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21.2.08

Persepolis



'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.

O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.

Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial. (*)
Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.

(*) Post originalmente publicado em Outubro de 2007, aquando da Festa do Cinema Francês.

29.10.07

Persepolis



'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.

O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.

Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial.

Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.

17.3.07

Os Anjos Exterminadores



'Coisas secretas' é um filme erótico (eu sei que o termo está colado a Emanuelles e afins, mas pronto) sobre duas mulheres, amantes, que usam o sexo para 'subir na vida'. É um filme curioso, mas não mais do que isso. Não obstante, quando saiu em 2002 (por cá foi directamente para dvd o ano passado) excitou muito bom crítico, recebendo o seu realizador Jean-Claude Brisseau o epiteto de grande subversivo e provocador. Os Cahiers du Cinéma deram-lhe mesmo o primeiro lugar (compartilhado com 'Dez' de Kiarostami) no seu top desse ano! Mas a bomba surgiria um par de anos mais tarde: Brisseau foi acusado de assédio e agressão sexual por quatro actrizes que tinham feito testes de casting para o filme, mas que não tinham obtido um papel. Seria julgado o ano passado e condenado a uma pena suspensa de um ano e a pagar 15.000€ de indemnização (apesar de tudo livrou-se de ficar inscrito num ficheiro de delinquentes sexuais, que pelos vistos existe em França). No mesmo ano, o realizador (de 61 anos e uma carreira de 3 décadas, mas com apenas meia dúzia de filmes) anunciou que estava a terminar uma nova obra com um argumento inspirado neste desagradável episódio da sua vida - 'Les anges exterminateurs', precisamente, que passou por cá na recente Festa do Cinema Francês. (*)
Este filme pode ser então visto como uma defesa por parte de Jean-Claude Brisseau e, porque não, como uma expiação ou exorcismo. Diga-se desde já que é uma defesa sui generis: durante hora e meia um realizador (obviamente alter ego de Brisseau) que pretende realizar um filme sobre o prazer das mulheres, sobre os seus limites, faz testes a potenciais actrizes ('porque isto não lhes é ensinado na escola de teatro') que consistem em estas se acariciarem, sozinhas ou em grupo. Não só em frente à câmara, em quartos de hotel, mas também à mesa de um restaurante, por exemplo. Esta hora e meia provoca-nos duas perplexidades: em primeiro lugar parece que o realizador está a dar parte da razão a quem o acusou - a própria mulher do seu alter ego lhe está sempre a dizer que aquilo vai acabar mal, e não há espectador que não tenha aquele sentimento tão popular do 'estava mesmo a pedi-las'!; em segundo lugar, e não obstante alguma retórica justificativa, parece que estamos assistir a um filme, não direi pornográfico, mas que não andará lá longe. O realizador reserva apenas o último quarto de hora para descrever a acusação de que é alvo (o seu personagem) e a sua 'defesa'. Não há duvida que esta opção é bastante desconcertante e redimensiona toda a nossa percepção do filme, elevando-o a um patamar que não parecia alcançável. A sua defesa é subtil: nunca tocou nas raparigas; não lhes prometeu nada; elas são actrizes e fazer uma cena de sexo num casting é apenas trabalho; e finalmente, sugere que foi o facto de algumas se apaixonarem por ele que motivou a vingança (uma deles explica-lhe muito freudianamente que se apaixonam por ele por ser tão paternal). E nós poderiamos acrescentar que eram todas maiores de idade e ninguém foi obrigado a nada. É claro que o filme levanta uma série de questões muito interessantes, ou não fosse Brisseau um realizador profundamente cerebral (não há aqui qualquer contradição): e para este 'Les anges exterminateurs' , que envolve cenas sexualmente muito mais explícitas que 'Choses secrètes' Brisseau não fez testes às actrizes? Desistiu do seu método? Ou desta vez obrigou-as a assinar algum tipo de compromisso?
Um filme que acaba por nos conquistar pela sua inteligência e, já agora, ousadia.
(PS: Brisseau filma muito, muito bem - quando falamos em pornográfico nada tem a ver com a estética destes filmes, bem entendido.)
(*) Post originalmente publicado em 03/11/2006, aquando da Festa do Cinema Francês.
Les anges exterminateurs, França, 2006. Realização: Jean-Claude Brisseau. Com: Frederic Van Den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Raphaële Godin, Margaret Zenou