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6.1.12

A gruta dos sonhos perdidos


Em 1994 um grupo de cientistas franceses descobriu as agora chamadas Grutas Chauvet, cheias de ossadas de animais e com dezenas de pinturas rupestres datando de há mais de 30 mil anos – quase o dobro de outra qualquer descoberta do género. O facto de um desabamento de rochas há milhares de anos ter tapado e escondido completamente as entradas permitiu que esta verdadeira cápsula do tempo tenha sobrevivido incólume até hoje. O local foi selado e só um grupo restrito de cientistas tinha acesso a ele, até que Herzog conseguiu uma inédita autorização para lá filmar durante uns dias (em condições limitadas).

O que poderia ser um interessante documentário 'à National Geographic' torna-se nas mãos de um dos criadores mais insólitos do cinema actual em algo um bocado diferente disso. Herzog está fascinado com os artistas (como lhes chama repetidamente) de há 30.000 anos, vê mesmo nas pinturas um proto-cinema (pois tentam emular o movimento dos animais), e divaga a partir daí sobre outras formas de arte que existiriam, como a música - foram  descobertas flautas da mesma época umas centenas de quilómetros ao lado, na Alemanha.

E, claro, Herzog interessa-se como sempre pelas pessoas com quem contacta, principalmente os 'cromos', como um arqueólogo do grupo que estuda as grutas, que antes de o ser trabalhava como malabarista num circo, ou um mestre perfumista que procura grutas escondidas através do olfacto...

Não se afastando nunca do seu objecto principal, a beleza das grutas, os cristais que as cobrem, as pinturas, os rastos animais e humanos, que filma longamente, Herzog não foge ainda assim ao seu estilo muito próprio: em alguns planos fixos, em que retrata os cientistas enquadrados como num quadro a olharem para a câmara, com banda sonora em fundo, lembrei-me de filmes como 'Fata Morgana', por exemplo.

E a ironia cortante de Herzog revela-se em todo o seu esplendor num post scriptum, em que nos mostra como uma central nuclear construída ali mesmo ao lado criou, com os seus vapores, um surreal ambiente tropical, com crocodilos e tudo, numa zona completamente gelada há apenas uns milhares de anos...

Cave of Forgotten Dreams, EUA/Canadá/França/Alemanha/Grã-Bretanha, 2010. Realização: Werner Herzog. Documentário.

5.1.12

Top 10 - 2011 (III)

Como é habitual, pedi aos colaboradores (em sabática) aqui do tasco para me enviarem os tops do ano decorrido. A seguir indico a do homem conhecido por Allen Douglas, que obviamente incluiu um filme do Woody Allen:


1. Pequenas mentiras entre amigos
2. A pele onde eu vivo
3. Vais conhecer o homem dos teus sonhos
4. Amor Estúpido e Louco
5. A minha versão do amor
6. Um dia
7. Super 8
8. Temos Papa
9. Somewhere
10. A Árvore da Vida

[Allen Douglas]

4.1.12

Top 10 - 2011 [II]

Como é habitual, pedi aos colaboradores (em sabática) aqui do tasco para me enviarem os tops do ano decorrido. Começamos com o do Puto:



1 - Um Ano Mais (Another Year), de Mike Leigh
2 - Melancolia (Melancholia), de Lars von Trier
3 - Poesia (Shi), de Chang-Dong Lee
4 - 50/50 (50/50), de Jonathan Levine
5 - Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), de Woody Allen
6 - Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky
7 - O Deus da Carnificina (Carnage), de Roman Polanski
8 - Eu Vi o Diabo (Akmareul Boatda), de Ji-Woon Kim
9 - O Preço da Traição (Chloe), de Atom Egoyan
10 - Um Método Perigoso (A Dangerous Method), de David Cronenberg

[O Puto]

Enterrado


Um americano, motorista de uma empresa privada a trabalhar na 'reconstrução' do Iraque, descobre ao acordar que está enterrado num caixão, em parte incerta. Só tem consigo um isqueiro, uma caneta, um pouco de álcool e, descobrimos depois porquê, um telemóvel. Claro que desata a telefonar para toda a parte, mas passa o tempo a falar com atendedores de mensagens (incluindo alguns com aquelas mensagens engraçadinhas), a ser posto em espera (inclui ter que ouvir aquelas ocas mensagens institucionais gravadas), a aturar telefonistas indiferentes ou rudes, a desesperar com burocratas obtusos que querem saber o seu número da segurança social e, cereja no topo do bolo, a ter uma conversa surreal com o director de pessoal da sua empresa (que se quer descartar dele a todo o custo). Isto enquanto está a ser chantageado, ameaçado de morte de várias maneiras, a ficar sem ar, sem carga, sem rede, etc., etc.

'Enterrado', enxutamente realizado pelo espanhol Rodrigo Cortés e interpretado sem sombra de overacting por Ryan Reynolds, tem sido gabado pelo verdadeiro ambiente de claustrofobia que cria, sufocando o espectador em 95 minutos 'reais' de tensão e incerteza, mas eu gostaria de o elogiar acima de tudo por ser um pequeno tratado certeiro e implacável sobre o absurdo do mundo em que vivemos.

Buried, E.U.A./Espanha/França, 2010. Realização: Rodrigo Cortés. Com: Ryan Reynolds.

2.1.12

TOP 10 - 2011



1. Cisne negro, Darren Aronofsky
2. Um ano mais, Mike Leigh
3. Inquietos, Gus Van Sant   
4. Drive, Nicolas Winding Refn
5. Um método perigoso, David Cronemberg
6. Hereafter - Outra vida, Clint Eastwood
7. Essential Killing - Matar para viver, Jerzy Skolimowski
8. Crazy Horse, Frederick Wiseman
9. Habemus Papam, Nanni Moretti
10. Offside - Fora de jogo, Jafar Panahi

1.1.12

O Deus da carnificina


Gostei mais do magnífico quarteto de actores - destaco Jodie Foster - e da impecável realização de Polanski (nunca me pareceu estar a ver teatro filmado) do que propriamente do argumento do realizador e de Yasmina Reza, baseado numa peça desta, que não obstante a sua inteligência e mordacidade me pareceu várias vezes forçado. Que basta um pouco de stress para o verniz civilizacional da pessoa mais insuspeita estalar é uma constatação óbvia, e às tantas dei por mim a pensar, a meio do filme, que já estava tudo dito e só faltaria acumular mais umas quantas situações, tantas quantas aos argumentistas aprouvesse.

Uma palavra final para os cinemas Zon Lusomundo: quebrar um filme de 79 minutos, filmado em 'tempo real', com um intervalo de 7 minutos é de uma estupidez inqualificável.

Carnage, França/Alemanha/Polónia, 2011. Realização: Roman Polanski. Com: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly.

26.12.11

Inquietos


Vi pela primeira vez um filme de Gus Van Sant aí há vinte anos, era 'Drugstore Cowboy', com Matt Dillon que eu já conhecia de 'Rumble Fish' e 'Os marginais' e com Kelly Lynch que eu não conhecia de lado nenhum. Gostei tanto que nunca mais deixei de acompanhar Van Sant. Vi o belo 'A caminho de Idaho' com River Phoenix dois anos antes de morrer, o estrambólico 'Até as vaqueiras ficam tristes' com Uma Thurman, o gélido 'Disposta a tudo' que faria as pessoas olharem para Nicole Kidman como sendo mais do que Mrs.Cruise, assisti à fase em que a crítica o deu como morto, em 'O  Bom rebelde', no dispensável remake de 'Psycho', no subestimado 'Descobrir Forrester', assisti numa sala vazia ao verdadeiro massacre para o espectador que é 'Gerry', Matt Damon e Casey Affleck duas horas a deambularem perdidos no deserto, prenuncio do que aí viria, que seria a ressuceição crítica com 'Elephant', seguida de dois filmes no mesmo comprimento de onda melancólico, 'Últimos dias' (de Kurt Cobain) e 'Paranoid Park' (o meu preferido dos três), assisti ao regresso a terrenos mais 'narrativos' em 'Milk' (Oscar para Sean Penn) e andei para trás no tempo para ver o que não vi quando saiu, 'Mala Noche', a sua estreia.

E cheguei agora a 'Inquietos'. Não é um filme perfeito: não gostei de duas ou três cenas que me pareceram escusadas (como a do médico a combinar o "golfe às cinco") e demorei algum tempo a livrar-me dum certo tom de 'artificialidade' do argumento (um rapaz que 'penetra' em funerais e tem um amigo imaginário que é um kamikaze envolve-se com uma miúda apaixonada por Darwin e com um cancro terminal soa assim um bocado a argumento de finalista de curso de escrita criativa ou de aspirante a argumentista de filmes indie). Mas quando  chegou ao plano em que ele a 'apresenta aos pais', logo me rendi. É que 'Inquietos' tem dos momentos mais tocantes que vi em muito tempo numa sala de cinema. E tem uma actriz - Mia Wasikowska - que merece o céu. E um grande realizador, com um talento especial para escolher os seus actores e actrizes. É um dos filmes do ano, pois claro.

Restless, E.U.A., 2011. Realização: Gus Van Sant. Com: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Ryo Kase, Schuyler Fisk, Lusia Strus, Jane Adams.

21.12.11

Filmes famosos que eu nunca vi


Respondendo ao desafio de um amigo, assim de repente, cá vão os 5 casos mais gritantes:

- A saga Star Wars
- A saga Harry Potter
- Titanic
Os condenados de Shawshank (só incluo este porque parece que é o filme melhor pontuado no IMDB)
- A  trilogia de Apu (confesso que estes clássicos de Satyajit Ray são a única falha desta lista que tenciono colmatar)
 
E o caro leitor, quais são as suas falhas?

18.12.11

Nor should it


"The West knows nothing of these pictures [pink film], nor should it", Donald Richie, the doyen of Japonese film criticism, once famously proclaimed. This book avers otherwise.

Jasper Sharp in 'Behind the Pink Curtain - The Complete History of Japanese Sex Cinema'

15.12.11

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19,99€ cada caixa, na Fnac.