de um Gaspar Noe em
'Enter the Void', mas percebem a ideia. Aliás há uma data de outros realizadores de que me fui lembrando ao longo da fita: Tarantino (na cena do abalroamento do carro de Nino), os irmãos Cohen (na conversa entre Nino e Bernie na
pizzaria) e até Guy Ritchie, no final (eu não disse que o filme é perfeito). Mas Refn embrulha todas estas referências e dá-nos algo que bate. É estranho mas bate.
E os actores, é impossível falar deste filme sem falar na sua dupla de protagonistas: confesso que estranhei durante um bom bocado o lacónico driver de Ryan Gosling, algures entre Steve McQueen e Alain Delon, mas o certo é que acabou por se entranhar (e certamente aquele sorriso melancólico apelará mais ao sexo feminino). E para Carey Mulligan não tenho adjectivos suficientes: não tendo mais do que meia dúzia de deixas em todo o filme, a sua beleza tranquila contribui tanto como a câmara ensonada de Refn e a banda sonora retro de Cliff Martinez para o peculiar ambiente do filme.
E mesmo não tendo Refn a subtileza de Michael Man, desde 'Miami Vice' que eu não via um filme que combinasse tão bem acção (não muita, mas ainda assim com dois pontos altos, uma bela perseguição de carros e um assassinato de uma violência inaudita) com romantismo (é muito bonita a relação do par).
Volto atrás. 'Drive' não é um filme que pretenda transmitir-nos qualquer lição filosófica (ao contrário de 'A árvore da vida', as pretensões aqui estão todas no estilo) e percebo perfeitamente quem não goste dele - bem visto, muito do que eu aqui disse poderia servir para fundamentar uma opinião negativa - mas a verdade, verdadinha é que só aqui e em 'O Cisne Negro' eu senti algo a mexer comigo este ano nas salas de cinema.
Drive, E.U.A., 2011. Realização: Nicolas Winding Refn. Com: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman.