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29.6.07

10 filmes da vida de...

...Chico Fireman. É autor do blogue Filmes do Chico e o criador e força dinamizadora da Liga dos Blogues Cinematográficos.



Sunrise (27), de F.W. Murnau
O mais belo filme sobre o amor que alguém poderia ter feito.

Rio Bravo (59), de Howard Hawks
O anti-western definitivo.

Elephant (03), de Gus Van Sant
O filme sobre a falta de uma só verdade.

Cries and Whispers (72), de Ingmar Bergman
As dores têm suas cores.

North by Northwest (59), de Alfred Hitchcock
O mais delicioso dos filmes do mestre.

O Céu de Suely (06), de Karim Aïnouz
O cinema brasileiro à procura de um lugar.

The Man with a Movie Camera (29), de Dziga Vertov
A invenção da montagem.

La Passion de Jeanne d'Arc (28), de Carl Th. Dreyer
Um filme esmagador.

Apocalypse Now
(79), de Francis Ford Coppola
A genial descida ao inferno, com Marlon Brando como o capeta.

Arsenic and Old Lace (44), de Frank Capra
Não seria a melhor comédia de todos os tempos?

21.6.07

10 filmes da vida de...

...Sandra Bettencourt (aka S.B. ), 23 anos, estudante de Estudos Artísticos - variante de Cinema. É autora do blogue Observando o tempo.

Seleccionar, enfatizar e deixar de parte 'objectos' de que gostamos é sempre complicado e injusto. Como tal tem de haver um critério que se imponha, no meu caso são aqueles filmes que me fizeram despertar para o cinema, que me fizeram encará-lo de um modo diferente. São aqueles filmes que me piscaram o olho e aos quais eu retribuí. Aos quais eu devo algo...


A Clockwork Orange (Stanley Kubrick, 1971)
Poderiam ser todos os filmes de Kubrick, especialmente Barry Lyndon, mas é A Clockwork Orange porque foi o primeiro que vi daquele que considero como Mestre. Deslumbrar-me-á sempre a sua capacidade de filmar o ser humano imperfeito, terrivelmente imperfeito, por vezes desprezível. Por isso mesmo sedutor, pois é livre.

Wings of Desire (Wim Wenders, 1987)
Um filme que vive das imagens. Bem como dos monólogos interiores que nos apresentam a condição humana da mortalidade de um forma belíssima. Um filme poema. Quando acabei de o ver, pela primeira vez, o meu desejo foi revê-lo o mais rapidamente possível.

M (Fritz Lang, 1931)
Cada vez que vejo M mais me surpreendo com o filme. O poder do não visto tem um efeito angustiante em mim, mostra muito mais em não mostrar e os som ganham uma dimensão importantíssima, nunca me vou esquecer do nome Elsie evocado desesperadamente pela mãe ou do assobio de Peter Lorre. A questão da liberdade humana e do que é justiça e por quem é que deve ser praticada sempre me fascinou em M.

The Godfather: Part II (Francis Ford Coppola, 1974)
Sou fã da trilogia, da forma como retratam o percurso se Michael Corleone, os três filmes em conjunto fecham o circulo da narrativa de filmes de gangster clássico: a ascensão e queda do gangster, um dos temas que me fascina no cinema. No entanto a minha preferência recai sobre o segundo filme talvez por tratar da fase de apogeu do gangster (e eu gosto sempre de ver Al Pacino de forma luminosa e poderosa), em segundo pela anacronia imposta pela personagem de De Niro, o jovem Vito Corleone, e terceiro pela narrativa que é mais complexa e torna os personagens mais ambíguos.

À Bout de Souffle (Jean-Luc Godard, 1960)
Quando vi o filme não sabia quase nada do que era a "Nouvelle Vague" e pouco conhecia de cinema francês porque me tinha convencido de que não gostava. Godard fez-me mudar completamente a minha opinião, apaixonei-me pelo filme, pelas ruas da cidade, pela Seberg e pelo Belmondo, pelos seus diálogos, pela luz, pelos sorrisos e pelo final. Não consigo deixar de assistir ao filme sem um sorriso nos lábios.

Le Notti Bianche (Luchino Visconti, 1957)
Tal como em À Bout de Souffle foi com este filme que descobri, ou aprendi a gostar de cinema italiano. Não há nada no filme que eu não goste, apesar da temática não me ser muito apelativa, pelo trabalho dos actores e de Visconti, aceitei-a e adorei. Um filme recheado de imagens belíssimas.

Offret (Tarkovski, 1986) A forma como Tarkovski trabalha o espaço em O Sacrifício é magistral. As suas dimensões parecem estar em permanente transformação, mas com uma leveza e sensibilidade que os espaços físicos ganham vida e respiram, fundindo-se com o interior com o exterior. Para mim, Tarkaovski é um dos grandes mestres da imagem e da câmara de filmar, neste seu último filme comprova-o, de uma forma mais subtil e, talvez por isso, mais sublime.

Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (Murnau, 1922)
A par de Gabinete do Dr. Caligari, foi o primeiro filme que vi do cinema alemão da República da Weimar. Expressionista ou Caligarista, ainda estou para compreender bem esta distinção. Arrebatou-me por completo a forma como o tema do vampiro foi tratado (alguns dos meus filmes favoritos são sobre vampiros: The Hunger e The Addiction). O uso da luz/sombras, a representação de Max Schreck (há quem defenda que era o próprio Murnau) ainda hoje me surpreendem.

Apocalypse Now (Francis Ford Coppola, 1979)
Na minha opinião o melhor filme de guerra, com uma realização irrepreensível, e representações fantásticas. Daqueles filmes que me fazem maravilhar com a sua imponência visual, à semelhança dos épicos "western spaghetti", com as mise-en-scéne sempre muito bem orquestradas.

Repulsion (Roman Polanski, 1965) Foi a minha introdução ao cinema de Polanski, do qual fiquei fã, e à representação de Deneuve. A construção da paranóia e dos traços de um inconsciente surrealista fazem deste filme uma forte experiência visual. Por influência de Repulsion, descobri dois outros filmes que se tornaram também dos meus favoritos: Belle de Jour (Bunuel) e The Lodger (Polanski)

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o Chico Fireman.

12.6.07

10 filmes da vida de...

...Helena, aka H., 21 anos, estudante de História com sonhos de letras e um amor incontrolável por Cinema. Autora do blogue As Imagens Primeiro.


Rebel Without a Cause (1955), de Nicholas Ray
A obra mais pura e imortal sobre a juventude, que tanto pode pertencer apenas aos EUA dos 50s como ao mundo de hoje. A inocência dos marginais de Nick Ray é das coisas mais bonitas que o cinema me mostrou, essa fome de viver sem saber como, esse desejo de sentir sem se conhecer as regras sociais que sempre constrangem, esse confronto permanente com a rejeição e a morte mas ao mesmo tempo essa efémera possibilidade de encontrar a perfeição no imperfeito mundo real (simbolizada no refúgio de Jim, Judy e Plato na casa vazia)... Pode soar cliché mas os filmes de Nick Ray deram-me uma estranha forma de compreensão. E depois, naturalmente, há James Dean, anjo, mito, homem – inigualável.

The Misfits (1961), de John Huston
Filme de uma beleza avassaladora, é também um filme de anunciação da morte. Não só a de Marilyn e de Gable, que não mais apareceriam no ecrã em novos filmes, mas também a de um mundo, o da liberdade selvagem que a personagem de Gable personifica. Todo o filme é um hino ao tempo condenado, aos instantes de real que vidas gastas aproveitam em peculiares empatias. Os diálogos de Arthur Miller são qualquer coisa de magnífico.

Une Femme Est Une Femme (1961) / Vivre Sa Vie (1962), de Jean-Luc Godard
Dos dois não consigo optar por um. Um mais feliz, outro mais sombrio, estes filmes são autênticas declarações de amor, que bem pode ser definido pela forma como a câmara de Godard capta o rosto de Anna Karina. Obras sobre uma mulher (“a” mulher), a maneira como se encontra e se perde. Impossível não sorrir e chorar com elas, com a explosão de entusiasmo que o Godard me costuma provocar em alguns momentos.

Hiroshima Mon Amour (1959), de Alain Resnais
A imagem excelsa de Resnais e a palavra radical de Duras num filme sobre o peso da memória e, sobretudo, o terror do inevitável esquecimento. Um filme sobre o amor maior, sobre a sociedade que o não aceita, mas também sobre a História, as suas cicatrizes e as marcas indeléveis do que nos formou enquanto seres conscientes de nós.

The Dreamers (2003), de Bernardo Bertolucci
É inevitável não falar neste filme quando me refiro aos “meus filmes”. É um filme de amor ao cinema, de amor ao amor e de amor à liberdade passado numa época que muito me fascina, o Maio de 68 em França. Obra de poesia bruta, sobre seres que se encontram e se complementam em experiências motivadas e exploradas pelo cinema, fazendo de si próprios personagens até já não mais saberem quem são na realidade. A minha ligação a este filme é muito forte e inexplicável, um misto de identificação e fantasia.

Citizen Kane (1941), de Orson Welles
Foi o filme “antigo” com que descobri o cinema “antigo”. Tinha uns 15 anos e senti que estava perante algo que me ultrapassava, mas que me fascinava de forma única. Revi-o depois várias vezes e a admiração por ele só cresceu. E pensar que Welles tinha só 26 anos quando fez esta obra-prima...

Lost in Translation (2003), de Sofia Coppola
Um dos, senão mesmo o filme mais influente da minha geração. Duas almas gémeas que se encontram no limiar da descrença, quando já haviam desistido de uma ideia de completude. Provavelmente das histórias de amor mais comoventes do cinema sem nunca por nunca cair na lamechice. Sofia Coppola vai evidenciando mais pela imagem que pela palavra o retrato interior das suas personagens. Para sempre fica a visão de Bill Murray a acariciar os pés de Scarlett Johansson murmurando-lhe que ainda há esperança para ela.

City Girl (1930), de F. W. Murnau
Podia ter escolhido Aurora, a obra que me revelou esse mestre máximo que é Murnau, e que igualmente venero. City Girl é, tal como Aurora, um filme que mostra fé nas pessoas, mesmo quando elas se fazem sentir rudes e más. Gosto muito da rapariga da cidade do título, uma solitária citadina que vai para casa limpar o pó das flores de plástico e ouvir o pássaro de brinquedo – imagens que são tão pungentes para 1930 como o são agora – e que lutará pelo homem do campo que ama mas cujo pai a despreza. Há uma sequência nos campos entre os dois enamorados que deve ter feito “genealogia” até Match Point...

Os Verdes Anos (1963), de Paulo Rocha
O filme que me ensinou como o cinema português pode ser perfeito. Retrato da Lisboa cidade dos 60s, de pessoas que a habitaram, da timidez do amor e da ferocidade do mistério humano. Aquela música de Carlos Paredes e aquela canção que é cantada enquanto Júlio dança com Ilda provocam-me arrepios. Como muitas das minhas obras de eleição, é também sobre a juventude que se vai esvanecendo. “Eram enganos e era um medo / A morte a rir / Dos nossos verdes anos...”.

The New World (2005), de Terrence Malick
Se exceptuar o abalo sensorial provocado pelo filme de Jesper Ganslandt na última edição do Indie Lisboa, The New World é sem dúvida o filme dos últimos anos que mais me arrebatou. Terrence Malick é um poeta da imagem, e lega-nos aqui um hino à natureza, ao significado de lar, à evidência da pertença – a uma terra e a um outro ser – ao milagre da união total. É um filme que tem tanto de absolutamente belo como de triste, pois Malick mostra-nos uma hipótese de convivência, uma ideia de paraíso que o homem conspurcou e destruiu. Acima de tudo, a figura magnética de Pocahontas, a minha heroína de fim de infância, que reencontrei e redescobri e me mostrou como existe tanta coisa quando nos abandonados ao sentir – sentir proporcionado de forma única em frente ao ecrã de uma sala de cinema.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a S.B.

5.6.07

10 filmes da vida de...

...Rui Gonçalves, autor do sazonal blog esponja e colaborador (em prolongada sabática) cá da casa.



Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971), porque tem a mesma idade que eu.

Um Coração Selvagem (David Lynch, 1990), porque usar um casaco feito de pele de cobra sem parecer ridículo não é para todos.

Nova Iorque Fora de Horas (Martin Scorsese, 1985), porque me dá a oportunidade única na vida de escrever Papier-mâché.

Drugstore Cowboy (Gus Van Sant, 1989), porque nunca mais vi uma junkie tão cool como a Kelly Lynch.

Nem Guerra Nem Paz (Woody Allen, 1975), por causa do meu tio Boris e porque gosto de Borscht.

O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Dela (Peter Greenaway, 1989), conheço pelo menos uma pessoa que foi ver o filme porque “pelo título pensava que era uma comédia para desanuviar”.

Que fiz eu para merecer isto? (Pedro Almodóver, 1984), porque tenho saudades das Madalenas da minha avó e de cortar o rabo às sardaniscas.

A Corda (Alfred Hitchcock, 1948), porque deve ter saído barato.

Metropolis (Fritz Lang, 1927), porque vi este filme numa discoteca decadente em Espanha enquanto o dj passava Reggaeton.

Heidi (?)/ Os Robinsons (Stephen J. Anderson, 2007), porque foram o primeiro/último filme que vi numa sala de cinema.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a H.

29.5.07

10 filmes da vida de...

...atomo!, Designer de Multimédia e Ilustrador, 32 anos, com uma curiosidade cinéfila levada à obsessão, editor do Bitlogger.

Uma selecção destas é sempre injusta e quase nunca reflecte o que vou vendo actualmente e não inclui inúmeras obras que aprecio de forma apaixonada. Mais do que fazer uma selecção coerente e que reflecte quaisquer géneros que prefira, escolhi estes 10 favoritos (sem qualquer ordem de preferência) de uma lista de mais de 50 ‘essenciais pessoais’ que me causa amargura de também não caberem aqui.

Como nota de rodapé, gostaria também de dizer que nestes dez filmes também a banda sonora teve uma importância grande na escolha e, já agora, que a linguagem algo pontuada por conceitos ‘psicanaliticos’ não foi intencional (embora seja estranha).



Vertigo (Alfred Hitchcock, 1958)
Seria fácil incluir na lista qualquer dos ‘filmes americanos’ de Hitch, mas optei por este devido às constantes revisitações obsecadas. Para além de qualquer interesse na narrativa imediata de Vertigo, retenho mais aqui os constantes jogos sádicos a que Hitch submete o espectador (e claro as suas personagens) e sobretudo as pulsões interiores que são taboos e que poucas vezes foram mostradas desta forma no Cinema, subtis mas inquietantemente presentes.

Carnival of Souls (Herk Harvey, 1962)
Harvey, com uma carreira pouco extensa e muito dedicada ao chamado cinema efémero, recicla aqui toda a extensa e gigantesca herança que o Expressionismo imprimiu no Cinema Americano (e que ainda se continua a sentir, em bons e maus exemplos) e do chamado American Gothic para criar um filme inovador e que ainda hoje causa arrepios.
Todos os pormenores da 'alma perdida' que protagoniza o filme, dos gestos mais quotidianos à pura alienação mortal, fazem deste filme um dos mais hipnóticos exemplos do cinema (dito) fantástico, que me atrai sobretudo devido à mestria técnica de Harvey, que nunca precisa de recorrer a efeitos especiais elaborados para fazer o espectador cair em transe.

À Bout de Souffle (Jean-Luc Godard, 1960)
De certa forma uma reflecção sobre o Film Noir (poucos são ainda os estudiosos que injustamente atribuem a vital importância ao filme criminal francês do pré-II Guerra Mundial no género), o Acossado é também aquilo que mais gosto no Godard dos 60s: um permanente voyerismo pela geração da nouveaux Paris (mais nova do a do mestre) e a desculpa de filmar uma história para referenciar (e ‘reverenciar’) as inúmeras referências culturais e pop de uma geração de teóricos.

Sayat Nova (aka Colour of Pomegranate, Sergei Parajanov, 1968)
Contando a história do trovador e poeta arménio do século XVIII, Parajanov construiu um dos filmes mais estilizados e artisticamente precisos que há memória em toda a história do Cinema (desculpem o pedantismo).
Cada frame deste filme é uma obra de arte que oferece ao espectador não a narrativa 'realista' da vida de Sayat Nova (que estava na intenção do Regime Soviético quando contractou Parajanov para tal), mas o simbolismo poético que compõem uma biografia. Pura poesia visual.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (Russ Meyer, 1965)
Este deve ser o mais singular filme de Meyer, aquele onde as suas avantajadas vixens, sempre representadas através do desejo masculino, se tornam aqui no próprio gerador desse mesmo ‘objecto’ desejado, num ‘jogo de espelhos’ que revela as pulsões masculinas mais primais.

Tentando desculpar-me desta descrição algo barroca, em Faster Pussycat!, para lá do aço dos automóveis (sempre um símbolo fálico e simultaneamente americano) e da carne abundante das personagens femininas, fica um excitante retrato de uma violência caricatural quase indomável, presente na personagem de Varla (a actriz de culto Tura Satana), que tem o seu apogeu nos 70s e que agora serve de ‘muleta’ a todos estes recentes revivalismos dos clássicos dos filmes de grind house.

Scorpio Rising (Kenneth Anger, 1964)
Um dos filmes mais ambíguos do cinema independente americano (e também um dos que mais amores e ódios gerou), Scorpio Rising é a minha obra favorita de Anger, sobretudo pela forma como consegue criar uma imagem icónica, recriando todo o sentido do termo cultura pop americana e sobretudo o que era de facto rebeldia visual, e que agora é apenas um cliché camp.

Usando técnicas (e um formato) cinematográficas apenas repetidas muito mais tarde com a ascensão do videoclip musical (já nos 80s), Scorpio Rising, na sua curta meia hora de duração, é uma espantosa reflecção sobre a cultura popular americana, sempre presente nos chamados biker films. Usando as mesmas pulsões que The Wild One (László Benedek, 1953), Anger entrega aqui uma despudorada visão sobre um dos mitos heróicos americanos, criando um espantoso catálogo de fetichismos cinematográficos (e outros).

Lost Highway (David Lynch, 1997)
Com a invocação de Meshes in the Afternoon (Maya Deren, 1943... outro que ficou de fora), Lynch começa aqui a sua final consolidação de uma linguagem visual em ‘camadas’ e elipses narrativas (a chegar a um excelente e ‘barroco’ amadurecimento), pegando no Cinema Clássico para criar o que será (e já é) a nova forma de narrativa visual, consolidada com Mulholland Drive e Inland Empire.

One, Two, Three (Billy Wilder, 1961)
Não existe um único filme de Wilder que não devesse estar nesta lista. Para evitar citar The Seven Year Itch, Sunset Blvd., Double Indemnity ou The Apartment, todos escolhas 'fáceis' de justificar (são favoritos desde o final da infância), escolhi este fabuloso e corajoso exercício de sarcasmo com um sentido visionário sobre o que estava a passar na Berlim dividida após a II Grande Guerra. Como em quase todos os filmes de Wilder, nunca as palavras foram tão cortantes, nesta estranha fábula multinacional, onde o slapstick verbal asume contornos quase perigosos. Tal como na altura da estreia este é ainda o mais ‘incómodo’ filme de Wilder, como aqueles que estava presentes numa célebre exibição da versão uncut deste filme na Cinemateca Portuguesa aqui a uns anos se lembram, com uma estranha batalha verbal entre várias facções (não só cinéfilas) na plateia.

Yojimbo (Akira Kurosawa, 1961)
Mais ‘modesto’ que a obra-prima Sete Samurais (será?) Yojimbo é uma das obras mais completas que me lembro. Temos um realismo que não tem vergonha de mostrar comédia e a tragédia humana, o anti heroismo marcadamente ‘Kurosawiano’, um icon do ‘novo’ western (Mifune) e a continuação do quebrar com o passado imperialista japonês, com a sua humanização dos heróis e uma desacralização dos simbolos. Tecnicamente, como qualquer filme de Kurosawa nos 50s e 60s este filme é também um catálogo soberbo de inovações filmicas, que dá um gozo especial ver (e ouvir).

Laura (Otto Preminger, 1944)
Tal como Vertigo, aqui Preminger (outro autor fetichista), conta um estranho conto de necrofilia, onde todas as palavras, gestos e objectos parecem ter duplos sentidos. Conduzidos pela magnífica e ácida personagem Waldo Lydecker (uma das minhas personagens favoritas de sempre), somos levados por uma estranha viagem voyerista de pulsões freudianas onde a personagem do título, com o estranho nome de Laura Hunt (a espantosa Gene Tierney) faz revelar os cantos mais escondidos e estranhos do desejo humano e onde as máscaras psicológicas possuem vida própria.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é esponja, aka Allen Douglas.

24.5.07

10 filmes da vida de...

...Pedro Soares aka dermot, 24 anos, (quase) arquitecto de formação, cinéfilo por obsessão e autor do blogue Royale With Cheese por carolice.

Escolher (apenas) 10 filmes que tenham mudado a minha vida é uma situação ingrata, porque dez filmes num universo de milhares de filmes é uma gota num oceano. É como ter que escolher entre o pai e a mãe. Mas como sou um tipo corajoso decidi aceitar o desafio que o Harry Madox me lançou.
Estas listas dependem sempre de muita coisa. Se fossem só três filmes, era capaz de ser mais fácil. Assim, muitas escolhas vão depender do momento, das emoções ou de meros caprichos. Se esta lista fosse feita amanhã ou até mesmo daqui a 5 minutos seria, certamente, diferente.
Ressalvo ainda um pormenor: tirando o primeiro lugar, todos os outros não obedecem a nenhuma ordem qualitativa ou algo do género.

Pulp Fiction
No cinema, Quentin Tarantino é o meu Deus e Pulp Fiction a Bíblia. Se fizesse uma analogia com o futebol, o Tarantino seria o meu José Mourinho e Pulp Fiction o Chelsea. Acho que já perceberam onde quero chegar. Pulp Fiction não é um dos filmes da minha vida; é o filme da minha vida. Duvido que haja mais algum filme capaz de fundir a nouvelle vague, a cultura pop e o cinema xunga e dar-lhe um aspecto novo e original. Tarantino é o Godard dos anos 90!

Laranja Mecânica
Este é um daqueles marcos da minha adolescência, que mudou radicalmente a minha maneira de ver o cinema. Violência, sexo e Beethoven, eis uma combinação que nunca pensei que resultasse tão bem, tão... poeticamente. É, provavelmente, o filme mais iconoclasta desta lista.

Triologia O Padrinho
É certo que o terceiro tomo desta triologia não tem a categoria dos dois primeiros (argh, detesto o Andy Garcia), mas a epopeia não ficava completa sem este filme. Contudo, os dois primeiros são filmes perfeitos e arrisco mesmo a dizer que são os filmes mais bem escritos de sempre. Marlon Brando é genial, Al Pacino soberbo e Robert de Niro perfeito.

O Bom, o Mau e o Vilão
Sou um admirador inveterado de westerns de todo o tipo: clássicos, spaghettis e alternativos. Confesso que estive a um passo de escolher “Lágrimas Do Tigre Negro” – não é todos os dias que se vê um western tailandês, com cowboys de olhos em bico, cenários pintados a papel crepe e melodrama trágico a la telenovela mexicana –, mas se não optasse por “O Bom, O Mau E O Vilão” não me ia sentir bem comigo mesmo. Expoente máximo do western spaghetti, obra-prima de Ennio Morricone e Clint Eastwood melhor do que nunca – a melhor introdução possível ao western.

Um Coração Selvagem
Penso que é quase um lugar-comum encontrar um filme de David Lynch na lista dos filmes favoritos dos cinéfilos mais novos. Eu não sou excepção e o filme é “Um Coração Selvagem”. Não sou particular apreciador da fase surrealista de Lynch – nessa coisa de surrealistas, quem me tira o Jodorowskyn tira-me tudo. “Um Coração Selvagem” foi o filme que me revelou que o cinema também era artístico e... diferente de tudo aquilo que costumava alugar no clube de vídeo. E Sailor Ripley é capaz de ser o nome mais porreiro de sempre para um protagonista.

Parada de Monstros
Foi “Parada De Monstros” que arruinou a carreira de Tod Browning, acusado pela América conservadora de ser um sencacionalista barato. Sensacionalismo barato são os filmes de cowboys com anões ou os filmes de artes-marciais com shaolins amputados. Isto é um dos mais fantásticos filmes de sempre e continua hoje tão actual como há cinquenta anos atrás. Browning filma uma mão-cheia de aberrações de circo, mas os verdadeiros monstros são os homens ditos “normais”. Agora que penso nisso, é o que Guillermo Del Toro tem andando a fazer nos seus últimos filmes...

Harold e Maude
Em “Doidos Por Mary”, Cameron Diaz diz às tantas que “Harold E Maude” é a maior história de amor do cinema. Concordo piamente. Esta espécie de “Romeu E Julieta” subversivo, que une um rapaz depressivo com uma velhota esquisita que frequenta funerais é um filme divertido, bizarro, comovente e até romântico. E a banda-sonora de Cat Stevens deve ser a única coisa de jeito que ele fez na sua vida.

A Semente do Diabo
Qualquer um dos filmes da triologia dos apartamentos poderia estar aqui nesta lista. No entanto optei por “A Semente Do Diabo” por várias razões: pela banda-sonora que ainda hoje me causa arrepios na espinha; pela Mia Farrow que fica muito bem de cabelo curto; e por ser o primeiro grande filme de terror psicológico.

Casablanca
Este é o cliché desta lista. No entanto, não poderia deixar de o incluir. Não vale a pena dizer muito sobre “Casablanca”, toda a gente já o viu ou já ouviu falar dele. E deve ter sido o primeiro filme a preto e branco que vi, do princípio até ao fim, totalmente absorvido e fascinado com o que via.

Desperado
É provavelmente a surpresa desta lista. Mas faz todo o sentido que aqui esteja. Tarantino disse uma vez que “se quiseres fazer um filme de acção, então tens de fazer o melhor de sempre”. E foi isso que Robert Rodriguez fez. Já tinha feito um bom filme de acção, o “El Mariachi”, e por isso agora tinha que fazer o melhor de sempre. E é assim que surge “Desperado”, um Antonio Banderas cheio de estilo que se desvia dos tiros inimigos com grande graciosidade, dizima sozinho um exército inteiro e ainda toca viola. Só não apanha as balas com os dentes porque para isso já existe “O Super-Polícia”...

Menção Honrosa: This Is Spinal Tap
Vou tomar a liberdade de incluir nesta lista uma menção honrosa. É que depois d eter terminado, fiquei a pensar que esta lista deveria ter uma comédia. É que toda a vida vi comédias, desde que comecei a ver cinema. Por isso, não fazia sentido não incluir nenhuma. Por isso, ia escrever ali em cima “Top Secret!”, mas, misteriosamente, os meus dedos escreveram antes “This Is Spinal Tap”. E quem sou eu para contestar o meu inconsciente?. “This Is Spinal Tap” é um mockumentário hilariante sobre uma banda de rock’n’roll fictícia, que parodia de forma inteligente todos os clichets do rock. É um dos filmes que eu gostaria de ter feito um dia.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o atomo!

16.5.07

10 filmes da vida de...

... o terceiro homem.
Dez filmes que me vieram à cabeça ... nos minutos seguintes pensei que poderia fazer mais uma quantas listas com dez filmes inesquecíveis. Mas foram estes que saíram à frente:



The Third Man ( O Terceiro Homem), Carol Reed, 1949
Um filme completo, cuja primeira visão foi mágica e obrigou a sucessivas revisões

Blue Velvet (Veludo Azul), David Lynch, 1986
Define muito do mistério de Lynch. "O mundo é um lugar estranho, não é?". Banda sonora memorável

The Treasure of Sierra Madre (O Tesouro de Sierra Madre), John Huston, 1948
Humphery Bogart num exercício perfeito, aventura e drama, sobre a corrupção humana

I Know Where I'm Going (Sei para Onde Vou), Michael Powell and Emeric Pressburger, 1945
Powell é um dos favoritos e este foi um dos filmes que descobri tardiamente. Uma 'love story'

Viridiana, Luis Bunuel, 1961
A perversão de Bunuel em pleno, com o catolicismo na mira

The Big Heat (Corrupção), Fritz Lang, 1953
A violência e a culpa levadas ao extremo, com cenas de "arrepiar" para os anos 50

Bonnie & Clyde , Arthur Penn, 1967
A melhor maneira de tratar uma lenda

The Quiet Man (O Homem Tranquilo), John Ford, 1952
Ford e Wayne numa combinação atípica, com comédia e drama na Irlanda

The Night of the Hunter ( A Sombra do Caçador), Charles Laughton, 1955
Obra-prima absoluta

One from the Heart, (Do Fundo do Coração), F. F. Coppola, 1982
Coppola fez vários filmes geniais: escolho este por motivos especiais relacionados com a primeira vez que o vi. Foi uma espécie de magia. Que perdura

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é dermot

8.5.07

10 filmes da vida de...

...Sérgio Alpendre, 38 anos, cinéfilo doente desde 1989. É jornalista e editor da Revista Paisà, publicação bimestral de cinema.

DEZ ENTRE OS VÁRIOS FILMES QUE MUDARAM MINHA VIDA

A escolha é meramente circunstancial, movida pela paixão e pelo sabor de revisões e redescobertas. Eu já havia feito uma lista semelhante para o blog do Chico Fireman. Mas, como já se passaram uns dois anos, me arrisco novamente. Quando eu repetir cineastas, tomarei o cuidado de não repetir os filmes, a não ser quando for inevitável. Claro que algumas escolhas são por demais manjadas. Poderia citar só diretores pouco mencionados, ou diretores esquecidos – e teria muitos que preenchem esses requisitos e são tão merecedores quanto os escolhidos abaixo. Mas se eu for pensar unicamente no critério abalo sísmico interno, os que escolhi representam melhor os meus quase vinte anos de cinefilia compulsica. Aos muitos diretores do coração que ficaram de fora: Lang, Preminger, Ford, Hawks, Resnais, Rohmer, Romero, Eastwood, Scorsese, De Palma, Welles, McCarey, Tsai, Kiarostami, Mizoguchi, Ozu, Kiyoshi Kurosawa... e tantos outros, a menção carinhosa nesta introdução. Aos leitores que quiserem (re) descobrir alguns desses filmes, minhas mais sinceras palavras de incentivo.
* perdoem a escolha pelo título em português que os filmes tiveram no Brasil.


Uma Mulher Sob Influência (A Woman Under the Influence, 1974) – de John Cassavetes
Durante muito tempo tinha uma preferência escancarada por Faces, mas uma nova série de revisões da obra deste diretor inigualável me fez equiparar este filme ao preferido solitário de outrora. Cada vez que Gena Rowlands mostrava sua maneira peculiar de amar, eu me vejo em lágrimas. E assim acontece a cada revisão.

Amor de Perdição (1978), de Manoel de Oliveira
Manoel é dos meus três diretores preferidos. Um dos outros é Cassavetes, e não me perguntem o terceiro, pois muda a cada dia, tantos merecedores de um lugar privilegiado em meu coração. A primeira vez que vi este filme, a sala acarpetada estava com o ar condicionado quebrado. Foi um martírio. Mas também uma das sessões mais intensas da minha vida cinéfila. Na segunda vez, o projetor estava quebrado, e ocorria interrupção a cada vinte minutos para troca dos rolos. A sessão demorou mais de seis horas, mas foi novamente uma experiência intensa, semelhante à que passei descobrindo O Sapato de Cetim, do mesmo diretor. Quando apertei a mão de Manoel de Oliveira, numa de suas passagens por São Paulo, mal pude falar. Fiquei emudecido, tamanha a minha admiração pelo cinema desse senhor tão culto e tão simples.

O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador, 1962), de Luis Buñuel
Descoberta do início da cinefilia, que ainda se mantém no panteão. Esse mudou minha vida no sentido de que algumas inquietações religiosas e filosóficas (sim, nessa época meu cérebro ainda era capaz de tê-las) me pareceram muito bem traduzidas em imagens. Ou seja, adorei Buñuel desde o início por que ele me fez compreender melhor a mim mesmo e ao meu espírito.

Verão Violento (Estate Violenta, 1959), de Valerio Zurlini
Junto com Dois Destinos, um dos filmes que mais mexeu comigo. Primeiro pelo plot-point inesquecível do abraço da criança em Trintignant, que iria mudar a vida dele e da mãe da criança. Segundo, pelo genial final do primeiro ato, com a dança de olhares entre as pessoas que dançavam no casarão. Não conheço quem tenha tratado com tanta sensibilidade a falta de reciprocidade nos flertes, e o ciúme dos não correspondidos.

O Desprezo (Le Mépris, 1963), de Jean-Luc Godard
Poderia ser Pierrot le Fou, Weekend, O Pequeno Soldado, Passion, Prenom Carmen, Éloge D’Amour... todos geniais. Esse eu conheci em VHS, numa cópia adulterada pela Globovideo, com cores esmaecidas e sem o formato scope, além de ter dois rolos trocados. Mesmo assim, bateu forte, e já naquela época considerei uma obra-prima. Depois revi em cinema (duas vezes) e DVD (mais uma vez), e ainda acho que preciso rever mais umas vionte vezes para captar tudo que o filme pode me passar.

As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972), de Rainer Werner Fassbinder
Para uma aula que ministrei recentemente, fiz ampla revisão da obra de um dos meus diretores preferidos. Ainda me divido entre esse e Roleta Chinesa, Num Ano Com Treze Luas e O Desespero de Veronika Voss. Mas Lágrimas Amargas, para mim, retrata muito bem a diferença entre cinema e teatro. Fassbinder conhecia muito bem essa diferença, e o que ele realiza aqui, uma adaptação de peça de teatro de sua autoria, é cinema em estado bruto, entregando o que nenhuma outra arte poderia entregar: o balé dos olhares, maliciosos, invejosos, despeitados, aventureiros, recalcados, humanos, enfim.

Recordações da Casa Amarela (1989), de João Cesar Monteiro
Pode até ser média com o amigo blogueiro de Portugal. Mas da trinca de grandes cineastas portugueses, Monteiro ainda ocupa lugar de destaque (Pedro Costa pode se igualar a ele, mas nunca se superar). Nenhum filme entre os que ficaram de fora superam este primeiro episódio das aventuras do iconoclasta (como o diretor) João de Deus, visto em uma sala minúscula de São Paulo, e nunca esquecido, permanecendo como a melhor obra a herdar a verve dadaísta de Luis Buñuel.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder
Outro que permanece no pódio, desde o início da cinefilia. Wilder tem outros tantos filmes sensacionais, mas nenhum me fez ficar sem poder andar por alguns minutos, preso, estatelado na poltrona da antiga cinemateca de Pinheiros, São Paulo. Lembro que ao final eu soltei um suspiro, que foi correspondido por um olhar de cumplicidade de um estranho que também havia se impressionado com o filme, e levantava, com dificuldades, na fileira da frente.

A Grande Ilusão (La Grande Illusion, 1937), de Jean Renoir
É óbvio, assim como seria escolher A Regra do Jogo, mas é inevitável. Renoir pode ter outros filmes igualmente soberbos (French Can Can, Une Partie de Campagne, O Rio Sagrado), mas a frase “ a natureza não tem fronteiras”, dita naquele momento, naquele contexto, é coisa de grandes.

Limite (1931), de Mário Peixoto
Chamar de poesia em imagens seria muito batido? Penso que sim. Mas não conheço outra tradução para o que é esse filme. Aquelas imagens parecem captadas por uma outra coisa que não uma câmera. Um olho marejado de lágrimas, talvez. Ou um olho de alguém que enxerga pela primeira vez.

Todas as semanas um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o terceiro homem

30.4.07

10 filmes da vida de...

... Nuno Pires, 24 anos, realizador, autor do blogue Dans la ville blanche.
Esta lista não pretende apresentar as minhas "obras primas do cinema", mas sim filmes que têm um valor especial para mim, pelo que representam ou representaram no meu percurso enquanto homem, realizador e cinéfilo.



Magnolia, de Paul Thomas Anderson
É o filme mais recente desta lista mas tenho de começar por ele. Magnolia foi a obra que despertou a minha vontade de fazer cinema, quando a vi, aos 18 anos. Se não tivesse visto este filme naquela altura, acredito que a minha vida teria sido outra. Anderson criou uma sinfonia sobre a humanidade como já não existem no cinema contemporâneo. Trágica, arrepiante, salvadora. "Save me", canta Aimee Mann na última cena... Também foi com este filme que descobri a obra da Aimee Mann, que continuo a acompanhar com admiração.

Sunrise, de Murnau
Depois do mais recente, o mais antigo. Nem são precisas palavras para justificar esta escolha. Sunrise é provavelmente a história de amor mais forte da história do cinema, forte pela simplicidade do seu argumento e pela complexidade da sua realização. Tive a oportunidade de o estudar durante alguns meses, criando assim uma relação muito íntima com esta obra.

Le Mépris, de Jean-Luc Godard, e Otto e Mezzo, de Federico Fellini
Duas declarações de amor ao cinema, dois filmes sobre a eterna solidão do cineasta e as dificuldades com que tem de lidar — dificuldades internas (mentais, psicológicas) e externas (nomeadamente perante a figura do produtor). Dois filmes que falam por mim, que falam de mim...

La Cérémonie, de Claude Chabrol
A obra mais conseguida de Chabrol, na minha opinião. Um filme que condensa os temas de eleição de realizador: a luta burguesia/proletariado, o ambivalência aparências/realidade, o crescimento do mal em meios fechados que são a aldeia e a família. Cada plano é uma lição de cinema na grande tradição hitchcockiana.

Rear Window, de Alfred Hitchcock
Falando dele, Hitchcock é sem dúvida um dos grandes mestres que admiro desde a infância. É quase impossível distinguir um filme na sua obra. O primeiro filme que me lembro de ter visto foi The Birds (é, aliás, o primeiro filme de que me lembro), mas penso que foi Rear Window que sempre me fascinou mais, pelo tema do voyeurismo, pelo James Stewart, pela Grace Kelly, por aquele cenário fechado no qual se desenrola tudo, da vida até à morte.

Dans la ville blanche, de Alain Tanner
Dans la ville blanche fazia parte do corpus de filmes da minha tese de Mestrado, que escrevi um ano antes de vir viver para Lisboa. Filme sobre a solidão, sobre a vontade de desaparecimento e o esquecimento de si próprio, mas também sobre cinema, influenciou em grande parte a minha mudança e o início da minha nova vida.

Sur la plage de Belfast, de Henri-François Imbert
Outro filme importante a nível pessoal, é este documentário de Henri-François Imbert. Neste filme, Imbert conta a sua investigação para entregar a um família desconhecida uma película Super 8 que ele descobriu numa câmara, numa feira de antiguidades. Partindo de um facto menor, Imbert constrói um poema. Um gesto de altruísmo, uma viagem de iniciação que despertou em mim o desejo de fazer documentários, fazendo-me perceber a força do real.

Chikamatsu monogatari, de Kenji Mizoguchi
João Bénard da Costa diz que este filme faz parte das cinco obras de arte mais belas de todos os tempos, e acho que concordo com ele. Vê-lo foi uma experiência transcendente, espiritual, absoluta.

Banshun, de Yasujiro Ozu
Acabo com o mais significativo para mim. Descobri o universo de Ozu há pouco tempo, mas tornou-se rapidamente o meu cineasta de eleição. É muito difícil destacar um único filme numa obra tão constante e consistente, mas este talvez seja o que mais encontrou eco no meu coração. Esta história, tão simples, de uma jovem mulher (a deslumbrante Setsuko Hara) que não quer casar para ficar a viver com o pai, é um magnífico exemplo da arte de Ozu na maneira de pintar o quotidiano. Um quotidiano muito específico da sociedade japonesa, mas que Ozu consegue tornar universal. Quando vejo um filme de Ozu, tenho quase a sensação de fazer parte daquela família, de conviver com aquelas personagens. Se pudesse entrar num filme de Ozu, não pensaria nem um segundo: saltava para dentro do ecrã.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Sérgio Alpendre

23.4.07

10 filmes da vida de...

...Cláudia aka Wasted Blues, 27 anos, jornalista, menina da rádio, cinéfila. É autora do blogue Wasted Blues. Uma lista afectiva e desordenada:



The Wizard of Oz, de Victor Fleming (1939)
O meu primeiro filme no cinema. Aquele a que eu volto de tempos a tempos porque tudo nele é feel good e deliciosamente kitsch. Porque às vezes tenho saudades de Oz.

Les Amants du Pont Neuf, de Leos Carax (1991)
Do realizador maldito Leos Carax. É um filme indefinível, com uma magia visual tanto inquietante como comovente. É a história de um amor surreal, um poema sobre o intangível de dois seres diferentes. E é tão inesperado e importante, quando somos surpreendidos por um final feliz.

Vivre Sa Vie, de Jean Luc Godard (1962)
Mudou a minha forma de ver e sentir o Cinema. Aquele rosto filmado como Dreyer filmou a sua Joana. A paixão, a filosofia que se faz sem saber, o silêncio que diz tudo, a certeza da palavra certa, o final abrupto... e aquele plano, quando Nana vê a condenação à morte de Joana, que é de uma beleza esmagadora. Tudo aqui é tragicamente perfeito.

Vertigo, de Alfred Hitchcock (1958)
Tinha de escolher um Hitchcock. Mas é muito complicado escolher apenas um. Onde está Vertigo, podia estar Rear Window ou Notorious. Mas escolho essa obra sobre um homem fascinado por uma mulher perdida entre o presente e o passado. Um filme de vertigens, obsessão e onírico.

Splendor in the Grass, de Elia Kazan (1961)
É um filme belo, intenso, inebriante, frontal, sem receios. O poema de William Wordsworth, que lhe serve de inspiração, diz tudo. Há um antes e um depois. Neste caso, o amor entre Deanie e Bud. Neste caso também, a vida... porque nada será como antes.

City Lights, de Charlie Chaplin (1931)
Foi o bater de pé de Chaplin ao cinema sonoro. Quando todos se rendiam ao som, o vagabundo selou os lábios e deu-nos um dos seus mais belos filmes.

Persona, de Ingmar Bergman (1966)
Outro filme que mudou a minha forma de ver o Cinema. Arrepiei-me quando vi dois rostos tornarem-se num só. Filme sobre as nossas máscaras, sobre o que somos e o que representamos.

Rio Bravo, de Howard Hawks (1959)
A obra que me apresentou os Westerns. E pensar que esta obra-prima surgiu por despeito. Hawks e Wayne odiaram High Noon, de Fred Zinnemann, e 8 anos depois deram-nos Rio Bravo. Se High Noon é a luta de um homem só, Rio Bravo é o elogio ao companheirismo e cumplicidade.

Manhattan, de Woody Allen (1979)
Seriam suficientes os primeiros minutos para incluir Manhattan em qualquer lista. A suprema declaração de amor de Woody à sua cidade, num magistroso preto e branco, ao som dos acordes de Rhapsody in Blue, de George Gershwin. Inesquecível.

Sunset Boulevard, de Billy Wilder (1950)
Filme de fantasmas, vivos e mortos. Filme sobre o Cinema e uma época em que as suas estrelas eram consideradas deuses. Sunset Boulevard, Mulholland Drive, INLAND EMPIRE… estranhos mundos oníricos e negros na Cidade dos Sonhos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Nuno Pires

16.4.07

10 filmes da vida de...

...Tiago Ribeiro (aka Peeping Tom), 28 anos, autor do blogue Mil e tal Filmes para ver antes que apanhe a Peste. Lista com uma ordem indefinida:



Raging Bull, de Martin Scorsese
Scorsese encarou "Raging Bull" como o "tudo ou nada" na sua carreira, possível obra derradeira depois do esmagador insucesso de "New York, NewYork", e o que daí resultou foi uma vertigem de auto-destruição como raramente se viu no cinema. Formalmente espantoso, De Niro no papel da sua vida, "Raging Bull" é uma sinfonia de som e imagem à beira da implosão.

Close-Up, de Abbas Kiarostami
Pensava que depois de ter visto "Taste of Cherry", nada mais na obra deKiarostami me poderia espantar tanto. "Close-Up" é uma incisiva reflexão sobre o poder transcendental do cinema, um melodrama existencial, uma hipnotizante lição sobre a dignidade humana. Jogando sobre as variantes de"falso" e "verdadeiro", Abbas, em vez de nos confundir, apenas nos imerge ainda mais na estória. Os últimos minutos são antológicos, mais comoventes que 200 "tearjekers".

M, de Fritz Lang
Filme actualíssimo, por mais anos que passem. É só comparar a trama de "M"com as imagens das multidões histéricas à saída dos tribunais, presentes nos telejornais, para vermos que o filme seminal de Lang não ganhou uma única ruga. Peter Lorre, com os seus olhos de boneco animado, parece ainda estarno cinema mudo, mas com apenas três anos de sonoro, Fritz já estava noutro patamar de excelência técnica do que os seus colegas americanos. Todo o julgamento na cave é memorável, indicador preciso da nojenta hipocrisia dasmassas humanas. Genial.

Psycho, de Alfred Hitchcock
"The..the...bathroom". A hesitação de Norman Bates é a antevisão do horror que aí vem. Alusões sexuais, a solidão, o oportunismo, a culpa: é Hitch "allthe way", combinado com uma mestria técnica inultrapassável, ou como uma sucessão de planos aparentemente anódinos de um sabonete e de água a sair de um chuveiro podem instaurar imediatamente o campo da ameaça. Alfred realizouum dos mais profundos estudos da natureza humana, e o mais perverso de tudo, é que o fez sob a capa de filme "de género", atraindo um enorme sucesso de bilheteira.

Hana-Bi, de Takeshi Kitano
Num momento, vemos Beat Takeshi, calmo e contemplativo, a beber um copo; no segundo seguinte, está ele a espetar um pauzinho no olho de um bandido. Estas bruscas mudanças de tom são uma das marcas mais identificativas de Kitano, a par de um humor absurdo. Em "Hana-Bi", o nipónico acrescentaria um notável lirismo à sua gama de recursos, sobretudo utilizado nas melancólicas cenas com a sua mulher (a magnífica banda sonora de Joe Hisaishi também tem muito a ver com isto). A reter: uma sequência em slow motion, e uma sucessãode planos de figuras pictóricas, excertos brilhantes de uma obra maior.

Night Of The Hunter, de Charles Laughton
Filme mítico, de culto, singular até ao tutano. Obra única do grande actor Charles Laughton, negra fábula sobre a infância acossada pela ganância dos adultos, "Night of The Hunter" é um prodígio experimental, sem nunca abandonar a âncora narrativa. Lembro-me, sobretudo, de uma sessão religiosa trabalhada sobre moldes expressionistas, mais parecendo estarmos a ver um comício no Inferno. Robert Mitchum, maquiavélico e delicioso na sua falsa candura, e Lilian Gish como a "avózinha" resistente: não há por onde dizer mal deste filme.

Great Dictator, de Charles Chaplin
Se Nanni Moretti afirmou que não era sua intenção ridicularizar Berlusconi,Chaplin não faz outra coisa senão isso em relação a Adolph Hitler. Aquele discurso inicial, paródia cacofónica do imperialismo dos discursos do Fuhrer, é ainda mais político do que o exuberante final, momento em que ofilme se desprende de si próprio, e só vemos o cidadão Chaplin como mensageiro humanista. Momento antológico sobre momento antológico, "Great Dictator" introduz o sonoro na filmografia de Charles, e significa também aprimeira pedra no longo caminho que daria ao seu exílio de terras americanas. Nunca mais se viu igual.

Triumph Des Willens, de Leni Riefenstahl
Antes da ridicularização, a apologia. Ou não? Se a cineasta alemã sempre desmentiu a convergência com as ideias nazis, "Triumph Des Willens" parece,à primeira vista, não lhe dar razão. "Apenas uma questão estética", disse ela, e é assim que eu olho para este magnífico filme, endeusamento de pessoas não tanto por aquilo que dizem, mas mais como o dizem. E se nunca se colocou em questão, pelo menos de forma tão veemente, a propaganda comunista nos filmes de Eisenstein, porquê desprezar por completo a suposta propaganda Nazi de "...Willens", mesmo tão fabulosamente trabalhada? Já lá vão mais desetenta anos, altura mais do que suficiente para uma maior distanciação.

Playtime, de Jacques Tati
O mundo é uma comédia, diz-nos" Playtime". Visão crítica mas felizmente não demagógica sobre o caos urbano e a impessoalidade que daí advém, aobra-prima de Tati é um filme conceptual como raramente houve e haverá. Antes do final carnavalesco, a irrisão terá o seu cume numa inacreditável longa sequência num restaurante, louco "tour de force" a propósito doprovincianismo de uma certa burguesia. Foi feito há quarenta anos, mas tem o look de amanhã. A ver, pelo menos, 10 vezes por ano.

Recordações da Casa Amarela, de João César Monteiro
Começa num magistral travelling pela zona ribeirinha de Lisboa, e termina com um Nosferatu renascido nos esgotos da capital. Monteiro começava a "dar-nos trabalho" com a sua primeira encarnação de João de Deus, dandy iconoclasta, amante de pintelhos e de boa comida, cujo sonho é "marchar sobre São Bento!". Acessível como não seriam os outros dois tomos da trilogia, "Recordações da Casa Amarela" presenteia-nos com uma Lisboa picaresca, alterna brejeirice do povo com a celestialidade de Holderlin, espeta-nos com o bacalhau de Quim Barreiros e as sinfonias de Mozart. Quanto a mim, o melhor filme português de todos os tempos.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. A próxima convidada é a Cláudia (Wasted Blues).

9.4.07

10 filmes da vida de...

...Paulo Ferrero, 43 anos, licenciado em economia, viciado em cinema. É autor do blogue Cine-Australopitecus.



1. 2001-Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick
Um filme soberbo e profundamente actual, quer na técnica cinematográfica, quer no enredo, com base em Arthur C.Clarke. O filme da minha vida, visto no écran mágico do Tivoli, depois da cortina azul se abrir. Kubrick, sempre.

2. Blade Runner, de Ridley Scott
Bastaria a frase «if only you could see what I've seen with your eyes» para que fosse um dos meus preferidos. É o melhor Ridley Scott e Vangelis fez o resto. Mas atenção: sou fã da versão oficial, com narrador.

3. Excalibur, de John Boorman
O melhor filme feito sobre a lenda de Artur, e a despedida do Monumental, acompanhada por Wagner. Podia ter sido melhor? Não.

4. Brazil, de Terry Gilliam
Desparafusada parábola sobre a sociedade dos nossos dias, hiper-burocratizada e tele-comandada, onde uma mosca caída sobre uma máquina-de-escrever funciona como um grão de areia na engrenagem. Todos nós devíamos ter algo do sonhador Sam Lowry. Música espantosa de Ary Barroso.

5. Citizen Kane, de Orson Welles
O mais perfeito dos filmes, não tanto enquanto argumento mas enquanto realização. Welles mais egocêntrico e soberbo que nunca. Rosebud estará sempre em nós, por mais que nos esforcemos por fazer de conta.

6. Faust, de F.W. Murnau
Goethe teria adorado ver que o cinema de Murnau é arte maior. O expressionismo em quintessência, num jogo de sombras e assombrações não apenas do Mudo mas do séc.XX. Assombroso.

7. Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola
"O" filme sobre o Vietnam. E um Brando omnipresente apesar de só aparecer poucos minutos. Coppola em grande forma nesta sua extraganza inesquecível.

8. Metropolis, de Fritz Lang
A geometria e a lente de Lang, juntamente com o argumento futurista de Thea. Um filme que deve ser visto de tempos a tempos, para recordar.

9.Ivã, O Terrível, de Sergei Eisenstein
O melhor de Eisenstein, o que quer dizer o melhor da estética, da montagem e do que é genuinamente russo. Tem alguns planos imortais, e um Cherkasov impressionante.

10. Branca de Neve e os Sete Anões, produzido por Walt Disney
A quintessência do desenho animado, o melhor de Disney, a pureza das imagens, da história e das personagens. O triunfo da cor.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Peeping Tom.

2.4.07

10 filmes da vida de...

...Hugo Alves, 25 anos, jurista por formação, advogado de profissão, a fazer um Mestrado em Direito. Leitor compulsivo e cinéfilo inveterado, é o autor do muito cinéfilo - e combativo - blogue Amarcord.



Otto e Mezzo, de Federico Fellini
É o filme máximo, homenagem ao Cinema, viagem ao Universo de Fellini (restando saber se é um retrato honesto ou artificial), mas, principalmente, é o abraçar sôfrego da vida tal como ela é: desde o mais abjecto ao mais belo, onde tudo está envolto num tom onírico e onde a banda sonora de Nino Rota é o complemento perfeito das imagens do outro mágico: Fellini.

Le Samouraï, de Jean-Pierre Melville
Mais do que um filme de gangsters, Melville usa de toda a sua arte para nos dar um retrato abstracto e depurado da imensidão do espaço urbano e da solidão na selva de betão. Jeff Costello, o Samouraï, é, de certo modo, uma espécie de retrato do isolamento de todos nós na selva urbana.

La maman et la putain, de Jean Eustache
O filme em que Eustache traça o retrato das gerações pós-Maio de 1968 e, simultaneamente, exploras as fronteiras e limites das relações amorosas. isto enquanto perscruta a miríade de variações que uma simples palavra pode ter. Desde o palavrão ao mais requintado e erudito adjectivo.

Rocco e i suoi fratelli, de Luchino Visconti
Visconti regressa, formalmente, ao terreno de formação, mas fá-lo num tom de tragédia operática onde os 4 irmãos de Rocco se vão passeando por Milão, algures entre a crença no futuro próspero da vida na grande urbe e o sentimento telúrico, o chamamento da terra e o desenraizamento que domina alguns deles. Para além do mais, dificilmente se esquece o abraço à morte de Nadia ou o passeio desencantado de Luca, ao som de Bello paese mio¸ enquanto acaricia os cartazes onde está estampado o rosto do seu irmão Rocco.

Pierrot le fou, de Jean Luc Godard
Aqui temos a síntese de todo o Godard, desde o ll faut vivre dangereusement de À bout de souffle, passando pela declaração de amor a Karinna de Le mépris. Mas há, também, o constante jogo de citações, a homenagem ao cinema e, também, uma das mais trágicas histórias de amor, pautada pela inesquecível banda sonora de Antoine Duhamel. Em Pierrot le fou, o simples acto de existir dói. E isso é de uma beleza trágica, mas sublime.

Bitter Victory, de Nicholas Ray
É o filme onde a emoção, desde o primeiro ao último frame, impera, colocando, através do “duelo” entre Leith e Brand, a cobardia em exame. Mais do que um filme de guerra, Bitter Victory, é um pequeno tratado sobre alguns dos traço negativos da humanidade. Ademais, tem um dos momentos mais sublimes de Cinema que conheço: aquele em que Leith é engolido por uma tempestade no deserto bradando I always contradict myself.

Sansho Dayu, de Kenji Mizoguchi
Aqui Mizoguchi oferece-nos uma fábula sobre a redenção e um tratado sobre a compaixão. Pelo próximo, pelos semelhantes. Por todos. É um filme permeado de elipses, sendo a mais bela e pertubora aquela em que nos apercebemos do suicídio da irmã de Zushio que, chorando, desloca-se lentamente para um lago. Coloca umas pedras nos bolsos e, quando a câmara regressa, só vemos o leve balançar das águas. Este é o filme onde todos os homens são espectros que só ganham corpo quando Zushio, já redimido, os liberta. Pura poesia e humanismo, em estado puros.

Baisers Volés, de François Truffaut
Resulta difícil escolher um filme do ciclo Doinel (este é o primeiro que vi…). Em Baisers volés, tal como na música de Trenet, somos dominados pelo tom agridoce e levemente surreal em que os amores de Antoine e Christine se deixam enlear, contagiando-nos, fazendo-nos sonhar e, claro, perguntar Que reste-t-il de nos amours?

Lawrence of Arabia, de David Lean
Ver o contraste entre a imensidão do deserto, o extenso areal que tudo rodeia e engole, e o rosto transido de El Aurens, fitando o horizonte distante nos deixam boquiabertos e sem palavras, tal como a sua obstinação e o constante quebrar de regras. É um filme sobre um sonho e sobre a sua realização (tal como, em certa, medida Fitzcarraldo, de Werner Herzog, um dos meus outros filmes preferidos).

Zorba the Greek, de Michael Cacoyannis
Um belo retrato da amizade e do amor, que me fez redescobrir a aplicação pura do super-homem de Nietzsche, mas, também, me deu a conhecer o universo de um escritor extraordinário: Nikos Kazantzakis. Acresce ainda que a dança final é absolutamente inesquecível, tal como o é a interpretação de Anthony Quinn e as várias peripécias que Zorba desencadeia por Creta.

Concluo lembrando que esta é uma lista afectiva. Idolatro autores como Ozu, Bergman, Antonioni ou Bresson. Mas esta é a lista, passe a expressão, do coração e não da razão.

Todas as semanas um blogger cinéfilo falará aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é Paulo Ferrero.